Em busca de nós mesmos
Parte 3
VIVER E CONVIVER
1
Amor e paixão
Clóvis: Vamos falar sobre o enamoramento, a paixão, o encantamento.
Existem certos mundos que nos alegram. Esses mundos nos caem bem.
Quando aparecem na nossa frente, transformam nossa composição físico-química, aumentando nossa potência, nossa energia, nossa libido. É
normal que, flagrando essa experiência, trazendo esse sentimento para a consciência, queiramos repetir a dose. É o que Espinosa chama de amor.
Alegria quando vem acompanhada da consciência da sua causa. E aí passamos a buscar aquilo que supomos que nos alegrará. Ora, só não vê quem não quer: estabelece-se uma relação de dependência. Passamos a acreditar que, se aquilo que supomos nos alegrar não estiver por perto, a alegria se torna impossível e a tristeza é provável.
O dinheiro permite que muitas dessas coisas fiquem por perto. Não há a menor dúvida sobre por que vamos com tanta avidez atrás do dinheiro: para garantir que coisas que nos alegram possam ficar por perto. Dessa forma, se o mar nos alegra, o dinheiro nos permite uma casa na praia; se a montanha nos alegra, o dinheiro nos permite uma casa na montanha; se uma rabada nos alegra, o dinheiro nos permite um bom restaurante;
se um carro confortável nos alegra, o dinheiro nos permite entrar na concessionária com altivez.
A coisa complica quando a nossa alegria passa a depender de encontros que o dinheiro não consegue garantir. É o que acontece quando a causa da alegria é a presença de alguém. Quando uma pessoa é a causa da nossa alegria, temos que contar com a sua boa vontade de ficar perto de nós. Nem sempre as estratégias que usamos para isso dão certo, e ficamos à mercê de um conjunto de decisões que não controlamos. E, quando a nossa alegria depende de decisões que não controlamos, tornamo-nos escravos delas. Nossa alma oscila, nosso corpo se desequilibra, tudo se revoluciona em nós. Meu amigo, a chance de isso não dar certo é bastante grande.
Lucrécio considerava essa a pior das situações e recomendava uma luta sem trégua contra ela, aconselhava que buscássemos identificar, naquele que supostamente nos alegra, seus defeitos, suas imperfeições:
“Force-se a encontrar imperfeições naquele de quem a sua alegria depende para que você possa resistir e, resistindo, evitar tamanha dependência”. O grande problema — que talvez Lucrécio soubesse, mas não quis dizer — é que justamente, quando estamos nos apaixonando, uma das primeiras coisas que acontece é a nossa imediata incapacidade de identificar imperfeições naquele que amamos.
A coisa é feia mesmo. Por isso, nossa sociedade acaba ensinando, segundo a segundo, que uma coisa são relações frívolas e outra são os
grandes encantamentos. E somos cada vez mais estimulados, neste mundo da pós-modernidade, a manter relações frívolas. As novas tecnologias facilitam demais, as pessoas tornam-se rapidamente substituíveis, até porque são todas muito parecidas nas listas do WhatsApp. Quanto às suas características mais distintivas, bem, essas às vezes nem dá tempo de conhecer, pois já há sempre outra, outra, outra e outra na lista para entreter.
Alguns não se adaptam à sociedade pós-moderna. São modernos de carteirinha. Representantes tardios do século 19. A esses, a minha solidariedade no sofrimento e na dor.
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Esse é um tipo de experiência que sempre me intrigou. Não sei se você já esteve apaixonado. Apaixonado assim nos quatro pneus, de pensar na pessoa 24 horas por dia.
A situação que vou tentar analisar é a de enamoramento, de encantamento em que ainda não há nenhum tipo de namoro, nenhum tipo de relacionamento. Você quer que venha a acontecer. Você está em plena atividade de sedução, mas por enquanto não rolou nada. Se eu tivesse que comparar essa situação a alguma coisa diferente, compararia a uma montanha-russa. Quando você anda na montanha-russa de um parque, o que acontece? Você vive experiências que não controla: não controla por onde o carrinho vai, quando ele sobe, quando ele desce, a
velocidade que ele adquire nos diversos momentos, você não controla a radicalidade da experiência, a intensidade das sensações que sente. Pois bem, quando você está apaixonado é mais ou menos assim. Você não controla a intensidade das sensações que sente, você está à deriva, à mercê.
