Em busca de nós mesmos
O cosmos aristotélico
tudo isso está na cabeça das pessoas.
Espero que você tenha percebido aonde eu quero chegar. Sabe por quê? Porque não há muita diferença entre o navio de Teseu e o seu corpo. As células vão morrendo, outras vão surgindo, e já não há muita coisa, hoje, de tempos de outrora. Se você for vasculhar, tudo em você já é outro. Tudo já é novo.
O que será que confere unidade a você? O que será que permite continuar dizendo que você é você? Ora, tal como no navio de Teseu, o que nos confere unidade é a narrativa, a história, o discurso. É o fato de que continuamos falando de nós e apontando, com orgulho, para o nosso corpo. O que sobra de nós é mesmo uma narrativa, e isso mesmo enquanto ainda estamos vivos. Acho que depois que morremos isso fica ainda mais claro.
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O cosmos aristotélico
Clóvis: Aristóteles foi um grande sábio. Viveu em torno de 350 a. C.
Falou de tudo um pouco. Para ele, a essência de uma coisa, aquilo que uma coisa é, não é aquilo de que ela é feita, não são seus átomos, nem suas células. Na verdade, a essência de todas as coisas são as atividades que tipicamente realizam. São os fins que perseguem. Assim, cada coisa tem como essência a sua função. E função, em grego, Aristóteles chamava de érgon. Se um órgão é um coração, é porque sua função é bombear o sangue. Coração é, na essência, aquele que bombeia o sangue. Se for um rim, é porque sua função é limpar o sangue. Rim é aquilo que limpa o sangue. Quando sabemos a função de uma coisa, temos um padrão para avaliá-la. Uma coisa é boa quando realiza bem a sua função.
Se você quiser saber o valor de tudo no mundo, há um protocolo a seguir: verificar a qualidade na realização da função. Por exemplo: a função de uma faca é cortar, então faca boa é a que corta bem. A virtude ou excelência é a capacidade que permite a uma coisa realizar bem a sua
função; assim, a virtude de uma faca é a afiação, já que estar afiada é a condição para cortar bem.
Aristóteles pega essas ideias sobre a função de artefatos e órgãos e as aplica aos seres humanos. Todos nós teríamos uma função. Aristóteles argumenta que os seres humanos têm uma função característica para além das funções singulares e particulares de cada um. Há uma função que nos reúne a todos: a atividade da alma de acordo com razões, isso é, você pode ser quem for, ter a particularidade que tiver, ter a especificidade que tiver, mas todos nós temos uma função comum. É
assim que ele define a atividade da alma de acordo com as razões. Nós chamaremos simplesmente de racionalidade, lembrando que ela tem aspectos práticos, orientados para a ação, para discernir o que é melhor fazer, e aspectos teóricos, orientados para a avaliação abstrata de como o mundo funciona.
Pois muito bem, Aristóteles conclui que a felicidade de cada um de nós é a racionalidade de acordo com a virtude. Isso significa que, para sermos felizes na especificidade e singularidade da nossa vida, temos que ser virtuosos na razão. Em outras palavras, temos que pensar bem.
Aquele que não pensar bem não conseguirá a felicidade que é comum a todos nós. Aristóteles também admite que essa felicidade não depende somente de nós, mas de fatores externos que poderão favorecer uma trajetória que nos leve a pensar melhor ou não.
Assim, você que está lendo esse livro teve a sorte de pegá-lo, e eu lhe ajudo a pensar melhor.
Poderia não tê-lo pego, e a sua racionalidade estaria apequenada pela circunstância de não ler essas reflexões. Não leve isso a sério, é só uma brincadeirinha.
A alegação de Aristóteles, de que a racionalidade é a função humana comum a todos, é controversa. Muitos acham que os seres humanos são por demais complexos para terem uma única função característica, comum a todos. Outros duvidam que essa função seja a racionalidade.
