Educação nova: as bases, o corpo da criança

Augusto Joaquim Alves dos Santos · Capítulo 37 de 72

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Educação nova: as bases, o corpo da criança

CAPÍTULO VI Fórmulas antropométricas do «crescimento» normal, nas idades de evolução. Anomalias do «crescimento»; sua determinação, pelo processo antropométrico.

Fig. 16

 

As duas figuras que, a seguir, publicamos, extraídas da Obra de Launois, já citada, são radiografias da mão e do joelho dum indivíduo de estatura gigantesca, que, pelos trinta anos, continuava a crescer. Nessas radiografias, se observa nìtidamente a persistência daquelas cartilagens, a separar, por exemplo, as

diáfises do cúbito e do rádio (figura, n.º 16) e as diáfises

do fémur, da tíbia e do peróneo (figura, n.º 17) das epífises, que lhes pertencem.

 

Fig. 17

 

Segundo Topinard, são reùnidas ao corpo do respectivo ôsso, pelos quinze anos, as extremidades superiores do rádio e do cúbito (epífeses); pelos dezassete, as dos dedos; pelos dezoito, as do fémur, e as inferiores da tíbia e do peróneo; pelos dezanove, as dos metatársios, e a superior do humerus; finalmente, pelos vinte, as dos mètacárpios, e as das extremidades inferiores do fémur,

do [147] rádio , do peróneo e do cúbito.

 

CAPÍTULO VI

 

Fórmulas antropométricas do

«crescimento» normal, nas idades

de evolução. Anomalias do

«crescimento»; sua determinação,

pelo processo antropométrico.

 

1.—Como se depreende dos quadros expostos no capítulo IV, cada idade de evolução possue suas características antropométricas essenciais.

Estas características derivam, não sòmente das assinaladas dimensões verticais e horizontais e doutros elementos do sólido humano, em cada uma daquelas idades, como tambêm e principalmente das formas e cubagens dos respectivos órgãos.

Ora, tanto as formas (que resultam do desenvolvimento relativo das diversas partes dum órgão), como as cubagens (que atestam o seu volume específico), podem exprimir-se, por meio de fórmulas (a que chamam índices), que denunciam sintéticamente as relações ariméticas de determinadas dimensões com

outras, que se tomam por [148] unidades.

Os índices que, em ordem ao fim que nos propômos, mais importa considerar, são:

 

1) o índice cefálico )

( D. T. C. × 100

D. A. P. C.

 

D. T. T. × 100 P. T. × 100 2) os índices torácicos e ( )

D. A. P. T. A.

 

3) o índice do tronco )

( B. × 100

A.

 

4) o índice muscular ; e, finalmente, ) ( Ab. M.

P.

 

5) o índice cérebro-visceral )

( C.

V.

 

O índice cefálico (expressão da relação centesimal do diâmetro ântero-posterior máximo do crânio com o seu diâmetro transverso máximo) é, em Portugal, segundo as notações registadas, de 80, desde a recêm-nascença até à infância; e de 76-79, desde a puerícia, até à puberdade. No adulto, êste índice, desprezando

fracções, fixa-se em 76[149].

O primeiro índice torácico (expressão da relação centesimal do diâmetro ântero-posterior máximo do tórax (espessura do peito) com o seu diâmetro transverso máximo (largura do peito), é de 100, na recém-nascença; de 138, na puerícia; de 136, na

puberdade [150] ; e de 139, na idade adulta.

O segundo índice torácico (expressão da relação do perímetro torácico multiplicado por cem, com a altura do corpo) decresce gradualmente, com a idade (66, na recêm-nascença; 60, na infância; 51, na puerícia), até à puberdade, em que baixa a 46. O índice do adulto (s. m.) 50, (s. fem.) 55.

O índice do tronco (fórmula da relação centesimal que existe entre as dimensões verticais do busto e as da estatura) tem servido de critério para agrupar as crianças em três categorias, consoante são braquísquelas (pernas curtas), macrósquelas (pernas longas) ou mesatísquelas (pernas médias).

