Em busca de nós mesmos

Clóvis de Barros Filho · Capítulo 24 de 31

Páginas do PDF

Em busca de nós mesmos

A morte

com um pouco mais de saúde. Um pouco mais de dignidade e liberdade.

Afinal, doenças aprisionam. Tolhem a vida e a possibilidade de ser aquilo que desejamos.

Mas a morte, ela mesma, é difícil. O que dizer sobre ela? O cérebro deixa de funcionar. Não há mais atividade neuronal.

Confesso: a morte me apavora. É meu maior medo. Por isso, busco viver. Por isso, a filosofia.

5 Nota de Pedro Calabrez: a doença de Alzheimer é hoje a maior responsável pelas demências no mundo.

 

21

A morte

Clóvis: Eu costumo perguntar nas minhas aulas: “Você se lembra de ter sofrido antes de nascer?”. E a resposta é óbvia: “Claro que não!”.

Não há memória, nem de sofrimento e nem de nada, porque a memória é sempre de experiências e não há experiências antes da vida.

Ora, se é assim, por que temer a morte?

O medo da morte é sempre em vida, é coisa da vida, é coisa de quem tem medo. A morte é o nada, e no nada não há nem vida, nem sofrimento. Como temer uma situação sem sofrimento? Parece haver uma simetria entre o que havia antes de nascer e o que haverá depois de morrer. É o que sugere o filósofo romano Lucrécio, que filosofou em um lindo poema em latim, De Rerum Natura, que significa “a natureza das coisas”. Veja o que Lucrécio diz: “Lembre-se agora e considere como as eras de eternidade que decorreram antes do nosso nascimento foram nada para nós. Aqui, então, é um espelho em que a natureza nos mostra o tempo a vir depois da nossa morte. Vê algo de terrível nele? Percebe alguma coisa sombria? Ele não parece mais sereno do que o mais profundo sono?”.

Bem, o argumento estabelece uma singularidade entre a não existência pré-natal e a não existência pós-morte. Ambas são simplesmente estados em que não existimos. Lucrécio observa ainda que não tememos o tempo anterior ao nascimento — aquele em que não existimos. Assim, o tempo depois da morte justifica um afeto similar.

Meu amigo, sempre poderíamos pensar que não é exatamente igual, não é? Afinal de contas, antes de termos nascido não tínhamos passado pela vida. Então a morte é sempre o fim. Uma perda. E aí acho que não há uma comparação possível entre o que existia antes de viver —

quando não sabíamos o que é viver — e o que existirá depois de morrermos. Porque, se a vida foi boa, seu fim é sempre lamentável.

Portanto, continuo pensando o que sempre pensei: morrer é muito ruim quando põe fim a uma existência alegre, mas não é tão ruim assim quando põe fim a uma vida de sofrimento.

• • • • • •

É muito difícil falar sobre a morte desde uma perspectiva da filosofia —

quando morre alguém querido ou quando morre alguém contra quem não temos muita coisa — porque a filosofia surge para dar conta de um problema que é justamente a finitude. E o problema não é a finitude da existência, mas sim o medo dela.

Imagino que para muitos a ideia de não haver sofrimento antes do nascimento significa que tampouco deva haver sofrimento depois da

morte. E, se algo há depois da morte, sobre isso nada tenho a dizer. Ou talvez o que eu tenha a dizer é que torço muito para que exista algo muito bom depois da morte, mas tenho receio de que isso coincida muito com o que eu gostaria que acontecesse. E, quando tomamos por verdadeiro aquilo que gostaríamos que acontecesse, a isso chamamos de ilusão.

Então, eu preferiria dizer que para quem morre é apenas uma interrupção que leva ao fim de uma existência e ao fim de uma consciência de si. Naturalmente que o lamento é pela vida não vivida, mas a vida não vivida não é nada para quem morre. Não há condição de refletir sobre o que poderia ter sido, mas não foi para quem morreu; portanto, a morte em primeira pessoa é simplesmente nada.

