Agricultura, cooperativas e multinacionais

Odacir Luiz Coradini · Capítulo 23 de 43

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Agricultura, cooperativas e multinacionais

1.2 Primeira empresa alimentícia brasileira

75% se destinam ao mercado interno e 25% à exportação. 4

Em 1958, a Nestlé entrou no ramo de chocolates, através da aquisição de uma fábrica paulista e, em 1962, iniciou a produção de caldos, sopas desidratadas e condimentos. O passo seguinte foi a compra de uma fábrica de biscoitos em 1967, e sua consequente entrada nesse mercado. Em 1971, expandiu-se para a área de congelados (peixes e camarões), graças a incentivos fiscais concedidos pela Sudepe. No ano seguinte, lançou-se no mercado de sorvetes do Rio de Janeiro e de São Paulo, e começou também a produzir iogurtes, leites gelificados e sobremesas lácteas. Foi durante a década de 1970 que a empresa escolheu realmente o

caminho da diversificação. 5 Depois dos peixes congelados, dos sorvetes e dos iogurtes, também começou a produzir alimentos infantis preparados e entrou no ramo das águas minerais. Numa entrevista ao Jornal do Brasil, o diretor-geral da filial brasileira do grupo declarou mesmo estar pensando no “ingresso da companhia na área da soja, através de joint-venture com uma empresa já

operando no país nesse setor”. 6 Além disso, a empresa prepara hoje o lançamento de chás instantâneos e sucos de frutas congelados.

Vê-se que o grupo suíço tem penetrado em novos setores por duas vias diferentes: tanto pela incorporação de fábricas existentes, que já dispõem de uma infraestrutura produtiva montada e de um determinado mercado consumidor, quanto pela montagem de novas indústrias, aplicando nelas o know-how adquirido em outras partes do mundo. É importante também notar que a empresa não esclarece os consumidores sobre a importância exata da produção que controla, provavelmente para não realçá-la: os consumidores brasileiros não suspeitam que produtos tão diversos quanto água mineral, peixes congelados, sopa de preparo instantâneo, tempero para carnes e sorvetes são produzidos por uma mesma empresa.

 

1.2 Primeira empresa alimentícia brasileira A Nestlé, que começou aqui com uma fábrica, em 1921, já tinha, em 1976, 16 fábricas funcionando em São Paulo, no Rio de Janeiro, em Minas Gerais e no Rio Grande do Sul, empregando mais de 7 mil pessoas. Dessas 16 fábricas, oito produzem laticínios e dependem do fornecimento de produtores de leite de suas regiões de implantação (ver Quadro 1).

Ultimamente, a empresa está-se expandindo territorialmente, penetrando em regiões menos industrializadas, deixando-se influenciar pelos promissores incentivos fiscais governamentais. Na área da Sudene, por exemplo, implantou recentemente uma fábrica destinada à produção de leite em pó e semi-industrializados de cacau. Em fase de elaboração, existe também um projeto, dependendo da Sudam, para a implantação de uma fábrica de leite em pó no município de São Miguel do Guamá (Pará). Trata-se de regiões tradicionalmente não-leiteiras, onde a empresa deverá criar novas bacias desse produto.

Do ponto de vista de sua organização técnica, essas fábricas assumiram um caráter cada vez mais polivalente: não se restringem mais à produção de um tipo de derivado de uma matéria-prima específica. Elas associam a transformação de vários subprodutos criados durante um mesmo processo produtivo, ou, então, a transformação de várias matérias-primas diferentes.

Quanto a informações sobre a evolução do capital da filial brasileira da Nestlé, os dados do Quem é quem na economia brasileira, de 1977, dão-nos certa ideia de seu crescimento. Seu patrimônio líquido, indicado pelos balanços relativos ao período de 1970 a 1976, teve um crescimento anual de mais de 10%. Não se deve esquecer, no entanto, que se trata aqui da empresa “em sentido estrito”, representada unicamente pela Companhia Industrial e

Comercial Brasileira de Produtos Alimentares (Cicobra)7 e que são os números que ela mesma tem declarado oficialmente.

Fonte: Guia Intervest 1975-76, completado.

 

As linhas cheias indicam uma participação majoritária; as

pontilhadas, uma participação minoritária. Ver também o Quadro 5.

 

Quanto ao faturamento total da Cicobra e ao seu lucro líquido, ambos conheceram um crescimento constante. Notamos uma diferença entre o lucro líquido e o aumento patrimonial anual. Essa diferença deve corresponder às remessas para o exterior, declaradas pela empresa.

