Agricultura, cooperativas e multinacionais
1.3 Estrutura financeira do grupo suíço no Brasil
de se beneficiar de incentivos fiscais 11 e sua penetração na burocracia de padronização que dita as normas para a produção de alimentos no Brasil.
Dependendo do Ministério da Saúde, a Comissão Nacional de Normas e Padrões para Alimentos (CNNPA) é constituída por representantes do setor público e do setor privado. Entre os três representantes do último, um membro é indicado pela Associação Brasileira de Indústrias de Alimentos (AMA), associação que agrupa os grandes oligopólios da área da alimentação. Na época a que se refere esta pesquisa (a década de 1970), o representante da ABIA na CNNPA era um alto funcionário da Nestlé brasileira. É inútil enfatizar o uso que pode ser feito desse cargo para favorecer, de maneira indireta, os interesses da empresa.
Dependendo da CNNPA, foram criadas subcomissões para padronizar a produção dos diversos ramos da indústria alimentícia. Na subcomissão encarregada dos laticínios, encontrávamos, mais uma vez, um representante da empresa suíça.
1.3 Estrutura financeira do grupo suíço no Brasil
Nada mais difícil do que descrever a estrutura de uma empresa transnacional do tamanho da Nestlé. No organograma das pp. 112-113, pode-se ver que a empresa se compõe de dois holdings, um suíço e um panamenho, este último tratando dos investimentos na América Latina e na Ásia. Esses dois holdings controlam 14 companhias financeiras que operam no Brasil, das quais 13 a 100% e uma com urna participação acionária importante (a Gesparai, com 49%).
Essas companhias controlam uma série de empresas, várias das quais não se ligam diretamente à produção alimentícia. A primeira é a Bob’s Comestíveis, com controle acionário de 100% da Libby, McNeill & Libby, controlada, por sua vez, pelo grupo suíço. Trata-se de uma cadeia de restaurantes e lanchonetes espalhados pelas grandes cidades brasileiras, e parece ser a única entrada da empresa no campo dos restaurantes.
A segunda empresa não-alimentícia associada ao grupo estudado é a Gebr. Sulzer A.G., segunda empresa suíça de fabricação de equipamentos pesados em geral. Entre suas subsidiárias no mundo inteiro, há quatro no Brasil, uma das quais controlada por um dos mais importantes complexos europeus no setor da metalurgia e da construção mecânica: o grupo Schneider de Paris. Das restantes, duas têm participação acionária da Nestlé a 50%: a Sulzer do Brasil S.A. Indústria e Comércio e a Sulzer Weise S.A. Indústria e Comércio de Bombas Hidráulicas.
A terceira empresa não-alimentícia em que o grupo estudado tem participação no Brasil é a Ciba-Geigy, segunda empresa suíça em termos de vendas (logo depois da Nestlé) e maior grupo químico daquele país. Tem três filiais no Brasil, com uma participação minoritária da Nestlé (11,5%) na mais importante, a Ciba-Geigy Química S.A.
Através do grupo francês de cosméticos e perfumes L’Oréal, a Nestlé participa, também, do controle da Procosa — Produtos Cosméticos, sétima firma brasileira de perfumaria em 1977.
Encontramos também a Nestlé, a Ciba-Geigy, a Gebr. Sulzer e o banco ligado a essas empresas, o Handelsbank Zurich, na “Adela Investment Company”, poderoso holding de investimentos internacionais, cujas ações são distribuídas entre mais de 200 firmas industriais, bancos e instituições financeiras do mundo inteiro. Esse holding tem inúmeras participações no Brasil, em empresas que vão desde assessoria financeira até a produção de porcelana, passando por computadores, frigoríficos, indústrias químicas, containers, papel, seguros, avicultura, restaurantes, mineração, safaritours etc.
A estratégia da Nestlé no Brasil se encaminha para uma
diversificação e uma concentração cada vez maior. Sua participação
em empresas não-alimentícias é recente e data principalmente da
década de 1970. Ao contrário do que afirma em sua propaganda, a
empresa deixou de ter uma produção “exclusivamente alimentícia”,
para entrar em ramos novos e prometedores, seguindo sempre o
caminho do lucro.
Sua tendência à diversificação, tanto dentro do setor da produção alimentícia quanto fora dele, foi acompanhada pela redução constante da importância dos laticínios em sua pauta de produtos (a participação dos leites em pó, por exemplo, representava, em 1974, 67% do faturamento da empresa; em 1976, esta proporção havia diminuído para 56%, e, em 1979, para 52%).