Agricultura, cooperativas e multinacionais
3.2 Por que as mães brasileiras estão abandonando o aleitamento natural?
Neste capítulo, propõe-se estudar as causas do processo supracitado na sociedade brasileira: quais são as razões alegadas pelas mães para renunciar à amamentação natural? Qual é a carga ideológica que transparece em suas argumentações? Quais são os interesses das multinacionais do leite nesse processo? Como conseguem influenciar as mães, e a sociedade como um todo, no sentido de favorecer seus negócios? Qual é a participação dos médicos pediatras e dos outros profissionais de saúde em tudo isso? Como o Estado vem intervindo nessa clara luta de interesses?
Mais importante, porém, do que uma simples enumeração de fatos, é a descrição do conflito latente, mais profundo, entre duas “concepções de vida” antagônicas: a tradicional, ‘baseada numa certa autonomia relativa das classes populares frente ao consumo de produtos supérfluos e de alto valor agregado, e a concepção de vida “moderna”, urbanizada, imposta pelos interesses de acumulação do capital industrial. Essa imposição gradual, que acontece de maneira conflitiva e dialética, exige uma mudança na atitude da população consumidora frente a suas condições de existência. Somente através de mudanças ideológicas profundas, o capital conseguirá provocar as novas necessidades e os novos hábitos de consumo de que necessita em sua luta contra a tendência à queda de sua taxa de lucro.
É o que estudaremos a seguir.
3.2 Por que as mães brasileiras estão
abandonando o aleitamento natural?
A tendência à alimentação artificial de recém-nascidos está-se espalhando entre todas as camadas sociais (e principalmente entre as classes urbanas e periurbanas), com uma força pouco suspeitada. Até nas favelas, as mães frequentemente recorrem à mamadeira de leite em pó para alimentar seus filhos. Um trabalho feito numa favela de Santos, por um posto da prefeitura daquela cidade, revelou que, em 1974, 92,6% das crianças da favela com idade abaixo de um ano eram alimentadas artificialmente. O trabalho da equipe do posto se dirigiu principalmente para inverter essa situação. Um ano mais tarde, a proporção de crianças de menos de dez meses que eram amamentadas já tinha alcançado 45%. Acontece, no entanto, que um remanejamento na equipe reduziu sua preocupação com esse problema: em 1977, a situação estava voltando à que existia no início do trabalho, ou seja, mais de 75% das crianças já estavam sendo alimentadas artificialmente (Silva, 1977).
Essa experiência demonstrou que, mesmo entre a população urbana mais carente, para quem a compra de leite representa uma importante despesa adicional e os riscos da contaminação são os maiores, a tendência a recorrer à alimentação artificial é predominante. Mas demonstrou, também, como a atitude médica pode interferir ativamente para inverter essa tendência.
Por que razão mulheres sadias, que têm todas as condições necessárias para amamentar seus filhos — impossibilidades fisiológicas são encontradas em menos de 5% das mães — insistem em alimentá-los com mamadeira, expondo-se, assim, a infecções e desnutrição?
3.2.1 Leite “fraco” ou “insuficiente”
As razões que as mães alegam, quando interrogadas a esse respeito, são principalmente a má qualidade ou a insuficiência do seu próprio leite. Isso foi constatado tanto a nível mundial (cf. Jelliffe e Jelliffe, 1979), quanto ao nível da situação no Brasil. Neste país, várias pesquisas demonstraram que cerca de 70% das mães desmamam precocemente seus filhos pelas razões de “leite insuficiente”, “a criança não quis mais”, “o leite era fraco” ou “o leite secou” (Ulloa, [s/d]; Souza, 1974; Aragão, 1977).
No entanto, a má qualidade e a fraqueza do leite citadas parecem não só ser extremamente relativas, como traduzir antes uma insegurança da mãe, frente à sua própria capacidade de amamentação, que um fato cientificamente demonstrado: tanto em volume quanto em composição, o leite materno de mulheres desnutridas é adequado para sustentação de seus filhos, além de conter os anticorpos necessários à sua defesa. A mãe precisa chegar a um estágio particularmente grave de desnutrição para que seu leite não contenha as calorias, vitaminas e proteínas necessárias ao desenvolvimento do lactente. E, mesmo nesses casos, o leite materno deve ser melhor do que qualquer outro tipo de alimento, uma vez que a mãe altamente desnutrida não dispõe de comida de boa qualidade para oferecer aos seus filhos.