Imaginemos um primeiro momento em que você esteja junto da pessoa que ama desesperadamente. Pode acontecer alegria — lembrando que alegria é ganho de potência de agir. Nesse momento de alegria pura, você está ao lado da pessoa e está bem. É quase que uma experiência de espiritualidade. A pessoa fala, se manifesta, age, corre, e isso lhe enternece, lhe faz bem, lhe basta, e você se vê alegre. Nossa! É alegria no meio de tanta paixão.
Porém, pode acontecer que você tenha outros afetos junto da pessoa amada. Além da alegria, você pode sentir esperança. E o que é esperança? Também é ganho de potência e tem como causa aquilo que você imagina. Perceba que agora você está pressupondo o que vai acontecer dali para frente, você pensa em conviver com aquela pessoa, ser namorado daquela pessoa, ser marido daquela pessoa. E, enquanto ela está ali, agindo, você cria uma cena futura em que vai se relacionar com ela e, além da alegria, sente esperança. Mas aqui vai um comentário: alegria mais esperança é pior do que só alegria.
E por quê?
Porque toda esperança é inseparável do seu contrário: do medo, do temor de que aquilo não aconteça, do temor de que a pessoa nunca namore com você, de que a pessoa nunca venha a ser sua. Esperança e medo são dois lados da mesma moeda. São no fundo a mesma coisa. Se, durante aquele encontro você imaginar o futuro compartilhado ou o futuro na separação, haverá esperança e haverá temor. E, é claro, será menos legal do que só a alegria. Veja tudo o que pode acontecer quando você está junto da pessoa pela qual está apaixonado.
Pois muito bem, imaginemos agora quando a pessoa não está ao seu lado. Você pensa nela, e aí muita coisa pode acontecer. Não haverá a alegria da presença da pessoa amada. O que pode haver é tristeza da falta. Mas que fique claro: ausência não é causa de nenhum afeto.
Ausência não é nada, e nada não pode ser causa de nada. Na verdade, o que entristece quando a pessoa não está é a realidade encontrada. É
quando você vai à padaria sem a pessoa. Quando vai ao cinema sem a pessoa. Quando vai ao restaurante sem a pessoa. O que causa tristeza é a realidade, mas a realidade separada da pessoa com quem você gostaria de estar. E essa sensação é ainda mais entristecedora quando você já esteve com aquela pessoa nos lugares que revisita. Então, é claro, uma primeira experiência é de tristeza pura.
Mas, quando está separado, distante da pessoa, você também pode sentir esperança: imaginar-se com ela, imaginar sua presença. E pode sentir temor: imaginar não voltar a encontrá-la. Você percebe que
alegria e tristeza, temor e esperança fazem parte da vida de um apaixonado. Você oscila como se estivesse num barco.
E aqui vai outra observação: ao longo da história do pensamento, são pouquíssimos os pensadores que acham essa vida de apaixonado uma vida boa. A filosofia sempre desconfiou de todas as emoções que você não controla. A filosofia teria ojeriza à montanha-russa, pois você fica à mercê, fica submetido ao que acontece e que você não pode controlar.
Quando os gregos falam em ataraxia e a filosofia oriental fala no estado zen, referem-se a situações de vida em que você controla as causas das suas emoções. Muito da filosofia, se fôssemos continuar na metáfora do parque de diversões, considera a vida boa o carrossel. Nele nada acontece de imprevisto. Os cavalinhos dão voltas, dão voltas, e você sabe exatamente o que vai acontecer. A vida boa seria como um passeio em um barco a remo em volta de uma ilha num lago sem ondas, seria o domínio completo das causas das emoções. Rigorosamente, é o contrário da montanha-russa que lhe escraviza, que lhe submete nessa gangorra enlouquecida entre alegrias e tristezas, entre emoções contrárias, como medo e esperança. Veja, por exemplo, quando está com a pessoa desejada, você está em plena alegria, e então ela diz: “O meu namorado é muito inteligente”.
Pronto. Da alegria você passa ao medo imediato de nunca conseguir dispor do amor daquela mulher. Você percebe que não controla a iniciativa dela de falar do namorado, e essa iniciativa determina em você
a passagem da alegria para o medo. De repente, ela fala: “Mas, embora seja muito inteligente, ele é violento. Ele não quer que eu trabalhe, não quer que eu me desenvolva”.
