Agricultura, cooperativas e multinacionais
2.5 Assistência Nestlé aos produtores de leite
Segundo a própria empresa, o sucesso da implantação de suas fábricas depende de dois fatores básicos: a existência de uma eficiente equipe de assistência técnica e a organização de um bom sistema de recolhimento de leite. Esses dois fatores são essenciais ao desenvolvimento da produção leiteira das regiões escolhidas, mas constituem, também, as chaves da relação de subordinação criada entre a Nestlé e seus fornecedores.
2.5 Assistência Nestlé aos produtores de leite
O serviço de assistência técnica da empresa, a ANPL (Assistência Nestlé aos Produtores de Leite), foi criado em 1952 e contava, em 1976, com 107 técnicos responsáveis pela ligação entre a Nestlé e seus mais de 20 mil produtores não-associados a cooperativas. Segundo a empresa, esse serviço foi criado para resolver o problema da irregularidade do fornecimento e aumentar a produtividade, racionalizando a produção de seus fornecedores.
A ANPL apoia suas atividades técnicas em alguns pontos básicos. O primeiro é a necessidade de uma alimentação adequada para o gado, produzida, na medida do possível, na própria fazenda, para permitir uma economia de razões concentradas: a equipe técnica ajuda na formação de pastagens e de capineiras, e incentiva muito a introdução de silagem nas fazendas. Outra atividade essencial é sua ajuda na profilaxia do rebanho e na higiene da produção: seus técnicos ensinam, por exemplo, como aplicar vacinas e pulverizar o gado contra ectoparasitas, facilitando a aquisição dos remédios e equipamentos necessários.
A empresa participa ainda, ativamente, da melhoria progressiva do rebanho: mantém granjas experimentais, onde cria reprodutores de linhagem, para serem vendidos aos fornecedores pelo preço de custo, em prestações mensais retidas do pagamento do leite fornecido. Essa assistência financeira não se restringe à venda de bezerros pela empresa, mas atinge também a aquisição de insumos, a construção de silos ou estábulos etc. Raramente se trata de montantes muito elevados, mas, mesmo para quantias reduzidas e prazos de alguns meses, cria laços de forte dependência entre os produtores e a empresa.
Esse trabalho de assistência é baseado em pesquisas de campo regulares, que fazem um levantamento das técnicas produtivas utilizadas pelos produtores e da estratégia a ser seguida pela ANPL. No quadro 6, temos um apanhado das atividades deste órgão entre os produtores, de 1972 a 1976.
Fica claro, no quadro a seguir, o grande incentivo fornecido pela ANPL à formação de capineiras e de silos nas propriedades dos seus fornecedores. A tonelagem dos novos silos construídos com a
ajuda da Nestlé se elevou a uma taxa média anual de 7l%.4 Por outro lado, os financiamentos de equipamentos e máquinas parecem estar se tornando cada vez mais secundários.
A empresa incentiva a compra de remédios e sementes pelos seus fornecedores de duas maneiras: ou comprando esses insumos em grande quantidade, para revendê-los, ou, então, facilitando sua aquisição direta, através de financiamentos. A ANPL também busca divulgar novas técnicas de seu interesse, através de reuniões de produtores de leite e publicação de folhetos e histórias em quadrinhos, redigidos em linguagem simples. Colabora, também, com organismos oficiais de assistência técnica, e mantém convênios com Escolas de Veterinária e com o Instituto de Zootecnia, da Secretaria de Agricultura de São Paulo.
As informações anteriores podem ser lidas em qualquer artigo de propaganda da Nestlé. A imagem que quer difundir sobre o trabalho de seus serviços de assistência é essencialmente técnica, e privilegia sempre sua colaboração para o aumento da produção. A função da ANPL, no entanto, é bem mais vasta que isso, e abrange mecanismos que a empresa desenvolveu para tentar subordinar os produtores.