No caso de insuficiência de leite, vários estudos médicos verificaram que complementar a amamentação com leite em pó modificado não seria a melhor solução: isso não só diminui gradativamente a secreção do leite materno, mas aumenta, também, a ocorrência de morbidade e mortalidade infantil. De outro lado, existe uma solução mais saudável e mais racional para resolver esse problema: a complementação equilibrada da dieta da mãe durante o período de lactação. Essa complementação alimentar da mãe, quando feita com base em verduras e cereais, não representa, de forma nenhuma, uma despesa maior para o orçamento familiar do que a compra de leite em pó, e significa uma segurança adicional para a saúde da criança (OMS/Unicef, 1979).
As razões alegadas acima — má qualidade e insuficiência do leite materno — não encontram, na grande maioria dos casos, comprovação científica. As mães entrevistadas parecem traduzir, com essas palavras, fortes pressões socioculturais, econômicas ou emocionais, que inibem seu reflexo de liberação de leite.
O ambiente impessoal e pouco tranquilizante dos serviços de saúde no Brasil contribui, sem dúvida, para o agravamento desse fenômeno. Nas maternidades, os médicos têm pouco tempo disponível para dar uma orientação pessoal a suas pacientes. O recém-nascido é separado de sua mãe e levado automaticamente para um berçário: a possibilidade de a mãe se sentir apreensiva e insegura, no ambiente hospitalar, pode inibir seu reflexo de lactação e provocar, assim, insatisfação na criança. Seus choros, por sua vez, serão interpretados como “leite insuficiente” ou “inadequado”, e se recorrerá à alimentação artificial complementar, o que pode aumentar a insegurança da mãe frente a seu próprio leite, e diminuir-lhe, mais ainda, a quantidade, uma vez que é produzido em função da sucção do lactente.
Atualmente, todo o esquema de propaganda das empresas de leite em pó é montado em cima dessa inibição psicológica do reflexo natural de lactação: “O melhor leite é o materno. Mas, na falta deste, dê leite Nestlé para seu filho.” As mães visadas pela propaganda não sabem que um impedimento fisiológico real só existe em menos de 5% das mulheres. Vão considerar, pois, a inibição de seu reflexo de lactação como um fenômeno normal, e não lutarão ativamente para alterá-lo.
É importante, também, mencionar a evolução da atitude da sociedade em relação aos seios da mulher: de um símbolo fundamentalmente maternal e nutritivo, passaram a ser enfatizados, na época atual, em função de seu lado estético e erótico-sexual. As empresas de leite em pó acabam, pois, sendo beneficiadas pelos apelos profundamente eróticos a que recorrem outras empresas, em sua propaganda, utilizando os seios femininos como um “objeto que
faz vender”.4
3.2.2 Classes sociais, expansão do capitalismo e diminuição da amamentação
No processo de industrialização e urbanização da sociedade, é inegável que os alimentos artificiais para recém-nascidos estão preenchendo uma junção importante: permitem a alimentação da criança sem exigir a presença da mãe, no caso de mulheres que precisam ausentar-se de casa para trabalhar, por exemplo. A crescente integração da mulher no processo de produção capitalista é, sem dúvida, uma das principais razões que impedem a divulgação da amamentação materna na sociedade brasileira. Como a legislação social lhe garante somente dois meses de férias depois do parto, ela será levada a abandonar a amamentação quando voltar a trabalhar.
Na situação atual, porém, este problema parece apresentar dimensões ainda reduzidas: as publicações existentes indicam que a proporção de mulheres que deixam de amamentar seus filhos por razões profissionais é notavelmente pequena (ver, por exemplo, o estudo referente a vários países do centro e da periferia, citado em Jelliffe e Jelliffe, 1979). Isto se deve provavelmente ao fato de que grande parte das mulheres trabalhadoras exercem sua profissão no próprio ambiente doméstico e familiar (empregadas domésticas, lavadeiras, camponesas etc) ou que já abandonaram seu emprego antes de a criança nascer.
Essa constatação foi confirmada, no caso brasileiro, por uma investigação realizada em uma cidade fortemente industrializada, pertencente à grande São Paulo (Aragão, 1977). Somente 2% das mulheres entrevistadas naquela ocasião citaram seu trabalho como sendo a razão que as impedira de amamentar seus filhos, apesar de se tratar de uma região onde o trabalho feminino é comum. E essa proporção ainda poderia diminuir se fosse aplicada a legislação social que garante a existência de creches e dá às mulheres trabalhadoras o direito de deixarem seu local de trabalho toda vez que precisarem amamentar seus filhos (art. 399 da Consolidação das Leis do Trabalho). Essa legislação nunca foi aplicada na prática.