As ideias de que nunca encontramos a morte porque ou estamos e a morte não está, ou a morte está e nós não estamos — que são a reflexão clássica dos estoicos estilo Sêneca — são simpáticas do ponto de vista da poesia, mas em nada refrescam o nosso medo de morrer. Eu, pessoalmente, penso que o que aumenta muito a angústia, a tristeza diante da morte é uma individuação, uma singularização exagerada de cada um de nós. Em outras palavras, se nos considerássemos mais parte de um todo que permanece e menos uma individualidade autônoma, a morte seria menos cruel.

Imagine bonequinhos de madeira perfilados um ao lado do outro e inertes. Imagine então um saco de um pó qualquer que você espalha em

cada um deles, e, à medida que espalha, os bonequinhos são dotados de uma energia de existir que lhes permite movimentar-se, pensar, falar. O

mesmo pó colocado em um bonequinho também é colocado no outro e no outro, e assim talvez fique claro que a energia que me faz viver é da mesma índole, da mesma espécie da energia que o faz viver.

Poderíamos chamar esse saco com pó de Deus, se você quiser. E

também poderíamos imaginar que todo o pó que estava no saco já está espalhado nos bonequinhos de madeira e também nas plantas, nos animais e em tudo que vive. Em determinado momento o efeito desse pó se esgota, e então o que há é um resgate daquilo enquanto pó que será espalhado em outras coisas, permitindo-lhes existir também. Gera-se assim uma espécie de ciclo: parte do pó está espalhado, parte está voltando para o saco para ser posto em outras coisas, e permanentemente há pó sendo distribuído para que a inércia vire vida.

Assim, o fim do pó numa determinada unidade desse coletivo é uma espécie de piscar de olhos do funcionamento do todo. É como se você estivesse assistindo televisão e, por um centésimo de segundo, houvesse uma queda de energia. É uma ligeira turbulência no andamento do todo, de tal maneira que poderíamos dizer também que o tempo todo haverá pó espalhado e pó sendo resgatado para nova colocação. Fica evidente que o pó vai e volta. Esse pó que é Deus, que é toda a energia — energia que vai e que vem, que aumenta e que diminui.

Esses bonequinhos interagem entre si, e a energia aumenta um pouco aqui, diminui um pouco lá. Às vezes, a planta morre, perdendo sua energia para que o bonequinho a coma e aumente a sua. E o animal também.

Se você pensa assim, talvez tenha expectativas mais justas sobre o que significa viver. Eu lhe recomendaria pensar sobre as condições do nosso nascimento. Você deve ter aprendido na escola que são trilhões de espermatozoides e que um deles acerta o alvo. E esse é você. Na verdade, a improbabilidade começa já na fecundação, e, não sei por que, ao longo da vida esquecemos dessa improbabilidade, a de permanecer vivo. A vida requer que um monte de coisas dê certo, mas basta que alguma delas comece a falhar e a chance de a vida acabar é muito grande.

Ao longo da vida, pela convivência com os outros, somos levados a acreditar que pelo menos até os oitenta anos vai. E essa é a desgraça, porque, quando alguém morre aos 49, pensamos que ficaram faltando 31. O erro está na expectativa, não na morte. O que é surpreendente é que o homem não tenha percebido que o erro é de estimativa, não de fim da existência. O fim da existência é um dado mais do que previsível, mais do que lógico, mais do que normal.

Na verdade, o sofrimento decorre de um erro. Se a cada dia nos convencêssemos de que continuar vivo é um mistério, uma improbabilidade, uma raridade, e que cada novo dia vivido, longe de ser uma obviedade, uma certeza, é o contrário disso, é o resultado de uma

coincidência incrível de fatores que podem deixar de acontecer a qualquer momento, duas coisas: primeiro, nos surpreenderíamos menos com a morte e, segundo, valorizaríamos a vida em todos os seus instantes.

