Em busca de nós mesmos
O nosso papel no cosmos
E o que seria o justo? A mesma coisa. Algo ajustado ao cosmos. Claro que o justo é outro atributo, diferente do belo. Mas o que é belo é necessariamente justo e o que é justo é necessariamente belo porque os dois pressupõem harmonia com o todo universal.
Pensando desse jeito faz todo sentido. Mas, cá entre nós, será que essa afirmação da correspondência entre beleza, bondade e justiça coincide com a nossa experiência?
Normalmente, os heróis de Hollywood, os galãs bondosos, justiceiros, generosos e que reconstituem a harmonia das coisas também são muito bonitos. Esta é a nossa experiência da ficção televisiva e cinematográfica. Porém, é preciso reconhecer que, fora das telinhas e das telonas, não é bem assim. Quanta gente linda há que usa a própria beleza para iludir, para escravizar, para aterrorizar com dependências afetivas seus parceiros e seus pretendentes. Quanta gente justa, de infinita bondade, que esteticamente é dotada de extrema feiura. Gente que se apresenta malcheirosa, maltrapilha, esbagaçada, mas é capaz de um gesto de grande bondade e grande generosidade. Assim, a mesma ficção nos dá a bela e a fera. A fera medonha, monstruosa, é de infinita beleza moral, de imensa generosidade.
E no mundo da vida, fora da ficção? Aí podemos encontrar uma total falta de correspondência, um desalinhamento radical entre o que chamamos de belo e atrativo com aquilo que é justo e bom. Por essas e por outras, temos que admitir que essa referência cósmica dos estoicos já não faz nenhum sentido para nós. Mas, como aqui a palavra é deles, foi importante deixar claro que, na concepção deles, beleza, justiça e bondade são três perspectivas correspondentes da mesma coisa. A imensa referência do todo universal finito, ordenado e harmonioso.
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O nosso papel no cosmos Clóvis: Como vimos, teoria é a contemplação do divino. Para os estoicos, o divino é a maravilha do universo, o fato de tudo estar amarrado em tudo, o fato de que cada pedaço do universo tem a sua incrível função e é maravilhosamente ajustado a ela. O homem fica perplexo diante da perfeição dos ajustes e dos encaixes. Sabe que não foi ele que fez, então chama de divino.
Pare para pensar. Além da teoria, existe a moral, que é a nossa adequação a esse universo. E, se tudo é do melhor jeito — o olho é do melhor jeito possível para o homem enxergar, o joelho, para o homem agachar-se, a cerejeira para produzir a cereja e o vento para refrescar —, somos então obrigados a deduzir que nós também temos na nossa natureza o que há de melhor para cumprir nosso papel.
Portanto, precisamos investigar duas coisas para pensar como um pensador estoico: primeiro, qual é o nosso papel e, segundo, quais são os atributos da nossa natureza. Deve haver uma extraordinária vinculação entre os dois. Se eu tenho enorme talento para o desenho, é porque o meu papel no universo deve ter a ver com isso. E o que é mais incrível:
esse meu talento é o melhor possível para cumprir a minha finalidade, que é desenhar. Não tem nada de bobeira nem fora de nós, nem dentro de nós. E nossos recursos são imprescindíveis e os melhores possíveis para conseguir cumprir a função que é a nossa dentro da máquina cósmica.
É muito legal essa reflexão, pois, se o joelho é perfeito para dobrar, você deve ser perfeito para alguma coisa também.
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A moral sempre teve a ver com as nossas escolhas a respeito de como vamos agir, isso porque, no nosso caso, a vida sempre dá alternativas, e nossa conduta pode ser sempre uma ou outra, ou também outra. Sempre há 360 graus de caminhos a percorrer, e a nossa conduta deliberada fará jogar no lixo tantas outras que poderíamos ter escolhido, mas que, por alguma razão, decidimos não escolher, não agir daquela maneira, não viver daquele jeito.
Assim, os estoicos também tinham a sua moral. Veja o que Cícero diz sobre isso: “Não podemos ter nenhum tipo de julgamento a respeito do que é bom e do que é mau sem conhecer o sistema inteiro da natureza”.
Dito desta maneira, parece enigmático, quase incompreensível. Por que será que, na hora de decidir o que vou fazer da minha vida, para poder decidir certo e não errar, eu tenho que conhecer o sistema inteiro da natureza? Não parece complicado demais para viver a vida? Afinal de
contas, conhecer o sistema inteiro da natureza é um pré-requisito gigante. Mas o que estamos tentando explicar é que, para os estoicos, toda decisão a respeito da própria conduta tem que estar relacionada com o cosmos porque a conduta certa é ajustada a ele.
E como faço para me ajustar ao cosmos?
