Agricultura, cooperativas e multinacionais

Odacir Luiz Coradini · Capítulo 28 de 43

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Agricultura, cooperativas e multinacionais

2.3 Capital transnacional e produção agropecuária

A indústria de transformação, no entanto, não pode ser considerada como um setor autônomo, beneficiário exclusivo da captação do excedente agrícola. Num sistema de economia concorrencial, o alcance de um lucro particularmente alto atrairia novas empresas para esse setor, o que automaticamente faria declinar a taxa de lucro.

O excedente agrícola somente poderá ser realizado pela indústria de transformação se esta possuir um controle monopólico de seu mercado, caso em que o sobrelucro poderá ser muito importante. Mas, nesse caso, ainda deverá resistir às pressões das classes dominantes, em sua luta pelo controle dos preços alimentícios. Este permite uma reprodução mais barata da força de trabalho e uma transferência do excedente agrícola para o resto da economia (Hairy, 1973), o que beneficia, em última instância, o capital em seu conjunto.

Que caminhos restaram ao grande capital concentrado para obter um sobrelucro na esfera alimentícia? Depois de seus esforços para conseguir o controle monopólico dos mercados de alimentos industrializados de grande difusão, começou a expandir-se em áreas novas, menos controladas pelo poder público. Passou a produzir alimentos sofisticados, de forte valor agregado, destinados prioritariamente às camadas de maior poder_ aquisitivo. Essa introdução e difusão crescente de alimentos “rentáveis” no mercado, além das mencionadas mudanças no padrão nutricional popular, leva, também, a um encarecimento gradual da alimentação no Brasil. Isso sem contar com os altos custos de marketing, publicidade, embrulhos sofisticados e atraentes etc., aos quais as grandes empresas alimentícias recorrem sistematicamente.

 

2.3 Capital transnacional e produção

agropecuária

Os aspectos que garantiram a sobrevivência da pequena exploração familiar dentro de formações sociais predominantemente capitalistas são os mesmos que tornaram a produção direta pouco atraente para o grande capital transnacional: a especificidade do processo de trabalho agrícola, a concorrência com explorações familiares que não dependem do alcance de lucros e a necessária imobilização de um capital destinado à compra da terra. Todos esses aspectos restringiram a participação direta do capital transnacional na agricultura.

O setor de produção de leite, por exemplo, é particularmente adaptado a um esquema produtivo de pequenas unidades. A constituição de grandes estabelecimentos cooperativos ou estatais, na URSS e nos países de sua influência, levou-os a fracassos, tanto do ponto de vista técnico quanto financeiro: o tamanho “ideal” de uma exploração leiteira corresponde ao número máximo de animais de que um produtor pode cuidar (com eventual ajuda, para certos trabalhos periódicos). Ultrapassando esse limite, funcionará como simples justaposição de processos de trabalho individuais. Estudos específicos demonstraram que, nesse caso, a produtividade por animal não apresenta melhorias ou até mesmo diminui, o que não justifica investimentos suplementares para conseguir ganhos de escala (Servolin, 1979).

O fato de não se dedicar à produção agropecuária direta permite também escapar aos riscos dessa atividade tão aleatória. O leite, por exemplo, apresenta uma produção muito irregular (excesso na época de chuvas, falta na entressafra). As empresas compradoras, motivadas por causas financeiras, podem decidir uma redução de seus estoques de laticínios durante a época de safra, e recusar-se a comprar leite de seus fornecedores: nesse caso, são estes que assumem o risco de sua produção e têm de arcar com os problemas enfrentados pelas empresas transformadoras no mercado.

Uma outra razão para não entrar na produção agropecuária propriamente dita já foi citada anteriormente: a compra de matéria-prima “barata”, quando reforçada por uma posição de monopólio, pode garantir às empresas transformadoras a realização do

excedente proveniente da agricultura.2