Ora, é preciso lembrar que Aristóteles viveu no seu tempo, no seu momento, dentro de uma maneira de pensar típica dos gregos de sua época. Sua lição é interessantíssima, pois, para ele, a felicidade comum a todos nós depende do desabrochar da nossa alma. Pense bem, pense melhor, e a vida tem mais chance de ser feliz.
Questão de concordar ou não.
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Agora, quero mostrar ao leitor como o cosmos apresentado pela mitologia vai influenciar a filosofia de Aristóteles e, mais especificamente, a física de Aristóteles. Isso é importante, uma vez que a física de Aristóteles permanecerá inatacada até o começo dos tempos modernos. Quem descreve isso é um filósofo e historiador das ideias chamado Alexandre Koyré. Ele escreveu um livro intitulado Do mundo fechado ao universo infinito. E esta é a primeira característica do cosmos de Aristóteles: ele é finito, tem começo, meio e fim. Portanto, difere
completamente do entendimento do universo que passamos a ter depois da modernidade. E que consequências isso nos traz?
Quando o mundo é finito, fechado, com começo, meio e fim, é uma referência absoluta para nós. Em um mundo fechado, existe dentro e fora, norte e sul, esquerda e direita, e tais referências são as mesmas para todos, são absolutas. É como se a minha posição no cosmos fosse entre a jabuticabeira e a samambaia. E isso vale para qualquer um.
Quando o universo passa a ser entendido como infinito, não há dentro e fora, nem norte e sul, nem esquerda e direita. A partir de então, toda a referência deve ser um entendimento entre nós, uma combinação entre nós. Como, por exemplo, as coordenadas cartesianas: um eixo vertical e um eixo horizontal em torno do ponto zero. E por conta desse nosso entendimento conseguimos situar um ponto P.
No cosmos de Aristóteles, não precisava disso. Sendo finito e ordenado, as coisas estavam todas no seu lugar, e, para posicionar qualquer ponto, qualquer ser, bastaria ter as referências absolutamente definidas pelo próprio universo.
Essas diferenças entre pensamento grego e pensamento moderno têm consequências éticas e políticas. A vida boa, para os gregos, está relacionada a uma informação absolutamente válida para qualquer um: é o bom posicionamento no cosmos. A vida boa, para nós, tem que resultar de um entendimento, pois o cosmos já não nos fornece mais nada.
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A finitude permite ao cosmos ser uma referência para todas as suas partes, como tudo o que é finito. Se você imaginar que o seu apartamento tem começo, meio e fim, a finitude permite que cada peça tenha uma posição. A partir das extremidades do apartamento você consegue situar cada centímetro dele.
Você também poderia imaginar o cosmos como uma grande sala de cinema, e seu lugar nele seria a poltrona 3-C. Você a encontra com facilidade, pois existe a primeira fileira, e as colunas estão divididas alfabeticamente. A condição de achar a poltrona 3-C é existir a 1-A. Se não houver a fileira 1 e a coluna A, não rola a 3-C. Ou seja, é a partir de uma referência de começo que você consegue encontrar a sua poltrona.
Imagine agora — depois do ano de 1600 — o universo infinito. Você pensará que teoricamente há muito mais lugar para você no mundo. É
verdade. Tem tanto lugar para você, infinitos lugares, que não termina mais. Mas o que muda é que, apesar de haver mais lugar do que se o universo fosse finito, não tem como encontrar uma posição.
E por que não?
Meu amigo, novamente imagine uma sala de cinema e a sua poltrona 3-C. Você recua até a de número 1, só que aquela não é a primeira poltrona. E então você vê infinitas fileiras e infinitas colunas. Não tem início, não tem poltrona 1-A. Se não tem a 1-A, tampouco terá a 3-C.
Paradoxalmente, no universo infinito, embora haja infinitos lugares para você, eles são todos indiferenciados. Você não tem posição, está à deriva.
