Em busca de nós mesmos
O mundo, os desejos e os prazeres
São de fato tiranos. Estão impondo suas experiências individuais como se os outros tivessem obrigação de viver a mesma realidade que eles. Estão atribuindo à realidade um caráter universal, ao acreditar que todos os seres humanos vivem na mesma realidade, quando, na verdade, como vimos, nossas realidades são sempre diferentes, pois nossos corpos são diferentes e, portanto, nossos encontros com o mundo são sempre diferentes (ainda que semelhantes).
Mas isso pode levar as pessoas a pensar que então tudo é possível.
Dado que as realidades individuais são sempre diferentes, posso construir minha realidade ao meu bel-prazer. . Se a realidade é totalmente maleável, então podemos viver a experiência de mundo que quisermos. Basta querer!
Esse é um grande erro. Independentemente da nossa vontade, dos nossos desejos, dos nossos esforços, das nossas diferentes experiências de mundo. . Independentemente disso tudo, o sol nasce e se põe, as folhas caem no outono. O céu às vezes está azul. Outras vezes, cinza e nublado. .
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O mundo, os desejos e os prazeres
Clóvis: Viver é viver no mundo. Por onde tenho andado, já me dei conta de que o mundo não sai da frente. Viver é interagir com ele. Podemos nos mover, podemos abrir portas e derrubar paredes. Podemos ir morar em outro país. Mas, ao descer do avião, uma constatação: o mundo continua ali, preparado para interagir conosco. Podemos nos mover no mundo o quanto quisermos, para todos os sentidos e direções, até mesmo acreditar que somos livres — ilusão do livre-arbítrio —, mas não se sai de si, não se sai do mundo. Podemos até fugir, mas nunca escapar. Ora, por isso o desespero não tem fronteiras. Só nascemos para sofrer e para morrer. Se houver reencarnação, só renascemos para sofrer e morrer novamente. Não há nada além da dor.
E o prazer?
É quando a dor diminui. Assim, só há prazer quando, por exemplo, diminuímos a dor da fome. Se não houvesse fome, não haveria prazer em comer. Só há prazer quando diminuímos a dor da sede. Se não houvesse sede, não haveria o prazer de beber. E o prazer do repouso depende do cansaço. Por isso, todo prazer depende da dor que
circunstancialmente diminui. Como poderia haver uma felicidade eterna, permanente e estável se todo o prazer pressupõe a dor que ele apenas reduz?
Nesse turbilhão de nossas forças vitais, nos relacionamos com o mundo pelo desejo. Mas, na lógica do desejo, sempre nos faltará algo. A saciedade apenas indica um novo desejo, uma nova falta. Por essas e outras, não há salvação, não há outro mundo. O mundo é este aqui, com seus desejos e suas dores. O mundo é só o mundo e nada mais. O céu é vazio, nele não há azul, nem deuses, nem anjos. A salvação é este vazio mesmo. A compreensão da ilusão. A aceitação do desespero.
Calabrez: Esse desespero, parece-me, vem da compreensão de que, ainda que nossas realidades sejam subjetivas, individuais, particulares, ainda que as experiências de mundo variem muito entre cada um de nós, estamos todos condenados a nos deparar com uma constante. Uma constante sobre a qual não temos praticamente controle algum: o mundo.
E não há um manual sobre como desvendar o mundo. Aquilo que hoje nos alegra, amanhã pode não alegrar. A pessoa que hoje nos ama pode se apaixonar por outra no dia seguinte. Às vezes sequer sabemos se realmente estamos alegres ou se algo realmente nos está dando prazer. .
Há coisas que dão prazer ao mesmo tempo em que causam o sofrimento da culpa e do arrependimento — todos que já atacaram a sobremesa gordurosa durante a dieta sabem do que estou falando.
Um pai chega para o filho e diz: “Você tem tudo para ser feliz!”.
Como vimos, o correto seria dizer: “Você tem tudo que eu acho que, no seu lugar, me faria feliz. ”
O pai não diz isso por mal. Frequentemente, é por amor. . Mas o que não falta no mundo são pessoas e instituições querendo nos dizer qual é o prazer legítimo do momento, qual é a forma correta de conduzir nosso corpo. .
Impõe-se então uma questão dificílima: como desejar? O que de fato é causador de prazer, se o prazer de hoje pode não ser o mesmo de amanhã? O prazer com o vinho barato é menos legítimo do que o prazer com o vinho mais caro? O prazer do sujeito que comeu pão com salsicha na faculdade é diferente do prazer que ele mesmo sente hoje, homem de sucesso, ao comer caviar?
Clóvis: Prazer? Bem, prazer é uma palavra, o nome que damos às sensações que gostamos de sentir, sensações boas. As sensações, por sua vez, são uma interpretação que nosso corpo dá às transformações que sofre. E essas transformações acontecem ininterruptamente, então também sentimos o tempo inteiro. De algumas sensações temos mais consciência do que de outras. O prazer é um tipo de sensação. Claro que não é o único; há também a dor, por exemplo, que é quando não gostamos muito de sentir o que sentimos, quando nosso corpo não aprova a transformação que sofreu. Se você quebra o dedinho do pé,
sente dor, e seu corpo interpreta com desaprovação esse encontro causador da fratura.
Pois muito bem, os prazeres são sensações de outro tipo. Sensações pelas quais lutamos, transformações aprovadas pelo corpo. E os prazeres não são superiores ou inferiores. O que os diferencia é a intensidade e a longevidade. O que pode variar em qualidade é a causa do prazer; assim, podemos ter prazer determinado por causas mais e menos nobres. Mas pensemos bem: se nos traz prazer, se nosso corpo aprova o mundo que agora se relaciona conosco, como poderíamos julgar negativamente a causa daquilo que chamamos de prazer?
O problema é que não estamos sozinhos no mundo. Cada corpo é um corpo que teve uma trajetória no mundo. O corpo que sente hoje não é o corpo que nasceu, agora ele está talhado e forjado nas relações sociais que viveu. Então, existem prazeres determinados por causas nobres quando indivíduos dominantes na sociedade transformam aquilo que é causa de prazer em algo nobre. Dessa forma, não é a mesma coisa sentir prazer ouvindo uma sinfônica na Sala São Paulo ou indo a um baile funk. Na verdade, a transformação do corpo é inapelável, as células vibram tanto em um lugar quanto no outro. A diferença é que, na Sala São Paulo, estamos tendo o prazer determinado por uma causa autorizada por certo segmento social, enquanto que, no baile funk , por outro segmento social.
O importante é você lembrar sempre que o corpo que você tem hoje é
“ortopedizado” por uma vida em sociedade, por um pertencimento a uma classe social e a um grupo de pessoas que aplaude certas causas de prazer e vaia outras. Veja que às vezes não basta ter prazer. É preciso ter prazer com o que os outros autorizam.
