Em busca de nós mesmos

Clóvis de Barros Filho · Capítulo 4 de 31

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Em busca de nós mesmos

Parte 2

1 Nota de Pedro Calabrez: esses termos binários são figuras de linguagem. Não há no cérebro dois sistemas discretos perfeitamente separados e definidos, responsáveis por processos frios e quentes, lentos e rápidos, bottom-up e top-down, etc. Utilizamos essa dualidade apenas para fins didáticos.

2 Nota de Pedro Calabrez: quero deixar claro que esta é uma metáfora. Não há supercomputador hoje que chegue sequer próximo daquilo que um cérebro humano é capaz de fazer. Há pesquisadores que acreditam que supercomputadores digitais (versões muito poderosas de computadores semelhantes aos nossos) serão capazes de simular a atividade cerebral no futuro, outros afirmam que o cérebro não é um computador digital (o grande neurocientista brasileiro Miguel Nicolelis defende a tese de que o cérebro é um computador analógico-digital — ele expõe essas ideias no livro O cérebro relativístico) e outros ainda afirmam que o cérebro não é um computador, ou seja, não é uma máquina de processamento de informações (um exemplo desse pensamento é o grande psicólogo americano Robert Epstein).

 

Parte 2

O cosmos e a vida humana

 

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A Odisseia de Homero

Calabrez: Dando seguimento a essas inquietações e continuando nosso grande tema — uma reflexão sobre o que é a realidade, o que é o mundo —, falaremos agora sobre algumas das grandes visões de mundo. Visões sobre como funciona a totalidade das coisas que chamamos de universo ou cosmos. Desde a origem do pensamento ocidental, temos contribuições fantásticas, olhares extremamente instigantes e belos sobre a natureza da realidade em geral e dos seres humanos em específico.

Chegando aos dias atuais, encontramos alguns dos maiores cientistas do planeta dedicando suas vidas a compreender o cosmos. Em meio a esse universo vasto e complexo, estamos nós, os seres humanos. Faremos então uma jornada pelo cosmos e pela vida humana dentro do cosmos —

da Antiguidade até os dias atuais.

Clóvis: Uma ideia muito presente no pensamento grego é a de que o mundo é ordenado. Nesse sentido, ele poderia ser comparado a uma máquina constituída por partes, por peças. E essas peças não se encontram na máquina por acaso. Cada uma tem a sua finalidade, sua função. Deste modo, as coisas da natureza cumprem o seu papel: o vento

refresca, a maré fertiliza, o sapo engole moscas, o joelho dobra, o intestino “peristalta”. É fundamental que cada peça cumpra sua função para que o universo como um todo funcione bem.

Dentro dessa concepção ordenada do universo, que os gregos denominavam cosmos, o homem ocupa particular posição, afinal, ele também é imprescindível para o bom funcionamento do cosmos. Assim, a vida boa implica uma harmonia de cada homem que vive com o todo, com o cosmos. Da mesma maneira que o vento em harmonia venta e com isso colabora com o cosmos, cada um de nós também deve, vivendo uma vida específica, colaborar com o que o cosmos espera de nossas vidas. A diferença é que o vento venta, não há outra alternativa para ele.

Mas, no nosso caso, as alternativas são muitas. Podemos viver uma vida em harmonia com o cosmos, como podemos optar por muitas outras que seriam desarmônicas e, portanto, em desajuste com a ordem cósmica.

No primeiro caso, nossa vida seria boa e haveria felicidade. No segundo, padeceríamos e sofreríamos, além de comprometer a ordem universal. Portanto, um dos grandes problemas do pensamento grego é: como deve ser a vida de cada um para garantir a harmonia com o cosmos e, com isso, a felicidade? Qual vida eu teria que escolher para cumprir o papel que o cosmos espera de mim?

A resolução desse problema sempre intrigou o pensador grego, isso desde a mitologia.

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Foi Zeus quem fez o cosmos ordenado e organizado e distribuiu cada pedaço para cada um de seus correligionários. E o cosmos colocou cada coisa no seu lugar, cada coisa com a sua atividade específica. A felicidade é a harmonia com o cosmos, e você consegue essa harmonia no pleno desabrochar da sua própria natureza.