Assim somos nós no universo infinito: embora haja infinitos lugares, não estamos em lugar nenhum.
Se no cosmos você estava a um metro da porta e se situava na máquina cósmica, agora, no universo infinito, você não se situa mais. A não ser que você combine com todo mundo referências artificiais para poder se situar. Foi o que Descartes fez quando inventou as coordenadas cartesianas.
Essa mensagem é muito maluca, muito doida. E iremos daqui para pior.
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A segunda grande característica do cosmos de Aristóteles, também herança da mitologia, é a harmonia. O cosmos é um espaço harmônico e o que lhe confere harmonia é a complementaridade entre as funções.
Assim, o vento venta e, ventando, cumpre o seu papel. A chuva chove, a maré mareia, o sapo sapeia. Havendo harmonia não há conflito.
Por isso Zeus distribuiu e deu a cada um o que lhe cabia, contando com o aplauso de todos. Mas nesse cosmos aí tem o homem, e, você sabe, o homem quer, é desejante, ambicioso. E, se ao vento basta ventar, ao homem nunca basta. Ele quer sempre mais, e esse desejo parece não ter limites.
E não haveria entre os homens um conflito iminente? Afinal, o mundo é escasso, o desejo não termina mais, e os homens tendem, portanto, a
esbarrar um desejo no outro, uma ambição na outra. Nesse caso, haveria conflito, que é o contrário da harmonia.
Por isso a ética cósmica prevê que os homens vivam cumprindo o seu papel. Assim, da mesma maneira que o vento não brigará com a chuva, se cada homem cumprir o seu papel e sendo esses papéis compatíveis entre si, não haverá conflito. Essa ética, essa espécie de princípio de vida e conduta sobre a Terra, permite que as pessoas vivam sem ter que sair na porrada com as outras por conta de desejos desmesurados e incompatíveis. Veja que esse cosmos harmônico entre as suas partes é uma referência para a vida do homem, como ele deve agir, como deve viver. Por isso a física cósmica é a referência para uma ética cósmica, uma reflexão sobre como a vida do homem deve ser.
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O cosmos aristotélico é uma herança da mitologia, da iniciativa de Zeus de distribuir o mundo entre os seus correligionários, dando a cada um o que lhe é devido. Cada um, com justiça, recebe aquilo que lhe cabe. Esse mundo é harmônico, as partes estão de acordo umas com as outras.
Nenhum problema em um mundo harmonioso, onde o conflito desaparece em nome da justiça.
Além de uma referência sobre como devemos viver e como devemos agir — uma referência ética, portanto —, esse mundo também garante ao homem uma referência de beleza. Cada coisa que o homem encontra
no mundo será bela na exata medida em que estiver adequadamente posicionada no cosmos. Isso permite concluir que essa beleza não poderia ser avaliada em isolamento, em sua singularidade isolada, mas sim na integração com o resto, de tal maneira que poderíamos pensar na beleza do Pão de Açúcar no Rio de Janeiro, da Table Mountain na Cidade do Cabo ou de qualquer paisagem que passar pela sua cabeça.
Essa beleza estará garantida se e somente se enxergarmos ali um espaço cósmico, ou seja, algo inserido no todo de maneira adequada. Isso também nos permite, sendo o cosmos uma referência de beleza, um critério para a avaliação das obras de arte, isto é, a beleza daquilo que o homem produz.
Uma obra de arte sempre foi e sempre será a encarnação de uma grande ideia em um pedaço de matéria. Para os gregos, essa grande ideia é a ordem cósmica. Sendo assim, qualquer obra de arte será bela na medida em que representar essa grande ideia do cosmos quando se apresentar como um microcosmos. Uma espécie de tradução em pequeno do grande todo, ordenado e organizado.
Poderíamos fazer o caminho inverso e tentar investigar, a partir das obras de arte gregas, quais eles realmente consideravam legítimas e quais características tinham. Dessa forma, identificaríamos também as características do cosmos no imaginário dos pensadores daquele tempo.