Você passa do medo para a esperança. Novamente você não controla.
Novamente está à mercê de um discurso a cuja causa você não tem acesso. A imensa maioria dos filósofos tem horror a isso.
E você tem curiosidade para saber o que eu acho disso? Então vou dizer: acho que, se a sua vida for de ataraxia, como querem os gregos, ou zen, como querem os filósofos orientais, e você controlar todas as causas dos seus afetos como se estivesse dando voltas em uma ilha em um lago sem ondas, bem, isso que é o ideal da filosofia eu chamo de tédio absoluto. E pode acreditar, se aparecer alguém com uma montanha-russa legal de ser experimentada, é possível que você esteja na iminência de tomar uma bola nas costas. Acho que há montanhas-russas bem bacanas, nas quais a equação entre temor e esperança, entre alegria e tristeza, possa ser favorável. Penso que essa é a melhor situação possível: uma montanha-russa moderada, porque algumas são muito difíceis.
Algumas apostas você não deve fazer, como, por exemplo, condicionar sua alegria a se tornar presidente dos Estados Unidos. É
preferível que você mude a condição da sua alegria, pois a chance de isso acontecer é bem remota. Eu sei que uma banana pode voar sem impulso externo, mas, se a sua alegria depender de virar presidente dos Estados Unidos, é possível que a tristeza se torne soberana. Poderia ser
assim também no caso de você se apaixonar por Isis Valverde ou por Reynaldo Gianecchini. E aí talvez você tenha que sofrer um pouco até baixar a bola e achar uma montanha-russa mais plausível. Isso é o que eu acho: nem lago sem onda, nem montanhas-russas radicais demais.
Estou aristotélico e moderado. Esta é a minha opinião.
Calabrez: A paixão, quando observamos o cérebro, assemelha-se a um estado de grande motivação e prazer, com características de demência temporária, estresse, obsessão e compulsão.
O amor provavelmente é o sentimento que mais instigou o pensamento humano ao longo dos séculos. Todas as grandes mitologias e todas as religiões debateram o amor de maneira profunda. Na filosofia, o amor está presente desde os primórdios, como Clóvis nos mostra. Na arte, a onipresença do amor é indiscutível. É só pensarmos em Shakespeare ou mesmo no cinema atual, no qual até em filmes de dinossauro e alienígena os roteiristas tratam de enfiar algum romance.
Só que, longe de ser algo metafísico, algo fora do mundo concreto, o amor é uma manifestação de funções cerebrais. Hoje sabemos que geralmente as relações românticas começam com um primeiro estágio de alta intensidade e curta duração que costumamos chamar de paixão.
Mas o que acontece com nosso cérebro quando estamos apaixonados?
Como toda emoção, a paixão é regulada pelo que chamamos de fatores endócrinos, ou seja, envolve uma série de hormônios e neurotransmissores, que nada mais são do que substâncias químicas.
Essas substâncias têm efeitos sobre o funcionamento do corpo de maneira geral e sobre o cérebro em específico.
Em primeiro lugar, os estudos mostram que dois hormônios têm um papel importante durante a paixão: a ocitocina e a vasopressina. Estes hormônios exercem diversos papéis no corpo humano. No caso da paixão, funcionam como neuropeptídeos — ou seja, pequenos compostos que agem localmente em diversos circuitos cerebrais. A ação da ocitocina e vasopressina no cérebro durante a paixão é associada ao apego, à conexão formada entre o casal. É também associada à preferência que o sujeito apaixonado tem por aquela pessoa específica, de certa forma “ignorando” as outras.
Isso significa que, durante a paixão, estamos extremamente ligados à pessoa pela qual nos apaixonamos. Além disso, essa pessoa irá se destacar, será mais saliente, mais importante, mais relevante para nós do que quaisquer outras pessoas. Isso explica um pouco da sensação que temos de que aquela pessoa é única, de que ninguém é capaz de substituí-la.
Também encontramos receptores de ocitocina e vasopressina em um circuito do cérebro que chamamos de sistema de recompensa. Já definimos o conceito de recompensa no Capítulo 2 da primeira parte do livro. No entanto, vamos definir novamente, de forma rápida, para relembrá-lo.