É preciso conhecê-lo. É preciso entender seu funcionamento, seus mecanismos. Somente assim poderei vislumbrar qual é e qual seria minha adequada participação nesse todo universal.
Imagine, por exemplo, que na hora de decidir que faculdade fazer os estoicos têm a natureza como referência. Qual será o melhor curso a cursar? Aquele que permite que a sua natureza cumpra o seu papel. E
quando é que a natureza cumpre o seu papel? Justamente quando se encaixa na máquina cósmica, fazendo-a funcionar adequadamente. E
quando isso acontece? Quando você joga o seu jogo, descobre qual é a sua praia, entende qual é o seu negócio, pois você é, como já dissemos, do melhor jeito possível para cumprir o seu papel.
Claro que alguém dirá que é para estudar direito porque há várias possibilidades de emprego, concurso público, e você levará uma vida estável numa cidade do interior. Claro também que quem diz isso sucumbe à tentação de uma comodidade oferecida pela sociedade e não está nem aí para o seu talento.
E quando você diz: “Mas o que eu queria mesmo, o que me faz brilhar os olhos, é ser professor” — nossa! Vomitarão na sua frente. Porque
nossa sociedade desdenha essa escolha e a considera pífia, ridícula, indigna, tal como é o salário que cabe a um docente.
Mas você saberá o que fazer. Para os estoicos, a sua natureza e os seus recursos naturais dizem a resposta, indicam o caminho. Porque você é do melhor jeito possível para cumprir o seu papel no universo.
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Para os estoicos, a natureza é a referência. A justiça é o ajuste da sua natureza no todo da natureza como em um quebra-cabeça. E você, buscando a excelência de você mesmo, estará assim ajustando-se à ordem cósmica. O encaixe não é estático, é dinâmico. O encaixe não é de ficar parado, mas é de ação, de movimento. E a busca da própria natureza no aperfeiçoamento de si mesmo já é o encaixe adequado no todo cósmico.
Os estoicos davam lições um pouco diferentes daquilo que temos hoje como aula de filosofia. Hoje, para fazer uma graduação em filosofia, você ouve professores, lê textos de pensadores clássicos, eventualmente propõe um texto, escreve respostas em provas, e o curso acontece em um esquema de ouvir discursos, ler discursos e produzir discursos.
Na escola estoica não era bem assim. Ela propunha cursos práticos; portanto, a filosofia traduzia-se em condutas, em comportamentos. Você era levado a agir como se estivesse em um laboratório e aprendia as
coisas ensinadas pelos estoicos fazendo-as. Tal como em um curso de artes ou no laboratório de ciências.
E o que poderia atrapalhar a busca por uma vida boa? O que poderia enfrentar a natureza como referência, oferecendo uma solução equivocada para a vida?
Certamente os estoicos acreditavam que a sociedade, tal como se apresentava naquele momento — as convicções sociais, os hábitos, as regras, as distribuições de prestígio e notoriedade, tudo que existia na sociedade da época e que existe até hoje —, poderia ser profundamente perturbadora em uma escolha adequada para a própria vida. Portanto, os estoicos ensinavam a enfrentar a pressão social — ou a repressão social
— e submetiam-se a situações de ridículo para ser achincalhados, agredidos, advertidos e importunados, e criar assim uma espécie de couraça que os tornaria blindados às pressões sociais.
Zenão, grande pensador e fundador da escola estoica, era aluno dos filósofos cínicos e com eles aprendeu muita coisa. Conta-se que Zenão puxava um peixe morto com uma cordinha, como se fosse um cachorro, no intuito de despertar a galhofa na sociedade e de ser mesmo ridicularizado. Assim, aprenderia afetivamente a proteger-se e a não se deixar abater pela pressão social, pela maledicência.
Isso me faz lembrar muito da minha vida social. Nunca fui tomado por alguém muito convencional e recordo que, quando era obrigado a fazer treinamentos de natação, muitas vezes comparecia à piscina de
meias. Nas primeiras vezes que fiz isso, fui profundamente chacoteado por todos. Mas, depois de um tempo, cansaram, e eu percebi que havia ganho alguma coisa: não me incomodava mais com o que falavam a meu respeito. Isso é incrivelmente bacana na hora de viver porque, se você tem convicções e acaba se deixando abater pela chacota, pela maledicência e pelo ridículo que a sociedade lhe impõe, acabará fragilizando suas convicções e agindo como um robô da lógica social.
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Sabemos como é agradável quando recebemos tapinhas nas costas, quando todos dizem que somos show de bola, quando todos nos aplaudem. Mas às vezes todo esse reconhecimento e toda essa glória vêm com um preço caro a pagar, que é virar as costas para si mesmo, para os próprios talentos, para a própria essência, para a própria natureza e, portanto, para a própria vida boa.