O cosmos como referência ética, uma vida em harmonia, o cosmos como referência de beleza, a obra de arte como um microcosmos, uma
pequena representação da grande ordem universal. Essas são as características, por enquanto, do cosmos aristotélico. Ele é finito, com começo, meio e fim, e harmônico, referência para a ética, referência para a beleza.
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A terceira característica do cosmos de Aristóteles é a perspectiva hierarquizada.
Para entender em que medida o cosmos é constituído por partes que são umas superiores às outras e, portanto, respeitam uma hierarquia de valor e de importância, é preciso perceber que essa hierarquia de valor é simbolizada por uma posição ocupada no universo. Assim, algumas coisas foram feitas para ficar em cima; outras, embaixo; umas, à esquerda; outras, à direita. Sendo o universo finito, as posições são fáceis de encontrar. E é exatamente essa a ideia central da física de Aristóteles.
Cada parte do cosmos tenderia a procurar o seu lugar natural.
A fumaça, por exemplo. Aristóteles dirá que ela sobe porque seu lugar natural é no alto, ou seja, a fumaça é dotada de características que a obrigam a ocupar um lugar no alto. Já a pedra é dotada de características que a forçam ir para o chão. Seria como se a fumaça e a pedra fossem dotadas de uma vontade. A isso chamamos de animismo.
As partes do cosmos são dotadas de uma inclinação para se dirigirem ao
seu devido lugar. Por isso, se o lugar da fumaça é no alto, é como se ela se dirigisse deliberadamente para o alto.
Dessa forma, Aristóteles explica o movimento como uma tendência natural da vontade das partes do cosmos de irem cada uma para o seu canto. Todo o movimento seria uma busca de harmonia com o cosmos e, portanto, uma perseguição do lugar onde essa harmonia é mais provável.
Agora você compreende a física aristotélica, que é bizarra, pois sabemos que a fumaça sobe, mas não porque tenha vontade de procurar o seu lugar. Aprendemos desde cedo a lei da gravidade e as razões pelas quais a ciência de hoje explica o movimento dos corpos.
E você, diante dessa explicação rica de imaginário do pensamento de uma época, deve estar se perguntando onde fica o homem nessa parada toda. Será que o movimento do homem no universo também obedeceria à lógica de procurar seu lugar no alto ou embaixo? Será que a natureza de cada homem já indicaria o seu lugar? Será que haveria homens-fumaça, ou seja, naturalmente dotados para ficar no alto, e homens-pedra, naturalmente dotados para ficar embaixo?
O homem tem uma natureza que deveria levá-lo a um determinado lugar. Ou não. Ele pode deliberar ir contra a sua natureza. O homem que naturalmente teria que ir para cima pode decidir ir para baixo. Aquele que naturalmente deveria ficar embaixo pode teimar em ficar em cima.
Espere para ver a diferença: enquanto na natureza tudo acaba dando certo, entre nós pode não dar. Encontrar o nosso lugar natural, ir para a
direção certa, respeitar a nossa natureza é uma entre infinitas opções possíveis. Portanto, somente nós podemos viver errado, só nós podemos viver na contramão do cosmos, em desarmonia, na tristeza. Enquanto para o vento é fácil, é só ventar, no nosso caso, o caminho da natureza e o pleno desabrochar da própria essência são uma possibilidade descoberta pela razão em relação a outras tantas possíveis que passam pela nossa cabeça o tempo inteiro.
E você? É fumaça que sobe ou é pedra que cai? Será que respeita a sua natureza, recursos e talentos? Ou é um teimoso que rema contra a maré e acaba tentando viver fora do seu lugar? Pergunta clássica de Aristóteles para você responder.
