Agricultura, cooperativas e multinacionais
2.9 Os fornecedores da fábrica de Três Corações
Na área de recebimento como um todo, os estabelecimentos maiores alcançaram um nível de modernização muito alto: como se trata de uma área tradicionalmente leiteira, chegaram, ao longo dos anos, a uma infraestrutura bastante desenvolvida. Quanto a explorações menores, fizeram menos investimentos em instalações fixas e maquinaria agrícola, graças à sua menor capacidade de capitalização e ao caráter pouco compensador do preço do leite.
2.9 Os fornecedores da fábrica de Três
Corações 14
Uma primeira pergunta que se pode fazer é por que esses produtores preferem vender seu leite para o grupo transnacional e não para uma de suas pequenas concorrentes locais ou regionais.
Já vimos que a localização das linhas de leite é essencial e nem sempre muito dinâmica. A isso se soma o fato de que, geralmente, um produtor tem interesse em entregar seu leite, na safra, para o
comprador com quem formou sua quota durante a entressafra.15 Esses dois aspectos dificultam, sem dúvida, a passagem dos produtores para uma nova empresa compradora.
O que mais motiva os produtores na escolha da empresa para a qual entregarão sua produção é, sem dúvida, o preço oferecido para o produto. O preço mínimo é tabelado, mas certas empresas podem preferir pagar alguns centavos a mais por litro, para garantir a manutenção do seu fornecimento: é o que acontece, frequentemente, quando uma empresa de porte maior se implanta numa região onde existe certa concorrência. Outro motivo importante é o da localização das fazendas em relação às usinas de beneficiamento: como o produtor é responsável pelo transporte do leite de sua fazenda até o posto de recepção e deste último até a usina, ele procurará entregar seu leite à usina mais próxima. Outra razão que os produtores gostam de citar, para explicar sua ligação a uma firma específica, é a garantia (relativa) que esta lhes dá para a compra de todo o leite produzido, durante todo o ano, graças à sua maior capacidade instalada.
A Nestlé apresenta mais um atrativo de peso para os produtores de leite da região: apesar de não pagar hoje um preço maior para o leite que o de concorrentes, é considerada urna empresa muito correta (“as outras prometem muito, mas não cumprem suas promessas”). Ela dispõe de capital de giro bem mais volumoso, e paga o leite recebido sempre em dia, sem atraso nem protesto, e ao preço combinado. As firmas menores, que lutam atualmente com sérias dificuldades financeiras, não oferecem a mesma vantagem para seus fornecedores.
Qual é a situação atual dos produtores da Nestlé na região?
A proporção observada entre o número de produtores e sua entrega diária de leite corresponde, aproximadamente, à estrutura fundiária da região: 70% dos estabelecimentos levantados pelo Censo de 1970 ocupam uma área de menos de 50ha (ou seja, 20% da área total). De outro lado, a 16% dos estabelecimentos correspondem áreas de mais de 100ha (ou seja, 63% da área total).
Constatou-se, a partir de 1970, um reforço do processo de concentração fundiária, pela diminuição dos pequenos e médios estabelecimentos. O número total de estabelecimentos agropecuários na região também diminuiu de 21.777, em 1970, para 20.050, em 1975, apesar da incorporação de novas terras.
Isso foi provocado por um forte processo de valorização das terras. Esse processo ocorreu, principalmente, devido à expansão de cultivos modernos, destinados ao abastecimento das capitais, e também devido à implantação de um parque industrial em algumas cidades. Tal processo se nota principalmente na parte sul da região estudada, mais próxima ao Estado de São Paulo, e em volta de cidades que apresentam certo desenvolvimento industrial.
Voltemos ao Quadro 7: ele retrata a evolução da estratificação dos produtores, de janeiro de 1975 até dezembro de 1978: nesses três anos, 139 produtores abandonaram a empresa. As desistências se deram principalmente entre os pequenos produtores e não foram compensadas pelos ligeiros aumentos entre médios e grandes. Quanto à diminuição dos que entregam mais de 500 litros diários, é devida, provavelmente, à sua mudança para produção de leite B. As desistências foram maiores nas áreas de concorrência e não ocorreram com tanta frequência onde a Nestlé é a única recebedora, o que leva a crer que todos esses fornecedores não abandonaram necessariamente a produção leiteira.
