Agricultura, cooperativas e multinacionais
2.6 Linhas de leite
O segundo fator importante para o desenvolvimento da produção leiteira, na região de implantação de uma nova fábrica, é a organização de uma eficiente rede de recolhimento do leite. Quem organiza as linhas de leite e decide a respeito do itinerário e do horário é a empresa transformadora. Mas quem paga o transporte, da fazenda até o posto de recebimento e do posto de recebimento até a fábrica, são os produtores. Eles pagam à empresa um preço fixo de alguns centavos por litro de leite transportado, e esta paga, por sua vez, ao carreteiro, em função da quilometragem rodada. Essas duas quantias podem não ser iguais, sendo que, nesse caso,
quem normalmente leva vantagem é a empresa.7
Não deve ser essa vantagem financeira, no entanto, que motiva a Nestlé a controlar, a todo custo, a rede de transporte, mesmo em bacias leiteiras organizadas há décadas: é que isso lhe permite pressionar melhor os produtores, quando necessário. Se um grande produtor da linha, por exemplo, decide vender seu leite, de agora em diante, para um concorrente que lhe oferece um preço mais alto, a empresa pode ameaçar os fornecedores restantes de fortes acréscimos nos custos operacionais, ou de, simplesmente, abandonar a linha, esperando, assim, que eles consigam evitar a desistência. Em época de excesso de leite, ao contrário, e quando segue uma política de diminuir seu recebimento diário, pode simplesmente fechar uma linha, declarando-a “menos rentável”.
Apesar de os fazendeiros pagarem a organização do transporte do leite, seu poder sobre ela é bastante reduzido.
Com o tempo, cada empresa compradora de leite estabeleceu, assim, seu “território”, delimitado por suas linhas fixas de fornecimento. E esse território normalmente é respeitado por suas concorrentes: é somente em situações excepcionais que estas tentam expandir-se à custa de uma empresa de porte parecido, quebrando, desse modo, o acordo implícito vigente. Existem, no entanto, alguns territórios sobrepostos nas bacias leiteiras tradicionais, onde a luta pelo leite toma proporções mais sérias.