Em busca de nós mesmos
Amadurecer
Lembre-se: o comum não é necessariamente normal.
Cuide do seu filho. Isso inclui carinho, amparo emocional e material.
Inclui também proporcionar a ele um desenvolvimento saudável —
altamente potencializado por uma alimentação adequada, atividade física regular, sono de qualidade, tempo para descansar, brincar, explorar o mundo e uma vida social ativa.
Implica também impor limites. Saber falar “não”. Saber estabelecer acordos e cumpri-los. Muitos pais sentem culpa por não passar muito tempo com seus filhos. Devido a isso, são altamente permissivos.
Imagine uma criança que nunca ouviu “não”, que nunca teve limites impostos e exigidos, que nunca teve que postergar um prazer imediato para conquistar algo maior no futuro. Essa criança crescerá achando que o mundo lhe deve obrigações. Acreditará ser especial e melhor do que os outros seres humanos. Não suportará a dureza do mundo quando sua cara inevitavelmente bater contra um chão metafórico.
Nunca devemos esquecer que é importante cair para aprender qual é a melhor forma de levantar e seguir em frente. E só caímos quando o
mundo frustra nossos passos e expectativas, colocando buracos e obstáculos em nosso caminho. Educar implica também lembrar nossos filhos dessa dura verdade.
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Amadurecer
Calabrez: Anos se passam. A infância e suas delícias, os mundos que cada nova interação com a realidade nos revela são deixados para trás.
Desaparece a passagem lenta, muito lenta, do tempo — e com ela vão-se os dias que, quando adulto, serão lembrados como longos, compridos, duradouros. Ser criança é experimentar uma sucessão de surpresas espetaculares a cada interação com coisas que na vida adulta consideraremos banais.
Conforme crescemos, parte do mundo se apequena, pois nossa imaginação é apequenada. Em grande medida por uma educação castradora. Mas também por um cérebro que se desenvolve. Memórias são formadas mediante novidades, quebras de expectativas e eventos emocionalmente marcantes. Tudo isso é cada vez mais raro ao adentrarmos a maturidade. Conforme crescemos, outra parte do mundo se abre, e a tão sonhada liberdade nos acolhe, fria e amedrontadora, trazendo-nos também sopros de leveza e encanto.
Crescemos.
Chegamos àquela fase terrível da vida humana: a adolescência.
Terrível primeiramente para os pais. Os estudos mostram que essa é a fase que dá mais trabalho. Não só isso: é na adolescência dos filhos que despencam os níveis de satisfação do casal em relação ao casamento.
O pai ou a mãe de um adolescente provavelmente responderia: “Não preciso ser cientista para saber disso!”.
Imagino.
Mas, além de angustiar os pais, a adolescência é um período muito difícil também para os jovens.
Impõe-se a nós uma questão: o que diabos acontece no cérebro dos adolescentes para que eles sejam. . ora, para que sejam tão adolescentes?
Perceba, leitor, que adolescente virou adjetivo. Mas não estou falando do seu uso para designar uma fase da vida. Não, adolescente serve para designar um certo tipo de comportamento — um conjunto de atitudes, uma certa postura perante o mundo e as pessoas.
“Você está agindo como adolescente!”, diz a esposa ao marido que, por quaisquer motivos, cometeu uma imprudência.
Vamos entender essa história.
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Quando entra na adolescência, o corpo do jovem passa por um período de grandes mudanças. Enxurradas de hormônios alteram sua aparência, construindo progressivamente as características do corpo adulto. No
cérebro, mudanças invisíveis marcam um momento de transformações de considerável importância. Tais mudanças alteram de forma contundente quem somos e nossas relações com o mundo e outros seres humanos.
O início da puberdade traz um segundo desabrochar de novas células e sinapses, criando novas estradas pelo cérebro. Esse momento é seguido por cerca de uma década de uma nova poda sináptica — na qual o cérebro reforça as estradas úteis e descarta as conexões fracas e pouco utilizadas. Tais mudanças ocorrem especialmente no córtex pré-frontal, já mencionado. Devido a isso, o volume do córtex pré-frontal diminui cerca de 1% ao ano durante a adolescência.
A primeira consequência é o surgimento de uma nova experiência de self, de eu psicológico no adolescente e, com isso, uma experiência cada vez mais profunda de autoconsciência.
As estruturas mediais (do meio) do córtex pré-frontal (CPFm) tornam-se ativas quando pensamos sobre nós mesmos, especialmente quando pensamos na significância e impacto emocional de uma situação perante nós. Ao nos tornarmos adolescentes, o CPFm fica cada vez mais ativo diante de situações sociais, com os níveis máximos em torno dos 15 anos de idade.