A Nestlé não seria capaz de garantir a permanência de seus fornecedores, protegendo-os contra propostas de concorrentes? Parece mais que o grupo transnacional não está recorrendo ao esquema que montou para esse objetivo (“Antes, quando um fazendeiro pensava em largar a companhia, ela mandava técnicos para convencê-lo a ficar. Hoje, estão quase agradecendo ao produtor que quer sair”).
Na época da pesquisa local (1979), todos os produtores da região se queixavam do baixo preço do leite e da sua pequena rentabilidade. Raros eram os que pensavam em continuar, no futuro, com a produção leiteira como principal atividade: somente quatro entre os 17 entrevistados — todos produtores de menos de 50 litros diários, que não tinham outras alternativas — declararam querer continuar produzindo leite nesses termos. Entre os outros pequenos produtores entrevistados, um se estava desfazendo de suas últimas vacas e trabalhando em fazendas vizinhas, um tinha parado recentemente e mudado para a cidade, e os outros estavam plantando café ou vendendo gado, reduzindo a importância de sua produção leiteira.
Entre os produtores maiores, muitos se dedicam à comercialização de gado e consideram a venda de leite uma atividade secundária. Para os fazendeiros que possuem gado comum, mestiço, é fácil passar para a venda de gado de corte, que lhes garante, atualmente, uma renda maior. Para os produtores mais capitalizados, porém, o problema é maior, porque fizeram investimentos, compraram gado leiteiro holandês, e estão ligados a compromissos bancários dos quais dificilmente conseguem livrar-se.
A falta de rentabilidade do leite se evidencia claramente nos investimentos feitos para a melhoria da produção leiteira. Essas melhorias foram pouco numerosas nestes últimos anos, mas, mesmo assim, os produtores compraram implementos agrícolas, reformaram pastos, plantaram capineiras, construíram silos etc. Independentemente de terem sido financiadas ou não, essas melhorias foram pagas de alguma forma, e os pagamentos não puderam ser efetuados exclusivamente com a renda de sua produção leiteira. Ao lado da venda de bezerros, comum a todos os estratos de produtores, os pequenos tiveram de completar essa quantia com a venda de excedentes agrícolas ou a venda de sua força de trabalho, e os produtores maiores, com venda de gado, terras, produtos agrícolas ou com recursos alheios à fazenda.
Todos os fornecedores se queixam da falta de rentabilidade do leite, mas eles se queixam, também, dos desestímulos que sofrem por parte da empresa: esta, durante a época da safra de 1978-1979, não aceitou um litro acima da quota que os produtores tinham apresentado durante a entressafra precedente, apesar de trabalhar somente com parte de sua capacidade instalada. Dessa maneira, obrigou seus fornecedores a desmamar as vacas antes da época ou a mandá-las para o abate.
Frente a todos esses desestímulos, frente a uma renda muitas vezes negativa, por que esses fornecedores continuam produzindo leite e entregando-o à empresa?
Como a maioria não contabiliza sua força de trabalho nem sua propriedade como custo, eles continuam sem perdas nem lucros, recebendo uma quantia de dinheiro líquido a cada mês. Esse dinheiro é essencial para pagar as despesas familiares como alimentação, vestuário e saúde, e algumas despesas mensais da exploração agropecuária, como a compra de rações, salários de empregados etc.: a produção leiteira fornece, mensalmente, ao produtor o capital de giro que lhe falta e que não consegue com a venda de suas colheitas agrícolas anuais. A renda do leite não é suficiente para permitir-lhe fazer investimentos, nem mesmo, muitas vezes, para cobrir os custos diários de sua exploração, mas é essencial, porque se trata de dinheiro líquido, com o qual ele pode contar para pagar parte de suas despesas mensais.
Ao produtor faltam alternativas que lhe garantam uma renda imediata e regular desse tipo. A atividade leiteira, mesmo não sendo rentável, é uma atividade segura: a certeza de conseguir vender a produção quase toda e a regularidade do pagamento compensam a fraca rentabilidade constatada.
Para todos os produtores, existe um risco sério em reorientar sua produção. Os grandes, ainda mais, têm capitais importantes imobilizados na exploração leiteira. Quanto aos pequenos, faltam-lhes, muitas vezes, alternativas de emprego, na agricultura ou em outro setor da economia.