Um exemplo: no momento em que escrevíamos este livro, caiu o avião do ministro do Superior Tribunal Federal (STF) Teori Zavascki.

Infelizmente não houve sobreviventes.

Eu, como todos os brasileiros, fiquei estarrecido com o fato de alguém tão guerreiro — e isso independentemente de qualquer preferência da minha parte —, tão confiante em si, tão batalhador, com família grande, morrer desse jeito. Não há como alguém como eu, nos meus 51 anos, que de um tempo para cá está a cada dia em um lugar, lutando para levar minha fala, minhas ideias e com isso tentando contribuir para a vida das pessoas, muitas vezes pegando esses bagulhos que voam de forma insegura, não se colocar no lugar dos que morreram no acidente.

Mas talvez eu seja vítima do mesmo erro de expectativa que tanto denuncio. Até porque uma coisa é o discurso filosófico, outra é a nossa vida, muito parecida com a de qualquer um.

Vamos juntos então aproveitar cada reflexão, desfrutar de cada momento, porque vai que um dia essa improbabilidade falseie. Vai que um dia a regra do desacerto imponha o seu jugo. E aí, bom, terá sido o que foi e terá valido pelos segundos de riso e de compartilhamento.

• • • • • •

A morte não é ruim por ela. É ruim enquanto expectativa. Lembro de, quando criança, perguntar a meu pai se, quando morrêssemos e ficássemos no caixão, ele seria escuro mesmo, se não seria angustiante fechar a tampa e ficar lá dentro. Meu pai respondia que não nos daríamos conta disso. É que a ideia de dormir implica em depois acordar, mas, no caso da morte, não vai acordar mais. Acabamos sempre nos distraindo com esse tipo de conversa, pois é interrompida, pede-se uma pizza e finge-se que está tudo certo.

Mas os estoicos realmente acreditavam que a morte é uma bobagem porque fazemos parte de um bagulho bem legal. O problema do medo da morte é acreditar que você vale por si mesmo. Quando entende que você é parte de uma coisa que não acaba nunca, você fica tranquilo porque vai continuar participando, pois, como já citei, parte de você poderá virar uma maçaneta ou qualquer outra coisa.

Não sei se, para humanos como nós, essa reflexão satisfaz. Chamamos de salvação para diminuir o medo da morte. Você dizer que não tenho que ter medo de morrer porque vou acabar virando combustível ou testículo de javali, ora, francamente, é um discurso meio fraquinho para me entusiasmar. Entre virar testículo de javali e ficar em um caixão escuro eternamente, sinceramente, não sei o que é melhor.

Os estoicos acreditavam que vencer o medo da morte poderia ser conseguido por intermédio de alguns estratagemas que facilitam a compreensão de que você participa de uma engenhoca que é eterna e

que, portanto, você é um fragmento de eternidade. Assim, a morte não é nenhum problema.

Uma das perspectivas que eles nos dão é a descendência, e você enxerga nos filhos um pedaço de você, seja no jeito, no olhar, na orelha, no tamanho, na maneira de falar. Fica claro que ir de pai para filho garante alguma eternidade a você.

Olha, vamos combinar, esses caras são bem legais, a iniciativa deles é boa, dizer que não devo temer a morte porque minha filha tem olhos da mesma cor que os meus é bem simpático, agradeço a iniciativa, mas é de um poder de fogo tão chinfrim que chega a constranger.

Existem outras maneiras de tentar quebrar esse galho e entender que você ganha uma eternidade.

• • • • • •

Vamos falar da segunda perspectiva dada pelos estoicos para vencermos o medo da morte. Olha só que dica show de bola: torne-se um herói. É

isso mesmo, torne-se um herói. Você não leu mal. E sabe por quê?

