Agricultura, cooperativas e multinacionais

Odacir Luiz Coradini · Capítulo 35 de 43

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Agricultura, cooperativas e multinacionais

2.10 Tendência migratória da Nestlé no Brasil

O caráter complementar da pecuária leiteira, nesses estabelecimentos, favorece, sem dúvida, a empresa, porque lhe permite uma maior flexibilidade em termos de recepção: uma recusa de leite da sua parte provocará menos conflitos com seus fornecedores que no caso em que estes dependessem exclusivamente desse produto para sua subsistência. No caso que estudamos aqui, a empresa tem facilidade em transferir o risco da comercialização de seus produtos para seus fornecedores, adaptando seu recebimento a suas estratégias de mercado.

 

2.10 Tendência migratória da Nestlé no Brasil

É difícil distinguir o caráter da redução do recebimento da empresa

em Três Corações: pode ser uma política passageira, 16 como pode significar, também, um desestímulo profundo à pecuária leiteira regional, se continuada a longo prazo. Esse fenômeno não pode ser devido somente a uma decisão da Nestlé em diminuir sua produção de leite em pó, porque está abrindo novas fábricas em outras regiões. Pode estar ligado, no entanto, a uma tendência constante no comportamento do grupo suíço, verificada tanto no Brasil quanto

em outros países da América Latina 17: a tendência em se afastar cada vez mais dos núcleos industriais, criando novos centros mais dinâmicos para a produção de leite.

Nas regiões tradicionais, o setor leiteiro não consegue mais se expandir de maneira satisfatória para a empresa. Isso se deve, principalmente, ao caráter extensivo dessa atividade: a distância existente entre a elevação do preço da terra e o rendimento da pecuária leiteira ao produtor não permite maior expansão da produção. A empresa procura, pois, regiões mais afastadas dos grandes centros urbanos, onde o preço da terra é mais barato e onde ela pode controlar a produção leiteira em condições de monopsônio absoluto: foge, assim, aos altos custos de produção, à concorrência na procura de sua matéria-prima e às acusações de diminuir o abastecimento de leite fluido nas capitais. É mais lucrativo, para a empresa, implantar uma fábrica em nova região do que lutar contra fatores estruturais que impeçam a expansão do setor leiteiro tradicional. Essa diminuição dos estímulos da Nestlé à pecuária de determinada região é facilitada pelo fato de que os produtores já criaram alguns mecanismos para absorver os riscos da comercialização leiteira.

Nessa tendência para a expansão territorial em áreas potenciais ainda pouco exploradas, a empresa contou, no Brasil, com a colaboração das políticas de incentivos fiscais regionais da Sudam, na Região Amazônica, e da Sudene, no Nordeste. Esses incentivos à desconcentração industrial vieram ao encontro de sua necessidade de expansão territorial, que surge em todo país em que a empresa esteja implantada há várias décadas, perto de centros urbanos de alto crescimento.

O estudo da situação em Três Corações, caso de implantação antiga da Nestlé, onde o leite já não é mais um produto dinâmico, poderia ser completado por uma pesquisa de campo numa região de instalação recente. Assim, poder-se-ia comparar a atuação da empresa em dois lugares: um, de expansão da produção leiteira, e outro, de quase-estagnação. Note-se que a atuação do grupo suíço na região estudada foi importante principalmente em sua época de implantação, quando teve de organizar e disciplinar seu mercado fornecedor. Depois, uma vez assegurado seu fornecimento, seu papel na região se tornou mais conservador. Por essa razão, seria interessante estudar, também, o caso de uma região de implantação recente da empresa.

 

1 Kaustsky, 1977, v. II, p.144.

2 Ao lado desses fatores, que, sem dúvida, são essenciais, temos de lembrar também o elemento político: a posição de uma empresa estrangeira que não possui rebanho, plantações, nem terras, mas se encarrega unicamente da transformação de produtos agropecuários, escapa mais facilmente às ameaças de eventuais correntes nacionalistas, dirigidas contra empreendimentos de capital transnacional no setor de produtos alimentícios básicos.

3 Nestlé, 1975.

4 Comparando o número de silos com o das fazendas onde estão localizados, notamos que se trata, principalmente, de construções em fazendas que já possuem silos, e que são, portanto, estabelecimentos maiores.

5 Assistência Nestlé aos Produtores de Leite, 1968.

6 Não podemos, no entanto, deixar de lado, aqui, outro aspecto dessa assistência técnica: a que está sendo levada aos produtores, através de reuniões e publicações especializadas, e que conta com um público mais amplo.