O resultado é conhecido por todos que já foram adolescentes: nesse período, as situações sociais têm um enorme peso emocional, com respostas de estresse marcadamente intensas quando somos expostos a
outros seres humanos — especialmente aos que admiramos ou que são importantes em nosso grupo.
Isso deriva de uma experiência nova e impactante do “eu psicológico”, que leva o adolescente a uma grande preocupação com o que os outros pensam dele. O cérebro adulto, adaptando-se a esse “eu psicológico”, tende progressivamente a preocupar-se menos com o olhar de terceiros. No adolescente, no entanto, isso é uma novidade, tomando grande importância.
Além disso, as estruturas de recompensa (motivação e prazer) apresentam um aumento de ativação no cérebro adolescente — uma ativação equivalente à dos adultos. No entanto, as estruturas dorsolaterais (à frente e ao lado) do CPF, necessárias à capacidade de controlar impulsos e frear emoções, demoram a amadurecer, estando
“adultas” somente aos vinte e poucos anos de idade. Em outras palavras, o adolescente tem um sistema de recompensa (prazer e motivação) adulto que convive com uma capacidade infantil de frear impulsos e emoções. Como resultado, o comportamento adolescente tende a ser mais arriscado, especialmente perante coisas que proporcionam prazer
— como drogas, sexo e aventuras.
Empresas de seguro automotivo não precisaram da neurociência para perceber isso. Os custos de seguro para jovens são há décadas mais elevados do que para adultos.
Finalmente, estudos mostram que, no cérebro adolescente, estruturas envolvidas em considerações de ordem social (como o CPFm) estão mais fortemente conectadas com outras circuitarias cerebrais responsáveis por transformar motivações em ações (o corpo estriado e seus circuitos). Isso tem levado pesquisadores a sugerir que é por isso que o comportamento de risco de adolescentes tende a ser mais provável quando eles estão próximos dos amigos e especialmente de membros relevantes do grupo social.
O amadurecimento do cérebro adolescente só se dá por completo entre os 20 e 25 anos de idade. Tenho certeza de que muitos adultos que estão lendo estas palavras já pensaram: “Quando era adolescente, eu era meio idiota. .”.
Agora já sabe: sim, você era — e eu também!
Brincadeiras à parte, acho errado chamar de idiotice. Afinal, não se trata de uma livre escolha, mas de um cérebro que se desenvolvia e nos inclinava a certos padrões de tomada de decisão marcadamente diferentes daqueles tipicamente apresentados por adultos.
Não quero com isso dizer que adolescentes não são livres para escolher os caminhos que percorrem na vida. Como já disse: nada é só biologia. No entanto, é impossível compreender a adolescência sem entender as características biológicas do cérebro nesse estágio de desenvolvimento. É seguro dizer que, em média, um adolescente não tem as mesmas faculdades decisórias de um adulto. Haverá exceções, é
claro. No entanto, por definição, exceções não compõem a maioria dos casos.
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Muitos pensam que, após os 25 anos, quando as revoluções neurais que marcaram a adolescência chegam ao fim, o cérebro está “pronto”. Com isso acreditam que não haverá mais alterações durante a vida adulta.
Esta foi uma perspectiva adotada inclusive por cientistas décadas atrás.
Hoje sabemos que o cérebro permanece mudando e tomando novas formas ao longo de toda a vida. Isso é fundamental para compreendermos as mudanças da vida adulta e sobretudo para a compreensão de que nunca ficamos “prontos”. Como veremos, isso tem sérias implicações para nosso bem-estar e saúde.
Em 2006, um estudo investigou o cérebro de motoristas de táxi em Londres. Ao leitor que nunca visitou Londres é importante ressaltar que, apesar de ser uma cidade interessantíssima, suas ruas são um verdadeiro labirinto. Trata-se de uma das coleções de vias urbanas mais complexas do Ocidente.
Para receber a licença para trabalhar como taxista, os candidatos devem passar por um rigoroso teste chamado Knowledge of London (conhecimento de Londres). Para você ter uma noção de quão difícil é esse teste, o treinamento preparatório dura quatro anos. Os aspirantes a taxista devem memorizar as vias de Londres e todas as suas combinações
— cobrindo 320 rotas diferentes pela cidade, 25 mil ruas e avenidas e 20
mil pontos de interesse, como patrimônios históricos, hotéis, delegacias, etc.