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Para facilitar a compreensão do leitor, vamos nos servir de algumas alegorias. Imaginemos aquela brincadeira do cabo de guerra, na qual dois grupos de pessoas puxam a corda, um de cada lado. Todos que puxam a corda do mesmo lado desempenham a mesma atividade. Estão todos fazendo força para que a corda se desloque para o seu lado. Há uma diferença de valor entre os membros da equipe, que é a mera comparação entre a força exercida sobre a corda por cada um deles.
Neste exemplo, é fácil fazer a comparação: o objetivo é puxar a corda, e quem consegue deslocá-la para o seu lado com mais eficácia é o melhor.
Outro exemplo mais sofisticado é o jogo de futebol. Em campo, os onze jogadores têm uma finalidade, que é o gol, a vitória. Porém, cada um desempenha um papel diferente. Neste caso, a comparação é menos tranquila. É um pouco diferente do cabo de guerra, no qual todos fazem a mesma coisa. Em um time de futebol há os que impedem que o outro jogue, impedem que o outro faça gol. Há os responsáveis por trazer a bola para o ataque, por fazer jogadas pelas laterais do campo, por jogar a bola dentro do gol. Fica muito mais complicado fazer uma comparação de qual vale mais. Como posso comparar um atacante responsável por fazer gol e um defensor responsável por não deixar o outro jogar?
Certamente também podemos propor que alguns jogadores são mais decisivos do que outros para o time ganhar e, portanto, melhores do que outros. Ainda que eu não possa comparar a função de Romário, por exemplo, com a de algum jogador mediano de defesa que trabalha para impedir que o outro jogue, é inegável que Romário é mais fundamental para que a bola entre no gol. Podemos estabelecer uma hierarquia de valor em função da finalidade geral do grupo.
No universo acontece mais ou menos isso. Cada um tem o seu papel e a sua natureza, que facilita o desempenho da sua função. Mas alguns papéis, algumas competências, são mais decisivos para o cosmos funcionar do que outros. É por isso que essas pessoas, ou essas partes do cosmos detentoras desses recursos, são superiores às outras. Assim, tal
como no cabo de guerra, uma vaca que dá mais leite do que a outra é superior. As duas dão leite, mas uma dá mais leite.
Há também a possibilidade de avaliar recursos diferentes. Poderíamos nos perguntar, entre um indivíduo que pensa bem e outro capaz de fazer maravilhas com a bola nos pés, qual colaborará mais decisivamente para a ordem cósmica? A resposta do pensamento aristotélico é clara: o grande talento, o grande recurso natural do homem é o pensamento.
Aqueles que pensam melhor são superiores aos demais, são mais decisivos para que possa haver gol, para que o homem cumpra o seu papel.
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O cosmos é finito, harmônico, hierarquizado. Resta-nos uma última característica: é um espaço regido por funções.
Vamos supor que você cogite sobre a função de um colírio, e eu desafie você a responder essa pergunta sem usar a palavra “olhos”. Sem os olhos, não temos a finalidade do colírio. Assim, o colírio encontra sua função plena nos olhos; portanto, fora de si.
Pensando que a finalidade de algo está sempre fora de si, podemos pensar em termos de causa final. Desse modo, a causa de uma coisa estaria na sua finalidade, ou seja, fora de si. Assim, o vento venta, e a causa do ventar do vento está na sua finalidade, que é a refrescância daquilo que não é ele próprio. Portanto, o colírio está para os olhos
assim como tudo aquilo que o vento refresca está para o vento.
Aristóteles acreditava que a finalidade das coisas é a sua principal causa, isto é, as coisas movem-se no universo para alcançar essas finalidades, como se fossem dotadas de um projeto pessoal, devidamente orquestrado com todas as outras partes do cosmos, para o seu perfeito funcionamento.
Sabemos hoje que as causas são eficientes e que, se o vento venta na direção que venta, não é para cumprir a sua finalidade, mas porque algo de material faz com que o ar se desloque de um ponto ao outro. Neste caso, o algo de material é uma diferença de pressão atmosférica.