7 Na época da pesquisa de campo realizada na cidade mineira de Três Corações, estava acontecendo o seguinte conflito: os produtores de uma linha haviam descoberto que seu carreteiro recebia somente 60% da quantia paga mensalmente por eles ao grupo suíço para tal fim. Como ele se queixasse de receber um salário insuficiente e a Nestlé se recusasse a aumentá-lo, o grupo de produtores decidiu contratá-lo de maneira direta, sem utilizar mais a empresa como intermediária. Esta reagiu, exercendo fortes pressões sobre os produtores, para que desistissem do plano, e acabou autorizando o aumento salarial, para que ele não se realizasse.

8 “CADE investiga oito cooperativas de leite”, in Jornal do Brasil, 27 de setembro de 1974.

9 Entrevista com o Presidente da CBCL, março de 1978.

10 Alpinópolis, Lavras, Três Pontas e São Tiago.

11 Esses municípios pertencem às microrregiões homogêneas nº 191 (quase inteira), 195 (parte oeste), 199 (parte noroeste), 198 (parte nordeste) e 190 (parte leste). Trata-se de Aguanil, Alpinópolis, Bom Sucesso, Camacho, Cambuquira, Campo Belo, Cana Verde, Candeias, Carmo da Cachoeira, Carme da Mata, Carmópolis de Minas, Coqueiral, Cristais, Ibituruna, ljaci, Ingaí, Itapecerica, Itumirim, Itutinga, Lambari, Lavras, Luminárias, Nepomuceno, Oliveira, Passa-Tempo, Perdões, Ribeirão Vermelho, Santana da Vargem, Santana do Jacaré, Santo Antônio do Amparo, São Bento Abade, São Francisco de Oliveira, São João Del Rei, São Tiago, São Tomé das Letras, Três Corações e Três Pontas. Suas maiores concorrentes locais são a Figuinha, em Oliveira, a Cacisa, em Campo Belo, e as Cooperativas de Lavras, Carmo da Cachoeira e Carmópolis. Sua área de atuação é delimitada pela presença da Anderson-Clayton a leste; da Vigor, a sudeste; da Vigor e da Danone, a sudoeste: da Parmalat, ao sul; e da Nestlé/Calciolandia, a noroeste.

12 Isso é evidenciado no Censo: em 1950, 75% da área foram classificados como “pastagens naturais e artificiais” e, em 1970, essa proporção tinha aumentado para 80%, em prejuízo, principalmente, das terras não-utilizadas; as áreas de lavouras temporárias subiram, nesse intervalo, de 6,8% para 8,2%.

13 Assistência Nestlé aos Produtores de Leite, 1973. Os dados provavelmente são superestimados, em virtude da forte proporção de grandes produtores na amostragem, e também porque certos pequenos produtores se agrupam para entregar seu leite, sendo levantados como um só produtor.

14 Essa parte é baseada na pesquisa de campo realizada no início de 1979, nas áreas de recebimento de Três Corações e Lavras. A amostragem foi dividida em estratos, em função da entrega média diária de leite à empresa. Como aproximadamente 45% dos fornecedores da fábrica são associados em cooperativas e 55% são produtores individuais, essa proporção também foi respeitada na elaboração da amostragem.

Estratificação dos produtores individuais que entregam leite à Nestlé/Três Corações (dezembro de 1978)

Elaboração da amostragem

 

As entrevistas com os fornecedores se dividem em duas partes: a primeira, com o objetivo de caracterizar os produtores, corrobora, em grandes traços, o que foi descrito até agora; a segunda parte, que trata de sua situação atual como produtores de leite, de seus planos futuros e de sua relação com a empresa, será desenvolvida a seguir. Essas entrevistas com os fornecedores da Nestlé foram completadas por outras, com representantes de cooperativas, pequenos laticínios da região, técnicos de órgãos de assistência oficial, outros produtores de leite C e B, e representantes locais da empresa.

15 Ver a nota nº 11 da Introdução (p.174).

16 A empresa costuma recorrer a mecanismos de pressão para aumentar o preço de seu produto acabado no mercado consumidor. Manobras desse tipo são possíveis, graças à sua vantajosa posição no mercado de leite em pó (ver, por exemplo, “Produtores dizem que leite em pó integral vai sumir do mercado”, in Folha de São Paulo, 29 de abril de 1977).

17 Nestlé S.A., 1975. Essa tendência foi verificada em todos os países de pecuária extensiva e com condições de criar novos pólos de expansão leiteira.