O resultado do estudo não é de surpreender. O cérebro dos taxistas apresentou maior volume (em relação a não taxistas) em uma estrutura chamada hipocampo. Sabemos há bastante tempo que o hipocampo é muito importante para o sistema de memória do cérebro — e isso inclui a chamada memória espacial, ou seja, nossa capacidade de lembrar de lugares no espaço, como endereços e a localização do carro no estacionamento do shopping.
Este é apenas um exemplo de como nosso cérebro cria novas estradas ao longo da vida. Os aspirantes a taxista começam a jornada de conhecimento das ruas de Londres na vida adulta — e ainda assim notamos alterações profundas em seus cérebros.
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Isso me leva ao ponto mais importante desta discussão: a forma como conduzimos a vida.
Conforme amadurecemos, nosso corpo muda. O metabolismo é progressivamente reduzido, e isso faz com que comer uma pizza inteira, como fazíamos na adolescência, tenha consequências mais sérias e possa acarretar aquilo que os cientistas chamam de “aumento da pança”.
Nossas responsabilidades aumentam e com elas o número de atividades entre as quais temos que distribuir nosso tempo. O aumento de estresse surge como uma consequência.
As mudanças ocorrem também no cérebro. A vida adulta traz uma redução considerável de novidades. Com isso, o tempo parece passar mais rápido. Olhamos para trás e dizemos com frequência: “Nossa, já estamos em dezembro, nem vi o tempo passar!”.
Com o peso das responsabilidades da vida adulta e a redução dos hormônios que nos mantinham enérgicos, vigorosos e cheios de vitalidade na juventude, vem uma grande preguiça — de tudo. Preguiça especialmente de encarar coisas que nos desafiem, que nos obriguem a gastar energia.
Dois exemplos óbvios: aprender coisas novas e praticar atividade física regular.
Para explicar o grande problema disso tudo, vou usar o exemplo da doença de Alzheimer, tão conhecida e temida. Doença fatal e extremamente difícil, não só para o paciente, mas também para as pessoas que assistem ao esvaziamento gradativo da personalidade, das memórias, das tomadas de decisão e, finalmente, da vida de um ente querido.
Observe este dado com muita cautela, leitor:
Um grande estudo realizado pela organização Alzheimer’s Disease International estimou que, entre 2015 e 2050, o aumento proporcional
do número de pessoas que sofrem com demências em seis dos sete países que compõem o G7 (Alemanha, Canadá, Estados Unidos, Itália, França e Reino Unido) será de 104%. Nos países que compõem o G20 (que inclui o Brasil) esse aumento será de 196%. No resto do mundo, o aumento chegará a 247%. Alguns estudos sugerem que em países desenvolvidos (não necessariamente os mais ricos), como Escandinávia e Japão, o número de casos diminuirá no futuro.
O que isso significa?
Significa que demências, fruto de doenças como Alzheimer,5 não são completamente inevitáveis. Pelo contrário: países mais ricos conseguem promover uma melhor saúde do cérebro, reduzindo a prevalência desse tipo de doença — que, infelizmente, ainda cresce proporcionalmente com o tempo.
Imagine um adulto entre os 30 e 40 anos de idade. Podemos considerá-lo jovem, obviamente. É nesse momento que começa o acúmulo de certas proteínas no cérebro. Mais tarde esse acúmulo resultará em uma progressiva e irreversível morte de neurônios. A consequência é a doença de Alzheimer.
Existe sim um determinismo genético na doença de Alzheimer. Mas gostaria de lembrá-lo, leitor, do que eu disse antes: nada é somente genética e biologia, assim como nada é somente ambiente e experiências.
Parte da doença de Alzheimer é sim responsabilidade do indivíduo e também da sociedade na qual ele viveu e fez suas escolhas.
Vamos a alguns exemplos.
Aprender um segundo idioma pode retardar o surgimento da doença de Alzheimer em até cinco anos.
Por quê?
Uma segunda língua é literalmente uma ressignificação do mundo inteiro dentro do nosso cérebro. Mesa não é mais só mesa. Agora é mesa e table. Maçã não é mais apenas maçã. Agora é maçã e apple — e por aí vai.
Ser bilíngue é uma ótima forma de criar novas estradas no cérebro —
e eis aqui o ponto-chave: criar novas estradas no cérebro é uma das melhores formas de mantê-lo saudável, ativo e funcionando bem.
Posso dar outros exemplos: um engenheiro que aprende poesia, um ator que aprende matemática, um neurocientista que aprende filosofia, um contador que aprende pintura. .
Acho que você entendeu. Estradas novas. Linguagens novas.
