Educação nova: as bases, o corpo da criança
CAPÍTULO VIII Higiene do «crescimento»; exercícios físicos: jogos e gimnástica
Percentagens da mortalidade das crianças da primeira
infância,
na cidade de Coimbra
Por essa ocasião, as crianças sofrem, muitas vezes, de dôres nos ossos, nas articulações, nos músculos; teem cefalalgias, freqùentes; padecem de cloro-anemia, de neurastenia, de perturbações cardiacas; experimentam mutações bruscas de temperamento e de carácter;
sentem [163] impulsividades mórbidas ; etc., etc..
Ora, tôda esta sintomatologia constitui aquilo a que chamaremos o sindroma do crescimento desigual, cujas causas profundas se devem procurar, concretamente, em factos, de natureza análoga à dos dois que vamos indicar: 1) a coincidência da suspensão ou
abrandamento (aliás, normal) do crescimento cutâneo, por ocasião da puberdade, com o aumento, alêm de tôda a medida, dos ossos longos, por virtude dalguma
infecção do organismo[164], ou de qualquer outra causa, de ordem bio-química; 2) o crescimento desencontrado do eixo cinzento (medula) e do canal ósseo que lhe
serve de baínha [165] (coluna vertebral).
CAPÍTULO VIII
Higiene do «crescimento»; exercícios
físicos: jogos e gimnástica
1.—É evidente que para crescer bem, não basta deixar agir a natureza (embora isso seja essencial); mas tambêm é necessário auxiliar o crescimento, isto é, colocar o organismo em condições que sejam favoráveis à sua evolução normal, e impedir ou contrariar a acção dos factores, que possam ser prejudiciais a essa evolução.
Entre as práticas que a higiene aconselha, em ordem ao objectivo designado, ocupam primacial lugar os jogos infantis, e a gimnástica.
Os jogos são agentes naturais e instintivos do crescimento físíco e do desenvolvimento mental, sendo por virtude da sua eficiência que a hipertrofia do organismo se realiza com maior persistência e
eficácia [166].
Sem querermos arriscar um conceito definitivo acêrca da natureza intrínseca da actividade lúdica, diremos, entretanto, que nos parece ser o jôgo um efeito natural das leis biológicas, a que todos os organismos se submetem, nas suas relações com o meio, em que carecem de subsistir.
O jôgo é uma forma de adaptação, um prè-exercício (como lhe chamou Karl Groos), um ensaio ou uma
preparação para a vida [167].
Os instintos herdados, com a organização e a ela inerentes (instintos fundamentais) e, principalmente, os instintos derivados dêstes (instintos adquiridos) não aproveitariam tam perfeitamente à vida dos organismos, como lhes aproveitam, pela eficiência dos jogos, que não se destinam, senão a desenvolver, radicar e robustecer essas energias latentes, de cuja acção
depende aquela [168] vida.
Mas, alêm desta função primordial (tornar apto o ser para o fim, a que o destinam as leis da vida), servem ainda os jogos:
1) para desenvolver actividades novamente adquiridas;
2) para estimular o «crescimento»;
3) para reduzir e canalizar tendências nocivas;
4) para criar e manter hábitos sociais;
5), finalmente, para corrigir a fadiga e regenerar as energias, gastas pelo trabalho orgânico.
Os jogos são muitos, e variam, de país para país e, dentro de cada nação, de província para província e até de localidade para localidade, consoante o género de vida, as tendências, as aptidões, os usos e costumes, e as necessidades físicas, morais e sociais das respectivas populações.
Tem-se procurado classificar os jogos; mas, em virtude da multiplicidade dos critérios adoptados, falta unidade
de vistas [169] , e não há acôrdo nas classificações.
Entre nós, tambêm o problema não tem sido descurado, embora os trabalhos empreendidos sejam raros e
incompletos [170].
Nós, reconhecendo que, sob o aspecto pedagógico, os jogos constituem outros tantos meios, admiravelmente eficazes, de auxiliar o «crescimento»; desenvolver a inteligência; aguçar a sensibilidade; robustecer e disciplinar a vontade; e formar o carácter, agrupamos os jogos, nas seguintes categorias:
1) jogos motores (ou somáticos, porque desenvolvem o organismo);
2) jogos sensoriais (porque educam os sentidos e promovem a destreza e precisão dos movimentos);
3) jogos experimentais (porque aperfeiçoam a inteligência, e satisfazem o instinto de curiosidade das crianças);
4) jogos afectivos (ou emocionais, porque fomentam a cultura da sensibilidade);
5) jogos inibitórios (porque despertam a atenção e educam a vontade); e, finalmente,
6) jogos estéticos (ou artísticos, porque estimulam os sentimentos desinteressados da criança).
O seguinte esquema resumirá o nosso ensaio de classificação (segundo o critério adoptado) dos jogos portugueses, mais conhecidos e praticados, em todo o país.
2.—Do mesmo modo que os jogos, também a gimnástica interessa ao «crescimento»; não, porêm, a gimnástica pedagógica (útil apenas à formação do carácter), e muito menos a gimnástica atlética, que perturba e pode comprometer até a marcha e o
equilíbrio do «crescimento»[171]; mas a gimnástica higiénica, e desta, a gimnástica respiratória, cuja prática é de manifesta vantagem à saúde do corpo e à
dinâmica da sua evolução [172].
marcha; carreira;
gerais salto; dança; luta; natação; patinagem;
escorregamento; etc.
motores
escondidas;
cantinhos; barra; eixo;
péla; arco; baloiço;
especiais papagaio; rodas e
rondas infantis;
guerras; jôgo dos
patos; etc.
tiro ao alvo; malha ou
gerais fito; jogos de
equilíbrio; etc.
sensoriais
homem; semana;
botão; ferrinho; pião;
cabra-cega; forquilha;
especiais
funda; inco, bilharda;
das cinco pedrinhas; o
recorte; etc.
damas; gamão;
dominó; xadrez; todos
gerais
os actos de
curiosidade; etc.
exprimentais
paciências; adivinhas;
especiais anel; disparates;
colecções; etc.
Jogos
jogos de imitação, e
gerais de imaginação; jogos
de fantasia; etc.
afectivos
a boneca; todos os
especiais actos de auto-ilusão
consciente; etc.
todos os actos de
domínio sôbre si
gerais próprio; auto-
imposições e auto-
repressões; etc.
inibitórios
fazer de estátua;
atitudes de
especiais
imobilidade, diante do
espelho; etc.
construções em terra,
areia, neve, etc.;
gerais modelagem; pintura, e
desenho de objectos;
jogos dramáticos; etc.
estéticos
combinações de
côres; repassagem de