Calabrez: Prazer socialmente legitimado, portanto. . Mas é interessante perceber que, do ponto de vista do cérebro, o sujeito que ouve a sinfônica na Sala São Paulo terá uma ativação cerebral diferente ao ouvir funk. Essa “ortopedização” social do prazer manifesta-se de fato em uma atividade neurofisiológica peculiar e distinta. Não se trata, portanto, de mera frescura. O sujeito que bebe o vinho caro tem de fato uma sensação maior de prazer do que se bebesse um vinho barato. Mas o sujeito que ouve funk igualmente pode ter maior prazer do que se ouvisse Mozart.
O erro, me parece, está na crença iludida de que aquilo que me propicia prazer necessariamente também propiciará prazer ao outro.
Basta pensarmos na crítica que muitos fazem ao artista Romero Britto, como se sua arte tivesse menor valor por ser mais comercialmente apelativa. Aqueles que apreciam a arte de Romero Britto (e são muitos, do contrário ele não seria tão famoso) têm verdadeiro prazer ao apreciá-la. Seus cérebros e corpos produzem maior motivação e prazer. Dizer que essas pessoas estão erradas é delirante. Como alguém pode estar
“errado” ao sentir prazer? Não há um erro nesse prazer, mesmo após uma reflexão moral; afinal, é um prazer que não faz mal a ninguém.
Como neurocientista, tendo a enxergar a arte a partir de uma visão do cérebro e da mente do indivíduo que contempla uma obra de arte.
Talvez você, Clóvis, a partir da filosofia, possa complementar essa visão.
Clóvis: A arte sempre fascinou o homem, mas muitas vezes, sobretudo hoje em dia, as pessoas se perguntam: “Mas será que isso é arte mesmo?”.
Quando eu era adolescente, fui a uma bienal e vi um carro antigo cheio de pãozinho francês e me perguntei se aquilo era arte.
A definição de arte mudou muito pouco ao longo do pensamento. A arte é uma grande ideia encarnada em um pedaço de matéria. Assim, toda arte tem dois elementos: uma grande ideia e um pedaço de matéria onde essa grande ideia está codificada, está traduzida em símbolos. A título de exemplo, a arte grega, que é a tradução, na arquitetura e na escultura, da ideia de cosmos, da ideia de um universo ordenado, organizado, harmonioso, simétrico. Ou a arte medieval, que é a tradução, em grandes vitrais e em grandes telas, do esplendor divino, da criação divina.
Você perguntará: “Mas que grande ideia está por trás da arte contemporânea?”.
A ideia de desconstrução, do estilhaçamento do sujeito, de que não somos racionais por completo, do inconsciente que contamina as nossas decisões, de que o sujeito estilhaçado é muito mais emoção do que razão, de que estamos à mercê de fluxos vitais e de afetos que
conhecemos pouco. Assim, é normal que as obras de arte acabem codificando toda essa gama de ideias importantes, e é evidente que essa codificação pode ser bastante criativa.
A arte tem sempre dois elementos: uma grande ideia do espírito, da nossa parte intelectiva, e a tradução sensível, corpórea, à disposição da nossa sensibilidade num pedaço de matéria qualquer. Para que haja pleno deleite, pleno desfrute diante de uma obra de arte, você tem que saber qual a grande ideia que lhe confere fundamento e qual foi a estratégia de simbolização que aquele artista usou para traduzir aquela ideia naquele pedaço de arte que está ali para a sua contemplação.
Calabrez: Dessa forma, consigo compreender o historiador da arte que vê menor valor em Romero Britto. Afinal, um historiador está munido intelectualmente das grandes ideias que estão por trás das obras de arte.
Sendo assim, ele compreende tais estratégias de simbolização artística.
No entanto, isso não diminui o prazer de quem aprecia Romero Britto, funk ou sertanejo universitário, comparado a quem aprecia Pollock, Mozart ou Pink Floyd. O prazer, a atividade neurofisiológica associada ao prazer, isso é amoral, ou seja, não tem valor em si mesmo, não é bom ou mau, maior ou menor.
O valor é atribuído por nós, pela sociedade.
Muitos dos nossos prazeres são meras convenções sociais. Mas seguimos na ilusão de que as convenções são naturais, que sempre estiveram lá. Ou seja, de que o prazer convencionado (ou seja,
socialmente construído) é natural, universal, e que, portanto, todos deveriam ter prazer com aquilo “que é bom” ou daquele jeito específico
“que é bacana”.
Hoje as mulheres (e cada vez mais os homens também) depilam o corpo. Corpos sem pelos, para muitos, são maior fonte de prazer do que corpos com pelos. No entanto, poucas décadas atrás, a coisa não era deste jeito. Não havia depilação. Eis que faço uma constatação óbvia: nessa época de peludos, os corpos eram desejados mesmo assim!
Há os que dizem: “Mulheres que não se depilam são nojentas!”.
Nesse sentido, atribuem uma universalidade moral (mediante o sentimento de pureza) a uma prática socialmente convencionada (a depilação). Não depilar é sinônimo de ser “nojento”.
Pois veja que, para muitos dermatologistas, a depilação põe a saúde em risco mais do que a não depilação (devido às feridas na pele, que abrem portas para infecções). Claro que nem todos os dermatologistas concordam, mas a própria discordância só escancara a convenção social da depilação como sinal de higiene.
Não quero dizer com isso que não devemos criticar os desejos ou que desejos socialmente convencionados não são importantes. Desejar escovar os dentes é melhor do que não desejar. Desejar lavar as mãos após ir ao banheiro é melhor do que não desejar. Desejar fazer sexo com uma pessoa sem o seu consentimento é algo abominável, que deve ser repudiado e nos torna piores enquanto seres humanos.
Apenas quero dizer que há uma certa ilusão ao crer que Romero Britto ou a banda Calypso são em essência bons ou ruins. Tais valores são atribuições feitas pelo ser humano — em grande medida, socialmente convencionadas.
Não nego que haja padrões estéticos invariantes, universais. Há diversos exemplos. Podemos aqui falar da simetria. Rostos e corpos simétricos tendem a ser considerados mais belos do que os não simétricos, e isso parece ter pouca variação entre diferentes culturas. No entanto, as obras de Picasso são um ótimo exemplo de uma quebra desse padrão — e são consideradas belíssimas por muitos. Ainda que haja padrões estéticos universais, o espaço de influência das convenções sociais e culturais é grande demais para desejarmos impor nossas preferências aos outros.
Clóvis: A obra de arte não é uma ilusão, mas tem muito de ilusório. As obras existem, são coisas tão reais quanto muitas outras. Tão verdadeiras, tão familiares e nascidas da mão do homem. Um quadro é muito menos misterioso do que uma concha que abriga um molusco.
Mas a ilusão está em toda a parte. Não na obra real, não necessariamente no artista, pois ele conhece o trabalho de suas mãos e sabe o sonho que o guiou. A arte é um trabalho antes de ser uma religião, um ofício antes de ser um mistério. O artista mede o seu esforço por seu cansaço. Dez por cento de inspiração e noventa por cento de transpiração.