Podemos começar com alguns exemplos de estímulos altamente recompensadores: alimentos calóricos (sorvete e sobremesa, por exemplo), algumas drogas (como a cocaína) ou até mesmo certos desafios ao nosso cérebro (como um filme ou livro muito instigante).
Com isso podemos notar que a recompensa envolve em primeiro lugar motivação. No estado motivado, nosso corpo nos compele a continuar fazendo aquilo que estamos fazendo — ou a fazer mais do que já estávamos fazendo. Pense, por exemplo, em você com fome. Você pede uma coxinha. A coxinha chega. Você dá uma pequena mordida.
Demonstrando ser uma pessoa em plena sanidade mental, você começa a morder pela ponta. Começar a comer a coxinha de outro jeito é quase uma heresia.
Brincadeiras à parte, voltemos ao processo.
No exato momento da mordida, você percebe que o seu corpo o inclina a um comportamento subsequente, ou seja, compele a uma nova ação. E qual é essa ação? Trata-se obviamente de pegar e comer outro pedaço. E outro. . Até, é claro, que você esteja saciado. Isso é motivação.
Essa inclinação a continuar fazendo o que estamos fazendo— ou fazer mais do que já estávamos fazendo.
A recompensa também envolve prazer. Com isso, quero dizer que a recompensa também envolve a sensação subjetiva positiva associada ao estímulo motivador. Nesse caso, o prazer de comer a coxinha, a sensação gostosa, a gostosura da coxinha.
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O sistema de recompensa do cérebro envolve em grande medida a ação de um neurotransmissor chamado dopamina. Assim como os hormônios que já mencionei, a dopamina tem uma série de funções diferentes no corpo humano. No caso da paixão, está associada a um estado motivacional. A paixão é um estado hiperdopaminérgico. Isso significa que está associada a uma elevada experiência de recompensa. Em outras palavras, a paixão gera motivação e prazer quando entramos em contato com o estímulo — nesse caso, o estímulo é a pessoa pela qual estamos apaixonados.
É importante ressaltar que o contato físico não é necessário para gerar essa motivação e esse prazer. Basta pensar na pessoa, lembrar dela ou de algum aspecto dela, e lá vem a emoção. As emoções podem ser desencadeadas por um mero conteúdo mental, como uma ideia ou lembrança.
Temos então que a paixão é um estado hiperdopaminérgico. Isso explica por que ficamos extremamente motivados quando estamos apaixonados. No começo da relação, parece que temos energia e vontade para tudo. O desejo sexual (especificamente pela pessoa) é grande.
Queremos experiências novas, viajar com a pessoa, explorar lugares diferentes, agradar a pessoa de todas as formas. Além disso, estar com a pessoa e pensar nela são experiências extremamente recompensadoras.
Fazem com que fiquemos motivados e nos dão prazer.
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Outra substância implicada na paixão é a serotonina, também neurotransmissora. Como todas as substâncias das quais falei aqui, a serotonina está associada a uma série de funções no corpo. Um de seus importantes papéis no cérebro é na regulação de humor. Os antidepressivos mais populares interagem com o sistema serotoninérgico.
Quando você está apaixonado, seus níveis de serotonina caem.
Curiosamente, há uma outra condição na qual observamos quedas nos níveis de serotonina: o transtorno obsessivo-compulsivo, conhecido como TOC.
Perceba que a paixão tem tanto características obsessivas quanto compulsivas. A obsessão envolve pensamentos invasivos, recorrentes, e uma grande fixação pela ideia da pessoa. Você está trabalhando, no trânsito, tomando banho, assistindo a um seriado, e a ideia da pessoa aparece na sua cabeça, independentemente da sua vontade. Muito parecido com a obsessão.
Além disso, quando está com a pessoa pela qual está apaixonado, você quer mais e mais tempo com ela, não há tempo suficiente, e esse tempo que você passa com ela lhe faz sentir alegria, conforto, alívio de ansiedade. Isso se assemelha muito às compulsões.
Não é à toa que estudos recentes sugerem que pessoas que tomam antidepressivos conhecidos como “inibidores da recaptação de
serotonina” (substâncias que aumentam os níveis de serotonina) apresentam menor intensidade nos sintomas da paixão.
