Agricultura, cooperativas e multinacionais

Odacir Luiz Coradini · Capítulo 25 de 43

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Agricultura, cooperativas e multinacionais

1.4 A Nestlé no setor de derivados leiteiros

Já se mencionou, na Introdução, a importância fundamental da empresa suíça na organização do setor leiteiro brasileiro: ela tem um poder de controle sobre vastos aspectos desse setor, conseguindo influenciá-lo como um todo, em função de suas próprias necessidades de acumulação.

Primeiro, a Nestlé desenvolveu uma complexa rede de relações com seus fornecedores, a maioria dos quais pequenos e médios produtores familiares, que utilizam técnicas de produção tradicionais. Estes, apesar de proprietários de seus meios de produção, foram subordinados à empresa de várias maneiras. Atualmente, encontram-se numa situação de acentuada dependência, não tendo conseguido impor-se frente à firma compradora como um interlocutor organizado. É o que veremos, de maneira mais detalhada, no capítulo seguinte.

Foi mencionado, também, o domínio da empresa no setor da indústria de derivados leiteiros.

Qual é a evolução recente desse setor como um todo? Trata-se, claramente, de um setor muito concentrado: segundo o Censo de 1970, os 19 maiores, estabelecimentos são responsáveis por 57%

do valor da produção e 67% do valor da transformação industrial.12

Quanto à evolução do setor durante os últimos anos, existem algumas indicações de uma forte tendência à concentração: o número de fábricas de laticínios inspecionadas pelo Ministério da Agricultura, por exemplo, diminuiu, entre 1970 e 1977, em 21%. De outro lado, entre os investimentos do setor de laticínios beneficiados por incentivos fiscais do Conselho de Desenvolvimento Industrial (cm) entre 1969 e 1975,62% do valor dos investimentos foram feitos

por apenas cinco empresas.13

Há um rápido processo de aquisição de pequenas empresas de laticínios pelas grandes, que tentam, assim, reagir contra o déficit que apresenta seu suprimento de leite cru. As pequenas, por sua vez, estão enfrentando sérios problemas, causados pelas exigências sanitárias do Serviço de Inspeção Federal e pelas medidas fiscais que dificultaram a estocagem de matéria-prima durante a época de safra.

Nesse quadro de uma concentração cada vez maior do setor, a posição predominante da Nestlé se afirmou há mais de meio século. Sua participação no setor de produção e de transformação do leite lhe permite controlar o destino de importante parte da produção nacional.

Em lugar de contribuir para a solução dos problemas criados pelo déficit de abastecimento leiteiro nas metrópoles, o grupo transnacional está tornando-os cada vez mais críticos. Diversificando sua produção e destinando-a a camadas limitadas da população, está desviando uma parte considerável da produção nacional de leite para a industrialização, de derivados sofisticados e supérfluos.

Nos momentos mais críticos do abastecimento, o Ministério da Agricultura tenta compensar a escassez de leite fluido dos grandes centros consumidores, recorrendo à importação de leite em pó. Essas importações podem ser procedentes da matriz ou de outras filiais da Nestlé.

A empresa, responsável, em parte, pela escassez do leite in natura no Brasil, sempre negou energicamente tais fatos, alegando não ter

fábricas nos países que exportam leite para o Brasil. 14

Contudo, encontram-se quatro fábricas da Nestlé numa lista oficial de empresas argentinas creditadas para exportar leite em pó para o

Brasil.15 Os outros países de onde o leite em pó está sendo importado são a Nova Zelândia, a Polônia, a Irlanda e os países do Mercado Comum Europeu. A empresa tem fábricas de laticínios na maioria dos países da Comunidade Econômica Europeia e na Nova Zelândia. Está também presente na Irlanda, mas não parece

dedicar-se, ali, à produção de leite em pó.16

A insistência da empresa em negar totalmente sua presença nesses países só pode ser uma indicação de que não quer que sejam aprofundadas as relações comerciais entre suas filiais.

O Jornal do Brasil de 5 de junho de 1973 afirmou, com base em informações oficiais, que a quota de importações de leite em pó da Nestlé poderia chegar a 4 mil toneladas, ou seja, a 7% das importações totais efetuadas naquele ano. Pode ser útil acrescentar aqui que o preço do quilo do leite em pó vendido pela empresa no mercado interno é bem mais alto que o preço do leite em pó no mercado internacional.

É típico o desvio, já mencionado, de grande parte do leite produzido no país, para a produção de derivados sofisticados, “mágicos”, dirigidos à “nova mulher brasileira”. Para disseminar esses produtos, a empresa teve de investir maciçamente em publicidade. A esse respeito, convém citar a opinião do Diretor Comercial da Cicobra sobre a venda de café solúvel (que vale, também, para os laticínios mencionados aqui): “Vender [Nescafé] é marketing puro; devemos

criar o hábito do solúvel nos lares brasileiros”.17

 

1 As informações gerais sobre a atuação da empresa no mundo e no Brasil foram recolhidas das seguintes fontes principais: Arbeitsgruppe Dritte Welt Bern, 1976; Nestlé, 1975; Iffiand e Stettler, 1973; Entreprise, 5 de junho de 1971; Exame, março de 1971; Fortune, 13 de fevereiro de 1978; Exame, 26 de setembro de 1979.