O gênio se torna modesto pelo trabalho, mas o espectador, ocioso, esquece esse labor, ignora-o e a obra-trabalho se torna obra-milagre. A ilusão nasce da contemplação preguiçosa. Ela nasce e logo se desdobra.
A grande ilusão da obra de arte é a objetividade do belo. Essa obra que admiro sem compreender é de tamanha beleza que parece se impor a todos. A beleza é vivida como realmente universal, eterna, absoluta e presente na obra que amamos. Achar que algo é belo não é apenas reconhecer o prazer que ele proporciona a mim. É pretender a objetividade e a universalidade desse prazer. Quando algo é belo, atribui-se aos outros a mesma satisfação. Não julgamos a beleza apenas para nós mesmos, mas para outrem, como se fosse uma propriedade da coisa contemplada e tivesse que ser flagrada por qualquer um. Aí sim algo é belo. Sempre, para qualquer um. Por isso, a beleza da arte nunca é somente uma questão de gosto, porque, se fosse, não seria nada.
Calabrez: É neste momento que precisamos da filosofia. Afinal, neste momento poderíamos dizer que o desejo e a busca pelo prazer, do ponto de vista fisiológico, são os mesmos entre cães, chimpanzés e seres humanos. As estruturas cerebrais associadas à recompensa (motivação e prazer) e sexualidade, por exemplo, são muito semelhantes entre camundongos, macacos e seres humanos. Afinal, evoluíram a partir de ancestrais comuns.
Mas há uma diferença. Animais com cérebros mais complexos, especialmente os humanos, têm cérebros sociais, cérebros que se
desenvolveram dentro de uma cultura, cérebros cujas estruturas desenvolveram-se a partir de um constante diálogo entre genética e ambiente, entre biologia e sociedade. Assim, o desejo humano não pode ser considerado isoladamente, em sua animalidade. .
Temos que considerar que o cérebro humano possui estruturas neocorticais, ou seja, estruturas mais recentes evolutivamente, que permitem uma maior inteligência, raciocínio abstrato, cognição social, cultura, moralidade e tantas outras “funções superiores” do intelecto. E
não há como dissociar tais estruturas daquelas mais primitivas, que dividimos com todos os mamíferos e até com os répteis. Tudo isso trabalha de forma intimamente interconectada.
Talvez então devamos tentar diferenciar o desejo animalesco do desejo propriamente humano. Talvez tenhamos que dar outro nome a esse desejo humano que vai além das entranhas, vísceras e circuitarias cerebrais primitivas que tantas outras espécies possuem. É por isso, repito, que precisamos da filosofia. Para que sejamos mais humanos.
Clóvis: Platão diz que o amor é muito importante para a vida. Mas não qualquer amor. Imagine que, para Platão, amor é Eros. Em O banquete, Sócrates define Eros como sendo desejo: amar é desejar. Você ama aquilo que deseja, ama aquele que deseja, ama na intensidade que deseja.
Você, leitor, pense em alguma coisa que deseje agora. Isso que você deseja é o que você ama. Naturalmente, pode ter passado pela sua
cabeça um carro novo, uma cerveja bem gelada ou um par de glúteos espetaculares que você adoraria apalpar. Tudo isso que você deseja é o que você ama, simplesmente porque, para Platão, amor e desejo são a mesma coisa.
Mas e o desejo, o que será? Desejo é o que não temos, é energia canalizada para a busca do que nos faz falta. Amamos o que não temos, amamos o que não somos, amamos o que não conseguimos. A equação está completa: você ama o que deseja e deseja o que não tem. De duas, uma: ou você ama e deseja o que não tem, ou então tem, mas, nesse caso, não ama e não deseja mais. Essa sinuca de bico é irritante. Quando você se casa e tem uma mulher para você, ela se torna indesejável e impossível de ser amada, então você passa a desejar e amar a cunhada
— sempre impossível, sempre apetecível, sempre desejável na impossibilidade.
Essa lógica do Eros é interessantíssima para o mundo da vida. De fato, constatamos que aquelas coisas que nos fazem falta acabam merecendo a nossa incrível atenção. Também constatamos que aquelas coisas que estão muito fáceis à nossa mão, que se oferecem para nós o tempo inteiro, acabam não merecendo nossa atenção e nem valor algum. Parece que estamos o tempo inteiro supervalorizando o que não temos e depreciando o que já conquistamos. Eis aí uma vida divorciada do real, divorciada do mundo, uma vida apenas desejada na fantasia, na quimera. Exemplo de vida ruim. Lógica do Eros, pensamento de Platão.
E haveria uma saída?
Platão propõe o que denomina de ascese, de elevação. A ideia é que, na hora de se relacionar com as coisas do mundo, digamos que existam apreços que valem mais do que outros.
Imaginemos que passe uma mulher de glúteos impressionantes do outro lado da rua, e você diga: “Nossa, que espetáculo de mulher! Que bunda!”.
Você tem aí um apreço por um glúteo particular e se deixa atrair por ele. Digamos que esse apreço é digno de uma vida bastante pobre, uma vida inferior mesmo. Um apreço superior a esse seria o apreço pela beleza do corpo feminino. E aí já não seria mais uma bunda específica, mas sim um corpo genérico, uma ideia de corpo feminino.
Mas haveria talvez um apreço superior ao da beleza genérica do corpo feminino. Seria o apreço pela beleza de qualquer coisa: do corpo feminino, da paisagem, da obra de arte, da música, ou seja, o apreço pela beleza onde ela estiver. Perceba que estamos subindo, partimos de glúteos específicos, passamos pelo corpo genérico de mulher e finalmente chegamos à beleza salpicada onde estiver, a beleza em si, que não está particularizada em uma coisa ou em um corpo específico, mas que pode estar em qualquer lugar.
Haveria algum apreço superior a esse?
Talvez pudéssemos imaginar um apreço por algo superior à beleza, que é um apreço pelo próprio ser. Perceba que o ser é mais genérico do
que o ser belo. Assim, estamos subindo: da bunda da mulher do outro lado da rua até o ser, estamos ascendendo degrau a degrau.
Espero que você comece a entender a solução que Platão nos propõe, pois, concordará comigo, esse ser a que me refiro agora está muito distante da mulher do outro lado da rua e muito mais próximo da sua cabeça, das suas ideias, da sua alma pensante, da sua inteligência.
Quanto mais o apreço tiver por objeto uma ideia, mais ele será indicativo de uma vida bem vivida, de uma vida humanamente digna.
Quanto mais o apreço for pelo particular, pelo físico captado pelos sentidos e pelas sensibilidades, mais próximos estaremos da animalidade, menos digna será a nossa vida, mais pobre será a nossa existência.
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Em seus diálogos, Platão sempre falou em dois mundos: o primeiro é este que está mais próximo de nós, um mundo de coisas sensíveis, das coisas que podemos ver, encontrar, tocar, cheirar. O outro é aquele que alcançamos pelo pensamento, pelo uso da razão, pelas atividades intelectivas.
