Educação nova: as bases, o corpo da criança

Augusto Joaquim Alves dos Santos · Capítulo 18 de 72

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Educação nova: as bases, o corpo da criança

QUADRO N.º 3 (Sexo masculino)

Finalmente, para a elaboração do quadro n.º 3 (Perímetro torácico), cujas médias são a expressão sintética de sete mil mensurações, contribuíram os seguintes estabelecimentos:

 

1) Colégio Militar (sexo masculino), com 1.385;

2) Colégio de Campolide (sexo masculino), com 1.223;

3) Liceu de Coímbra (sexo masculino), com 2.225;

4) Escola de alunos marinheiros (sexo masculino), com 2.167.

 

QUADRO N.º 3

(Sexo masculino)

 

Idades Colégio Escola de Colégio de Liceu de Médias Alunos Militar Campolide Coimbra gerais Marinheiros

6-7 — 57,3 — — 57,3 7-8 — 59,3 — — 59,3 8-9 — 59,3 — — 59,3 9-10 — 60,7 — — 60,7 10-11 62,5 61,9 61,4 — 61,9 11-12 64 63,6 63 — 63,5 12-13 66 65,5 65,1 — 65,5 13-14 69 67,8 66,9 — 67,9 14-15 72 71,2 67,1 — 70,1 15-16 75,5 74,7 67,8 — 72,6 16-17 78,5 77,8 79,1 83 79,6 17-18 80 79,3 80,3 85 81,1 18-19 81,5 80,8 81,2 85 82,1 19-20 82,5 81,8 82,7 85 83 20-21 — 82 82,6 — 82,3

4.—As condições em que foram mensuradas tôdas as crianças, a que estes quadros se referem, assim como a técnica adoptada nas mensurações, e ainda os gráficos que exprimem as respectivas médias; tudo isso se pode ver, pormenorizadamente exposto, descrito e apreciado, em a nossa monografia, já citada, sobre o «crescimento» da criança portuguesa.

5.—Mas, alêm dos elementos enumerados, podemos acrescentar outros, que daqueles não divergem sensivelmente, e são provenientes do liceu Pedro Nunes, e do Colégio Moderno, de Coímbra, onde presentemente, com o auxílio dos alunos da Escola Normal Superior, nos entregamos a estudos de pedometria, no intuito de conhecer e determinar, com precisão, as leis do crescimento, em Portugal.

A seguinte tabela inscreve as médias das mensurações realizadas, no referido liceu, no ano lectivo de 1914-1915:

Idades N.º de alunos Altura Pêso Ampl. torácica

9 m k mm 12 1 ,327 30 ,5 51 10 m k mm 50 1 ,342 29, 57 63 11 m k mm 89 1 ,390 32 ,21 73 12 m k mm 99 1 ,431 34 ,97 70 13 m k mm 97 1 ,467 37 ,96 71 14 133 m k mm 1 ,526 41 46 74 15 102 m k mm 1 ,576 43 39 82 16 82 m k mm 1 ,629 50 34 77 17 46 m k mm 1 ,698 58 19 87 18 23 m k mm 1 ,689 55 ,17 76,5 19 10 m k mm 1 ,671 59 ,11 84 20 1 m k mm 1 ,599 56 110 21 1 m k mm 1 ,683 47 ,6 80

No capítulo imediato, a propósito do crescimento relativo, interpretaremos as notações, referentes ao Colégio Moderno, que incidem sobre cento e vinte crianças, de diferentes idades, tôdas do sexo masculino, observadas e mensuradas, segundo as prescrições do método auxanológico.

6.—A seriação de todos os elementos considerados, assim como o apuramento das respectivas médias, realizado de modo a fazer corresponder, tanto quanto possível, à realidade os resultados do cálculo, tornaram possível o traçado dos seguintes gráficos, que revelam, com suficiente clareza, o ritmo do «crescimento», entre nós.

O primeiro dêstes gráficos (figura n.º 1) inscreve as curvas do crescimento normal, médio, em altura, da criança portuguesa (uma para cada sexo), baseadas, como dissemos, sôbre um total de vinte e uma mil e seiscentas mensurações.

São curvas, estas, denominadas de grandeza, que acusam as variações da altura,

em [48] função do tempo.

A linha horizontal do diagrama (eixo das abcissas) marca o tempo (série das idades); a vertical (eixo das ordenadas) inscreve o espaço (variações métricas da estatura).

