Agricultura, cooperativas e multinacionais

Odacir Luiz Coradini · Capítulo 40 de 43

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Agricultura, cooperativas e multinacionais

3.4.2 Interesses econômicos e missão humanitária

Essa separação brutal não é nociva apenas do ponto de vista da amamentação: quando consideramos os processos emocionais que ligam a mãe ao seu filho, a importância de sua proximidade física no pós-parto é essencial. Constatações médicas recentes confirmam que a proximidade pós-natal mãe-filho não somente facilita a amamentação, mas também diminui grande parte das ansiedades, e inseguranças futuras da mãe frente aos cuidados que deverá administrar à criança. Tal proximidade leva a um relacionamento mais calmo e instintivo (Klaus e Kennell, 1978).

3.4.2 Interesses econômicos e missão humanitária

Da mesma forma como a Nestlé se orgulha de sua “tarefa pediátrica”, apresenta uma grande preocupação em provar seu impacto econômico e humanitário nos países em que atua. Grande parte de seu discurso é orientado para a justificação de seu comportamento comercial, como correspondendo a interesses que seriam comuns à população e à própria empresa.

Tentar-se-á retratar alguns aspectos desse discurso, que revelam um conjunto de valores a que a empresa recorre de maneira sistemática, para justificar-se e convencer o público de sua

utilidade. 14 Para isso, serão analisados a seguir alguns trechos de “mensagens” divulgadas pela Nestlé: artigos publicados em seu nome, ou a seu respeito, durante os últimos 15 anos (entrevistas com diretores da empresa, relatórios de atividades etc.) e que têm

como objetivo declarado a “informação” do público. 15

Num folheto de divulgação, em que o grupo suíço desenvolve esse tema da comunidade de interesses, ele o formulou da seguinte maneira:

A Nestlé não é uma sociedade filantrópica e suas atividades

não consistem em ‘levar ajuda’ aos países não-industrializados.

Ocorre, no entanto, que a própria natureza das atividades da

empresa nesses países — transformar lá mesmo uma matéria-

prima que ela se esforça por aumentar em quantidade e

qualidade — é um fator de desenvolvimento econômico. Nós

nos encontramos, portanto, em presença de uma comunidade

de interesses na qual o progresso de uma das partes gera

imediatamente uma melhoria para a outra. (Nestlé, 1975)

É inegável que, em um primeiro momento, a Nestlé incentivou muito a produção de leite em todas as regiões em que se implantou no Brasil. Esse aumento da produção de leite, no entanto, não implica necessariamente uma melhoria nas condições de vida dos produtores dessas regiões: eles formam um interlocutor extremamente fracionado para a empresa, e foram subordinados a ela em vários aspectos.

O holding suíço encaminha, na citação anterior, o tema de uma ideologia econômica e política mais vasta, de molde desenvolvimentista: “uma melhoria da produção levaria necessariamente a vantagens imediatas para o país”, sem que sejam mencionados os aspectos essenciais da distribuição e do consumo dentro desse país.

Encontramos, em um pequeno artigo intitulado “Exemplo para as demais”, vários aspectos constantes do discurso da empresa. Escrito para o Suplemento Agropecuário do diário Estado de Minas, de 11 de janeiro de 1975, e dirigido, pois, para um público de fazendeiros, o artigo tem objetivo de divulgação. Sua compreensão é fácil, de modo que a leitura das mensagens se realiza sem obstáculos.

O fundador da empresa, Henri Nestlé, é apresentado como cientista humanista, mais do que como homem de negócios:

(…) na cidade suíça de Vevey, no ano de 1886. Um químico se

entregava, naquela época, a pesquisas alimentares. Possuía

grande paixão pelas experiências e muita criatividade. Embora

não houvesse no século XIX tanta carência de produtos

alimentares, como a que hoje avassala a humanidade, suas

pesquisas se dirigiam para o aperfeiçoamento de alimentos

necessários a salvaguardar vidas humanas mais frágeis e

ajudá-las a se desenvolverem sadiamente. Ao perseguir esse

objetivo, descobriu a fórmula de uma farinha composta que foi

imediatamente utilizada para alimentar crianças com falta de

assimilação. Esse novo alimento correspondeu plenamente e

muitas vidas infantis foram salvas. Henri Nestlé era o nome

deste químico abnegado, que depositava em seu trabalho de

pesquisador muito amor e carinho.