Perceba que a passagem do pensamento aristotélico grego para o pensamento moderno implica abrir mão de uma crença na causalidade final e aceitar uma causalidade eficiente. Talvez a mesma perspectiva possa ser aplicada à nossa vida. Se alguém disser que dou aula para cumprir minha missão, estará nostalgicamente ressuscitando o pensamento aristotélico. Se alguém disser que, dadas as minhas condições materiais, dadas as possibilidades de exercício profissional, todas causas bem materiais, o que me sobrou foi isso mesmo, ser professor, estará citando uma causa eficiente, matéria determinando matéria em estrita inexorabilidade.
Para Aristóteles, o universo é um espaço de finalidades. Tudo se desloca para cumprir o seu papel, e isso implica a existência de um todo ordenado, de preferência ordenado de fora, uma instância transcendente
que tenha estabelecido o lugar, o papel e a finalidade de cada um para que tudo possa rodar harmonicamente.
Essa instância transcendente é Zeus, que, logo após vencer a primeira geração de deuses, colocou ordem na casa. Graças a ele, cada coisa tem o seu lugar, tem a sua função, portanto, blasfemar contra a sua finalidade é agredir o cosmos e enfrentar a vontade de Zeus.
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Se você perguntasse às pessoas na rua o que é, hoje, uma cidade justa, seria muito provável que elas lembrassem que em uma cidade alguns exercem o poder e outros a ele se submetem. Rapidamente, algumas perguntariam por que quem exerce o poder são uns e não outros, onde está o fundamento do exercício do poder, por que temos que aceitar que alguns deliberem, enquanto outros apenas se submetam a essa deliberação. Muito provavelmente a resposta seria: “Olha, o nosso esquema aqui é o seguinte: existe uma vontade da maioria, e para isso realizamos eleições. Quem tem o maior número de votos ganha, e certamente o eleito é aquele que contou com o apoio da maioria. Assim, é justo que governe e exerça o poder”.
Essa conversa tão óbvia seria muito estranha para Aristóteles. O
fundamento do exercício do poder na cidade, para esse pensador grego, é um fundamento de natureza. Uma cidade justa não é aquela cujas decisões são tomadas pela maioria, mas a que imita a ordem cósmica da
melhor maneira possível. Você lembra que na ordem cósmica existem aqueles que por natureza devem estar no alto, como a fumaça, e outros que por natureza devem estar embaixo, como a pedra. Também entre nós existem aqueles que por natureza são bem-dotados e outros que por natureza são carentes de recursos. Nesse sentido, é normal que os bem-dotados exerçam o poder e o façam porque ocupam uma posição hierarquicamente superior aos demais.
Toda vez que refletimos sobre isso, pensamos na escravidão. Aristóteles era completamente favorável à escravidão. Para Aristóteles, há o escravo por natureza, naturalmente inferior. Sendo naturalmente inferior, não tem plenas condições intelectivas para saber o que é melhor para si. Portanto, é bom para ele ser escravo, é bom que a sua vida seja decidida por outro. Loucura, não é?
Há também o escravo de guerra, e Aristóteles acha que nesse caso a escravidão pode não ser necessariamente justa. Mas a escravidão por natureza sim, pois alguém desprovido de excelência intelectiva não tem condições de mandar em si mesmo ou de mandar em uma cidade. Não só levará sua vida à ruína, como também a dos outros. É bom para todos que haja escravos — escravidão como consequência de uma distribuição de recursos naturais e de um exercício de poder legítimo, legitimado pela natureza.
A história da escravidão da reflexão anterior despertou manifestações de indignação, e por isso acho que vale a pena retomar; afinal de contas,
meu projeto é pegar você pela mão. Então vamos dar a palavra a Aristóteles. Ele diz: “A razão mostra tão bem quanto os fatos ensinam, afinal, comandar e ser comandado faz parte não só das coisas indispensáveis, mas também das coisas vantajosas, e é desde o nascimento que uma distinção foi realizada em muitos. Uns feitos para comandar, outros, para serem comandados. Assim, uns devem comandar, e outros devem ser comandados”.