Mas essa ideia de cosmos já estava presente antes da filosofia surgir, nos relatos mitológicos. Já se encontrava, por exemplo, na Odisseia de Homero, que é um relato sobre o caminho do caos ao cosmos.

A Odisseia é a história de Ulisses querendo voltar para casa. Ele foi para a guerra de Troia, acabou tornando-se um herói, porém, teve dificuldades na volta para casa. E a Odisseia conta esse retorno. Ulisses era da ilha de Ítaca, morava com Penélope, ou seja, estava no lugar certo, no lugar dele. Se você pegar a ideia de cosmos, onde cada um tem o seu lugar, Ulisses estava em Ítaca, que era uma espécie de lateral direita para Cafu ou de comando de ataque para Romário. Ulisses foi obrigado a sair para guerrear, uma vez que era rei em Ítaca. Acabada a guerra, ele tenta desesperadamente voltar para casa, mas tem muitas dificuldades. E o que tudo isso simboliza? Que, enquanto Ulisses estava fora de Ítaca, estava em desarmonia com o cosmos. Mas, quando finalmente volta para Ítaca, ele retoma a harmonia com o cosmos, e a vida volta a ser boa, volta a valer a pena.

Claro que o caos anterior ao regresso de Ulisses a Ítaca é complexo. É

um caos absolutamente sofisticado, explicado numa narrativa imperdível

e fantástica que mostra como Ulisses estava fora de lugar, como ele não queria estar onde estava. O esforço de Ulisses para voltar para Ítaca era o esforço de uma retomada, de reassumir seu posto nesse espaço ordenado e cósmico.

O caos em que Ulisses se meteu começa no casamento de Tétis e Peleu. Ela, uma deusa, e ele, humano. O casamento entre humanos e deuses não era incomum na mitologia. Zeus, deus dos deuses, ofereceu uma festa no Olimpo e se “esqueceu” de convidar Éris, que era uma mala, deusa da discórdia, tipo aquelas pessoas que gostam de alfinetar, cutucar, aborrecer. Uma intrigueira. Éris não gostou e foi ao casamento assim mesmo — como convém a toda intrigueira —, deixando uma linda maçã de ouro em cima da mesa com a dedicatória: “Para a mais bela”.

Aí começou o caos, começou uma discórdia terrível. Éris conseguiu o que queria.

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Na guerra de Troia, Ulisses acabou furando o olho do ciclope Polifemo

— o que é muito ruim, uma vez que um ciclope só tem um olho. Ele cegou Polifemo, filho de Poseidon, deus dos mares. Poseidon viu-se obrigado a vingar o filho — muito embora Polifemo fosse um pentelho — e resolveu dificultar o regresso de Ulisses para Ítaca. Eis a Odisseia, a

“Ulisseia”, a aventura — ou a desventura — de Ulisses tentando voltar para casa. Há aí uma nova situação de caos em contraste com a

harmonia cósmica que é o retorno definitivo de Ulisses para Ítaca. A primeira situação é a discórdia proposta por Éris. A segunda é a própria guerra de Troia e suas atrocidades. E a terceira é a Odisseia, pois Ulisses tenta, mas não consegue voltar para casa.

Todos os obstáculos que Poseidon colocou para Ulisses eram ligados ao esquecimento, com a perda do sentido da vida. Se o sentido da vida de Ulisses estava em Ítaca, com Penélope, o esquecimento do caminho de volta e todas as dificuldades que ele enfrentou simbolizam o caos e se contrapõem à ordem cósmica que é o retorno definitivo.

Não cabe a menor dúvida de que a parte mais interessante desse retorno é a passagem de Ulisses pela ilha de Calipso. Tanto é que, dos dez anos que ele leva para voltar para casa, sete são gastos na ilha. Esses anos são o símbolo de uma vida fracassada, no caos.