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Certa vez uma aluna chegou para mim e disse: “Professor, não quero mais homem que malhe o corpo! Quero um homem que malhe o cérebro!”.
Virou questão de prova. Aponte o erro na frase da aluna.
O erro é tão óbvio que muita gente não percebe. O cérebro faz parte do corpo, assim como seu dedão, fígado e nariz. Temos, no entanto, uma
ilusão de que corpo e cérebro são entidades separadas. Por consequência, acreditamos que o mesmo ocorre entre mente e cérebro.
Este é um erro terrível para a saúde do nosso cérebro — e, por consequência, da mente — ao longo da vida. Lembre-se da frase que já foi repetida mais de uma vez neste livro: a mente é o que o cérebro faz.
O perfeito exemplo disso é a atividade física regular (pelo menos três vezes por semana). Sabemos hoje que essa prática é uma das melhores formas de prevenir episódios depressivos. Além disso, é extremamente eficiente para combater ansiedade e tantos outros transtornos mentais.
Não é surpreendente saber que pessoas fisicamente ativas ao longo da vida têm uma chance reduzida em até 50% de desenvolver a doença de Alzheimer.
A dieta do Mediterrâneo, tão famosa e estudada pela ciência, que alimentou todos os grandes pensadores gregos, reduz de forma significativa, em mais de 30%, as chances de desenvolver a doença de Alzheimer.
Sabe qual é a pior dieta possível para o seu cérebro (e coração)?
Aquela na qual comemos muita carne vermelha e muito carboidrato simples. Vou dar um exemplo disso: arroz, feijão, bife e batata frita.
A alimentação do brasileiro é muito pouco saudável, ao contrário do que as pessoas costumam pensar.
Outra coisa importante para a saúde do cérebro e extremamente negligenciada: o sono. Sabemos hoje que dormir é crucial para a
manutenção da saúde do cérebro. Dormir mal mata.
Com isso tudo, quero dizer que o amadurecimento do cérebro até o final de nossa vida está, em certa medida, em nossas mãos. Em cada fast-food que você come em vez de salada e legumes. Em cada bife de carne vermelha em vez de peixe ou proteínas vegetais. Em cada preguiça que o faz ficar no sofá em vez de ir correr no parque ou malhar na academia.
Em cada vez que você escolhe interagir com coisas com as quais já está acostumado em vez de aprender coisas novas. Em cada noite que você escolhe ficar trabalhando em vez de deitar e descansar seu cérebro. .
Um Big Mac de cada vez, uma noite mal dormida de cada vez, um dia no sofá de cada vez — e você está condenando seu cérebro a um risco muito maior de adoecer e, em última instância, de morrer.
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“Mas eu não tenho tempo!”
Esta é uma das frases mais proferidas por adultos mundo afora.
Imagino, leitor, que você tenha 24 horas dentro do seu dia. É o mesmo tempo que eu tenho, e todos os outros seres humanos do mundo têm. A frase “não tenho tempo” é um autoengano muito comum.
Diga a verdade: “Não é minha prioridade!”
Obviamente, temos pessoas que não têm condições mínimas de dignidade e saúde. Pessoas que dependem de dois ou três empregos e muitas longas viagens em transporte público para colocar comida na
mesa da família. Essas infelizmente não têm como priorizar a própria saúde — e muito menos a aquisição de conhecimento. Temos que melhorar outras condições sociais e econômicas muito mais fundamentais para dar-lhes melhores oportunidades. Não é uma questão de livre escolha.
Acontece que, curiosamente, não ouço “não tenho tempo” dessas pessoas. Quem costuma dizer isso são executivos e empresários, por exemplo. Pessoas que deliberadamente escolhem trocar a saúde e o convívio com as pessoas amadas por um punhado de dinheiro que no futuro provavelmente servirá para pagar despesas hospitalares.
Hoje é cada vez mais comum pessoas com quarenta e poucos anos de idade, essas que falam “não tenho tempo”, sofrerem ataques cardíacos.
Quando sobrevivem, o médico diz: “Ou você muda sua rotina, se alimentando melhor e se exercitando, ou você vai morrer”.
Quando sai do hospital, no dia seguinte, a pessoa está às 7h na esteira da academia. No almoço, um pratão de salada, com muitos grãos integrais e filé de peixe.
Parece que agora ela passou a ter o tempo que antes não tinha. Mas sabemos que não é isso. A saúde apenas se tornou uma prioridade.
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A morte é inevitável. O caminho que trilharemos até lá, nem tanto.
Nossas escolhas esculpem um cérebro melhor ou pior para suportar o amadurecimento e os anos que se passam. Podemos viver — e morrer —