A simples inspecção do gráfico convence imediatamente de que, como nas

observações [49] de Quetelet, em relação à Bélgica, as crianças portuguesas do sexo masculino excedem, em altura, durante todo o percurso da sua evolução, as do sexo feminino.

É certo que o número de dados antropométricos, em que se baseia a curva do «crescimento» das raparigas, orçando apenas por um sexto daquele que fundamenta a curva dos rapazes, não pode reputar-se suficiente, em ordem a conclusões definitivas; mas as mensurações (aos milhares) do dr. Ferraz de Macedo, para o apuramento da estatura média em Portugal, acusam, em média, na idade adulta, em favor do sexo masculino, um excedente que chega a atingir a

quantidade apreciável de dez centímetros[50].

 

As diferenças sexuais, de resto, assim reveladas na fisionomia geral das curvas, pelo paralelismo que nelas se mantêm, até aos catorze anos, essas diferenças, dizemos, acentuam-se, de modo análogo, em cada estádio particular e concreto da evolução.

Assim, logo à nascença, por exemplo, a estatura dos rapazes ultrapassa, em média, em um centímetro, aproximadamente, a das raparigas; e, a partir dos catorze anos, a disparidade das alturas adquire tais proporções, que nós aconselhamos os estudiosos a que usem de uma prudente reserva, relativamente a estas medidas.

Como elemento de confronto, para elucidação completa do assunto, aqui deixamos consignadas, no presente quadrículo, as notações que se devem aos pedologistas Variot e Chaumet, em relação à criança francesa:

Alturas em centímetros

Idades

Rapazes Raparigas

1-2 74,2 Difer. 73,6 Difer. 2-3 82,7 8,5 81,8 8,2 3-4 89,1 6,4 88,4 6,6 4-5 96,8 7,6 95,8 7,4 5-6 103,3 6,5 101,9 6,1 6-7 109,9 6,6 108,9 7,0 7-8 114,4 4,5 113,8 4,9 8-9 119,7 5,3 119,5 5,7 9-10 125,0 5,3 124,7 4,8 10-11 130,3 5,3 129,5 5,2 11-12 133,6 3,3 134,4 4,9 12-13 137,6 4,0 141,5 7,1 13-14 148,1 7,5 148,6 7,1 14-15 153,8 8,7 152,9 4,3 15-16 159,6 5,8 154,2 1,3

São nada menos de quatro os máximos que, nas curvas apresentadas, se observam, através das idades de evolução: um, absoluto ou primário, aos dezasseis anos (para o sexo masculino) e aos catorze (para o sexo feminino); e três, relativos ou secundários: o primeiro (para ambos os sexos) ao cabo dos doze meses, depois do nascimento; o segundo (tambêm para ambos os sexos), aos seis anos; e o terceiro, aos dez anos (para o sexo masculino) e aos oito (para o sexo feminino).

 

Estes máximos denotam ou marcam, como é óbvio, no ritmo do «crescimento», os períodos mais agudos dêste, ou as fases mais intensivas da energia intra-orgânica, que o determina.

Ponderando tudo, vê-se:

1) que a criança portuguesa (d'ambos os sexos) se desenvolve enormemente, durante o primeiro ano de vida extra-uterina;

2) que a marcha, em seguida, do seu «crescimento» (ainda que progressiva) se atenua, desde aí, até aos cinco anos, para, de novo (embora por pouco tempo), se intensificar, a partir desta idade;

3) que se produz, depois, nessa mesma marcha, um relativo afrouxamento (mais pronunciado, no sexo feminino), cujo mínimo se verifica, aos oito anos (para os rapazes) e aos sete (para as raparigas);

4) que o «crescimento» aumenta, em seguida, com moderação, desde esta época, até aos doze anos (nos rapazes) e até aos treze (nas raparigas), para, logo imediatamente depois, cair (sobretudo em relação ao sexo masculino) num abatimento brusco e momentâneo que, em breve, cessará;

5) finalmente, que, em seguida a esta relativa quietude fisiológica, o «crescimento» se acelera, ainda uma vez mais, com forte intensidade, até aos dezasseis anos (para os rapazes) e até aos catorze (para as raparigas), sucedendo-se, depois, uma definitiva acalmia, durante a qual a criança continuará, sem dúvida, a crescer, até ao termo da sua evolução (dos vinte aos vinte e cinco anos), mas insensivelmente, de modo muito lento e gradual.