Ora, meu amigo, se você tinha adoração por Aristóteles e achava que ele era um dos três maiores pensadores da história, continue tendo essa adoração e continue com essa convicção, porque ele é! Mas temos que admitir que o cenário intelectual que ele compartilhava, o paradigma que era o dele, a maneira de ele pensar as coisas já não coincidem com a maneira como pensamos hoje.
Aristóteles teria ojeriza à ideia de direitos humanos, por exemplo. A passagem é muito clara: “É imediatamente após o nascimento que tudo é determinado, tudo é decidido. Há aqueles que são bem-dotados e bem-nascidos, e há aqueles que são maldotados e malnascidos, e isso provavelmente desde um pouco antes ainda ao nascimento”. Trata-se, portanto, de um dote de princípio. Não está relacionado com dedicação para correr atrás, com garra, com determinação. É algo que já vem com a pessoa. Talvez pudéssemos hoje chamar de dote genético. Por que não?
Temos aí o cerne do princípio aristocrático. Há superiores, nobres por natureza, e há inferiores, escravos pela mesma natureza.
Se você quiser que eu vá mais longe, veja o que Aristóteles diz na sequência: “A mesma relação encontramos entre o homem e os animais.
Há os animais selvagens e os domésticos. Para os domésticos, é melhor que haja alguém para lhes prover, decidir por eles e guiar-lhes a vida”.
Acho que agora não é mais possível negar que Aristóteles tinha uma visão do homem um tanto quanto hierarquizada e marcada pela desigualdade. Até mesmo o animal doméstico serviu de comparação.
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Aristóteles fez comparações, e quem compara não diz que é a mesma coisa. Assim, poderíamos dizer que, por natureza, o homem é superior à mulher. Pensamento de Aristóteles. Da mesma maneira, alguns homens são superiores a outros, também por natureza. Ainda pensamento de Aristóteles. E os homens são superiores aos animais, também por natureza. É exatamente essa natureza que legitima relações de poder. A cidade será justa quando for governada pelos superiores, e esse governo dos superiores será realizado no interesse de todos. É vantajoso para os inferiores não dispor da prerrogativa de governar a si mesmos, muito menos de governar aos outros.
Sendo assim, algumas inferências se fazem fundamentais. Quando um pai exerce poder sobre o filho, o fundamento desse poder está na natureza, refere-se à sua velhice. Podemos dizer também que ao longo da história do pensamento essa natureza que legitima o exercício de
poder foi cedendo lugar a outro fundamento de legitimidade que é o entendimento, o contrato. No lugar do homem exercer o poder por conta de seus dotes naturais, passa a exercê-lo em função de um entendimento comum. Dessa forma, também as relações entre homem e mulher foram caminhando para uma igualdade, mesmo que continuem tão diferentes quanto eram. Mesmo as relações entre pai e filho, que um dia foram regidas por um fundamento de natureza, hoje, em grande parte, resultam de um entendimento. Assim, a superioridade de natureza do pai não autoriza violência física, agressividade verbal, humilhação.
No Brasil, temos hoje o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), uma espécie de entendimento comum. O que diz, em suma, é muito simples: adultos e crianças, pais e filhos continuam tão diferentes por natureza quanto eram há dois mil anos. Mas essa diferença de natureza hoje não autoriza tudo como já autorizou um dia. Aliás, até pouco tempo atrás.
Se você quiser ir sobrevoando a história do pensamento, saiba que um dia a natureza legitimava e fundamentava todo o poder, mas, pouco a pouco, esse fundamento foi substituído por um contrato, um acordo entre todos.