2 As principais empresas incorporadas foram as seguintes:

1905: Anglo-Swiss Condensed Milk Company 1929: Peter, Callier, Kohler Chocolats Suisses

1947: Maggi Alimentana (Suíça; produção de sopas)

1951: Lamont Corliss (EUA; chocolates)

1960: Crosse e Blackwell (Grã-Bretanha; enlatados, chás e geleias)

1960: Locatelli (Itália; queijos)

1962: Findus (Suécia; congelados; participação da Nestlé de 80%)

1963: Libby, Mc Neill & Libby (EUA; frutas enlatadas; controlada 100% pela Nestlé em 1975)

1971: Ursina-Frank (Suíça; laticínios). A absorção desse grupo acarretou o controle pela Nestlé do importante Handelsbank de Zurique.

1973: Stouffer Corp.(EUA; alimentos e cadeia de hotéis).

A Nestlé ainda tem participação majoritária em várias empresas, entre as quais podemos citar a Roustang francesa, a Sarotti italiana etc. A lista anterior não é completa, mas enumera somente as principais firmas controladas por holding suíço.

Quanto a suas participações minoritárias, podemos dizer que a empresa também está presente em firmas de renome tais como a Vittel e a Chambourcy. Em 1974, comprou, também, 49% das ações da Gesparal, que controla, por sua vez, 51% do capital da L’Oréal, grande firma francesa de cosméticos, sabões etc.

3 As primeiras se implantaram durante a década de 1920 (Anderson-Clayton, Swift Armour, British American Tobacco), com raras exceções, como a Bunge y Borne, que já estava no país desde 1905.

4 O café solúvel “Nescafé” é o principal produto de exportação da filial brasileira, seguido pelo chocolate solúvel “Nescau” e pelo leite condensado. Essas exportações têm pouca significação dentro da produção global da empresa, que é quase toda dirigida para o mercado interno: nem representa 3% das vendas. No entanto, em números absolutos, as exportações da empresa, em 1976, foram de mais de 13 milhões de dólares, o que significa um acréscimo de 253% sobre o ano anterior.

5 Ao lado dos produtos alimentícios vendidos com a marca Nestlé, a empresa controla, atualmente, as sopas Maggi, os biscoitos São Luiz, os congelados Pescai, os sorvetes Yopa, os iogurtes e as sobremesas lácteas Chambourcy, a água mineral Minalba e o tempero para carnes Grill.

6 Jornal do Brasil, 22 de dezembro de 1976

7 Ver o organograma da p. 120 e o Quadro 5.

8 O patrimônio líquido é formado, segundo a fonte, pelo capital social + reservas capitalizáveis + lucro + passivo pendente – ativo pendente. O faturamento indica a soma de todas as rendas do ano e o lucro líquido é definido, pela fonte, como o lucro bruto (a diferença entre o faturamento e o custo dos produtos) menos as despesas não-apropriadas diretamente ao custo dos produtos vendidos, mas acrescido de todas as outras receitas e da reversão de provisões feitas em exercícios anteriores e não-aproveitadas para seus fins específicos.

9 A rentabilidade é a razão do lucro disponível sobre o patrimônio líquido.

10 Exame, 26 de setembro de 1979.

11 Para o ano de 1974, por exemplo, os investimentos da Nestlé que se beneficiaram de incentivos fiscais foram os seguintes: 3,94 milhões de cruzeiros, na área da Sudene; 2,5milhões de cruzeiros, com incentivos do IBDF; 1,5milhão de cruzeiros, na área da Sudam; 1milhão de cruzeiros, com incentivos da Sudepe; 1milhão de cruzeiros, com incentivos da Embratur.

12 E não foi considerado, para esse cálculo, o maior estabelecimento, por falta de informações. Os dados também não precisam quantos desses estabelecimentos pertencem a empresas comuns. [Tabelação especial do Censo Industrial de 1970, citada em Pires e Bielchowsky, 1977, p.39]

13 Tabelação especial do Censo Industrial de 1970, citada em Pires e Bielchowsky, 1977, p.39.

14 Nestlé rebate as críticas e acusa distribuidora”, in Folha de Sdo Paulo, 7 de abril de 1977.

15 As importações foram autorizadas para a S.A. Nestlé Argentina de Productos Alimenticios, das províncias de Santa Fe, Córdoba, Entre-Rios e Buenos Aires (Dados DIPOA, 1977).

16 Rastoin, [s/d] e 1976.

17 Exame, 26 de setembro de 1979.