Outra constante é a colocação do problema nutricional brasileiro como uma das razões fundamentais que motivaram a empresa a investir no país:

Em 1921,0 Brasil, com sua extensão continental, era um país

que dependia da importação de quase todos os produtos,

principalmente os destinados à alimentação. Era, realmente, um

período difícil na vida dos brasileiros. Sérios problemas de

nutrição elevavam os índices de mortalidade infantil. Sentindo o

problema brasileiro e vendo as boas perspectivas de mercado,

uniu o útil ao agradável, e, nesse ano de 1921, na cidade de

Araras, em São Paulo, foi instalado o primeiro centro industrial

do grande complexo empresarial suíço.

Uma vez que o artigo foi escrito para agricultores, a maior parte dele é dedicado à descrição das excelentes relações que unem a empresa e seus fornecedores. Baseando-se nessa descrição e no aspecto nutricional mencionado anteriormente, o autor conclui:

A Nestlé não pertence às chamadas ‘empresas multinacionais’,

cujas atuações são discutidas e discutíveis. Onde finca suas

raízes, os benefícios saltam à vista.

Empresa humana

As firmas alimentícias têm uma importante vantagem em relação a empresas de outros setores industriais: em termos de propaganda, podem enfatizar sua “luta contra a fome”, utilizando imagens comoventes de criancinhas subnutridas. Nesse sentido, a Nestlé fala da responsabilidade que assumiu perante a comunidade:

Mais que um simples trabalho, a indústria alimentar tem uma

elevada missão a cumprir.16

Numa entrevista à revista francesa Entreprise, o presidente da matriz suíça diz o seguinte:

(…) somos muito sensíveis ao nosso papel de serviço público.

Nós nos esforçamos em fabricar alimentos de primeira

necessidade, entre outros alimentos infantis. Isso nos leva

muitas vezes a investir sem nos preocuparmos em ganhar

dinheiro, pelo menos numa primeira etapa: é absolutamente

impossível para nós parar a fabricação de um produto que

responde a uma necessidade fundamental sob o pretexto de

que ele não seja rentável. Não podemos enriquecer-nos com a

pobreza dos outros!17

É muito importante para a Nestlé conseguir impor essa imagem de “empresa humana”. No mesmo artigo, interrogado sobre os possíveis perigos do “gigantismo” do grupo suíço, o presidente da empresa continua:

Não vejo absolutamente como o tamanho constitui um

obstáculo. Quando alguém me faz essa pergunta, eu respondo:

“Em que e a quem estamos prejudicando? Não seria ao

contrário uma garantia de qualidade para o consumidor, uma

garantia de seriedade que ele não teria comprando um produto

fabricado por alguém que não é conhecido? Uma grande

sociedade não se pode permitir errar gravemente e menos

ainda errar durante muito tempo! Não é assim que a

concentração das fabricações permite obter preços de custo e

preços de venda muito mais vantajosos? Enfim, como pretender

que os grupos internacionais sejam os lobbies? Contrariamente

ao que se poderia crer, somos muito menos poderosos que

muitos grupos de interesse. Não temos nem força política nem

força eleitoral e não podemos evidentemente nos entregar a

violências”.

Não é fácil aproximar e combinar dois termos que, habitualmente, são vistos como excludentes (“gigantismo” e “empresa humana”). No entanto, apesar de parecerem combater-se reciprocamente, dentro do discurso da empresa, eles brilham por sua concordância. No nosso caso, o entrevistado não respondeu à pergunta que lhe foi feita (uma pergunta que tratava de poder econômico) e seguiu um duplo raciocínio:

1) para o consumidor, o tamanho da empresa é uma garantia

de qualidade e de baixos preços;

2) quem representa o verdadeiro perigo e deve ser combatido

são esses “grupos de interesse” a que faz alusão: os lobbies…

os sindicatos de trabalhadores que têm força política e recorrem

à “violência”, para impor suas exigências…

A interpretação do leitor, forçando sua identidade com a figura do consumidor, é uma técnica muito utilizada para justificar situações polêmicas. Encontramos o mesmo argumento, por exemplo, num artigo escrito em defesa do grupo suíço em um contexto diferente: responde à acusação de que a empresa eliminaria pequenas indústrias regionais de laticínios e transformaria seus fornecedores de leite em quase empregados.

(…) Porque não podemos esquecer que não existem apenas a

Nestlé e o produtor ou fornecedor. Existe também o povo, o

consumidor. Formam trilogia. E na cooperação, no bom

entendimento entre os três, repousa o progresso de uma

sociedade livre e civilizada.18

Nesse artigo, dirigido aos produtores (ele é intitulado “Sr. produtor e fornecedor de leite”), o autor tenta camuflar a contradição existente entre a empresa e seus fornecedores, introduzindo um terceiro elemento mediador: o povo, os consumidores. E o aparecimento desse terceiro personagem, que engloba tanto o primeiro quanto o segundo, muda a natureza do conflito; de conflito de classe, ele se torna simples desentendimento entre pessoas, que, no fundo, têm interesses comuns. A todos importa que as mercadorias cheguem ao mercado consumidor ao menor preço possível!