Todavia, há um contraste que é preciso deixar claro: nem todas as dificuldades que Ulisses teve para voltar para casa foram doloridas. Um exemplo é que em Calipso havia muito prazer. Mas a mitologia e esse relato específico contrastam uma vida de prazeres fortuitos e a felicidade eudaimônica, que é o ajuste ao todo cósmico.

Ulisses chegou à ilha de Calipso para reabastecer o seu barco, mas, quando Calipso o viu, apaixonou-se perdidamente e decidiu escondê-lo.

Aliás, Calipso vem do grego kalýptein, que significa “esconder”. E assim Ulisses tornou-se prisioneiro dela.

A ilha era paradisíaca, e Homero é absolutamente criterioso em dizer que o papel de Calipso era tentar fazer com que Ulisses esquecesse Penélope, esquecesse Ítaca, esquecesse, portanto, do local onde a vida estaria em harmonia com o cosmos.

Calipso adorava Ulisses. E ela era uma divindade maravilhosa, uma deusa espetacular, encantadora. Tinha o charme de Juliana Paes misturado com a elegância de Deborah Secco e a magnitude de todas as atrizes imponentes que nos encantam. Invente Calipso como quiser, a mitologia autoriza.

Mas que estranho castigo esse imposto por Poseidon a Ulisses! Uma ilha paradisíaca, um resort com ninfas, uma mulher maravilhosa apaixonada e absolutamente louca por sexo? Alguns confundiriam isso com o próprio paraíso!

E a verdade é que Ulisses chorava todas as noites na esperança de voltar para casa, para os braços de Penélope, para a ilha de Ítaca, o seu lugar natural.

Em um determinado momento, chega a notícia de que Zeus mandou soltar Ulisses. Atena ficou com pena, mandou Hermes — espécie de deus DHL ou Sedex 10, deus da comunicação — avisar que era para soltá-lo.

Quando Calipso se vê obrigada a libertá-lo, tenta uma última cartada.

Ela quer que ele fique por conta própria e lhe propõe a eternidade e a juventude. Mas ele recusa. Quando Ulisses recusa a proposta de se tornar deus, recusa a proposta da eternidade e da juventude na ilha de Calipso,

há um momento nobre da história do pensamento: o pensamento grego está nos ensinando que é preferível uma vida de mortal, finita, uma vida de humano no lugar certo e em harmonia com o cosmos, a uma vida eterna, porém fora de lugar, em desarmonia e em desacordo com a ordem cósmica. Se Ulisses aceitasse, tornar-se-ia deus, deixaria de ser humano, deixaria, portanto, de ser quem era e viveria em um lugar longe do seu.

Acho que você percebeu. Ulisses, ao optar por Penélope, por Ítaca, opta pelo ajuste à ordem cósmica, pela vida boa, finita, pela mortalidade e pela humanidade. A verdade é que Ulisses escolheu ser homem tendo podido tornar-se deus.

Essa história nos aponta algumas lições que estarão na medula da sabedoria grega filosófica. A primeira delas é sem dúvida a vitória sobre o medo. Todos nós conhecemos os medos que nos assolam. Sabemos que o medo tem a ver com um tipo particular de queda de potência, de energia vital, que tem como causa alguma coisa ruim que passa pela nossa cabeça. Evidentemente que o medo dos medos é o da morte. A morte de que falamos é justamente essa morte imaginada, a morte que em nós assume vários tipos de fantasmas, de imaginário, e que produz um imenso desconforto. O medo da morte com certeza não é exatamente o medo de uma ocorrência vindoura. É o medo de coisas que passam por nossa cabeça, é o medo da morte dos entes queridos, é o medo do perecimento de tudo aquilo que nos alegra.

Quando Ulisses opta pela finitude, ele mostra um atrevimento, uma coragem para enfrentar o medo do perecimento. E é claro que isso é um traço de sabedoria, afinal, a nossa vida é mesmo finita e, se formos imobilizados pelo medo, evidentemente ela não será tão boa quanto se a deixarmos fluir sem pensar nesse assunto.