CURVAS DO CRESCIMENTO NORMAL,

MÉDIO, EM DENSIDADE (PÊSO),

DA CRIANÇA PORTUGUESA

(117.010 PESAGENS)

Para concluirmos a análise de todos os elementos, de que podemos dispor, e cuja síntese se encontra nas curvas, que temos considerado, relativamente à estatura da criança portuguesa, nos diferentes estádios do seu «crescimento», resta ainda (para clara inteligência dos problemas antropométricos, cuja solução nos interessa) referir os factos adquiridos aos seus antecedentes naturais, e procurar interpretá-los, de conformidade com as leis da lógica e os princípios da sciência.

A criança, quando nasce, sofre, pela mudança de meio, a rutura dum equilíbrío orgânico, que lhe põe a vida em risco, pelas perturbações, a que dá origem, no funcionamento de todos os órgãos.

«Il faut, diz Ruyssen, sous peine de mort, que l'enfant s'accommode au milieu»[51]. Esta adaptação a novas condições de existência, agravada, quási sempre, pela crise genital do recêm-nascido (puberdade transitória), gera uma luta, que determina, pela dinâmica da acção, o desenvolvimento bio-psíquico da criança, tanto mais intenso e forte, quanto maior é a impulsão natural para um novo equilíbrio que, em ordem à consolidação das aquisições realizadas, substitua aquele que foi comprometido, pela transição brusca e violenta da vida parasitária para a existência independente.

Não é, por isso, de admirar que, durante a infância (princípio do segundo ano), as energias do crescimento sofram uma depressão, que lhes atenue o poder ascensional, de que são dotadas; e que se estabeleça êsse novo equilíbrio provisório que, por sua vez, ao cabo de quatro anos (então já em plena puerícia), do mesmo modo, será sacrificado, em holocausto àquelas mesmas energias, que exigem, no ser que lhes está subordinado, novas combinações somáticas, e diferentes proporções dos segmentos do seu organismo.

Realizadas, porêm, que sejam essas combinações, e atenuada a crise de expansão, que as provoca, não há dúvida que, consoante se depreende dos factos examinados, mais um equilíbrio (o terceiro, segundo a ordem cronológica) se produzirá, agora com estabilidade menos precária, do que os anteriores, visto que deverá subsistir, até ao fim da adolescência (aos treze anos, para os rapazes; e aos doze, para as raparigas), e só desaparecerá, com a crise pubertária (de tôdas a mais enérgica e fecunda em transformações físicas e mentais), que sobrevirá, por essa ocasião, na vida instável e agitada da criança.

Esta crise durará três anos, e será a última do «crescimento», seguindo-se-lhe o equilíbrio orgânico definitivo, que só a doença poderá comprometer, e a morte logrará destruir.

7.—O segundo dos gráficos indicados [(agora aqui presente) (figura n.º 2)] representa, nas respectivas curvas (uma para cada sexo), a marcha do «crescimento» normal, médio, em densidade (pêso) na criança portuguesa.

Observando estas curvas, reconhece-se, desde logo, que a fisionomia delas é sensivelmente diferente da que oferecem as das estaturas, que temos examinado.

As raparigas (contràriamente ao que sucede, em relação à altura) apenas são inferiores (em pêso) aos rapazes, no primeiro ano; desde os seis aos doze anos; e depois dos dezassete anos. Em tôdas as outras idades, manteem sobre êles uma superioridade, que chega a ser surpreendente, pelos catorze anos.

Mas as inflexões recíprocas das duas curvas, que se cruzam e mutuamente se penetram, não são sem simile, em países estrangeiros.

Veja-se, por exemplo, a seguinte tabela de Variot e Chaumet, relativa à França:

Pêso em quilogramas

Idades

Rapazes Raparigas

1-2 9,500 Difer. 9,300 Difer. 2-3 11,700 2,2 11,400 2,1 3-4 13,000 1,3 12,500 1,1 4-5 14,300 1,3 13,900 1,4 5-6 15,900 1,6 15,200 1,3 6-7 17,500 1,6 17,400 2,1 7-8 19,100 1,5 19,000 1,6 8-9 21,100 2,1 21,200 2,2 9-10 23,800 2,7 23,900 2,7 10-11 25,500 1,8 26,600 2,7 11-12 27,700 2,1 29,000 2,4 12-13 30,100 2,4 33,800 3,8 13-14 35,700 5,6 38,300 4,5 14-15 41,900 6,2 43,200 4,0 15-16 47,500 5,6 46,00 2,8

Todavia, as assinaladas diferenças sexuais, e outras, que omitimos, não impedem que, dum modo geral, tanto rapazes, como raparigas, obedeçam às mesmas leis, e sofram influências análogas. Há só uma reserva a fazer, e é que, em regra, o «crescimento» das raparigas é menos irregular nos acidentes (comparem-se as duas curvas) e quási sempre mais precoce, do que o dos rapazes.