No entanto, nos dois trechos citados, os autores se “esquecem” de dizer que o setor da alimentação no Brasil é muito concentrado. Não é possível continuar a considerar a concorrência como quadro de referência, e ignorar que vários monopólios ou quase-monopólios são responsáveis por uma parte importante da produção, e capazes de controlar seu volume e seu preço.

Empresa familiar

Nesses dois artigos, a Nestlé se defende apelando para o interesse dos consumidores. Existem outros meios de “fazer esquecer” seu caráter transnacional e seu gigantismo. Um deles é facilmente encontrável em suas propagandas. Na ocasião de seu quinquagésimo aniversário, em 1971, a filial brasileira do grupo publicou uma brochura intitulada Cinquenta anos de uma presença familiar. E, desde então, essa presença familiar acompanha a marca Nestlé como um epíteto próprio. Encontramo-lo nas propagandas da empresa e nos artigos escritos sobre ela. E perguntamo-nos: por que essa visível predileção da Nestlé por essa fórmula?

A explicação pode ser procurada na dupla significação da palavra “familiar”. Sendo uma presença familiar, significa, evidentemente, que a empresa é conhecida por todos os brasileiros, está presente em sua vida cotidiana. Mas, ao lado desse conteúdo manifesto da frase, existe outro, latente, que tem a ver com o segundo significado do significante “familiar”. Nesse sentido, quando a Nestlé pretende ser uma empresa familiar, escolhe uma fórmula que sugere a realidade mais distante possível de uma superpoderosa e perigosa empresa transnacional. Pode ser uma forma de despreocupar o público a seu respeito, provocando, em sua imaginação, imagens que associam com a palavra “família”: tamanho pequeno, ausência de perigo, segurança emocional, confiabilidade etc. Nada disso é explícito. Tudo fica no domínio do não-dito e das associações inconscientes.

O próprio diretor-presidente do grupo no Brasil gosta de se referir aos empregados e trabalhadores da empresa como formando Uma grande família, a “grande família” da empresa. (Atualidades Nestlé, nº 50, 1977, p. 5) Ele recorre, nesse caso, a uma técnica bastante utilizada pela classe no poder quando trata, por exemplo, da “família brasileira” e mascara, dessa maneira, os conflitos de classe existentes dentro da sociedade.

A “mãe-Nestlé”, “babá do Brasil”

Fora do símbolo da família, existe outro, bastante utilizado pela empresa na sua apresentação ao público: o da maternidade. É isso mesmo que se pode ver em um texto publicado na Banas, revista de conteúdo econômico-financeiro dirigida a empresários. O texto citado faz parte da introdução a uma entrevista com o diretor-geral da filial brasileira do grupo suíço, publicada com o seguinte título: “Nestlé: a babá de 50 anos” e que trata da situação da indústria alimentícia no país e das perspectivas comerciais da empresa. Escreve, a propósito, o jornalista:

O seu nome mesmo é Nestlé, a babá de todos os brasileiros, de

0 a 100 anos. Sua missão tem sido a de cuidar da comida que é

saúde. E nisso ela vai ainda mais longe, fazendo um trabalho

de mãe pra filho. Começou como ama-de-leite, só cuidando do

nosso leitinho. Mas o Brasil cresceu e ela teve de tratar também

da gente grande produzindo chocolate, sopinhas e, agora,

supergelados (…)19

Esse estilo infantilizado e sentimental, que nada tem a ver com a forma em que se concebem habitualmente os artigos da Banas, justifica-se unicamente pelo tipo de produto que a empresa coloca no mercado: alimentos infantis. Fica explícito que ela tem uma “missão” e que sua relação com os brasileiros (“todos os brasileiros de 0 a 100 anos”, sem exceção, nem diferença de classe) é de “mãe pra filho”.

O que significa essa mensagem, que identifica a empresa com a imagem da mãe? A maternidade é sinônimo de amor, abnegação no trabalho e sacrifício sem esperança de retribuição. A mãe (figura particularmente valorizada numa cultura predominantemente latina), e, portanto, a “Mãe-Nestlé”, deve gerar, nos filhos, um amor correspondente e uma gratidão sem limites.