Agricultura, cooperativas e multinacionais

Odacir Luiz Coradini · Capítulo 42 de 43

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Agricultura, cooperativas e multinacionais

4 Conclusão

 

Ficou claro, ao longo do texto precedente, que a Nestlé possui um amplo poder de influência sobre o setor leiteiro como um todo: conseguiu mudar vários aspectos desse setor, ao longo dos anos, em função de suas próprias necessidades de acumulação de capital. Seus planos de produção e sua estratégia comercial acabaram influenciando a quantidade e o tipo de produtos lácteos consumidos pela população do país.

Essa influência significou, na prática, uma diminuição do consumo de leite líquido entre as classes populares, e um aumento do consumo de derivados sofisticados, dirigidos, principalmente, às classes média e alta.

O poder da Nestlé começa ao nível da produção da matéria-prima.

Para uma empresa com tamanha força econômica, os produtores de leite formam um interlocutor fracionado e fraco. O elemento determinante da relação entre fornecedores e indústria — o preço de compra do leite — é fixado pelo Estado, de maneira a garantir a captação do sobretrabalho criado, na produção leiteira, pela empresa de transformação. Assim, os produtores não realizam sua renda fundiária, nem recebem remuneração pelo seu capital: o preço que recebem pelo leite garante, quando muito, a reprodução de sua força de trabalho familiar.

Os fornecedores de leite, apesar de proprietários de seus meios de produção, e mais particularmente da terra, foram subordinados à empresa em vários aspectos. Para eles, é particularmente difícil passar a vender seu produto para outra compradora: a dependência criada por serviços de ajuda sanitária e assistência técnica, venda de reprodutores e implementos agrícolas ao preço de custo etc. é reforçada pela rigidez das “linhas” de transporte do leite. A Nestlé oferece, também, aos seus fornecedores, uma garantia financeira que contrasta com os graves problemas enfrentados atualmente pelas empresas de laticínios de menor porte.

Através de seu controle da recepção do leite, impõe normas de qualidade e quantidade aos seus fornecedores. Para isso, é ajudada também pelo trabalho de assistência de seus técnicos. A empresa consegue transferir, assim, para os produtores, os riscos que enfrenta na comercialização de seus produtos, reduzindo seu recebimento quando não lhe convém expandir seus estoques. Sua influência é fundamental nas principais decisões do processo produtivo, como a quantidade de leite a ser produzida e as técnicas a serem utilizadas para isso.

Para os produtores, fica particularmente difícil abandonar a produção leiteira, apesar de sua rentabilidade pequena ou, muitas vezes, até negativa. Os mais capitalizados estão ligados a compromissos bancários que os obrigam a continuar produzindo nos mesmos termos. Aos pequenos produtores tradicionais, por sua vez, faltam alternativas que lhes garantam rendimentos regulares desse tipo.

Comprando grandes quantidades de leite nas bacias leiteiras próximas às metrópoles, o grupo suíço provocou uma redução do leite líquido disponível no mercado. De outro lado, começou a desenvolver amplas campanhas publicitárias, para provocar um novo tipo de demanda entre os consumidores. As “necessidades” do público foram redirigidas para laticínios cada vez mais sofisticados e cada vez mais caros, embora estranhos aos seus hábitos alimentares tradicionais.

O exemplo que foi tratado aqui, o da difusão do leite “maternizado”, demonstrou claramente como as classes populares se tomaram as principais vítimas desse redirecionamento na nutrição de recém-nascidos: não somente expõem seus filhos a todos os perigos ligados à desnutrição, mas ainda gastam, para isso, parte importante de seu salário, tomando-se dependentes da aquisição de um produto muitas vezes supérfluo.

Como decorreu esse processo?

As análises disponíveis até hoje sobre-enfatizaram o papel das transnacionais do leite, culpando-as de desenvolver amplas campanhas publicitárias entre populações desprevenidas e “indefesas”. Essa atuação, no entanto, deve ser vista dentro do quadro mais amplo da expansão do capitalismo no Terceiro Mundo: integra-se no movimento geral de acumulação do capital industrial e da evolução ideológica dele decorrente.

Esse processo depende da criação de novas necessidades, dirigidas para produtos com valor agregado cada vez maior.

Como a Nestlé foi muito criticada por suas campanhas publicitárias “abusivas”, teve de tornar sua influência sobre os consumidores mais sutil: atualmente, são os profissionais de saúde os principais intermediários na difusão de sua ideologia e de seus produtos infantis.

Com a difusão do leite em pó “maternizado” entre mulheres capazes de alimentar seus filhos de maneira natural e autônoma, a empresa acabou reforçando a integração das classes populares no sistema capitalista de distribuição e de consumo. Quanto ao Estado, sua omissão quase total somente pôde favorecer esse processo.

Utilizando seu importante poder econômico, a empresa redirecionou, em seu favor, os setores de produção e de consumo de produtos lácteos, acabando, mais uma vez, com dois mitos ainda vigentes entre certos setores da sociedade brasileira: o da “independência” dos produtores rurais e o da “liberdade” dos consumidores.

Seria ingenuidade acreditar que a Nestlé possa perseguir outros objetivos além da extensão de seus mercados e de seu lucro. Não se trata de culpar as empresas transnacionais por este comportamento, que corresponde às suas necessidades dentro do processo de acumulação capitalista. Trata-se, porém, de chamar a atenção para a gravidade desta evolução, tão complexa e presente em aspectos tão diversos da vida econômica e cultural do país. É preciso ser consciente da amplitude do fenômeno que está ocorrendo, tanto no campo quanto na cidade: a cada dia que passa, nossa dependência está crescendo, pela imposição de novos modelos produtivos e dos modelos culturais correspondentes.

Este trabalho tentou investigar alguns aspectos específicos da evolução citada, na esperança de que as informações recolhidas possam ser utilizadas dentro de uma luta mais ampla, que deverá ser desenvolvida a nível econômico, político e cultural.