Educação nova: as bases, o corpo da criança

Augusto Joaquim Alves dos Santos · Capítulo 40 de 72

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Educação nova: as bases, o corpo da criança

CAPÍTULO IX Evolução geral da mentalidade; fases desta evolução; e leis que a regulam. Os factores bio-psíquicos do «crescimento»

especiais desenhos coloridos;

etc.

 

São os seguintes os efeitos da respiração profunda, que a gimnástica respiratória promove e assegura:

1) activa as trocas gasosas, combinando uma maior quantidade de oxigénio com a hemoglobina do sangue;

2) descongestiona os órgãos internos, sobretudo, o cérebro;

3) regulariza as funções digestivas;

4) desenvolve a musculatura do tórax e do abdómen;

5) permite o arejamento das partes do pulmão, em que o ar não penetra, senão com dificuldade; finalmente,

6) auxiliando a assimilação e a desassimilação, facilita a atenção, roboriza a vontade, assegura a

disciplina[173].

 

CAPÍTULO IX

 

Evolução geral da mentalidade; fases

desta evolução; e leis que a regulam.

Os factores bio-psíquicos do

«crescimento»

 

1.—A vida mental da criança (psiquismo infantil) não pode isolar-se, em nenhuma das fases do seu progressivo desenvolvimento, da evolução do sistema nervoso, cuja trajectória segue, desde o útero.

É absolutamente incontestável que, sem cérebro, não

há consciência[174], e que a consciência se afirma sempre, na razão directa da complexidade e da

plasticidade do cérebro[175].

Certamente que não ousamos atribuir a causalidade da consciência à pura organização, como fazem os materialistas; mas apenas reconhecemos o facto averiguado da perfeita correlação e da coexistência necessária da actividade psíquica com a energia

cerebral [176].

Nos animais vizinhos dos vegetais (infusórios, pólipos, espongiários, etc.), do mesmo modo que (segundo parece) tambêm nos vermes, não existe ainda a consciência, mas tam sòmente irritabilidade e, quando

muito, [177] sensibilidade diferencial; à medida, porêm, que se organiza o sistema nervoso, as excitações (causas físico-químicas das reacções) vão-se convertendo em impressões, e estas em sensações que, pela sua diferenciação, acabam por gerar a consciência, e, depois, a auto-consciência, ou a capacidade de conhecer os próprios estados e

respectivas modificações [178].

Só a partir dos vertebrados, é que, por intermédio do cérebro, se torna possível a vida consciente e, com ela, a atenção, a memória, a imitação, a associação; numa

palavra, as chamadas [179] operações intelectuais.

2.—Conquanto, porêm, na criança que vem de nascer, exista já um cérebro completo, dum modo geral, em tôdas as suas partes essenciais, contudo, tanto a estrutura, dessas partes, como a aptidão para o seu funcionamento é que distam ainda muito daquele grau de perfeição, que se torna indispensável para a

integralidade da vida mental [180].

Estudos recentes, empreendidos por investigadores

eméritos [181], permitem estabelecer que, no encéfalo do recêm-nascido, a substância cinzenta do cérebro é constituída por células ainda imperfeitas; e que carecem de consistência e de fixidez as fibras nervosas que ligam os hemisférios aos gânglios da base do cérebro, às camadas ópticas, e aos corpos estriados,

dum modo geral, aos [182] centros sub-corticais.

Alêm disso, sabe-se hoje que, sòmente a partir do primeiro mês de vida extra-uterina, é que se acentuam e desenvolvem as circunvoluções, cuja estrutura se vai complicando, à medida que a superfície do cérebro

aumenta de [183] extensão e de volume; e, finalmente, tambêm é positivo que a mielinização do encéfalo, conquanto seja iniciada no útero, todavia, só se acaba, pela vida adiante, em fases já relativamente avançadas

da [184] evolução.

Quer tudo isto dizer que, mesmo sob a relação do pêso e do volume, o cérebro não nasce perfeito e completo; embora, comparado com o resto do corpo, traga, à nascença, um desenvolvimento que, numèricamente, se poderá computar na quarta parte (25%) do seu volume total.

O diagrama que, a seguir, publicamos (fig. n.º 19), representa o crescimento do cérebro, desde o início da vida intra-uterina, até à puberdade, em que atinge o seu máximo desenvolvimento, sob a relação do pêso e volume—absolutos.

Mostra êste gráfico que o pêso absoluto do cérebro aumenta, com a idade, ao passo que o seu pêso relativo diminue.

À medida que o organismo cresce, o cérebro, sem deixar de acompanhar êsse crescimento, até à puberdade, contudo, cada vez, cresce, com menor intensidade (como se verifica pelos aumentos, relativos a cada idade de evolução); e, ao mesmo tempo, acusa uma progressiva diminuição, nas proporções que

mantêm com o corpo [185].

Donde resulta que, sob a relação da quantidade, a evolução cerebral realiza-se e consuma-se antes da evolução somática, embora, sob o ponto de vista qualitativo, o cérebro continue a desenvolver-se.

O seguinte gráfico (figura n.º 20), completa o anterior, por isso mesmo que continua a curva da evolução para alêm da puberdade, no intuito de figurar, quantitativamente, tôda a vida do cérebro, desde que o homem nasce, até que morre.

Para compreensão, todavia, de todos os fenómenos da bio-dinâmica mental, torna-se necessário considerar o elemento qualitativo do crescimento cerebral, isto é, a sua capacidade fisiológica.