O que interessa saber, no caso, é como funciona concretamente esse sistema de assistência técnica. Está organizado em torno de algumas fazendas prioritárias, que servem de foco de irradiação das
técnicas a serem implantadas.5 A escolha das fazendas prioritárias é feita em função de uma pesquisa prévia sobre quem são as lideranças da região. Essas lideranças são constituídas, na maioria dos casos, de grandes produtores, mas podem, também, ser formadas de produtores médios ou pequenos que irão crescendo. São escolhidas por sua influência entre a população local é receberão o privilégio de uma assistência bem mais intensiva e de uma prioridade absoluta no trabalho dos técnicos (enquanto, muitas vezes, pequenos produtores isolados e de produção insignificante nunca viram os técnicos da empresa, em 27 anos de existência da ANPL).
O favorecimento das lideranças entre seus produtores de leite é importante para a difusão das novas técnicas de produção: os fazendeiros comumente são mais influenciáveis pelo que acaba de ser implantado na fazenda do “vizinho rico e bem-sucedido”, do que pelos conselhos de técnicos que não arcam com os riscos da produção. De outro lado, é importante que a empresa possa contar com a simpatia dessas lideranças, para não ser ameaçada por elas na hora em que surgem novos concorrentes na região, em busca de leite cru. Como raramente um produtor muda de comprador sozinho (ele faz parte de uma corrente ou “linha de leite”), deverá convencer vários produtores da linha a mudar com ele, para que o transporte do leite até a nova usina seja mais “rentável”. É evidente que, nesse esquema, interessa muito à Nestlé que as lideranças tenham estreitos laços de dependência em relação a ela, laços criados pelo medo de perder os benefícios de uma assistência técnica prioritária.
Com essa política de favorecimento de alguns fornecedores mais dinâmicos, o grupo transnacional participa, ativamente, do processo capitalista de diferenciação dos produtores: um número restrito, escolhido, pela empresa, por suas características pessoais de liderança e por suas possibilidades de capitalização, é incentivado prioritariamente a aumentar sua produção e sua renda, enquanto a grande maioria dos produtores é relegada a um segundo plano e
recebe somente uma assistência episódica. 6
A Nestlé, graças a seu serviço de ajuda técnica e à sua constante demanda de leite, que dá ao produtor a certeza de sempre conseguir vender seu produto, incentivou um aumento espetacular da produção nas regiões em que se instalou. Em Araras (SP), por exemplo, onde foi implantada sua primeira fábrica no país, de uma pequena produção inicial de 2 mil toneladas de leite fresco, em 1921, passou-se a industrializar 700 mil toneladas, em 1975. Não se pode afirmar que tal crescimento se deva exclusivamente à presença da Nestlé na região, mas seu papel foi, sem dúvida, importante.
É inegável que o grupo suíço conseguiu aumentar a produção das regiões em que atua, mas já vimos, também, que esse crescimento nem sempre corresponde a um aumento proporcional da renda dos produtores. De outro lado, em certos momentos, a empresa está mais interessada em diminuir seu recebimento que em aumentá-lo. O que faz, nesse caso? Manda seus técnicos para o campo, aconselhando os produtores a diminuírem a administração de ração, porque suas vacas precisam descansar, e provoca, assim, um decréscimo da produção de leite. Ou, como disse um produtor ligado à empresa: “O papel do técnico é convencer o fazendeiro de que o que é vantagem para a companhia também é vantagem para ele”.
Para conseguir influenciar os fornecedores dessa maneira, é necessário que estes sintam certa confiança no técnico da empresa. Isso explica a importância dada pela Nestlé (e realçaria em suas publicações) ao “bate-papo” que o técnico terá, com os produtores, sobre o tempo, a colheita etc. Esse “bate-papo” informal é, ainda, essencial para informar a empresa sobre as dificuldades ou os projetos de seus fornecedores.
A ANPL desempenha um papel importante na relação entre a empresa e seus fornecedores, mas esse papel também não pode ser superestimado: os produtores não escolhem vender seu leite para a Nestlé por causa de seu serviço de assistência técnica, mas, sim, porque é “boa compradora” (ver mais para a frente). Além disso, tem-se notado, durante os últimos anos, que a empresa está desativando a ANPL em suas regiões de implantação antiga: ela não parece mais preencher uma função essencial, quando o fornecimento de leite é considerado satisfatório.