Existe um outro hormônio envolvido na paixão: o cortisol, tipicamente associado às respostas ao estresse. Os níveis de cortisol elevam-se durante a paixão. Quando nos apaixonamos, ficamos ansiosos, inseguros, temos sentimentos de euforia. O coração bate mais rápido e mais forte, o sistema digestório se altera (já percebeu que, quando você se apaixona e a pessoa está por perto, você fica sem fome?). Nossa energia aumenta, ficamos hipervigilantes (ou seja, sem sono). Estes sintomas todos surgem quando entramos em contato com estímulos estressantes. As elevações de cortisol podem explicar por que eles ocorrem durante a paixão.
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Finalmente, uma última coisa interessante acontece durante a paixão. Há alteração em uma estrutura cerebral chamada córtex pré-frontal, da qual já falei anteriormente. Essa estrutura, que fica imediatamente atrás da nossa testa, é inibida durante a paixão.
Na primeira parte do livro, falei de uma substância cuja ingestão acarreta inibição do córtex pré-frontal: a bebida alcoólica. Você achou estranho, porque a última coisa que você fica quando bebe é inibido.
Mas isso ocorre porque, dentre as diversas coisas pelas quais as estruturas pré-frontais são responsáveis, encontra-se a capacidade de
frear nossos impulsos, segurar nossos desejos e antecipar a consequência futura daquilo que faremos agora. Ou seja, tais estruturas estão envolvidas no planejamento e nas tomadas de decisão.
Com o pré-frontal inibido, nossos desejos e impulsos vêm à tona sem tantos freios, e a capacidade de pensar nas consequências de nossas ações é diminuída. Por isso o bêbado costuma tomar decisões estúpidas e inconsequentes. Lembre-se do meu amigo embrulhado em papel alumínio.
Com o cérebro apaixonado, ocorre também a inibição pré-frontal. Por isso tomar grandes decisões apaixonado costuma ser má ideia. Você já deve ter visto que uma pessoa extremamente apaixonada costuma tomar decisões péssimas, tais como tatuar o nome da namorada na nádega esquerda.
Nesse sentido, a paixão tem características de uma demência.
É por isso que a paixão, quando observamos o cérebro, assemelha-se a um estado de grande motivação e prazer, com características de demência temporária, estresse, obsessão e compulsão.
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Nada disso tira da paixão sua beleza e seu encanto. Ficar apaixonado é uma das experiências mais incríveis que existem. Se pudesse, eu ficaria apaixonado o tempo inteiro. Quem diria que ficar meio “demente” seria algo tão gostoso!
No entanto, preciso ressaltar uma última característica da neurobiologia da paixão. A paixão é passageira. Os estudos mostram que seus efeitos químicos e funcionais no cérebro desaparecem após 12 a 24
meses.
Podemos olhar para isso de forma realista e fria. Você só fica perdidamente apaixonado porque uma hora você se encontra, e a paixão vai embora. Você só cai de amores por uma pessoa porque uma hora, caindo, você acerta a cara no chão — e desperta para a realidade. Acho que muita gente que está lendo estas palavras já passou por isso.
De forma diferente, podemos olhar para isso de forma mais poética, como fez Vinicius de Moraes. Que a paixão não seja eterna, posto que é chama. Mas que seja infinita enquanto dure.
Os processos químicos e neurais responsáveis pela paixão são passageiros. Mas isso não esgota o amor. Como eu disse no início: o amor tipicamente se divide em duas fases diferentes. A paixão costuma ser a primeira, de alta intensidade e curta duração. Por vezes, quando a paixão acaba, continua um processo de apego. Muitos chamarão esse processo de amor de fato, negando que a paixão deva receber o nome
“amor”.
Não gosto, como professor, de usar amor e paixão como coisas diferentes. Prefiro considerar a paixão como um estágio do amor.
Frequentemente, é o primeiro estágio. Às vezes o amor desenvolve-se em um segundo estágio. Às vezes os estágios invertem-se. Às vezes o amor
termina quando a paixão acaba. Às vezes o amor começa sem paixão, indo direto para o segundo estágio. Muitas vezes temos momentos de paixão durante esse segundo estágio.
