Educação nova: as bases, o corpo da criança
CAPITULO III Insuficiência do estudo do «crescimento» absoluto para a solução de todos os problemas antropométricos. «Crescimento» relativo ou segmentar; sua determinação, tanto sintética, como analítica, pelo confronto dos respectivos elementos.
15 2445 69,5
16 2485 70,3
17 2660 71,6
18 3115 72,6
Observando, agora, a fisionomia geral da evolução torácica, tal como se esboça, em o nosso gráfico, a partir do plano horizontal, existente entre os oito e os nove anos, nota-se, desde logo, uma pronunciada ascensão da curva, que adquire gradual e progressiva intensidade, à medida que a criança se vai aproximando do fim natural, para que tende.
Logo, porêm, que êste movimento ascensional atinge os quinze anos (fase pubertária), a sua aceleração torna-se tam brusca e rápida, que quási se confunde com a vertical o fragmento de curva, que a exprime.
Chega, depois, o máximo (aos dezassete anos); e, conquanto (até à idade adulta) o tórax continue sempre
a [56] crescer mais, do que a estatura, todavia, daí por diante, nenhuma variação dêsse crescimento igualará jamais aquelas que, até lá, se produziram.
CAPITULO III
Insuficiência do estudo do
«crescimento» absoluto para a solução de todos os problemas antropométricos.
«Crescimento»
relativo ou segmentar; sua
determinação, tanto sintética,
como analítica, pelo confronto dos
respectivos elementos.
1.—A determinação do ritmo do crescimento não basta em Pedologia, porque, como vimos, há outras leis que as medidas sintéticas não revelam.
A estatura, como síntese que é das alturas segmentares do corpo acima do solo, valerá o que valêrem estas; por si só, essa medida apenas significa que tal pessoa é grande ou pequena, o que é de importância mínima, em pedometria; e, às vezes, até de valor negativo, como sucederá, por exemplo, nos casos de gigantismo com infantilismo, em que a estatura cresce, à custa doutras dimensões essenciais (largura, grossura, espessura) do
sólido humano[57].
Pelo seu lado, o pêso nem sempre deve ser considerado, como exprimindo um valor activo nos fenómenos do «crescimento», pois pode suceder que, em vez de uma densidade muscular, acuse uma densidade adiposa, a qual, como é óbvio, não passa de uma reserva e, às vezes, até dum obstáculo à seqùência normal daqueles fenómenos.
Não há dúvida que a medida do pêso, em circunstâncias normais e, sobretudo, a da sua evolução, constituem um meio excelente de avaliar da saúde e do estado de nutrição da criança; a verdade, porêm, é que não é êsse o único problema métrico a esclarecer: outros há que o pêso, só por si, não resolve.
Fig. 4Finalmente, o perímetro torácico (medida de valor apreciável, quando relacionada com outras medidas) presta-se tambêm a interpretações erróneas, por isso mesmo que pode representar, sob a máscara da gordura, um falso volume do organismo.
A conclusão impõe-se, em relação a cada uma das mensurações indicadas, considerada de per si; mas há casos, em que nem tôdas juntas inspirarão maior confiança.
Examine-se, por exemplo, êste retardatário (figura n.º 4), de quinze anos e meio de idade, o qual, a julgar pela altura (quási de adulto), pelo pêso (relativamente enorme), e pelo perímetro torácico (considerável), se deveria reputar em óptimas condições de crescimento; ¡e, todavia, não se trata senão de uma pobre criança que, à hora das suas mensurações, não havia ainda feito a puberdade, nem talvez jamais a chegasse a
fazer!...[58].
É um caso típico de infantilismo total, tanto somático, como psíquico.
A investigação scientífica do «crescimento» descobriu que uma das leis mais importantes dêste é a das proporções.
O vigor do organismo humano e o seu desenvolvimento normal, através das idades de evolução (infância, puerícia, adolescência, puberdade, nubilidade) não dependem sòmente do aumento, em altura, grossura, e densidade; mas tambêm e principalmente das dimensões relativas de todos os segmentos, que constituem êsse organismo.
Não é possível elaborar, acertadamente, um quadro de médias, considerando apenas as medidas enumeradas; o que importa é pesquizar a fórmula específica do nosso crescimento, construir o cânon antropométrico da criança portuguesa, em tôdas as idades, e de ambos os sexos.