Perceba o quanto o medo da morte nos aterroriza. Nossos condomínios absolutamente cercados por muralhas e com seguranças privados, nossos veículos blindados e marcados por uma fronteira imensa entre o dentro e o fora ameaçador. O medo nos fecha para o mundo, nos fecha para os outros e, em grande medida, nos impede de estarmos aptos a encontrar o mundo em experiências alegres. Portanto, a vitória sobre o medo é condição da vida boa, primeira lição da escolha de Ulisses por Ítaca e por Penélope.

Uma segunda lição da Odisseia tem a ver com o tempo que ele levou para voltar para casa: vinte anos. Dez guerreando em Troia e mais dez enfrentando os obstáculos que Poseidon lhe impôs. Durante esses vinte anos, o que Ulisses mais queria era estar em Ítaca. Ele lembra os tempos de Ítaca, quando, nos braços de Penélope, tudo era bom. Perceba que, durante esses vinte anos de vida fora de lugar, de vida fracassada e de vida ruim, o espírito de Ulisses é atravessado pela lembrança dos tempos já vividos em Ítaca e pela esperança de um dia voltar para casa.

Para os gregos, eis aí dois dos piores males que podem nos assolar. Ao invés de vivermos a vida na vida, aproveitarmos o instante presente e o

que o mundo tem de melhor, nos refugiamos, e nosso espírito vaga pelo passado. Quando o passado foi bom, lamentamos que tenha terminado, vivemos em nostalgia, em saudade. Quando o passado foi ruim, é pior ainda, vivemos cheios de remorsos, de arrependimentos, de culpa. São as paixões tristes que nos assolam. A lembrança de um passado ruim nos massacra, e, quando finalmente nos libertamos do que já aconteceu, nosso espírito vaga para o futuro, para o que ainda não se apresentou, para o mundo ainda não encontrado. Aí, é claro, desejamos e temos a ilusão de que tudo será melhor quando alguma coisa acontecer. São pensamentos do tipo “quando eu trocar de mulher”, “quando eu trocar de casa”, “quando eu trocar de emprego”, “quando eu trocar de carro”, e assim temos a ilusão de que, quando o mundo for diferente do que é, a nossa vida será melhor.

Quando Ulisses opta por Ítaca, está optando pela reconciliação com o mundo, pela reconciliação com o presente, pela vida na vida, pela riqueza do instante, pela beleza do instante vivido.

Portanto, abra mão da nostalgia, abra mão da esperança. Quando a vida é boa, cada instante vale por si só. As lembranças e a memória, as projeções e as antecipações não fazem mais falta. Somente escapamos quando o instante ameaçador nos aterroriza e nos assombra.

Nietzsche chamava essa reconciliação com o real e com o mundo de amor fati. A certeza de que a vida só será boa se conseguirmos amar o

real como ele é, sem escapar para o passado ou para o futuro, ou seja, sem a nostalgia e sem a esperança.

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O retorno de Ulisses a Ítaca simboliza o restabelecimento da ordem cósmica. Ulisses passa a colaborar com o cosmos em casa, governando os súditos, no lugar que é o seu, onde tudo lhe convém. Veja, da mesma maneira que ao arrozal convém a várzea, ao cacto, a terra seca, a Ulisses convém Ítaca. Ulisses em Ítaca passa a render melhor, a viver melhor, passa a ter uma existência eudaimônica e, assim, a colaborar com o cosmos.

Você já deve ter pensado na questão da eternidade. O que é a eternidade para nós, pós-cristãos? É continuar vivendo em outro lugar depois de morrer — talvez com corpo, talvez sem corpo — eternamente.

Você volta a viver e não morrerá outra vez, você conserva a sua identidade e ainda pode encontrar seus entes queridos. Essa eternidade é show de bola. Mas a eternidade sugerida por Homero e retomada pela filosofia grega é um pouco diferente.

Quando você restabelece a ordem cósmica, participa do cosmos e se torna um fragmento de eternidade, pois o cosmos é eterno. Participar do cosmos é participar de algo eterno. A eternidade é do todo, e ela só é possível porque suas partes são finitas, se deterioram, desaparecem. Veja que curioso: para que o cosmos possa sobreviver eternamente, suas

partes têm que morrer. Assim, você participa de algo eterno, morrendo.

