Educação nova: as bases, o corpo da criança
Pedologia Somática
«La nature a, pour fortifier le
corps et le faire croître, des
moyens qu'on ne doit jamais
contrarier».
Livre II, 99, d'Emile, de
J. J. R
Pedologia Somática
(O Corpo da Criança)
CAPITULO I
Fases da vida dos organismos. «Crescimento»; suas
espécies;
e modos de o estudar.
Leis do «crescimento»; e factores que o modificam.
1.—Existem na vida dos sêres organizados (cada vez mais acentuadamente, à medida que da planta se passa ao animal e dêste ao homem) tres fases ou períodos (de desigual extensão) que, por suas características essenciais, se tornam dissemelhantes e irredutíveis uns aos outros:
1) um tempo de crescimento (anabolia), que se efectua, por virtude dum predomínio da assimilação funcional sobre a desassimilação orgânica;
2) uma fase de decadência ou decrescimento (catabolia) determinada, de modo inverso, pela preponderância da desassimilação sobre a assimilação;
3) um período de relativa estabilidade ou equilíbrio biológico (probolia), durante o qual o organismo se reproduz.
Temos, pois, uma época construtiva, de integração orgânica que, depois da fase êmbrio-fetal, se realiza durante um têrço aproximadamente da vida humana (desde a nascença até à nubilidade); um período destrutivo, de desintegração biológica, que prepara e acompanha a velhice e conduz à morte; e, finalmente, uma época intermediária, que subsiste, durante a juventude e a maturidade.
2.—A Pedologia, considerando apenas a primeira fase do metabolismo humano, distingue entre o «crescimento» normal e o «crescimento» anormal; e, em ambos, atende tanto à morfologia (desenvolvimento estrutural), como à fisiologia (desenvolvimento funcional).
Abandonando o estudo do «crescimento» anormal à pediatria e à psiquiatria; e, reenviando o leitor, em matéria de «crescimento» normal, na parte relativa à vida intra-uterina, para os tratadistas da embriologia, restringiremos o nosso trabalho à análise da ontogénese do organismo humano, desde o nascimento até à idade adulta.
Sob o aspecto estrutural, o corpo da criança, através das idades de evolução, varia, em função do tempo:
1) nas dimensões
2) na forma
3) nas proporções
4) nos elementos, de que se compõe.
E, quanto ao desenvolvimento fisiológico, todos sabem que as funções orgânicas divergem com a idade, e que há certos fenómenos, cuja manifestação se verifica apenas em fases já avançadas do «crescimento».
A criança transforma-se, pois; isto é, adquire as características da idade adulta, por uma série de transformações contínuas, cuja sucessão é determinada, e cujo
aparecimento [37] e limites são função do tempo.
A isto se chama «crescimento» que, como veremos, pode ser absoluto ou relativo, consoante se referir ao ritmo da evolução, ou às proporções do corpo, nas diferentes idades desta.
3.—Para estudar a dinâmica do «crescimento», servem-se as sciências pedológicas da pedolexia (observação da criança) e da pedometria (mensuração da criança).
A análise incide, tanto sobre os órgãos e os sistemas, como sobre as funções; e as medidas somáticas devem ser individuais, periódicas e polimétricas, isto é, devem abranger todos os segmentos do organismo.
É o que se designa pela expressão de método auxanológico.
Reduzindo a esquêma esta processologia, temos:
Estrutural (exame dos órgãos)
Pedolexia (Observação da
criança)
Funcional (exame das funções)
Investigação do
«crescimento»
craniométrica
toracométrica
Pedometria (Mensuração da braquiométrica criança)
cruriométrica
pelvimétrica
4—Em o nosso país, as observações e mensurações, realizadas no intuito de conhecer as leis do «crescimento», são pouco numerosas; todavia, algumas existem; e, na verdade, em quantidade bastante, pelo que respeita ao «crescimento» absoluto, cujo ritmo, como adiante se verá, reputamos, em relação ao sexo masculino, suficientemente estabelecido e determinado.
Mas, em matéria de leis do «crescimento», importa separar aquelas que, por sua natureza mesma, se tornam extensivas a tôdas as crianças, seja qual fôr o meio em que vivam, e as raízes antropológicas, donde procedam; e aquelas que pertencem exclusivamente às crianças de cada agregado social, e não abrangem senão os indivíduos que participam dum género de vida análogo, e promanam de uma mesma origem étnica.
Enumeraremos, entre as primeiras, como mais importantes:
1) a lei de Buffon (a que chamaremos de contraste), em virtude da qual o feto cresce, cada vez mais, à medida que se aproxima do nascimento, ao passo que a criança cresce, cada vez menos, à medida que se avizinha da puberdade;
2) a lei da periodicidade, que regula a sucessão de esfôrço e repouso (relativo), na dinâmica do crescimento;
3) a lei da alternância, por cuja virtude os membros do corpo (sobretudo, as pernas) crescem principalmente antes e durante a puberdade, e o busto, depois;
4) a lei das compensações, que se revela na aceleração do crescimento de certos
órgãos [38] , em relação a outros mais desenvolvidos.
À segunda categoria pertence, alêm da lei do ritmo (modalidade ou manifestação da lei da periodicidade), a lei das proporções, que preside a tôda a dinâmica do crescimento relativo.
5.—Estas leis, como resumo e expressão, que são, das relações entre os fenómenos considerados, incluem, tambêm no caso presente, o conceito das causas ou dos factores que agem sôbre o «crescimento».
Indicaremos:
1) entre os determinantes fisiológicos: a raça, a gestação, o sexo, a consanguinidade e a alimentação;
2) dos factores mesológicos: o meio cosmo-telúrico (clima, estações, ar livre, claustração, etc.) e social (vida citadina, e de campo, profissões e ocupações sociais, etc.);
3) dentre os agentes patológicos: as doenças (crónicas, ou agudas), o raquitismo, a insuficiência tiroidiana, os estados neuropáticos, etc.;
4) finalmente, das causas pedagógicas: os exercicios físicos, a gimnástica, os jogos, etc.
Cada um dêstes factores age, a seu modo, sobre o mecanismo do «crescimento», robustecendo ou embaraçando, consoante as circunstâncias, a energia intra-