Agricultura, cooperativas e multinacionais

Odacir Luiz Coradini · Capítulo 39 de 43

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Agricultura, cooperativas e multinacionais

3.4 A ideologia da comunidade de interesses

tem uma aceitação popular generalizada.8 Por outro lado, as empresas precisam desses mercados porque seus países de origem não comportam mais condições de crescimento da demanda de alimentos infantis, como vimos anteriormente.

Não suspenderam a produção de leite em pó, mas mudaram radicalmente seu esquema de propaganda: os excessos denunciados foram desaparecendo aos poucos e a publicidade tornou-se mais sutil e difusa. A filial brasileira da Nestlé, por exemplo, abandonou, pelo menos nas grandes cidades, a prática de entregar latas de leite em pó para todas as mães que deixem as maternidades, como tinha feito anteriormente. Parou também com as campanhas publicitárias de massa para divulgar esse produto.

A estratégia da empresa no Brasil hoje não se dirige prioritariamente às consumidoras diretas, que seriam as mães, e sim aos seus principais conselheiros, os médicos pediatras, na esperança de que o saber médico se torne um intermediário na difusão de sua ideologia e, pela mesma ocasião, de seus produtos.

 

3.4 A ideologia da comunidade de interesses

Muito receosa das críticas segundo as quais seria responsável por desnutrição infantil em vários países, a Nestlé demonstra um extremo cuidado quando libera informações sobre seu funcionamento e suas atividades nos países periféricos. Aí, realiza um importante trabalho para apagar as contradições existentes entre seus interesses próprios e os das classes populares.

Como consegue resolver essa contradição? Realçando sua utilidade pública e falando de incentivo à produção leiteira nacional, pesquisa

nutricional, trabalho junto a médicos pediatras etc.9 Desenvolve esses temas para mostrar como consegue alcançar “ao mesmo tempo, a felicidade de seus acionistas e das populações junto às quais trabalha no Terceiro Mundo” (Veiga, 1976).

Essa “comunidade de interesses” levantada por Veiga será analisada, aqui, em tomo de dois aspectos básicos, o de sua tarefa pediátrica e o de seu impacto econômico e humanitário nos países em que atua.

3.4.1 “A Serviço dos profissionais de saúde”

A Nestlé e os médicos pediatras

A indústria suíça enfatiza constantemente suas atividades no meio médico e quer ser vista como se colocando “a serviço da pediatria”. Sua atuação nesse sentido é múltipla: patrocina congressos, organiza cursos de atualização para pediatras, faz doações a universidades e hospitais, edita o Boletim Informativo da Sociedade

Brasileira de Pediatria e duas revistas científicas de pediatria. 10 Citando as palavras da empresa:

Esses cursos, como também palestras, ciclos de conferências e

congressos, com a presença dos maiores nomes do país e do

exterior na matéria, têm sido a maneira que encontramos de

levar aos médicos dos mais diferentes pontos do país a nossa

contribuição para que se estabeleça um intercâmbio de

informações e [que eles] recebam as ideias mais novas em seu

importante campo científico. (Cinquenta anos de uma presença

familiar [s/d])

Esse tipo de atuação resulta numa influência direta na formação dos pediatras brasileiros e num importante controle das informações que podem chegar até eles, seja através de publicações especializadas, seja através de cursos ou congressos.

A produção escrita da pediatria brasileira é quase totalmente controlada pela empresa. Esta aproveita seu controle para difundir sua ideologia ou para, pelo menos, impedir que seja questionada. O mesmo fenômeno pode ser apontado em sociedades e congressos médicos e começa a ser denunciado pelos próprios pediatras:

Algumas sociedades especializadas, pelos seus prêmios, pela

sua ajuda financeira e numerosos outros favores, funcionam, na

realidade, como departamentos de propaganda da principal

indústria de leite em pó do país. (…) O resultado dessa situação

é que a questão do leite, através da desnutrição, torna-se sério

problema médico-social do país, sendo, não raro, sua

abordagem reduzida nos congressos médicos, para não

constranger os industriais que “generosamente” os financiam

(…). (Barbosa Filho, 1977)11

Nos congressos nacionais de pediatria, é prática corrente os participantes realizarem sua inscrição e suas reservas através da empresa. Quanto aos conferencistas, ela se encarrega de seus

honorários, assim como de vários custos acarretados pela viagem.12

A empresa é muito bem informada sobre tudo que concerne à profissão pediátrica: tem, por exemplo, uma lista completa dos médicos pediatras dos principais Estados, coisa que nem a Associação Médica tem condições de informar.

A preocupação da Nestlé em controlar — ou, pelo menos, em influenciar — os pediatras se concretiza dentro de um duplo processo: de um lado, vimos que tenta apropriar-se do conhecimento médico, influenciando os temas de ensino nas universidades, as pesquisas e os encontros científicos. De outro lado, aproveita-se do poder médico, para melhor chegar aos consumidores. São os próprios profissionais de saúde que, como prestigiosos intermediários, divulgam a ideologia da empresa de uma forma eficiente e dificilmente questionável.

Por que a Nestlé escolheu essa estratégia para difusão de seus produtos? A resposta a essa pergunta é muito simples: se a empresa se dirige a você, consumidor, através de sua propaganda clássica, e tenta persuadi-lo a comprar uma lata de leite em pó para seu filho, sua reação vai ser uma; mas se é um médico especialista, um pediatra, que lhe aconselha a mesma coisa, sua reação vai ser bem diferente. A mensagem tem um peso maior, porque passa pela aprovação da autoridade médica. A empresa usa a imagem ideológica do “médico-especialista-proprietário do conhecimento”, para tentar impor seus produtos nos hábitos de consumo cotidiano. O costume de doar alimentos aos filhos de pediatras durante seu primeiro ano de vida tem, fora do objetivo de ganhar a simpatia desses pediatras, uma consequência da mesma ordem: “Se os próprios pediatras administram produtos Nestlé aos seus filhos, esses produtos devem ser bons e podemos imitá-los”.