Platão sempre teve desprezo pelas sensibilidades, pelas percepções sensoriais. Ele considerou que o resultado dessas percepções nos proporcionava um conhecimento de segunda classe, passível de erro.
Sempre defendeu a tese de que os sentidos nos enganam e por isso deu enorme primazia, superioridade hierárquica mesmo, àquelas verdades alcançadas pela razão, sem o auxílio dos sentidos, sem a participação do corpo.
E por que Platão detestava tanto as sensibilidades? Por que menosprezava tanto as constatações feitas pelos sentidos?
Para ir direto ao assunto, o que Platão diz é que os sentidos nos fazem acreditar numa diversidade, numa existência de coisas diferentes, quando na verdade estamos diante da mesma coisa. Os sentidos, portanto, nos convencem do plural, quando na verdade estamos diante do singular.
O exemplo clássico é o da água e do gelo. Quando você olha para a água, percebe certas características, quando olha para o gelo, percebe outras. Se você apalpar, a diferença aumenta; no entanto, ao botar a cachola para funcionar e fazer uma investigação científica, você descobre que tanto a água líquida quanto o gelo são H2O, são a mesma coisa.
Assim, para Platão, a nossa inteligência, a nossa razão, nos leva a uma coisa só: H2O. Mas nossos sentidos nos obrigam a constatar diversidade, pluralidade, diferença entre a água e o gelo.
Com base nesse tipo de argumento, Platão está convencido de que os nossos sentidos nos levam a equívocos. Por esse motivo, o convite é para o uso da razão, que será tanto mais garantidor de um conhecimento confiável quanto menos depender das nossas observações sensoriais.
Muitos criticam Platão por esse tipo de convicção.
Mas, se confiarmos nos sentidos, imaginaremos que uma moeda possa ter o mesmo tamanho do Sol, tudo dependerá da distância. A distância já é coisa de inteligência. No simples olhar, na simples mirada, a moeda e o Sol têm tamanho idêntico. E aí toda a importância dada à razão, à articulação das ideias em busca daquilo que é inequivocamente verdadeiro.
Tomemos como exemplo a beleza. Você poderia imaginar que a beleza estivesse relacionada com o que o seu corpo sente quando contempla o mundo. Caso você se sentisse atraído pelo mundo, este lhe seria belo; caso você sentisse repulsa face ao mundo, este lhe seria feio.
Porém, nesse caso, a beleza dependeria do seu corpo, dependeria da percepção. Se um dia você estivesse com cólica, não iria achá-lo tão bonito, e o belo viraria feio por causa da cólica. Não pode ser assim.
A beleza tem que ser inquestionável e não pode depender da sua cólica, nem da perspectiva, nem da distância, nem do seu bom humor. A beleza nada tem a ver com você se sentir atraído ou repulsado. Ela é uma ideia que você constrói pela inteligência. E essa ideia já se encontra em você, sempre esteve em sua alma. Cabe a você tentar sossegar um pouco o facho — o pinto ou a periquita — e deixar a cabeça fazer o seu trabalho, buscar o que é indiscutivelmente belo. E, se porventura o que é indiscutivelmente belo não agradar seu corpo, trate de educá-lo para gostar do que é bonito e detestar o que é racional e inequivocamente feio.
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Se há algo que nos caracteriza como desejantes, isso nos aproxima de tudo o que vive. O desejo é a nossa maior marca registrada. Ele tem objetos que passam por nossa cabeça, objetos de desejo. E assim pode ser definido por tudo o que faz falta. O desejo é sempre por aquilo que não temos, que não somos e que não conseguimos. Nesse sentido, o desejo é ilimitado.
Mas o desejo não é só o objeto que passa pela nossa cabeça. Também é energia. Energia de vida que disponibilizamos para ir atrás daquilo que nos faz falta, e aí nosso desejo é limitado. Afinal, nossa energia tem fronteiras: as fronteiras da finitude, do corpo, das células, da nossa matéria específica. Então, o desejo é mesmo ambivalente. Ilimitado no seu objeto e limitado na energia que disponibilizamos para alcançá-lo.
Talvez, por isso, tanta frustração, tanta angústia. Para buscar o ilimitado só dispomos do que tem limite.
O desejo é energia mais objeto. Assim, o desejo se distingue do apetite, porque este último é só energia sem objeto, sem consciência de si. O apetite é o que nos aproxima do resto dos animais. Afinal, como saber o que se passa pela cabeça de um caranguejo? Mas caranguejos têm apetite, é só vê-los em deslocamento atrás da presa. Agora, se pensam, se cogitam, se têm desejo, não sabemos. Talvez um caranguejo resolva uma equação do segundo grau mais rápido do que nós. Talvez seja preciso ser caranguejo para saber o que passa na cabeça de um.
Quanto à vontade, o problema é o mesmo. Terá o caranguejo critérios morais de conduta? A filosofia — boa parte dela — garante que não. Eu tenho minhas cautelas, afinal, olhando bem para um caranguejo, percebo que ali existe apenas mistério.
A vontade não se confunde nem com o apetite, nem com o desejo.
Vontade é energia, é também o objeto desejado, portanto, contém nela o apetite e o desejo. Mas a vontade é mais do que os dois juntos, pois inclui a reflexão, a ponderação, o julgamento a respeito da conveniência do desejo, a análise da pertinência e do valor do objeto do desejo. Por isso, existe uma diferença enorme entre desejo e vontade.
O desejo é coisa de célula, de neurônio. O desejo se impõe a nós. A vontade não. A vontade mostra a nossa liberdade. A nossa liberdade frente ao nosso corpo desejante, à nossa capacidade de desejar, mas não agir em busca do que queremos. Afinal, nem tudo o que desejamos é certo ir buscar, nem tudo o que desejamos fazer é certo fazer. E são tantas as coisas que gostaríamos de fazer e que decidimos, na vontade, não fazer. O tempo inteiro e a qualquer momento estamos diante de impulsos do nosso corpo que, por alguma razão, não traduzimos em conduta. Por isso, apetite, desejo e vontade fazem parte da nossa vida.
Calabrez: Sempre achei belíssima a reflexão de Platão sobre o desejo, bem como sua crítica aos erros que a imediata percepção sensorial pode nos levar a cometer. É um grito em homenagem à racionalidade
humana, à nossa capacidade de apreciar a pureza das ideias, à maravilhosa complexidade do intelecto humano.
A distinção entre vontade e desejo, por sua vez, me parece adequada inclusive em uma perspectiva neurofisiológica e também psicológica.
Do ponto de vista do cérebro, a vontade tem forte aspecto negativo.
Em outras palavras, as manifestações da vontade se dão frequentemente através da negação dos desejos — e não da afirmação de novos desejos.
Dito de maneira mais simples: nosso cérebro tem liberdade para dizer não aos impulsos afetivos (desejos, emoções e sentimentos) — mas não tem o poder de criar, de forma racional e voluntária, tais impulsos.
