Educação nova: as bases, o corpo da criança
Introdução
«On ne connoît
point l'enfance:...
Commencez donc
par mieux étudier
vos élèves car très-
assurément, vous
ne les connoissez
point.»
Preface d'Emile, III,
de
J. J. R .
INTRODUÇÃO
I
A criança; sua concepção bio-psíquica e
social
1.—Como organismo vivo que é, a criança, do mesmo modo que as plantas e os animais, está sujeita às leis físico-químicas e biológicas, que regulam a actividade de todos os sêres vivos, que existem à superfície da terra.
Mas, alêm da vida vegetativa, que pertence às plantas, e da vida sensitiva, que é própria dos animais superiores, possue ainda a criança a vida intelectual, apenas partilhada com o homem, do qual incessantemente se aproxima, desde o início da sua evolução.
2.—Por virtude da vida vegetativa, a criança «cresce», isto é, aumenta de volume e de densidade, à medida que se afasta do nascimento, de conformidade com as leis específicas, que determinam o ritmo e as outras características dêsse «crescimento».
Sob êste aspecto, a criança não tem outra função senão a de «crescer», isto é, de adquirir um desenvolvimento somático, cujo termo, em circunstâncias normais, só à hereditariedade pertence estabelecer e fixar.
3.—Mercê da vida sensitiva que, no sentido rigoroso do têrmo, é apanágio exclusivo dos sêres dotados dum sistema nervoso, a criança aprende, cada vez com maior eficácia e precisão, a manter com o meio, em que tem de viver, o equilíbrio, de que carece, para a conservação da sua vida, isto é, a adaptar-se.
Seja qual fôr o conceito que se fizer da sensação, como expressão mais simples, e elemento irredutível da consciência; mas, tendo em vista o processo evolutivo da diferenciação e da complexidade orgânica, não padece dúvida que o fenómeno da irritabilidade, que já se encontra no mundo vegetal, de par com os tropismos das plantas, pode ajudar a esclarecer o mistério da sensibilidade geral, que os animais superiores tambêm usufruem, e por cuja virtude a criança se torna capaz de tirar o máximo proveito das suas experiências, em
relação ao [2] mundo externo.
4.—Finalmente, pela vida do pensamento, que se manifesta sempre em perfeita correlação com o desenvolvimento cerebral, a criança adquire a capacidade de reagir, por um dinamismo progressivo, à acção das influências cosmo-telúricas, subtraíndo-se a essas e a outras influências, ou atenuando-as, em proveito da sua individualidade.
Manifestações desta vida (tambêm chamada de relação), alêm da espontaneidade, que torna possível a resistência ao automatismo dos instintos e dos hábitos orgânicos, são a reflexão, que prepara o advento e a consolidação da personalidade, e a tendência de integração no meio social, como uma das bases