Porque, se você se tornar um herói, continuarão falando de você mesmo depois da sua morte. E aí será como se você não tivesse morrido porque você continua vivo nas narrativas. E, se essas narrativas forem escritas, o seu nome figurará nas páginas dos livros, dos jornais e das revistas, e você definitivamente não terá morrido. O caixão, o velório, o enterro serão uma ilusão. Você estará vivo nas bibliotecas, vivo na leitura de todos que se interessarem pela sua história. Não é bem legal?

Hannah Arendt, uma grande pensadora do século 20, cuida exatamente disso em um texto chamado “A crise da cultura”, no qual diz: “O herói é como se não tivesse morrido porque, através da escrita, ele ganha uma espécie de sobrevida, uma espécie de eternidade”.

Bem, estou tentando me esforçar aqui, e é claro que falam de mim. Se falarem mal não tem problema porque a sobrevida está garantida. Não precisa falar bem. Acho que conseguir que falem mal é mais fácil do que conseguir que falem bem. Então não precisa ser, assim, um herói. Basta ser alguém lembrado. Pode ser um tremendo de um canalha. Se figurar nos livros depois que morrer, vale do mesmo jeito. Acho sinceramente que é por aí.

De qualquer maneira, essa foi a decepcionante reflexão do momento.

Vamos combinar, querer me convencer de que não tenho que temer a morte porque depois que eu morrer continuarão falando de mim, lendo sobre mim nas narrativas escritas, ora, me poupe.

• • • • • •

Para quem tem 15, 20 anos de idade, o medo da morte não assombra.

Mas, passou dos 50, nossa! O cálculo que dá para fazer hoje, aos 50, é o seguinte: “Até os 70 dá para garantir, afinal, a medicina evoluiu”, pensa o tonto. “Se jogar na sorte, dá até os 80”.

Só que vida com força vai ser dos 50 aos 60. Faltam dez anos. E sabe o que são dez anos? Não são nada. Depois dos 60, já não funciona mais porra nenhuma. Aliás, cá entre nós, já nos 50 o funcionamento é bem no esquema do pisca-pisca: hora funciona, hora não funciona. A vista hora funciona, o ouvido hora funciona — eu sou surdo, uso retorno durante as palestras para poder me ouvir. Vixe! Lombar, ciático, e o sexo então?

Precisa de uma combinação cósmica mesmo para haver algum tipo de garantia.

Os estoicos têm toda a razão de pensar no assunto. Eles falaram da descendência, do heroísmo. E têm uma terceira saída: quando você se ajusta na ordem cósmica, você vive o presente, e isso é uma promessa interessante. Aquele instante vale por ele mesmo, existe uma reconciliação com o mundo, de tal maneira que você não se vê obrigado a pensar no que já aconteceu, o que chamamos de passado — porque ele não existe a não ser enquanto memória, lembrança ou pensamento do já ocorrido —, e também se vê desobrigado de pensar no que vai acontecer, porque o real basta. E é bem assim mesmo.

Quando está fazendo caça submarina no Mediterrâneo, a beleza daquela paisagem faz com que você queira que aquilo se eternize, aquilo vale por si só, é maravilhoso, não há como pensar em outra coisa. Eu, como nunca fiz caça submarina, muito menos no Mediterrâneo, usei este exemplo só para os que estão lendo poderem imaginar.

Há certas situações que são espetaculares, como uma linda mulher desnuda. Nessa hora você vai pensar no passado ou no futuro para quê?

O que você quer é apalpá-la, seduzi-la. Quando o real é espetacular, não tem passado nem futuro.

Eu, por exemplo, adoro mocotó. E tenho um amigo, Chico, que prepara um mocotó espetacular; quando eu provo o mocotó que ele faz, a minha mente pensa no mocotó, a minha boca come o mocotó, o meu estômago se prepara para receber o mocotó. Tudo é o mocotó. Há um alinhamento no mocotó, e eu não penso nem no passado, nem no futuro.