A liberdade para negar a fatalidade do desejo, escolhendo outros caminhos, diferentes daquele pelo qual o desejo nos levaria, envolve uma série de circuitarias cerebrais. Uma delas em especial é chave nesse processo: o córtex pré-frontal. A atividade pré-frontal está associada, entre uma série de outras funções, à capacidade que temos de imaginar as consequências futuras de algo que estamos fazendo agora. Além disso, está associada à capacidade que temos de inibir processos afetivos, ou seja, de frear nossos sentimentos e emoções.
Exemplo perfeito disso é quando ingerimos bebida alcoólica. O álcool é uma substância que causa a inibição dos neurônios. Em outras palavras, os neurônios passam a disparar em uma frequência menor.
Nesta hora, as pessoas ficam com uma pulga atrás da orelha: “Mas, Pedro, a última coisa que fico quando eu bebo é inibido! Pelo contrário,
fico desinibido!”.
Pois bem, isso deve-se ao fato de que um dos efeitos do álcool é a inibição do córtex pré-frontal. Tendo em vista que essa estrutura está envolvida em frear os afetos, o álcool faz com que as “rédeas” do cérebro sobre as emoções fiquem mais frouxas, mais soltas. É por isso que, quando bebe, o sujeito briga com muito mais facilidade. É por isso que o bêbado costuma ser imprudente, inconsequente. É por isso que a pessoa bebe e telefona ou manda mensagem no WhatsApp para o(a) ex-namorado(a) — e depois se arrepende.
Tenho um amigo que, com o pré-frontal inibido, tomava as decisões mais estúpidas que já presenciei. Anos atrás, ele tinha uma namorada.
Na formatura da moça, ele bebeu muito. Lá pelo fim da festa, teve a brilhante ideia de pedi-la em casamento (na frente dos pais dela). Ela aceitou, radiante.
Acontece que o córtex pré-frontal também está envolvido na formação de memórias, especialmente as de curto prazo, que chamamos de memórias de trabalho — e sua inibição também pode prejudicar a conversão de memórias de curto prazo em memórias de longo prazo.
Para piorar, o álcool também interfere com os receptores de glutamato (um composto que carrega sinais entre neurônios) em uma estrutura mais profunda do cérebro, chamada hipocampo, essencial à memória de longo prazo. Durante essa interferência, o álcool impede que certos receptores funcionem normalmente, enquanto ativa outros que não deveriam ser ativados. Isso faz com que o neurônio produza esteroides que prejudicam a comunicação neuronal (entre neurônios), deturpando um processo conhecido como “potenciação de longa duração”. Esse processo é necessário para a aprendizagem e a formação de memórias.
Acredita-se que é por isso que o álcool causa amnésia anterógrada, quando esquecemos o que aconteceu a partir do momento em que ficamos muito bêbados.
Resumo da ópera: no dia seguinte, meu amigo não lembrava que tinha pedido a menina em casamento. Não teve jeito, levou um pé na bunda. Mas esse era um amigo muito peculiar. Um dia bebeu muito, para variar, e sumiu. Depois de muito procurar, encontramos o sujeito deitado no meio do chão da cozinha. . todo embrulhado em papel alumínio. Até hoje, me pergunto primeiramente como ele fez aquilo. Ele parecia um croquete prateado. Mas o que me intriga mesmo é: por que diabos alguém se embrulharia em papel alumínio? Creio que nunca saberei.
Mas divago. Voltemos à relação entre vontade e desejo.
Um pré-frontal saudável é sim capaz de frear os desejos e, portanto, permitir que a vontade seja exercida. No entanto, essa capacidade é limitada. Quero deixar claro aqui que hoje é consenso dentro das ciências da mente e do comportamento (neurociências, psicologia, economia comportamental) que o ser humano possui sim a capacidade de pensar racionalmente, mas que a racionalidade não é o modo de
operação padrão do cérebro humano. Em outras palavras, no dia a dia costumamos ser muito menos racionais do que gostaríamos.
Ao falar disso, lembro sempre do grande filósofo escocês David Hume em seu Tratado da natureza humana: “A razão é, e só pode ser, escrava das paixões”. Creio que essa é a passagem filosófica mais citada por neurocientistas. Isso porque já há algumas décadas sabemos que a racionalidade humana, enaltecida por tantos pensadores, é intimamente ligada a processos emocionais.
Sabemos, há cerca de trinta anos, que lesões cerebrais em estruturas responsáveis por mediar processos afetivos (emoções e sentimentos) costumeiramente acarretam sérios déficits nos processos de planejamento e tomada de decisões (ou seja, alteram um aspecto tipicamente considerado racional da personalidade). Dito de maneira mais simples, lesões em circuitarias emocionais do cérebro destroem também as faculdades racionais dos seres humanos. David Hume não poderia estar mais correto.
É como se o cérebro funcionasse a partir de dois sistemas: um mais lento e frio (capaz de ser racional) e outro mais rápido e quente (responsável pelas emoções e hábitos, por exemplo). Esses termos, sistema frio e sistema quente, são usados pelo grande psicólogo Walter Mischel, uma das maiores autoridades do mundo no estudo do autocontrole e da força de vontade. Daniel Kahneman, vencedor do
Prêmio Nobel de Economia em 2002, usa termos diferentes: sistema 1
(rápido) e sistema 2 (devagar).
Muitos neurocientistas preferem o termo top-down (de cima para baixo, em inglês) para indicar os processos lentos e frios. E o termo bottom-up (de baixo para cima) para indicar os processos rápidos,
quentes.1 Essa terminologia é encontrada em centenas de artigos científicos e se refere, de certa forma, ao fato de que as estruturas localizadas no “topo” do cérebro em geral são mais evolutivamente recentes, enquanto as estruturas localizadas no “fundo” do cérebro são mais primitivas.
Pois bem, muita gente acredita então que o sistema 2 (frio, lento) é sempre racional. Isso é um equívoco. O sistema 2 pode funcionar de duas formas: como um cientista ou como um advogado criminalista. Como o cientista chega a uma conclusão? Ele vai ao mundo munido de uma hipótese. Em seguida, colhe e analisa as evidências disponíveis a respeito dessa hipótese. Depois de tudo isso, finalmente chega a uma conclusão.
Como o advogado criminalista chega a uma conclusão? Em primeiro lugar, ele chega à conclusão (“meu cliente é inocente”). Em seguida, ele vai ao mundo procurar evidências que corroborem a conclusão preestabelecida.
Em outras palavras, muitas vezes o sistema 2, em vez de ser racional, funciona apenas procurando justificativas aparentemente racionais para
processos que na verdade foram totalmente irracionais e muitas vezes afetivos, emocionais.
