Em busca de nós mesmos

Clóvis de Barros Filho · Capítulo 13 de 31

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Em busca de nós mesmos

O cosmos (des)ordenado: Renascença, Modernidade e Humanismo

a física clássica, estudada até hoje nas escolas. Hoje é possível enviar uma sonda espacial até uma lua de Júpiter usando as leis desenvolvidas por Newton. Sem ele, não teríamos chegado à Lua ou construído a Estação Espacial Internacional. Sem ele, não haveria Einstein e sua relatividade. Sem ele, não haveria a teoria quântica, tão importante atualmente.

Mas o próprio Newton foi humilde o suficiente para admitir: “Se eu enxerguei mais longe, foi por estar em pé sobre os ombros de gigantes”.

A ciência é uma construção progressiva, na qual novos paradigmas surgem a partir do acúmulo de anomalias encontradas em paradigmas anteriores. Sem Aristóteles, não haveria Newton. Sem Platão, não haveria Aristóteles. . Eu, particularmente, sou muito agradecido a todos esses gigantes.

Na física após Newton, houve novas mudanças de paradigma. A relatividade de Einstein é um exemplo. Atualmente, a teoria quântica já é capaz de superar o paradigma einsteiniano em uma série de questões

— e muitos acreditam que será capaz de superá-lo totalmente no futuro.

 

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O cosmos (des)ordenado: Renascença,

Modernidade e Humanismo

Calabrez: A revolução copernicana trouxe uma radical mudança na visão que o ser humano tinha do cosmos. A ordem ( logos) dos antigos, interpretada pelos pensadores da Idade Média como a perfeição e divindade de Deus, não é mais observada no universo. Não existe uma perfeição a priori, ou seja, uma noção de ordem cósmica que antecede todas as coisas existentes e sobre a qual todas as coisas (incluindo a física) devem basear-se e, no plano ético, adequar-se. O cosmos ordenado desmoronou. Não há mais sua harmonia para nos inspirar, não há mais sua hierarquia — natural ou divina — à qual devemos nos adaptar.

Não quero aqui ser reducionista: houve uma série de mudanças econômicas, sociais e culturais durante o período da revolução copernicana que certamente contribuíram muito para esse desmoronamento. A revolução foi um dos diversos elementos que compuseram o período iniciado no século 14, culminando no fim do século 17 com o que chamamos de Modernidade. Esse período de

transição, essa ponte histórica entre a Idade Média e a Modernidade, é conhecida como Renascimento, ou Renascença.

“Renascimento de quê? O que renasceu?”, o leitor pode perguntar.

A resposta é bem sabida: renascimento dos valores clássicos amplamente presentes na Antiguidade. Em especial, o progressivo retorno da racionalidade como elemento guia da vida humana — em vez da fé, tão presente e fundamental durante a Idade Média.

No entanto, os antigos enxergavam no cosmos uma harmonia ( logos) a ser compreendida e na qual deveríamos nos inspirar para viver da melhor forma. O desmoronamento da ordem cósmica torna isso impossível. Tente imaginar, leitor, viver em um mundo onde não há mais um grande sistema filosófico, científico ou espiritual no qual basear-se para viver. Onde aquilo em que acreditamos durante milênios desmoronou. Onde o universo não é mais finito, perfeito, harmonioso e hierárquico. O novo paradigma deixa claro que o universo é imperfeito, caótico, não hierárquico, regido por forças naturais (como a gravidade) e talvez infinito (como proposto por Newton).

Se a ordem não é dada a priori, se a harmonia não é uma característica intrínseca ao universo, como contemplar o divino? Como construir uma teoria? Afinal, a própria noção de “contemplar” o divino carregava dentro dela a ideia de harmonia e perfeição do cosmos.

Contemplá-lo era compreender sua ordem. Era, de forma um tanto

passiva e submissa, adequar-se à sua perfeição. No entanto, ao contemplá-lo agora não há ordem — ao contrário, há caos.

Surge uma necessidade. Se não há harmonia e coerência, se não há ordem no universo, para conseguir compreender o mundo e encontrar a melhor forma de viver no mundo, não podemos ser passivos. Não podemos meramente contemplar e nos adequar. Devemos duvidar de tudo o que veio antes para construir, com nossas mãos, uma compreensão da realidade (teoria) e um conhecimento sobre como viver e conviver nessa realidade (ética).