Em inglês, os pesquisadores costumam chamar o primeiro estágio de passionate love (amor apaixonado) e o segundo estágio de companionate love (amor companheiro). Este segundo estágio é composto por um forte laço de união, que se torna cada vez mais forte com o tempo. Envolve profundo comprometimento, carinho, cuidado, segurança e confiança entre as partes. No entanto, trata-se de uma relação mais difícil de manter: não há mais uma enxurrada de hormônios e neurotransmissores que nos deixam motivados e ligados à pessoa. Este segundo estágio tem menor intensidade e maior duração.
Relações duradouras exigem esforço. São uma construção na qual cada uma das partes deve buscar, dia após dia, uma conexão melhor e mais forte. Como a saúde do corpo, construída dia após dia, na qual rejeitamos o imediatismo do fast-food e da preguiça, relações constroem-se mediante esforços de apego, gratidão e valorização.
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Apaixonar-se não é uma escolha.
Alguns dirão: “É, sim! Eu escolhi me apaixonar.”
A isso, digo apenas que a escolha que temos sobre a paixão é a mesma que temos sobre outras emoções e sentimentos. Você é capaz de escolher
não se alegrar quando recebe uma notícia boa? Ou escolher não ter medo se aparecer um tubarão quando está mergulhando? Emoções e sentimentos não derivam de escolhas. Apenas comportamentos estão sujeitos a escolhas.
Repito então:
Apaixonar-se não é uma escolha. Construir uma relação, é. Escolha diária, esforço contínuo, construção ativa — e, portanto, vítima fatal da preguiça. Não há sentença de morte maior para uma relação romântica do que acomodação e preguiça, que acarretam uma redução no esforço de manter e fortalecer laços. Acomodação é morte.
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O amor tem algo de contraditório.
Por um lado, nem sempre é correspondido. Quando digo que eu ficaria apaixonado o tempo inteiro, estou considerando uma paixão recíproca. A paixão não correspondida pode ser causa de uma indescritível angústia.
Mas suponhamos que o amor foi correspondido.
As relações um dia acabam. Pode ser durante os primeiros momentos ou após anos de companheirismo. No limite, morreremos e deixaremos a pessoa que amamos — ou ela nos deixará antes. A separação é quase sempre difícil e dolorosa. Na segunda parte do livro, vimos quão importantes são as relações sociais para a nossa saúde.
Não é à toa então que isso se reflita no funcionamento do cérebro. Ao passar por um processo de separação ou rejeição, estudos indicam que são ativadas as mesmas circuitarias do cérebro responsáveis por mediar dores físicas (como quebrar uma perna ou levar um soco na cara). Há algo de semelhante no cérebro entre as dores físicas e as emocionais. Em outras palavras, dores físicas e emocionais são em certa medida processadas pelos mesmos circuitos cerebrais.
Assim, o termo “dor do coração partido” parece apropriado. Tenho certeza de que muitos leitores passaram por terríveis dores emocionais
— e prefeririam ter uma perna quebrada em vez de passar por aquilo.
Amar é assinar uma sentença que muito provavelmente nos condenará a essas tristezas cedo ou tarde. No término de um namoro, na separação ou no divórcio, ou — no mais tardar — no luto da perda.
Por outro lado, não amar significa viver menor. Abdicar de algo que é literalmente uma necessidade humana: o calor de outro ser humano. Não falo somente do amor romântico, mas em sentido mais amplo, incluindo amigos e familiares. Afinal, as mesmas tristezas se aplicam aqui. Sem esse amor literalmente morremos. Os estudos são claros: relações sociais de qualidade são o fator mais importante para o bem-estar humano, associado inclusive à saúde dos indivíduos. Necessitamos de apego.
Eis a contradição. Precisamos amar para viver melhor. A vida, no entanto, nos condena, cedo ou tarde, a perder a pessoa amada — perda que será fonte de grandes tristezas.
Ao amar, confiamos que as alegrias serão grandes o suficiente para superar a eventual e provável tristeza da separação ou da perda. Talvez agora faça mais sentido que, no primeiro estágio do amor, fiquemos
“dementes”. Aí não pensamos nessas coisas. Não imaginamos tais tristezas e não questionamos essa confiança.
Clóvis: Todos nós sabemos que a tristeza existe. A tristeza é o que sentimos nos encontros com o mundo que nos fazem mal. Ela decorre dos encontros ocasionais. Nossa potência diminui toda vez que o semáforo fecha e estamos com pressa, toda vez que temos dor de barriga, toda vez que sofremos uma humilhação no trabalho. Essas tristezas resultam de encontros que poderiam não ter acontecido. E o mundo nos brinda com tristezas novas a cada dia.