É interessante ver como as pessoas perseguem, desejam e até idealizam objetos socialmente legitimados ou maneiras de viver impostas pela sociedade. Isso ocorre sob a crença de que a aquisição de um certo objeto ou a conduta da vida de certa maneira serão prazerosos e, no limite, trarão felicidade. Para sustentar isso tudo são criadas justificativas aparentemente racionais que dão alicerce a esses desejos.
Por exemplo, a sociedade nos diz que devemos trabalhar oito horas por dia. Se trabalharmos mais, melhor ainda. Somos condicionados a desejar trabalhar — ou, pelo menos, a desejar o fruto do trabalho, que é o dinheiro. A partir disso, criam-se as justificativas, que culminam até em ditados populares: “Deus ajuda quem cedo madruga”, “o trabalho enobrece o homem” e por aí vai. Acreditamos que essas são justificativas racionais, mas certamente não são. São tentativas de atribuir racionalidade a um desejo (de dinheiro, crescimento na carreira, etc. ).
Essa motivação é um afeto, uma emoção e um sentimento socialmente construídos em nossas cabeças. A razão é escrava das paixões.
Quem disse que devemos acordar cedo? Quem disse que devemos trabalhar para sermos “nobres”? Que diabos significa ser “nobre”? Quem disse que devemos investir metade das nossas horas úteis do dia para construir uma carreira ou ganhar dinheiro, para então encontrar a felicidade?
Estudos mostram que, a partir de certo nível de renda monetária, essencialmente a partir do momento em que entramos na chamada
“classe média”, o acúmulo de mais dinheiro deixa de trazer incrementos significativos para nossa satisfação com a vida.
Quantos grandes executivos totalmente insatisfeitos com a vida existem por aí? Quantos empreendedores bilionários e infelizes?
O leitor pode pensar: “Então trabalhar muito é ruim!”. Claro que não.
Trabalhar muito pode ser ruim para alguns, enquanto pode ser sinônimo de alegria para outros. O erro está em atribuir universalidade, dizer que o trabalho enobrece todos os homens, que Deus ajuda quem cedo madruga e, devido a isso, todos devem cedo madrugar.
Clóvis: Neste mundo de matéria e energia em que vivemos, nada vem do nada, tudo tem causa. Matéria determina matéria, energia determina energia.
Assim também são os nossos discursos, aquilo que nos vem à cabeça, aquilo que pensamos e às vezes enunciamos. Os nossos discursos não vêm do nada. Desde que nascemos, somos bombardeados por eles e muito antes de começarmos a falar já estamos ouvindo, imersos numa polifonia discursiva. Pouco a pouco, começamos a falar também.
Começamos a participar dessa poderosa rede de discursos que constitui o nosso tecido social. Aquilo que falamos não é cópia do que ouvimos.
Pegamos uma coisa daqui, outra dali, outra de lá e formulamos nossos
próprios enunciados. Somos criativos. Aquilo que dizemos é inédito, mas a matéria-prima vem de fora, é dada pela sociedade.
Aquilo que falamos sobre nós, a definição que damos de nós mesmos, os atributos que utilizamos para nos definir também vêm de fora. Ao nascer, ninguém sabe quem é. Ao nascer, ninguém diz que é generoso, contributivo e proativo. Aprendemos isso ouvindo os outros falarem sobre nós. Assim, até o que dizemos sobre nós mesmos, aparentemente oriundo da mais íntima das intimidades, nada mais é do que o resultado de um aprendizado no mundo da vida, no mundo dos encontros com outras pessoas. Tanto é que, caso se meta a falar de você coisas com as quais a sociedade não concorda, pagará um preço caro de escárnio e exclusão.
Esta é uma inquietação que sempre tive: na hora de explicar as próprias condutas, o homem muda de critério, muda de paradigma, dependendo do sucesso ou do fracasso das suas iniciativas. Se o homem foi bem-sucedido no que pretendia alcançar, costuma explicar sua conduta pela livre escolha, pela liberdade bem-sucedida de definir os meios adequados para os fins desejados. Quando o homem fracassa, costuma relacionar a própria conduta a variáveis exteriores a si, variáveis que ele não pode controlar. Desaparece a liberdade, desaparece a condição de escolher o melhor meio para o melhor fim, e entra em cena o que se chama de determinismo. Dadas certas variáveis externas, eu nada poderia fazer de diferente. Assim, o homem imputa as razões
pelas quais agiu mal ao tempo, ao clima, ao comportamento do outro, às instituições, ao sistema.
Poderíamos pensar em um jogador de futebol quando escolhe o lado certo para driblar, vence o adversário, chuta adequadamente, faz o gol e leva o time à vitória. Ele é um gênio e enaltecerá a sua acertada escolha.
Quando o mesmo jogador não consegue nada disso, seu fracasso quase sempre é atribuído ao sistema defensivo adversário, a ter sido caçado em campo, ao juiz não ter visto todas as faltas que recebeu, a que não era um bom dia, a que, enfim, os colegas de equipe não o abasteceram com a quantidade necessária de bolas para que ele pudesse, diante de toda essa gama de alternativas, encontrar pelo menos em algum momento uma solução de gol.
Viu? A liberdade, a livre escolha e a adequação inteligente de meios afins são coisas de quem se deu bem, mas a atribuição a fatores externos que não se pode controlar é coisa de quem se deu mal. E, quando você nega a própria liberdade, nega a própria escolha, nega a possibilidade de ter feito diferente. A isso denominamos má-fé, artifício de fracassados.
Calabrez: Esses discursos convenientes são obra do nosso sistema 2.
Sendo mais específico, trata-se do sistema 2 agindo como advogado criminalista, como expliquei há pouco.
Esta reflexão leva-me a um dos temas que acho mais interessantes dentro das ciências da mente: aquilo que chamamos de consistência cognitiva (ou consistência psicológica).
Sempre pergunto às pessoas: “O que é mais fácil mudar: uma crença ou um comportamento?”.
Gostaria que o leitor pensasse na pergunta. .
A maioria das pessoas responde na lata: “Um comportamento”. Parece que, na visão de boa parte delas, as crenças são enraizadas, difíceis de mudar.
Em seguida a essa resposta, eu pergunto: “Então o que é mais fácil: você começar a dieta agora, neste instante, ou crer piamente que começará a dieta na semana que vem?”.
Neste momento você percebe que mudamos crenças com uma facilidade enorme.
Mas por que isso acontece?
Imagine que nossa mente é como um computador, desses que
temos em casa.2 Imagine que, tal como nossos computadores, ela tem diversas pastas e que cada uma guarda os conteúdos de uma dimensão da nossa vida. Por exemplo, temos uma pasta chamada “trabalho”, outra chamada
“família”, mais outra chamada “lazer” e por aí vai.
O princípio aqui é o seguinte: a mente humana necessariamente buscará fazer com que os conteúdos dessas pastas sejam consistentes. Em outras palavras, buscará evitar — a todo custo — inconsistências.
Inconsistências nada mais são do que informações conflitantes dentro da pasta, informações que se contradizem. Os cientistas chamam essas inconsistências de “dissonâncias cognitivas” desde os anos 1970.