Os estoicos estavam convencidos de que, se houver choque entre a sociedade e a natureza, é preciso optar pela segunda e mandar às favas todos aqueles que pretendem nos desviar do bom caminho.
Mas há uma possibilidade nobre nessa história que raramente é mencionada: é justamente quando a sociedade aplaude o pleno desabrochar da nossa natureza. É quando a sociedade reverencia e reconhece o talento natural de cada um. Isso costuma acontecer com alguns artistas — alguns, que fique claro —, e aí existe uma espécie de
combinação mágica entre viver de acordo com os próprios talentos e receber as glórias que a sociedade sabe nos outorgar quando é de seu interesse. Nesse caso, a combinação — que raramente depende das nossas forças e da nossa inteligência, mas de variáveis que não podemos controlar — parece muito legal, e acho que é condição de uma vida irretocavelmente feliz.
Eu poderia lhe dizer que, muitas vezes nessa vida que levo, passeando pelo nosso país e dando palestras em tudo que é canto, sinto que, na condição de palestrante, atuo dentro daquilo que me é mais favorável em termos de natureza, porque entendo que, no meio das imensas fragilidades de natureza que são as minhas, essa de encarar grandes públicos talvez seja uma de minhas forças. É claro então que, palestrando, estou respeitando, suponho eu, aquilo que a natureza me deu de mais forte. E a sociedade parece aplaudir. Naquele momento, essa combinação é show de bola para mim, porque tanto estoicos quanto quaisquer outros devem reconhecer que o momento é mágico. Não tenho que enfrentar nada. É só fazer o que meu corpo manda, e aí o aplauso costuma vir.
Tomara que você encontre o mesmo caminho, tenha a mesma sorte, trabalhe com o que faça luzir seus olhos — e torça para que isso seja entendido pela sociedade como merecedor de aplauso. Aí, não tem como a vida não ser legal.
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Os estoicos estavam convencidos de que o universo é maravilhoso e fazemos parte dele. Se estamos em fina sintonia, a vida é boa, quando estamos fora de lugar, a vida é ruim.
O que seriam então a tristeza e o tédio para os estoicos? O que seriam a angústia e todas essas paixões tristes? Seriam uma espécie de sintoma, um indício de que estamos vivendo errado, no lugar errado, jogando errado, não aproveitando o que temos de melhor, blasfemando contra a nossa própria natureza e em desajuste com a ordem cósmica.
Crates, mestre de Zenão, tinha uma mulher que era um negócio do outro mundo. Hipárquia. Uma das mais lindas mulheres da história da filosofia. O que não garante muita coisa, porque a filosofia não é atravessada por beldades, mas parece que Hipárquia era espetacular. E
eles gostavam de transar. Eram desses casais que se afinam, gostam um do outro, sabem dar prazer, não tem nojinho na hora de transar, aproveitam de tudo. Hipárquia gritava quando transava com Crates, não era aquela coisa miudinha, apequenada pela vizinhança, coagida pelos bons costumes, não. Hipárquia gritava porque Crates sabia cutucar no lugar certo. E Crates na hora de transar com Hipárquia abria portas, janelas, cortinas para que aquela transa fosse vista e presenciada por todos. Era a maneira de deixar claro que ele entendia que a transa legal, a transa intensa, deveria ser assistida porque era uma homenagem à natureza, à ordem cósmica, uma homenagem ao prazer que a natureza nos convida a ter, dando os instrumentos que nos dá. E quem não
gostasse que se recolhesse à sua insignificância ressentida, porque Crates e Hipárquia não escondiam nada.
Quisera eu ser como Crates, quer para ser competente e proporcionar tanto prazer a uma mulher, quer para ter a coragem de sair aos gritos e de porta aberta, minha natureza prazerosa e feliz.
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Um dos grandes e maiores problemas que os estoicos viam para que a vida fosse boa era como encaramos a questão da própria morte.
Em 2017, eu completo 52. Acho que quem está fazendo cinquenta e poucos anos — esse pessoal que nasceu no meio da década de 1960, como eu — e não pensa em morrer pelo menos uma vez ao dia é um perfeito idiota. Penso que, depois de certo momento da vida, a iminência da morte vai tornando a reflexão sobre ela quase que obrigatória. E, como todos queremos viver — ou, pelo menos, a grande maioria de nós
—, a certeza de que morreremos é um problema. Quando você pensa que deixará de existir, esse agenciamento de matéria e alma, esse conjunto de ideias, de sensações, de corpo, de identidade que é você acaba definitivamente. Isso é talvez a coisa mais estranha que possa existir para que a vida seja boa. Lá no começo da vida, está longe, temos toda a vida pela frente. Mas aos 50 anos já não há mais tanta.