Inicia-se um grande movimento que coloca nas mãos do ser humano a responsabilidade pela construção de uma nova visão de mundo. Isso significa que o movimento renascentista é sobretudo um movimento humanista. O desmoronamento do cosmos ordenado leva o ser humano ao palco central do universo. Só haverá ordem por meio do trabalho, da elaboração ativa, da construção de uma melhor visão de mundo e de leis que adéquem o mundo a uma ordem construída por nós. Leis naturais (nas ciências) e sociais (na cidade) derivadas de um esforço humano e não de uma contemplação passiva do cosmos.

Esse movimento culmina com o Iluminismo no século 18 — o século das luzes, no qual a racionalidade humana atinge um ponto alto. A ciência passa progressivamente a adotar o “método experimental” como principal abordagem para a resolução de problemas. O método experimental é ainda hoje o principal motor dos avanços científicos. Ele consiste em manipular variáveis, testando-as sob diferentes condições a fim de isolar a causa de um fenômeno específico. Trata-se, portanto, de não simplesmente contemplar a realidade. A ciência agora manipula ativamente as coisas do mundo, extraindo delas as leis que auxiliarão o progresso do conhecimento e, portanto, o controle que a humanidade exerce sobre a natureza.

Como Clóvis explicou, a cosmologia aristotélica era teleológica, ou seja, baseava-se no estudo das finalidades, das causas finais das coisas.

Agora, a cosmologia e todas as demais ciências passam para uma perspectiva de “causa” mais próxima do que coloquialmente é entendido como “causa” nos dias de hoje. Causa, para nós, é o conjunto de circunstâncias que levam a um determinado efeito. Neste sentido, a ciência (e o pensamento de maneira geral) passa a ser mais causal — e menos finalista.

Isso traz muitas mudanças, inclusive nos planos sociais e econômicos.

Perspectivas aristocráticas, em que um ser humano nascia onde nascia pois essa era sua finalidade no cosmos ou porque aquela era a vontade divina, deixam de fazer sentido. Aristocracia dá lugar à meritocracia.

Somos iguais, pois não há posições pré-definidas em um cosmos harmônico e perfeito. Aquilo que somos é fruto de nossa livre escolha.

A escravidão começa a deixar de fazer sentido. É nesse contexto que ocorre a Revolução Francesa entre 1789 e 1799, culminando com a publicação da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão,

popularmente conhecida como Declaração dos Direitos Humanos. É nesse contexto que se desenvolve aquilo que hoje chamamos de sistema econômico capitalista. Ressalto novamente que houve uma série de fatores econômicos e sociais por trás disso tudo. Mas houve também o desmoronamento de visões de mundo que reinaram absolutas por milênios.

O Iluminismo marca uma visão que eleva o ser humano a um patamar acima dos outros animais. Diferente da racionalidade dos outros bichos, a racionalidade humana permite que a sociedade “evolua”. Na visão iluminista, uma sociedade de seres humanos hoje é muito mais complexa do que era milhares de anos atrás. Ou seja, os seres humanos são capazes de se aperfeiçoar (melhorar) ao longo do tempo, de evoluir enquanto sociedade. Comparativamente, uma sociedade de abelhas ou cupins é essencialmente a mesma que era milhares de anos atrás. Essas observações são centrais ao trabalho do filósofo iluminista Jean-Jacques Rousseau (1712–1778). A capacidade de se aperfeiçoar ao longo do tempo é chamada por ele de “perfectibilidade”.

A mensagem central do Iluminismo é a liberdade humana. Somos livres. Não somos determinados por um cosmos, seja ele natural ou divino. Nossa liberdade não deve ser usada para tentarmos nos adequar a uma perfeição cósmica, pois essa perfeição não existe.

Além disso, não somos determinados por uma animalidade, por uma bestialidade, por uma natureza — tal como os outros animais são. Como

disse o filósofo Jean-Paul Sartre (1905–1980), um humanista do século 20, quase replicando as palavras de Rousseau: “A existência precede a essência”. Em outras palavras, a essência humana não é fruto de uma natureza animalesca com a qual nascemos. Isso é coisa dos outros bichos. Os seres humanos, ao contrário, são livres. Essa liberdade implica que tudo aquilo que somos (nossa essência) é fruto de nossas escolhas.

Primeiro existimos (escolhendo livremente). Aquilo que somos (essência) vem depois, como consequência.