Quadro 2:

Cicobra: Patrimônio líquido, faturamento e lucro líquido 8 (1970-

76)

 

Ano Patrimônio líquido Faturamento Lucro

deflacionado deflacionado líquido

deflacionado

 

Valor Crescimento Valor Crescimento (Cr$

(Cr$ anual (%) (Cr$ anual (%) 1000,00)

1000,00) 1000,00)

 

1970 162,8 – 556,9 – 29,1

 

1971 174,9 10,7 616,7 11,1 46,1

 

1972 192,0 10,9 782,6 12,6 45,5

 

1973 249,7 13,0 913,5 11,7 67,9

 

1974 251,7 10,0 1063,8 11,6 85,1

 

1975 274,3 10,1 1222,6 11,5 83,8

 

1976 315,6 11,5 1276,5 10,4 134,1

 

Média – 11,0 – 11,5 –

Fonte: Elaboração da autora, a partir de Quem é quem, na

economia brasileira, 1971, 1972 e 1977, e Brasil industrial, 1977-78.

Deflator: Coluna 2, Conjuntura Econômica, julho de 1978, FGV.

Um último dado que encontramos no Quem é quem na economia brasileira é o que indica a rentabilidade da empresa. Notamos que essa rentabilidade vem crescendo de maneira regular, ilustrando o lucrativo desempenho da Cicobra: quase duplicou em quatro anos, chegando a 30,5% em 1975. Como dado comparativo, podemos lembrar que a rentabilidade média das empresas alimentícias relatadas no Quem é quem de 1977 é de 21,7%, sendo que se trata aqui somente de sociedades anônimas com capital registrado de mais de 1 milhão de dólares. Quanto às outras subsidiárias brasileiras do grupo, algumas têm uma rentabilidade maior ainda. A declarada pela Chambourcy, por exemplo, no mesmo ano, é de 59,5%.

Os índices de desempenho da Nestlé no Brasil contrastam não somente com a média nacional do setor alimentício, mas são também superiores às médias apresentadas pelo conjunto das empresas do mesmo grupo no mundo inteiro.

Quadro 3: Cicobra: Rentabilidade (1972-76) 9

Ano Rentabilidade 1972 16,6

1973 21,2

1974 28,2

1975 30,5

1976 30,3

Fonte: Quem é quem na economia brasileira, 1977.

Quadro 4: Desempenho da Nestlé no Brasil e no mundo (1978)

Brasil Grupo

Crescimento de vendas 22,0% -2,7% Rentabilidade do patrimônio 23,0% 18,1% Rentabilidade das vendas 4,2% 3,7% Liquidez 1,3% 1,4% Capitalização 53,0% 48,4%

Fonte: Exame, 26 de setembro de 1979.

Em todas as classificações que foram feitas das empresas alimentícias que operam no Brasil, a Nestlé ocupa o primeiro lugar. Tanto no que diz respeito ao tamanho de seu patrimônio líquido (84 milhões de dólares em 1977) quanto ao capital registrado no Banco do Brasil (66,6 milhões de dólares em 1975), encontramos a referida empresa bem à frente de seus concorrentes estrangeiros e nacionais. Essa posição se evidencia no mercado nacional de produtos alimentícios: em todos os ramos em que o grupo penetrou, desempenha a função de forte oligopólio, ou mesmo, de controle monopólico absoluto.

Em 1979, a Nestlé controlava, no setor de laticínios, 75% do mercado de leite em pó, quase 100% do mercado de leite modificado para uso infantil, 95% do de creme de leite esterilizado e de leite condensado e 25% do de iogurte. Quanto aos outros produtos alimentícios, sua participação era a seguinte: café solúvel, 85%; alimentos infantis, 65%; bebidas achocolatadas, 64%; sopas, 54%; caldos, 38%; chocolates, 30%; farinhas, 25%; sorvetes, 20%;

água mineral, 20%; biscoitos, 5%.10

Para se ter, porém, uma ideia do poder de uma empresa desse tipo no Brasil, não bastam números, tais como o crescimento do capital ou a participação da empresa no mercado. Existem aspectos qualitativos que não se podem esquecer, um dos mais importantes dos quais, sem dúvida, é a relação da empresa com o Estado. Nesse contexto, é preciso mencionar, por exemplo, suas tentativas