Mas essa reflexão não é sobre essas tristezas. É sobre um sofrimento que não depende da circunstância da vida. Um sofrimento que não nos abandona nunca. Um sofrimento que decorre do fato de sermos desejantes, de constantemente buscarmos permanência em um mundo que flui. O fato de sempre desejarmos que as alegrias se traduzam em felicidade, que os amores durem para sempre, que os bons momentos se repitam eternamente. Essa pretensão blasfema contra o mundo da vida, onde nada permanece.
Pretender para sempre numa vida de trânsito é lutar contra a própria essência da nossa existência, causa do nosso mais profundo sofrimento.
Por isso, tenha certeza: o sofrimento não é atributo de uma vida mal
vivida, ele não decorre de erros, não é castigo por alguma coisa que fizemos agora ou em outras vidas. O sofrimento é inerente à vida, é essencial à vida. Sem o sofrimento, a vida também não existe. O
sofrimento está para a vida assim como o chocolate para o bolo de chocolate, a galinha para a galinhada, a banana para a bananada, a goiaba para a goiabada.
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O que você escolheria entre apegar-se e se foder ou levar uma vida de bosta sem apego?
O apego é a esperança de repetir amanhã a alegria de hoje e, portanto, uma espécie de certeza na possibilidade de esticar um instante de ganho de potência e de alegria. Existe uma dificuldade a mais, e o problema não é só que o objeto do apego se deteriora, se transforma, se desmancha no ar. O problema é que, quando você encontra alguém e sente alegria, você diz com a leveza da ignorância: “Armando me alegrou”.
O que será que está por trás da palavra “Armando”? Na verdade, uma reunião de atributos complexos, às vezes contraditórios, díspares.
Armando não quer dizer nada. Uma pessoa, no final das contas, é um catado de características; então é necessário saber o que em Armando lhe alegrou. Se não fizer essa análise, é possível que se surpreenda com o surgimento, no mesmo Armando que supostamente lhe alegrou no
passado, de características que agora irão lhe entristecer. Às vezes uma pessoa tem um sorriso lindo, um abraço adorável, é capaz de carícias inauditas, e ao mesmo tempo é egoísta, mesquinha, de moral claudicante, capaz de atrocidades. Tudo no mesmo Armando, na mesma pessoa.
Muitas vezes nos apegamos por conta de uma alegria sentida, compramos um pacote grande que vem cheio de laranjas estranhas. Ou você nunca comprou uma caixinha de morangos em que na camada de cima estavam os mais lindos, grandes, atrativos, e, quando chegou em casa e tirou essa primeira camada, os de baixo estavam amassados, carcomidos, até mordidos? Às vezes, o Armando é isso: no primeiro encontro, ele mostra os morangos de cima. Você se alegra, se apega e, na medida em que vai convivendo, vão aparecendo os morangos de baixo.
Alguns podem pensar: “Ah, coma os morangos de cima e jogue fora o resto!”.
Provavelmente não entenderam tratar-se de uma alegoria, uma espécie de artifício didático de comparação com o apego por uma pessoa. Se tivessem entendido, não cogitariam essa solução, afinal, quando forem apegar-se e pretenderem sorver somente os morangos de cima e jogar fora o resto, talvez seja conveniente avisar a vítima antes. A vítima da amputação, da discriminação, da cisão do que é morango doce e bom daquilo que é morango podre, não é?
O que será então a causa da alegria? É quase inevitável que uma pessoa seja capaz de alegrar e entristecer quase ao mesmo tempo.
Apegar-se a ela, portanto, é comprar a tristeza e, o que é pior, patrocinar o encontro com a tristeza, pondo-a dentro de casa. Quantas e quantas vezes nos equivocamos na hora de identificar a causa da nossa alegria.
Ah, meu amigo! É aquela história da moça que vai tirar férias em Punta del Este. Lá ela tem um momento de alegria quando encontra um argentino de Buenos Aires. Ela acredita que ele é a causa da alegria.
