Em busca de nós mesmos

Clóvis de Barros Filho · Capítulo 17 de 31

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Em busca de nós mesmos

O demônio de Laplace

The Big Picture, lançada em 2016, e infelizmente ainda sem tradução para o português.

Alguns leitores podem estar pensando que o naturalismo poético é uma visão necessariamente ateia, ou seja, que exclui totalmente a possibilidade de Deus ou deuses.

Não é verdade.

Ainda que haja muitos naturalistas ateus, há aqueles que não acreditam em interferências sobrenaturais em nosso universo (ou seja, o universo é estritamente regido pelas leis naturais), mas que acreditam na existência de uma força superior por trás dessa complexidade absurda e maravilhosa que rege o cosmos. Esta é uma postura conhecida como deísmo.

Há aqueles, aliás, que não conseguem encontrar outra explicação para tamanha complexidade a não ser em um Deus criador. À primeira vista, visões naturalistas e fé em Deus parecem mutuamente excludentes. No entanto, existem exemplos, tanto na ciência quanto fora dela, de indivíduos que integraram ambas em suas vidas. Galileu Galilei e Isaac Newton são dois pensadores que fizeram isso.

 

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O demônio de Laplace

Calabrez: O naturalismo poético tem implicações importantes em como enxergamos o mundo. Afinal, se o mundo natural é regido por regras inquebráveis (as leis da natureza), isso significa que, conhecendo todas as leis naturais, seremos capazes de conhecer o cosmos por completo.

O matemático e físico francês Pierre-Simon, marquês de Laplace (1749–1827), propôs um experimento mental que leva essa ideia ao extremo. Segundo Laplace, se houvesse uma inteligência, um intelecto vasto o suficiente, capaz de compreender todas as leis naturais e ainda de conhecer todas as variáveis que determinam o estado do universo no momento presente, esse intelecto seria plenamente capaz de prever com exatidão os estados futuros desse universo.

Os contemporâneos de Laplace acharam o nome “vasto intelecto”

muito sem graça e preferiram chamá-lo de demônio — o demônio de Laplace.

Sei que pode ser difícil apreender a ideia, então vou usar um exemplo mais palpável. O demônio de Laplace poderia ser entendido como um supercomputador. Imagine um computador capaz de resolver todas as

equações existentes. Você digita uma informação (o completo estado matemático do universo neste instante). O computador faz um cálculo (a partir das leis da física). Um resultado é gerado (o estado do universo no momento seguinte, ou seja, no futuro).

Se o leitor assistiu ao filme Matrix, deve lembrar que o mundo dentro da Matrix era determinado por regras matemáticas pré-programadas. No segundo filme da trilogia, o protagonista Neo encontra o Arquiteto. Ele é o criador da Matrix e conhece todas as suas regras de funcionamento, todas as variáveis que determinam seu estado presente. Com isso, é capaz de fazer previsões exatas sobre tudo o que ocorrerá no futuro da Matrix. O Arquiteto é uma versão moderna do demônio de Laplace. Se o leitor não assistiu à trilogia Matrix, recomendo que assista — é excelente e suscita questões filosóficas intrigantes. O diálogo entre Neo e o Arquiteto é muito interessante.

Quero deixar uma coisa clara: ninguém em sã consciência, nem o mais célebre físico, nem Stephen Hawking, afirma que conhecemos todas as leis naturais — e muito menos que conhecemos todas as variáveis que determinam o estado presente do universo. Há muitas coisas que não sabemos. Há questões que nós sabemos que não sabemos. Provavelmente há muito mais questões que nós nem sabemos que não sabemos.

Sendo assim, o demônio de Laplace é um experimento mental, ou seja, um raciocínio lógico sobre um experimento impossível de realizar

na prática, mas com consequências que podem ser exploradas pela imaginação (com o auxílio das ferramentas científicas que possuímos).

O demônio de Laplace nos ensina uma grande lição, amplamente aceita pelos cosmólogos contemporâneos, pois é perfeitamente alinhada aos modelos matemáticos que explicam o mundo no nível das leis fundamentais da física.

Eis a lição: o universo é determinado por leis naturais e, se conhecermos essas leis, saberemos o que determina os estados do universo. Conhecendo as variáveis que determinam um estado presente, saberemos tanto qual era seu estado anterior (precedente) quanto qual será seu estado posterior (procedente).

Essa é uma perspectiva conhecida como “determinismo”, que costuma acompanhar visões naturalistas. A filosofia de Spinoza, por exemplo, é naturalista e determinista.

Determinismo significa apenas que o estado presente de um sistema é determinado pelo seu estado anterior. Conhecer o estado presente, portanto, permite conhecer tanto o estado precedente (anterior) quanto o estado procedente (posterior). A cosmologia contemporânea em geral considera que o cosmos funciona de maneira determinista.

Neste momento, muitos podem pensar duas coisas.