Vou dar um exemplo.
Meus alunos de 18 anos de idade, ao entrar na faculdade, frequentemente se apaixonam. A paixão, do ponto de vista do cérebro, assemelha-se a um estado hipermotivacional de demência temporária com duração de doze a 24 meses. Acho que nosso leitor já deve ter percebido que, quando se apaixona, fica meio demente. A paixão acarreta inibição pré-frontal, ou seja, algo semelhante a ficar bêbado, como mencionei há pouco. Por isso as pessoas apaixonadas tomam decisões estúpidas. Vamos falar bastante sobre paixão na terceira parte do livro.
Pois bem, meus alunos de 18 anos apaixonam-se. Começam a namorar. Imagine uma conversa entre esses namorados com cerca de três meses de relacionamento, ou seja, no ápice, na crista da onda da demência.
Um vira para o outro e fala: “Amor, você me ama?”.
A resposta é óbvia: “É claro!”.
Eis que vem a pergunta fatídica: “Para sempre?”.
Veja que, nesta hora, eles poderiam ser racionais. Observar a situação de forma fria, sistema 2, cientista, top-down. Imaginemos a resposta racional:
“Você me ama?”
“É claro!”
“Para sempre?”
“Jamais. Veja, amor, com base no cálculo da média aritmética simples das minhas relações anteriores, creio que ficaremos juntos por mais cerca de nove meses, com margem de erro de um e meio. ”
Imagine a pasta “namoro”, criada há três meses na mente do casal.
Provavelmente está cheia de conteúdo (memórias, planos, sentimentos, etc. ) majoritariamente positivo.
A racionalidade e a frieza intelectiva, neste momento, adicionarão uma informação negativa a essa pasta (“um dia nosso namoro vai acabar”). Tendo em vista que os conteúdos anteriores da pasta são consistentemente positivos, essa informação negativa causará um conflito, uma inconsistência. Em outras palavras, essa informação conflitante produzirá uma dissonância.
Entra em ação uma espécie de mecanismo psicológico de manutenção de consistência. Nossa mente dará um jeito de resolver a inconsistência, e o jeito mais comum, nesse caso, é produzir uma crença: a de que vai durar para sempre.
Perceba que os jovens, ao dizerem “eu te amo para sempre”, genuinamente acreditam na ideia. Não estão mentindo ou sendo ardilosos. A crença da eternidade do relacionamento mantém a consistência psicológica, eliminando a dissonância derivada da consciência fria de que um dia a relação terminará.
Veja então que nossa mente é equipada com um mecanismo de manutenção de consistência. Esse mecanismo entrará em ação sempre
que surgirem inconsistências (dissonâncias). Quero agora destacar uma característica adicional desse mecanismo: ele estará tão mais presente quanto mais difícil tenha sido corrigir a inconsistência por meio de ações.
O leitor pode não ter compreendido a ideia neste momento. Parece complicado, então vamos dar um exemplo para explicar. O exemplo perfeito é a diferença entre uma menina solteira de vinte anos de idade e uma mulher casada há quinze anos.
A jovem solteira de vinte anos vai à balada. Depois de tomar uns drinques e dançar na pista, observa um rapaz, sujeito aparentemente simpático, definitivamente bonito. O rapaz se aproxima, e os dois começam a conversar. “Que cara legal!”, pensa a jovem. Após alguns minutos de conversa, a moça decide ficar com ele e só espera o momento certo.
É nesse instante que o rapaz, sem interromper a conversa, olhando nos olhos da jovem, enfia o dedo no nariz. Não satisfeito, fica com o dedo lá, quase cutucando o cérebro, cavoucando como um verdadeiro minerador de petróleo. Depois disso, tira uma meleca do tamanho de uma azeitona e, ainda olhando nos olhos da moça, limpa o dedo na camisa.
A jovem é acometida pelo sentimento de nojo.
Analisemos a psicologia da situação: ocorreu uma inconsistência?
Claro que sim! Lembre-se do que acabei de falar, da mente como um computador.
A pasta “menino da balada” havia acabado de ser criada. Até então, só tinha conteúdos positivos: sujeito bonito, simpático, interessante,
“quero ficar com ele”. Eis que entrou uma informação conflitante na pasta: ele é nojento. Surgiu uma dissonância.
Como resolver essa dissonância? Fácil: mudando de comportamento, ou seja, agindo. A menina diz: “Vou até o banheiro e já volto, tá?”.
E desaparece.
Essa é uma situação na qual corrigir a inconsistência mediante uma ação é fácil, e provavelmente é o que a maioria das jovens faria.
Agora, vamos ao outro exemplo: uma mulher casada há quinze anos.
Antes do casamento, foram quatro anos de namoro. Dezenove anos de relacionamento, portanto. Dois filhos. O apartamento está em nome dos dois.
O casal está em casa, ao fim da tarde de um domingo. Estão sentados à mesa de jantar, comendo aquele típico “lanche da tarde”: frutas, pães de queijo, suco de laranja, granola e iogurte Activia Zero, sabor morango.
Eis que o maridão de repente enfia o dedo no nariz e fica lá, cavoucando, por um tempo. . Tira uma meleca do tamanho de uma azeitona. Em seguida, limpa na camisa.
O que a esposa faz? Levanta, vai embora e nunca mais volta? “Amor, vou comprar cigarro” — e desaparece para sempre?
Claro que não!
Ela diz, brava: “Ai, amor! Que nojo! Não encosta no pão!”.
E pronto, a vida segue.
Novamente, analisemos a psicologia da situação: ocorreu uma inconsistência?
Obviamente sim! O amado maridão fez algo nojento!
Mas perceba que essa situação é muito diferente da anterior, na balada. Corrigir essa inconsistência por meio de uma ação é dificílimo, pois um casamento é uma relação muito mais estável, sólida e interdependente do que um flerte na balada. Agir para mudar a situação aqui é muito mais difícil.
Como eu disse anteriormente, quanto mais difícil for corrigir a inconsistência através de ações, mais presente será o mecanismo psicológico de manutenção de consistência.
A esposa, no segundo exemplo, mudou suas crenças a respeito do que é nojento e aceitável em uma relação. As crenças atuais permitem que ela aceite algo que, no início do relacionamento, seria inaceitável.
“Ah, ele é nojentão, mas é meu amor!”, “não é tão nojento assim!”,
“ele quase nunca faz essas coisas”. Ideias como essas aparecem espontaneamente na mente da esposa. Tais ideias mantêm a consistência psicológica, evitando dissonâncias.
Não é à toa que alguns chamam esse mecanismo psicológico de
“autoengano”.
Imagine uma pessoa que acabou de levar um pé na bunda. Pouco tempo depois, surgem em sua mente ideias como: “Ele(a) não me merecia”, “tudo tem um motivo para acontecer”, “eu já sabia que não ia dar certo”, “agora posso encontrar uma pessoa melhor”. Tais ideias aparecem espontaneamente na cabeça da pessoa que foi largada. É um processo automático, de origem inconsciente. Tudo porque levar um pé na bunda é algo que geralmente produz inconsistência psicológica. E
nossa mente não suporta inconsistências.