Não é necessário, porém, que as mulheres comecem elas próprias a trabalhar num esquema de produção capitalista, para que abandonem a amamentação. Em extensas áreas rurais tradicionais do país, por exemplo, observações médicas demonstraram a relação existente entre a expansão das relações de trabalho capitalistas e uma frequente redução da qualidade de vida e do nível de nutrição da população. A adoção de uma agricultura especializada leva ao abandono progressivo do cultivo de produtos de subsistência e a uma monetarização da sociedade rural, que permite a chegada, ao campo, de mercadorias anteriormente reservadas à população urbana. Graças ao processo de aculturação que acontece de maneira paralela, é incentivado o aparecimento de novas necessidades, tal como a da mamadeira e a do leite em pó.
Nas grandes cidades, os migrantes recém-chegados passam por um processo de aculturação mais violento ainda, e acabam tornando-se as principais vitimas do que começou a ser chamado de “desnutrição comercialogênica”. O estudo de Mike Muller (1974), citado a seguir, demonstra que as camadas populares mais atingidas pelas pressões das transnacionais do leite em pó são formadas por ex-camponeses e trabalhadores rurais expulsos do campo, que vêm reforçar o exército industrial de reserva das metrópoles. O rompimento de seus laços socioculturais de origem provoca um “vazio ideológico”, que os torna uma presa fácil para qualquer tipo de mensagem publicitária. Essa constatação amplia a tese de que, quanto mais baixa a classe social, tanto menos crítica sua atitude frente à mensagem publicitária, pelo seu menor conhecimento das técnicas de persuasão utilizadas (Cornaton, 1968).
A integração gradual das mulheres na sociedade capitalista, com sua organização urbana e consumista, implica uma diminuição correspondente de sua vontade de amamentar. Um estudo realizado em Campinas, entre 1974 e 1976 (e citado em Dias, 1977), demonstrou que um grupo de mães que tiveram mais de sete consultas pré-natais aleitaram seus filhos durante um período médio de dois meses e três dias. Para as mães que fizeram de um a seis exames médicos durante sua gravidez, o período de amamentação subiu para dois meses e 19 dias. Quanto às mulheres que não tiveram nenhuma consulta pré-natal, o tempo de aleitamento foi de cinco meses e 21 dias.
Esses dados podem ser interpretados utilizando o número de consultas pré-natais como indicador do grau de integração das mães no esquema de consumo capitalista: quanto maior o número de consultas, tanto maior o poder aquisitivo das mães e sua tendência ao consumo. As mulheres que não contaram com nenhuma consulta, ao contrário, vivem à margem das instituições de saúde e assumem a alimentação de seus filhos de um modo mais
autônomo. 5
3.2.3 A mamadeira dá “status”
A grande maioria das mães não sabe indicar exatamente com que motivação escolheu a alimentação artificial para seus filhos. Uma razão que contribui para a inibição do reflexo natural de lactação deve ser procurada no prestígio ligado a um modo de vida moderno, urbanizado e que exige a adoção de novos hábitos de consumo. A valorização do “moderno” é intimamente ligada ao crescimento da oferta de produtos supérfluos. A propaganda divulgada pelos meios de comunicação de massa tenta provocar uma identificação dos ouvintes ou leitores com um “consumidor ideal”. A esse “consumidor ideal”, “homem e mulher modernos”, radiantes de felicidade graças a suas opções consumistas, contrapõem-se o fracasso: a pobreza e o atraso das populações de tradição rural. “Inculto”, “supersticioso”, “sujo”, “atrasado”, “burro”, o camponês tradicional representa, em sua autossuficiência, as raízes que o “homem moderno” precisa superar.
Dentro desse quadro, a mamadeira de leite em pó é um ótimo símbolo do modern way of life: mais “moderna”, “higiênica”, “científica” — e mais cara — que o aleitamento tradicional. Este, por sua vez, é desprestigiado e reservado às mulheres “caipiras”.
Existe, também, uma relação inegável entre o ritmo agitado da vida urbana, que facilita o aparecimento de nervosismo e de estresse, e a inibição do reflexo de lactação, mencionada anteriormente. Nas comunidades rurais tradicionais, as mulheres encontram as condições de que precisam para viver e assumir seu papel de reprodutoras com tranquilidade. Nas cidades modernas, ao contrário, elas passaram a se envolver em situações que ultrapassam o âmbito restrito da reprodução e da alimentação familiar: o ritmo acelerado dos acontecimentos que as rodeiam, a divisão do trabalho — cada vez menos rígida — entre homem e mulher, assim como a maior participação feminina no processo produtivo fizeram com que muitas mulheres assumissem responsabilidades mais diversificadas do que anteriormente.