Foi êste facto, que sugeriu ao Dr. Claparède a idea de comparar a um match de corrida o «crescimento» dos dois sexos: «la croissance comparée des filles et des garçons, diz êle, ressemble à un match de course; garçons et filles partent ensemble, mais celles-ci, un instant devancées, prennent bientôt les devans, puis leurs concurrents les ratrapent et les dépassent, mais elles les dépassent de nouveau jusqu'à ce que, enfin, les

garçons l'emportent définitivement»[52].

Examinem-se as nossas curvas, e ver-se há que, com leves e acidentais modificações, é precisamente o que se verifica na dinâmica do «crescimento» português.

Nota-se assim que, nesta dinâmica, são três as principais fases do «crescimento» enérgico, máximo, em densidade:

1) durante o primeiro ano (em ambos os sexos);

2) pelos seis anos (para os rapazes) e pelos oito (para as raparigas);

3) pelos quinze, aproximadamente (nos rapazes), e pelos doze (nas raparigas).

A primeira crise (e talvez a segunda) constituem, na opinião de Camerer, uma «continuação da excessiva energia fetal do «crescimento»; quanto à última, a sua explicação adequada encontra-se no advento e na

instalação [53] da Puberdade.

8.—Para conclusão desta primeira parte do nosso estudo («crescimento» absoluto da criança portuguesa), resta apresentar o gráfico da curva, relativa ao perímetro

torácico, que é o que, a seguir, na página imediata (fig.

n.º 3), publicamos.

Esta curva pertence ao sexo masculino; não abrange a série tôda das idades infantis; e apenas se baseia num total de sete mil mensurações; contudo, não deixamos de reputar suficiente êsse número para, sobre êle, estabelecer alguns princípios, e formular determinadas conclusões.

 

CURVA DO PERÍMETRO TORÁCICO (7.000

MENSURAÇÕES).

 

Como geralmente se sabe, o perímetro torácico (medida sintética da espessura e da largura do tórax) é maior ou menor, consoante a criança já entrou na puberdade, ou

ainda permanece nas [54] fases inferiores da evolução.

Ora, as notações, que constituem a presente curva, não fazem excepção àquela regra; alêm disso, como veremos, em lugar próprio, as outras dimensões somáticas, que lhes correspondem, acham-se na razão inversa das projecções verticais, com que coincidem.

Êste facto e outros análogos, que estabeleceremos, servirão para demonstrar a absoluta veracidade destas palavras de Pierre Mendousse: «Chacun sait qu'entre le corps d'un petit enfant et celui d'un adulte il y a des différences non seulement dans la grandeur totale, mais aussi dans les proportions des diverses parties. Depuis le moment de la naissance, chacune de celles-ci semble croître sinon pour son propre compte, du moins suivant un rythme plus ou moins accéléré, d'où résulte pour chaque âge un canon spécial de la forme humaine, variable d'ailleurs dans une certaine mesure suivant la race, l'état de santé, la nourriture, etc. Dans ce progrès continu, l'avènement de la puberté détermine non seulement un accroissement de vitesse, mais sourtout des variations plus rapides qu'auparavant dans les proportions extérieures et plus encore dans le volume et le poids des organes, dont les uns semblent s'hypertrophier, pendant que les autres se développent moins vite ou s'atrophient, de sorte que l'état cénesthésique de l'adolescent subit de profondes modifications, parfois douloureuses j'usqu'à la défaillance, en particulier lorsque, vers les dix-huit ans, la croissance s'étant ralentie, un nouvel état d'équilibre s'établit entre les systèmes organiques devenus adultes».

Para confronto elucidativo, aqui reproduzimos a tabela

de Pagliani[55], com as suas duas séries de medidas, relativas à capacidade vital e à circunferência torácica:

 

Idades Circunferência Capacidade vital torácica

10 1660 61

11 1700 61,2

12 1860 62,8

13 2045 65,2 14 2100 66,4