 

Esta capacidade (que tambêm não exclue o elemento quantitativo) compreende ou abrange a eficiência de tôdas as causas que possam concorrer para a organização da vida cerebral. Dentre essas causas (algumas pouco conhecidas, ainda), indicaremos, como mais importantes, as seguintes: 1) a composição química; 2) a quantidade de substância cinzenta; 3) o número e a complexidade das circunvoluções; 4) a morfologia do encéfalo; 5) a relação do cérebro com as outras partes do encéfalo; 6) as relações do mesmo órgão com a altura e, em geral, com a massa activa do corpo; 7) o exercício cerebral; 8) a experiência do indivíduo; 9) o arranjo molecular das células cerebrais; 10) as associações dinâmicas dos elementos nervosos,

etc., etc. [186].

Ora, se considerarmos todos êstes factores, desde logo, teremos de reconhecer a existência de uma outra curva: a da aptidão funcional do cérebro, cuja trajectória não coincide com aquela que exprime a sua evolução quantitativa, porque, como se verifica neste diagrama

(figura n.º 21) o cérebro continua a crescer, depois da puberdade (15 anos); e até com muito maior intensidade, a partir dos vinte anos; para só se deter, aos cinqùenta, em que estaciona (por tempo de dez anos, em circunstâncias normais), antes de decrescer,

como sucede, depois dos sessenta [187].

 

Se compararmos, porêm, agora, esta curva da bio-

dinâmica cerebral com a curva da consciência (figura

n.º 22), notaremos que, desta vez, entre as duas curvas, há um paralelismo perfeito, o que explica e ilustra estas palavras concludentes e profundamente autorizadas de A. Marie: «A sciência demonstra, de uma maneira absolutamente certa, o facto da simultaneidade e da correlação constantes e necessárias da actividade nervosa com a actividade mental, fazendo dessas actividades dois fenómenos inseparáveis, os quais nunca deixam de se manifestar conjuntamente, e nem se pode conceber que um se

produza, sem o outro[188].

3.—O estudo (embora rápido) que vamos fazer das fases da mentalidade, confirmará plenamente o nosso conceito da evolução da consciência, pois mostrará que, entre a inconsciência, em que a criança se gera, e a inconsciência, em que o individuo acaba, se escalonam vários graus de consciência, cada qual representativo de seu progresso, e todos ligados a estados orgânicos, até a um limite, cuja transposição importa, sempre e em tôdas as circunstâncias, a decadência e, com ela, a desorganização e a morte.

A consciência crepuscular, que o gráfico (fig. n.º 22) regista, como pertencendo ao período êmbrio-fetal da evolução humana, sem dúvida que não representa qualquer estado psíquico que possa diferenciar-se da pura cenestesia. O feto, conquanto, em verdade, constitua um reactivo mais enérgico até, do que a

própria mãe[189], contudo, carece de vida consciente, porque, com um cérebro ainda incipiente e sentidos apenas esboçados, não é susceptível das operações orgânicas, que condicionam aquela vida.

A expressão—psicologia embriológica—(de que, por vezes, usam os autores) nada mais pode significar, do que a espécie de semi-consciência, que se atribue ao nascituro, essa consciência onírica, sui generis, que se manifesta por um «sôno, sem sonhos», e à qual nós

chamamos [190] consciência crepuscular.

Para que haja verdadeira consciência (embora ainda embrionária ou rudimentar) é necessário que o indivíduo humano deixe a vida parasitária, em que persistiu, durante a gestação; e, pelo nascimento, adquira a vida independente, que usufruirá, até à morte.

 

Passiva, chamamos nós à consciência do recém-nascido, para significar que ela se reduz às sensações, que as impressões sensoriais determinam no seu cérebro ainda virgem; e aos instintos que deve à hereditariedade.

E será esta, depois do período êmbrio-fetal, a primeira fase da vida psíquica da criança, na sua evolução para a idade adulta.

Durante êste primeiro mês, o recêm-nascido sofrerá a crise grave, que deriva da mudança de meio, a que foi coagido, pelas energias do crescimento, e ensaiará as

primeiras [191] adaptações às novas condições de vida.

Os progressos, todavia, serão rápidos. Desde o fim do primeiro mês, até aos cinco anos (infância e primeira fase da puerícia), a actividade da consciência não cessará de intensificar-se, adquirindo a criança faculdades e aptidões, que lhe assegurarão (cada vez, com maior persistência e eficácia) o equilíbrio, de que carece, com o novo meio, em que tem de viver.

Por isso, atribuímos consciência activa ao organismo, que se encontra neste estádio da evolução psíquica; isto é, qualidades, energias e possibilidades, que se traduzem por actos neuro-psíquicos, de complexidade crescente, à medida que decorre a infância, e se entra na puerícia, a época inicial da auto-consciência, ou seja das operações superiores da vida mental.

Assim, com a puerícia (época do pensamento espontâneo, ou idade preguntadora, de Sully), alêm do desenvolvimento da linguagem (substituição gradual da

palavra concreta [192] , pelo conceito geral ou abstracto ),

aparece o espírito de curiosidade (tam peculiar às crianças desta idade); radica-se a atenção espontânea, e esboça-se a atenção voluntária; imperam as tendências que se inspiram nos interêsses perceptivos e glóssicos; surgem os primeiros ensaios da personalidade; e afirmam-se já, embora com carácter rudimentar, as leis bio-psiquicas da vontade consciente.

Depois, com a adolescência, e com a puberdade, a curva da dinâmica mental subirá sempre e, cada vez, com maior celeridade, para nunca mais se deter, senão na idade madura, em que, havendo atingido o máximo