A braquisquelia normal é a forma antropométrica, peculiar da recêm-nascença, da infância e ainda da puerícia. O número médio, que exprime o respectivo quociente, oscila, segundo os nossos cálculos, entre 55 e 80.

A macrosquelia manifesta-se, na adolescência e, sobretudo, no período peri-pubertário. O índice que lhe corresponde varia de 50 a 55.

Finalmente, a mesatisquelia (característica da idade adulta), em circunstâncias normais, por isso mesmo que exprime a forma definitiva do sólido humano, só se esboça, a partir da puberdade.

O [151] quociente respectivo é 52.

Resta o índice muscular (relação do perímetro máximo do antebraço com o pulso) para cuja avaliação carecemos de elementos suficientes; e o índice cúbico

crânio-visceral C (⁄ ), do qual C representa o volume V

aproximado do cérebro, determinado pelo cálculo da capacidade craniana (dupla multiplicação dos diâmetros ântero-posterior máximo, transverso máximo, e vertical); e V, a capacidade do tronco, onde se acham encerradas as vísceras (tambêm dupla multiplicação dos diâmetros ântero-posterior máximo, e transverso máximo do tórax, e vertical do tronco).

 

Êste C índice (⁄ ) que exprime, portanto, a relação V

proporcional que existe entre o encéfalo (centro da vida mental) e as vísceras (centro da vida vegetativa), varia enormemente, desde o nascimento até à idade adulta, numa ordem decrescente, que desce de 74 a 20.

2.—Como, noutro lugar dissemos, o «crescimento», cujas fórmulas antropométricas acabamos de sumariar, pode ser retardado ou acelerado, por virtude de múltiplices influências, sem que, por êsse facto, deixe de considerar-se como normal.

Se, porêm, o limite das oscilações do «crescimento» fôr ultrapassado, então, sem dúvida que se tratará de

«crescimento anormal», ou de anomalias do

«crescimento».

Estas anomalias, consoante as circunstâncias, poderão revestir diferentes formas; mas as principais são redutíveis a três:

1) suspensões; 2) desvios; 3) desequilíbrios do «crescimento».

As suspensões do «crescimento» dão origem ao

nanismo [152] , ao raquitismo , ao infantilismo , etc..

Os desvios e os desequilíbrios podem gerar o virilismo, o feminismo, o gigantismo, a acromegalia, o senilismo; e, alêm doutras anomalias, o simples retardamento ou

atraso físico [153].

Tôdas estas doenças, por via de regra, derivam de estados orgânicos, a que os médicos chamam distrofias (do grego Δυστροφοϛ); havendo-as do pâncreas, das cápsulas supra-renais, do fígado, das glândulas genitais, do timus, e, sobretudo, do corpo tiroide, glândula de secreção interna, situada na parte externa

do [154] canal laringo-traqueal.

A insuficiência tiroidiana (hipotiroidia), é a principal causa do maior número das anomalias do «crescimento». Porquê? Laumonier responde: porque essas anomalias andam sempre ligadas (como o efeito à sua causa) à carência das substâncias (que o corpo tiroide, normalmente, segrega) capazes de neutralizar a acção dos venenos produzidos pelo próprio organismo, e de tornar os elementos nervosos refractários a êsses

venenos [155].

O mixòedêma, por exemplo, em tôdas as suas formas, deriva de perturbações orgânicas, que teem a sua origem na atrofia ou no desaparecimento do corpo tiroide; mas o gigantismo, a que já nos referimos, resulta precisamente dum vício oposto, a que se poderá chamar hipertiroidia, e que consiste em conservar, aos ossos, por uma superabundância de secreção específica, alêm de todo o limite, o poder osteogénio,

ou a [156] capacidade de crescer.

Como nota final dêste capítulo, cumpre estabelecer que se torna necessário não confundir as anomalias do crescimento físico com as perturbações do desenvolvimento mental (idiotia, imbecilidade, psicastenias, etc.), cujas causas se devem procurar, antes, em lesões do sistema nervoso, determinadamente do cérebro, do que em afecções somáticas; e que é no confronto das proporções normais do corpo, nas idades de evolução, com as do organismo que se pretende avaliar, que consiste o processo antropométrico da determinação das anomalias físicas.