A finitude é a condição da eternidade do todo, e você oferece sua vida à ordem cósmica, morre sabendo que é justamente nessa condição que o cosmos continuará existindo. A matéria que o constitui se reorganizará, nada desaparece, e aquilo que o constitui hoje se reorganizará em outros entes, em outras formas de ser e dará sobrevida ao cosmos.

Meu amigo, entre a eternidade que acreditamos e essa sugerida por Homero, vamos combinar que ninguém vai perder o medo de morrer tendo como consolo palavras como essas. Não fique triste. Parte de você virará testículos de javali, outra parte virará maçaneta de porta e, quem sabe, outra parte virará manguezal. Melhor seria se vivêssemos com a nossa identidade na eternidade. Mas isso sou eu que estou falando.

Homero e a Odisseia apontam para uma eternidade diferente.

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A história de Ulisses nos permite uma última conclusão: a certeza de que, para os gregos que irão se aproveitar da Odisseia para refletir, ética e felicidade são dois lados da mesma moeda. Impossível falar de uma sem falar da outra.

Já sabemos que a vida ajustada ao todo cósmico é bem-sucedida, é uma vida que vale a pena ser vivida. Quando nosso corpo entra em harmonia com a ordem cósmica, os instantes de vida são gloriosos e de grande felicidade. Quando isso não acontece e vivemos fora de lugar, aí

a vida é sem graça, frouxa, medíocre. E, em cada instante assim, torcemos para que acabe logo.

Se o ajuste à ordem cósmica é condição da eudaimonia, condição da felicidade, é também o nosso maior dever, porque o universo é a referência para nossa vida. Nossa grande obrigação é fazer o cosmos funcionar, e temos uma espécie de programa de vida a cumprir nesse sentido. Se não o cumprirmos, estaremos comprometendo o funcionamento do cosmos, estaremos vivendo fora de lugar, em desarmonia. É exatamente isso que os gregos chamavam de hýbris, situação em que, vivendo fora de lugar, você não só compromete a própria vida, como compromete a harmonia de todo o resto.

Por essas e outras, seu maior dever é investigar qual é a vida que o cosmos espera que você viva. Assim você estará cumprindo o seu dever de fazer funcionar o cosmos e vivendo em felicidade. Dever e felicidade são a mesma coisa, implicam a mesma conduta.

Para os gregos, como poderia haver um dever que nos levasse a uma vida infeliz? Nossa obrigação é viver bem, pois nossa vida boa também permite que o todo viva bem.

Esta reflexão é fascinante, ética e felicidade se dão as mãos lado a lado, sem fissura possível. Imaginar deveres que levassem à tristeza seria, de fato, de grande estupidez.

Mas nem todo mundo pensou ou pensa que ética e felicidade sejam dois lados da mesma moeda. Mais perto de nós, no pensamento

moderno, vamos encontrar pensamentos éticos que não coincidem com a maneira de enxergar essa relação com a felicidade. Vou destacar dois sobre os quais certamente voltaremos a falar.

Começaremos pelo pensamento utilitarista dos ingleses.

Fundamentalmente, eles pensam que uma conduta boa é aquela que tem como consequência a felicidade da maioria; portanto, uma conduta boa depende da sua consequência. Uma conduta será boa quando ensejar a felicidade do maior número e será ruim quando ensejar a tristeza do maior número.

Você pensará que aí está a correspondência entre ética e felicidade.

Não é bem assim, meu amigo, pois a felicidade do maior número pode não coincidir com a felicidade de quem age. E isso acontece muitas vezes. Você tem que escolher entre um caminho ou outro: um lhe será mais prazeroso, mais conveniente, mas arruinará a vida de meio mundo; o outro lhe será menos prazeroso, quem sabe até doloroso, mas propiciará alegria para muitas pessoas. Pelo utilitarismo, você, agente, deve optar pela própria tristeza em nome da alegria da maioria. Veja que essa correspondência entre agir bem e ser feliz fica quebrada.