Achado êsse padrão, por êle será aferido o «crescimento», sendo então fácil definí-lo e julgá-lo, com absoluta segurança.
2.—Os antigos falaram, por vezes, das proporções do corpo humano, nas diferentes fases da sua evolução; a verdade, porêm, é que só a sciência contemporânea
logrou resolver o problema [59].
Sem querermos aprofundar agora êste assunto, basta ponderar que, depois dos trabalhos definitivos de
Manouvrier[60], não é possível continuar a crêr nas curiosas ficções de Stratz que, havendo adoptado o critério de Vitrúvio, afirmava incluir-se, oito vezes, a cabeça, na estatura do adulto; sete, na do púbere; seis, na do adolescente; cinco, na do infante; e quatro, na do
recêm-nascido [61].
Não há de ser um segmento do corpo humano a medida comum das dimensões reaes dêste; mas uma unidade métrica exterior: o milímetro, como se acha estabelecido, em pedometria.
Seguindo na esteira desta orientação, e estabelecendo, desde já, o confronto das medidas sintéticas, de que dispomos, não padece dúvida, que o crescimento relativo da criança portuguesa denuncia, na sua marcha progressiva, uma clara influência da lei da alternância, e não se afasta sensivelmente das normas, a que se atende, em pedologia.
Comparando, por exemplo, a curva da altura com as
curvas do pêso (figura n.º 5) e do perímetro torácico
(figura n.º 6), reconhece-se, desde logo, que, em relação ao sexo masculino, tanto a densidade, como a grossura do organismo, só ultrapassam a altura, depois dos quinze anos, que é a época, em que as dimensões horizontais entram de contribuir mais, do que as verticais para o crescimento do sólido humano.
Pelo que temos observado, ininterruptamente, a partir de 1903, a puberdade masculina faz-se, em regra, entre nós, desde os catorze até aos dezasseis anos, e a
feminina [62] , desde os doze até aos catorze.
Normalmente, os 1 primeiros sinais da puberdade (P.)
aparecem, no sexo masculino, pelos treze ou treze anos e meio; no sexo feminino, pelos onze ou onze e meio; e a sua 3 1 instalação definitiva (P. A.), respectivamente, pelos catorze e doze anos. Alêm disso, importa notar que o 5 3, 4 ou 5 encerramento da fase pubertária (P. A.) se realiza sempre, ao cabo de dois anos, volvidos sôbre
aquela [63] instalação.
Examinando o gráfico da figura 5, vê-se que efectivamente o aumento progressivo do pêso se intensifica, a partir dos catorze anos; e que é precisamente aos dezasseis (P.5 5 A.) que a respectiva curva adquire sôbre a da estatura uma ascendência, que
jamais cessará[64].
Mas é natural; porque, como se depreende do gráfico n.º 6, a criança, principiando a engrossar, em progressão intensiva, dos quinze para os dezasseis anos (instalação definitiva, ou já encerramento da puberdade), claro está que aumentará de densidade; donde resulta o paralelismo, ou a semelhança fisionómica das duas curvas (pêso e perímetro torácico).
Em contraprova, examine-se ainda o gráfico da figura n.º
7, que inscreve (para confronto) as curvas do pêso e do perímetro torácico.
Depois dos nove ou dez anos, essas curvas caminham quási paralelamente (como não podia deixar de ser); e, só depois dos dezassete anos, em que é atingido o máximo absoluto comum, é que surgem inflexões, cuja natureza importa à pediatria explicar.
Em os nossos exemplares de observação e estudo, há um (do sexo feminino), em que se realizam, com notável precisão, as leis, a que nos temos referido. O crescimento, em altura, como se pode verificar, em face
do gráfico da figura n.º 8, acusa, pelos treze anos, um aumento considerável, que teve o seu início, por ocasião do aparecimento e instalação da puberdade; e podemos acrescentar que essa progressão não afrouxou ainda,
até a êste momento[65].
Mas não constituem os factos aduzidos todo o material, de que seja possível dispor, para a organização scientífica dos cânones antropométricos das idades evolutivas da criança portuguesa.
Temos medidas segmentares, que podem aproveitar a êsse fim; e vamos apreciá-las, no capítulo imediato.