Agricultura, cooperativas e multinacionais

Odacir Luiz Coradini · Capítulo 36 de 43

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Agricultura, cooperativas e multinacionais

3 O leite em pó na ideologia dominante: a luta do seio contra a mamadeira

3 O leite em pó na ideologia

dominante: a luta do seio contra a

mamadeira

 

A amamentação é parte integrante do processo reprodutivo; é a

maneira natural e ideal de alimentar o lactente, constituindo

uma base biológica e emocional inigualável para o

desenvolvimento da criança. Esse e outros efeitos importantes

do aleitamento materno na prevenção de infecções, na saúde e

bem-estar da mãe, no intervalo entre partos, na saúde da

família, na própria família, na economia nacional e na produção

de alimentos fazem com que a amamentação seja um aspecto

vital da autoconfiança, dos cuidados primários de saúde e das

atuais estratégias de desenvolvimento. Por essa razão, cabe à

sociedade promover o aleitamento materno e proteger as mães

grávidas e os lactentes de quaisquer influências que possam

romper esse processo.

Declaração sobre alimentação de lactentes e crianças na

primeira infância. Reunião Conjunta, Organização Mundial da

Saúde/Unicef,

Genebra, 9-12 de outubro de 1979.

 

3.1 Introdução

Já faz algumas décadas que um problema precisa ser resolvido, a cada vez que nasce uma criança: como alimentá-la, no seio ou na mamadeira? Isso só se transformou em problema a partir do momento em que os preparados artificiais para recém-nascidos se tornaram disponíveis no mercado. Anteriormente, todas as mulheres seguiam a tradição de suas avós e de suas mães, amamentando seus filhos. No caso de a mãe não poder ou não querer amamentar, o bebê era confiado a uma ama-de-leite, e isso não significava nenhuma tragédia.

Atualmente, a situação é bem diferente: a mãe tem de escolher se alimentará seus filhos no seio ou na mamadeira. Essa é uma opção individual sua, mas, junto com as opções individuais de milhares de outras mães, acaba envolvendo grandes interesses comerciais. Uma única empresa virtualmente monopoliza, no Brasil, o mercado de leite em pó modificado para uso infantil: a Nestlé. É esta a principal empresa envolvida no lucrativo negócio de vender leite “maternizado” a mulheres que, quase sempre, têm todas as condições necessárias para alimentar seus filhos de maneira natural e autônoma.

3.1.1 O seio perdeu a primeira partida

As informações dadas às gestantes, por ocasião de exames pré-natais ou de sua internação nas maternidades, quase nunca abordam a questão da amamentação, como se a escolha entre alimentação natural ou artificial não acarretasse consequências importantes. Tal escolha é considerada um aspecto secundário, que habitualmente será resolvido dentro da própria rotina do hospital, até fora do conhecimento e da aquiescência das mães.

A falta de informações por parte das mães e sua crescente integração no esquema de produção e de consumo capitalista parecem ter levado a uma diminuição do aleitamento tradicional ao seio. Essa evolução foi constatada em todos os países de economia capitalista e em todas as camadas sociais, estendendo-se, gradualmente, dos países ricos para os pobres e das classes sociais

mais privilegiadas para as classes trabalhadoras e marginais. 1

No Brasil, vários estudos regionais realizados entre 1958 e 1969 demonstraram, como era de esperar, uma diferença notável entre a situação no campo e nas cidades. Verificou-se que, em várias áreas rurais do país, o período médio de amamentação natural era superior a nove meses. Nas regiões Urbanas e suburbanas dos Estados do Nordeste, do Rio de Janeiro e de Minas Gerais, ao contrário, o período da amamentação tem sido de cerca de três meses (Ulloa, [s/d]).

3.1.2 Perigos da alimentação artificial

A utilização de fórmulas artificiais tem acarretado graves consequências para muitos recém-nascidos. Cada vez mais acumulam-se dados que provam a superioridade incontestável do leite materno, tanto do ponto de vista nutricional e imunológico, quanto da necessidade de um contato mais intenso entre filho e mãe.

É bastante conhecido, entre os pediatras, o fato de que crianças alimentadas com mamadeira adoecem mais facilmente que as amamentadas no seio. Essas últimas apresentam taxas de morbidade e de mortalidade bem mais baixas que as alimentadas de maneira exclusivamente artificial. Estudos realizados também no Brasil confirmam essa constatação geral (Martins Filho, 1977).

Tal fenômeno toma proporções mais agudas ainda, quando o relacionamos com a origem social das crianças. Nas classes populares, a substituição da amamentação natural por urna mamadeira de leite em pó quase sempre provoca infecções e desnutrição. Pode, até mesmo, levar à morte. O problema colocado

pelo alto preço dos preparados artificiais é essencial. 2 Para compensar essa despesa, muitas mães administram o leite aos seus filhos excessivamente diluído, mesmo sabendo que isso diminui a capacidade nutritiva do produto. Somam-se, a esse fato, as péssimas condições higiênicas e sanitárias em que vive grande parte da população brasileira, e que não permitem seguir as instruções relativas ao uso de água pura, à esterilização das mamadeiras etc. Muitas mães são analfabetas e não leem a posologia indicada na lata, enquanto outras não têm geladeira para conservar o preparado. A administração de leite em pó acaba provocando, assim, sérios problemas de infecções respiratórias e

gastrintestinais, alergias etc.3

Para as crianças provenientes de famílias de baixo nível econômico, o leite materno representa, sem dúvida, a fonte de proteínas mais simples, mais econômica e menos sujeita a contaminação. A amamentação natural, contudo, tem outra função importante: a de método de controle da natalidade. Sabe-se que é um método biológico eficaz para aumentar o intervalo natural existente entre partos sucessivos.

Nas camadas urbanas mais privilegiadas, a utilização de mamadeira interfere menos na saúde física do bebê. Estudos recentes, no entanto, provaram que pode levar a problemas de obesidade. Atualmente, está sendo pesquisada, também, a relação que parece existir entre alimentação artificial e a frequente ocorrência de hipertensão e doenças coronárias na idade adulta.

Não só do ponto de vista fisiológico a amamentação natural tem um papel importante a desempenhar; também no desenvolvimento psíquico da criança, um contato íntimo e uma troca afetiva profunda entre mãe e filho são essenciais. Essa troca será facilitada pelo calor emocional e físico da amamentação, que é fonte de prazer tanto para a criança quanto para a mulher que amamenta.

3.1.3 Na luta entre o seio e a mamadeira, o árbitro é a ideologia

Apesar dos fatos enumerados anteriormente, comprovados e repetidos em numerosas pesquisas científicas, a proporção de mulheres que escolhem a amamentação natural está diminuindo cada vez mais.

O processo de urbanização da sociedade brasileira levou à introdução de novos hábitos, mais integrados no mundo do consumo que os anteriores.

Dentro desse processo, é interessante estudar o exemplo da desvalorização do leite materno, porque esta é claramente contrária aos interesses da maior parte da população do país, provocando sérios problemas de desnutrição e de mortalidade infantil.