A empresa publica livretos de divulgação de regras de puericultura, que são distribuídos aos pediatras, os quais, por sua vez, podem dá-los aos seus clientes. Analisamos dois exemplares desses fascículos (Castro Filho, 1974 e 1977): nota-se que destacam o fato de terem sido escritos por um médico, mas nenhum dos dois cita a empresa como sendo seu órgão financiador ou editor. Parecem brochuras que respondem à requerida “objetividade científica”. No entanto, ambos apresentam a Nestlé como a única produtora de alimentos infantis no Brasil e dedicam 85% de suas páginas à descrição dos leites em pó e dos alimentos infantis preparados dessa empresa. Esse tipo de propaganda disfarçada tem um peso maior e provoca resultados mais importantes do que a publicidade tradicional, exatamente porque apela para a autoridade médica.

A opção da Nestlé de utilizar os médicos como intermediários em suas vendas deu resultados inegáveis. Vários estudos demonstraram a relação existente entre a “medicalização” do parto (medida pela crescente divulgação de exames pré-natais e de partos hospitalares) e a diminuição da amamentação. Vale a pena citar um desses trabalhos aqui, porque demonstra a existência dessa causalidade de uma forma aguda. Registrou a tendência gráfica do declínio do aleitamento natural numa comunidade de origem rural, durante 25 anos, e constatou um aumento inesperado dessa atividade durante o biênio 1967-1968. Essa época coincide exatamente com o fechamento do único hospital da cidade (Campos Júnior, 1978)!

A Nestlé e as mães

Receosa de críticas, a Nestlé é bastante discreta e sutil nos folhetos que distribui nas maternidades brasileiras. A propaganda para seus leites em pó e alimentos infantis é integrada dentro de uma vasta campanha para difusão de métodos modernos de tratamento das crianças. Em Cuide bem de mim. Como cuidar do bebê nos seus primeiros 12 meses de vida, por exemplo, uma brochura editada pela empresa e distribuída em maternidades, não faz uma propaganda direta e exclusiva para os produtos que coloca no mercado: a alimentação do neném é somente um dos temas abordados. O livreto traz numerosas informações sobre aspectos de puericultura moderna. Parece ter sido escrito para crianças de uma sociedade ocidental muito desenvolvida: as recomendações de higiene do bebê e de limpeza do seu meio ambiente não correspondem, de maneira alguma, às condições da maioria da população brasileira.

Graças às ilustrações de folhetos desse tipo, à sua propaganda e a suas atraentes embalagens, a empresa provoca, nas mães das várias classes da sociedade, uma associação entre um rosto de neném feliz, sadio e rico, e as latas de produtos infantis Nestlé. As mães de famílias pobres aprendem (como empregadas domésticas, por exemplo) que as mães de classe média e alta — que também querem dar “o melhor” para seus filhos e são mais “informadas” que elas — usam mamadeira e leite em pó. São levadas, assim, através da propaganda da empresa e da imitação dos costumes da classe dominante, a desvalorizar o leite materno e a adotar métodos “modernos”, que exigem sua integração dentro do sistema capitalista de distribuição e de consumo.

Vimos que a propaganda feita pela Nestlé nas maternidades brasileiras faz parte de uma campanha mais vasta de conselhos dirigidos às mães. A empresa participa ativamente da difusão de regras de uma puericultura moderna mais adaptada à sociedade de consumo.

Em lugar de valorizar os métodos que reforçariam a autonomia das classes populares em relação ao mundo do consumo, os programas de saúde pública deixam a iniciativa ao setor privado. Este elogia os princípios de uma puericultura ocidental consumista, esperando que, uma vez aceitos tais princípios, isso provocará um aumento no

consumo dos produtos que coloca no mercado. 13

As instituições de saúde

O ambiente dos serviços brasileiros de saúde já foi mencionado como podendo inibir o reflexo de lactação das mães. Um aspecto essencial desse problema reside no modelo organizacional das maternidades em torno de berçários, copiado da situação tradicionalmente encontrada nos EUA. Segundo esse modelo, os recém-nascidos são separados de sua mãe logo depois do parto e levados para um berçário, onde serão entregues aos cuidados de enfermeiras. Cada uma delas é encarregada de 20 a 30 crianças, e lhes dará automaticamente a mamadeira, antes que sejam levadas até as mães, e sem o consentimento prévio destas últimas. É uma fácil solução encontrada pelos hospitais para diminuir os — segundo eles — inúteis vaivéns entre o berçário e os quartos das mães. Permite diminuir o número de enfermeiras e, por conseguinte, os custos de funcionamento do hospital. Alimentadas com leite em pó, as crianças ficam mais rapidamente saciadas. Seu tempo de digestão é maior do que se tivessem ingerido leite materno e elas, consequentemente, dormem mais, o que garante maior tranquilidade às enfermeiras.

A separação entre mãe e filho dura 12, 24 ou 48 horas, segundo o regulamento interno da maternidade. Habitualmente, a entrada das mães no berçário é proibida e elas somente poderão dar a primeira mamada depois desse período. Isso influenciará negativamente seu reflexo de lactação, assim como o reflexo de sucção das crianças, já acostumadas, nessa altura, ao uso da mamadeira.