Pois bem, agora consigo responder à inquietação levantada pelo Clóvis.
Por que as pessoas usam discursos de liberdade quando têm sucesso (“fui lá, enfrentei as dificuldades e fui vitorioso!”) e discursos deterministas e fatalistas quando fracassam (“não havia o que eu pudesse fazer, a culpa é do meu chefe”)?
Primeiro, é preciso compreender que costumamos ter uma visão deturpada de nós mesmos. Diversos estudos mostram que os seres humanos tendem a acreditar que são mais inteligentes, competentes, honestos e bonitos do que de fato são. Assim, adequamos nossas visões de mundo a uma imagem distorcidamente positiva de nós mesmos.
Devido a isso, imagine o impacto psicológico de olhar no espelho e dizer para si mesmo: “Meu fracasso é fruto de minhas escolhas livres”.
Ou, então: “Sou responsável pelo meu fracasso”.
É fácil perceber que isso produziria uma enorme inconsistência.
Perceba que o fracasso já ocorreu, não há o que fazer. Em outras palavras, não há ações que consigam corrigir essa inconsistência. Por isso produzimos uma crença: a crença de que a culpa não foi nossa, de que não poderíamos ter feito nada diferente, de que fatores totalmente fora de nosso controle foram responsáveis pelo nosso fracasso.
Voltarei a esse princípio de manutenção de consistência ao longo de nossas reflexões, pois ele é muito importante e está por trás de uma série de características do comportamento humano.
Mas neste momento, meu amigo, já que acabei de falar de relacionamentos românticos, gostaria de levantar uma questão. Se para Platão desejo é Eros, ou seja, só ocorre na falta, de modo que, quando obtemos o que desejamos, já não desejamos mais, como explicar a expressão “erótico”, tão usada nos dias atuais especialmente para designar um tipo de prazer, o prazer sexual? Parece-me que, durante o prazer sexual, erótico, desejamos permanência, desejamos que aquele momento prazeroso dure mais.
Clóvis: Falarei então sobre a expressão “prazer erótico”. Aparentemente, ela contém termos contraditórios, afinal, erótico vem de Eros, que significa desejo.
Desejo, por sua vez, é sempre pelo que falta, é sempre por aquilo que não temos, por aquilo que não somos e gostaríamos de ser, por aquilo
que não fazemos e gostaríamos de conseguir fazer. Portanto, o objeto do desejo está sempre na nossa imaginação. O objeto do desejo é sempre uma conjectura do intelecto, jamais o mundo efetivamente encontrado.
O prazer é o contrário do desejo. O prazer é na presença, é no encontro, é uma sensação do corpo diante de um mundo efetivamente encontrado. O prazer é um tipo de reação do corpo a uma relação específica com o mundo que se encontra diante dele.
Ora, o prazer erótico mistura o prazer que precisa da presença e o desejo que precisa da falta. Aparentemente, não é uma expressão coerente, porém, é possível pensar no prazer de um mundo efetivamente encontrado e que já fora desejado no passado. Assim, o desejo indica a falta do passado que se materializa no encontro presente. O prazer erótico indica, portanto, uma falta que se resolve na presença. O mundo desejado no passado é encontrado e determina a causa de prazer. É o que você gostaria de encontrar e encontrou. Gostaria de ter e teve.
Gostaria de fazer e fez.
Existem prazeres que não são eróticos, quer dizer, prazeres que não foram desejados no passado. É quando, por exemplo, você encontra de supetão alguém ou alguma coisa que lhe dá prazer, mas que você jamais havia desejado. Por outro lado, existem prazeres profundamente desejados durante anos e que de repente acabam se convertendo em um encontro real e profundamente prazeroso. Existe ainda Eros que jamais vira prazer. Desejos que resistem para sempre na falta e nunca viram
presença. Por isso se costuma dizer que o prazer é o suicídio do desejo. O
desejo que precisa da falta busca a presença que o aniquila, que o destrói. Por isso, todo o desejo é mesmo suicidário, e o prazer é o momento que culmina com o suicídio do desejo.
Calabrez: Do ponto de vista científico, podemos igualmente fazer essa distinção entre a busca pelo objeto de prazer e o prazer em si. A busca pelo objeto de prazer é tipicamente chamada de motivação. Um estímulo motivador é em essência aquele que produz em nós uma inclinação a fazer mais daquilo que estamos fazendo.
Vamos dar um exemplo.
Imagine-se com fome. Chega à sua mesa uma porção de fritas. Você come uma batata frita. O que acontece com seu corpo? Qual é a inclinação imediata após comer uma batata? Comer outra e outra, até ficar satisfeito. Ou seja, inclinação a fazer mais daquilo que estava fazendo. Isso pode ocorrer com todo tipo de estímulo: um projeto profissional, um livro interessante, uma conversa instigante, sexo, alimentos e por aí vai.
Já o prazer de fato é a sensação subjetiva associada ao estímulo. No caso da batata, é a sensação gostosa, a experiência positiva do sabor.
Hoje há interessantes debates e estudos sobre como motivação e prazer se manifestam no cérebro. Muitos pesquisadores sugerem que algumas circuitarias cerebrais responsáveis por cada uma dessas funções sejam de fato diferentes.
Motivação e prazer tipicamente são referidos de forma simultânea, sob o termo “recompensa”. Estímulos recompensadores são aqueles que promovem motivação e prazer.
Existem dois tipos de recompensa.
Há estímulos que são intrinsecamente recompensadores ou, dito de outra forma, recompensas intrínsecas. Isso significa que são naturalmente recompensadores. Os exemplos mais comuns são: água, alimentos, sexo, conforto e carinho maternal/paternal. Obviamente, há influências sociais sobre quais alimentos ou quais práticas sexuais, por exemplo, serão mais prazerosas ou até autorizadas. No entanto, a recompensa perante esses estímulos costuma nascer conosco e com uma série de animais não humanos. A sociedade influenciará os detalhes, refinando nossas preferências.
Por outro lado, há os estímulos extrinsecamente recompensadores ou, dito de outra forma, recompensas extrínsecas. Nesses casos, estamos falando de estímulos que se tornam recompensadores mediante associação e, portanto, por um processo de aprendizagem. Um perfeito exemplo é o dinheiro. Atualmente, o ganho de dinheiro é altamente recompensador. No entanto, dinheiro não é um estímulo intrinsecamente recompensador. Torna-se recompensador por associações que aprendemos em sociedade (associações entre dinheiro e maior número de parceiros(as) sexuais ou dinheiro e felicidade, por exemplo).
Poderíamos dar outros exemplos: objetos de consumo, diplomas e títulos acadêmicos, curtidas e seguidores nas redes sociais e por aí vai.