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Falamos da cosmogonia no pensamento mitológico e mostramos que muitas das características desse cosmos da mitologia foram aproveitadas
na filosofia. As características do cosmos de Aristóteles são em grande medida inspiradas pelo pensamento mitológico. Mas é preciso fazer uma ressalva: Aristóteles não acreditava exatamente que um deus transcendente havia colocado tudo em ordem. É um pouco mais sutil do que isso. Muito embora as características sejam as mesmas, a explicação mitológica não é exatamente aquela que Aristóteles emprega.
A verdade é que Aristóteles repudia a ideia de um artífice ou artesão divino. Mas, é claro, isso não significa que as coisas não tenham uma ordem e que as partes do mundo não tenham uma finalidade. Aristóteles trata a relação da parte com o todo nas estruturas dos animais, por exemplo, como algo essencialmente finalista. Os animais têm as partes que têm para que sejam capazes de desempenhar as funções para as quais foram destinados.
Em alguns momentos, o recurso de Aristóteles ao caráter finalista da natureza insinua a conclusão de que a natureza tem seus objetivos em mente de forma muito consciente. Veja só o que ele diz: “A natureza, como um ser humano inteligente, sempre destina cada órgão a algo que é capaz de usá-lo. Os mais inteligentes serão capazes de usar eficientemente o maior número de ferramentas, e a mão parece não ser apenas uma ferramenta única, mas uma ferramenta de ferramentas.
Assim, a natureza deu a ferramenta que é mais amplamente útil à mão, à criatura que é capaz de adquirir o maior número de habilidades, à criatura inteligente”.
É impressionante como, apesar de Aristóteles não ter designado um deus para colocar cada coisa no seu lugar, ele, de fato, acredita que existe uma inteligência embutida na natureza que faz com que cada parte naturalmente vá atrás do seu espaço, do seu lugar, e desempenhe a sua atividade mais própria, mais essencial, de maneira excelente.
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Você lembra que o universo de Aristóteles é finito e, portanto, referência para qualquer coisa que esteja dentro dele. Ele é harmônico, e, funcionando corretamente, não há conflito. É hierarquizado, pois as coisas dentro dele não têm a mesma importância. E, finalmente, você lembra que ele é cheio de finalidades. Agora vamos pensar em algumas das consequências disso.
Penso que vale a pena um pequeno esclarecimento sobre a questão da coerência interna da filosofia de Aristóteles e da relação íntima entre a física e a ética. Para Aristóteles, as coisas que estão dentro do universo movimentam-se em função de sua própria natureza, que busca posicioná-las no seu lugar certo no cosmos, no seu lugar natural. Assim, as coisas são dotadas de uma espécie de alma que as conduz para uma vida boa. Os movimentos, portanto, são resultantes da vontade que cada coisa tem de ir para o seu lugar.
Aristóteles também diz que alguns movimentos no universo são resultado de um constrangimento externo. Isso significa que você pode
pegar algo e jogar longe, ou pode ver algo se movimentando e impedi-lo de continuar. Dessa forma, podemos classificar os movimentos em dois tipos: os naturais, nos quais as coisas procuram o seu lugar certo, e os constrangidos, determinados por forças externas. Esses movimentos constrangidos podem ser perturbadores da harmonia e da ordem cósmica, porque podem direcionar as coisas para outro lugar que não o devido. Poderíamos assim estabelecer uma espécie de dualidade ou até enfrentamento.
Os movimentos do bem contra os movimentos do mal. Os movimentos do bem são os determinados por nossa própria natureza. Os movimentos do mal são os determinados por fatores externos que agridem a nossa natureza. Se na física é assim, na nossa vida passa o mesmo. De tal maneira que, se deixarmos falar a nossa natureza, vamos nos colocar em movimento na boa direção, na direção da felicidade, da vida que nos satisfaz, que nos completa e que nos coloca em harmonia com o resto.
Mas, tal como qualquer coisa no universo, nós também podemos ser vítimas de forças externas que determinam um movimento na contramão. Em nós também há, portanto, movimentos do bem e movimentos do mal.