Então traz o argentino para cá, recebe-o em Cumbica e, já na Marginal, pensa em voltar para o aeroporto e devolver o cara, pois faz uma descoberta tardia e desesperadora: quando ela se alegrou no réveil on em Punta, foi por outra causa — talvez pela cidade, pelo pôr do sol, por estar de férias, porque o hotel era bacana, a comida era boa — mas não pelo argentino. Mas foi só ele que ela resolveu colocar dentro de casa. Ó
dó! Tristeza mesmo! Quase sempre nos apegamos a pacotes que têm de tudo. Vixe! Às vezes é tarde, e, quando nos damos conta, a tristeza já está em cima da cama, de roupão, só esperando por você.
Se você quiser ter um momento de ilusão é só ligar a televisão, pois ela é feita para isso, para iludir. O resto do mundo também é assim. A publicidade não falhará. Não faltará ilusão.
A vida como ela é, só aqui, nas reflexões.
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Já a confiança é uma certeza. E certeza é uma relação privilegiada entre o que pensamos e o mundo. Quando temos certeza de alguma coisa, mantemos com o mundo uma relação de conhecimento. A certeza da confiança é uma certeza sobre coisas que não podemos verificar.
Podemos ter certeza da chuva bem debaixo da chuva. Podemos ter certeza de alguma coisa tendo-a bem diante de nós.
Confiança não é isso. Confiança é uma certeza sem poder verificar, sem poder estabelecer com o mundo uma comprovação empírica. Pode ser um valor ético. Neste caso, a certeza não é a respeito do pôr do sol, nem mesmo em relação à chuva. A confiança será valor ético quando tiver por objeto o comportamento de alguém. Você tem certeza de que alguém agirá de um jeito ou de outro, tem certeza da conduta alheia mesmo sem poder verificar. A confiança é superimportante nas relações, afinal, as condutas ainda irão acontecer. Quando você contrata alguém, quando decide ser amigo de alguém, quando se casa com alguém, o que importa é o que irá acontecer dali para frente. E o que ainda irá acontecer, por definição, não há como verificar. Portanto, nas relações é preciso haver confiança.
Podemos confiar em alguém porque conhecemos muito, porque sabemos que esse alguém tem certa regularidade e porque sempre faz algo de certa maneira. Essa é uma confiança baseada na experiência anterior. Mas é claro que esse alguém, algum dia, poderá fazer diferente e surpreendê-lo.
Existe um outro tipo de confiança. É a certeza a respeito do comportamento do outro mesmo sem a experiência anterior, mesmo que o outro nunca tenha feito aquilo que promete fazer. Essa confiança é mais nobre. É a confiança em alguém que nunca conseguiu fazer alguma coisa, mas que temos certeza de que poderá vir a conseguir. É uma confiança que desmente o passado, é a porta aberta para o comportamento futuro. O comportamento de alguém em quem confiamos mesmo sem ter nenhum motivo para isso.
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Na segunda parte do livro, vimos que para o pensamento estoico é possível superar os medos e encontrar um mundo que nos satisfaça, que nos dispense de pensar no que já aconteceu e no que vai acontecer, superando o medo da morte e vivendo plenamente. Mas que mundo é esse que nos convida a uma reconciliação plena? Que mundo é esse que, de tão bom, faz com que vençamos o pior dos medos, o pior dos obstáculos para uma vida boa?
Esse mundo é o que amamos, é o objeto do nosso amor. Por isso, não tenho dúvida de que o amor é a solução para o medo da morte, pois, quando o amor existe, o presente basta. E, quando o presente basta, o futuro não pede passagem em nossa mente. E, quando o futuro não pede passagem em nossa mente, não há por que pensar no momento da nossa morte. E o medo desaparece.
Então, é preciso cair na real, nos dois sentidos: é preciso perceber que somente o mundo bem na sua frente é capaz de suprir essa necessidade e impedir que você tenha que pensar no futuro. É preciso dar uma chance ao mundo. Isso é o que Nietzsche chama de amor fati, o amor pelo mundo tal como ele se apresenta, tal como ele é percebido por você e não como você gostaria que ele fosse. Quando vive em função de como gostaria que as coisas fossem, você está dando espaço para a sua mente. É ela que contém as coisas que você gostaria que fossem. Se você sempre contrastar o mundo com o que você gostaria que fosse, ele nunca será suficientemente bom, dando margem para você pensar em passados e futuros.
Ame mais. Ame o mundo como ele é. Reconcilie-se com o real. Cito aqui uma frase do professor André Comte-Sponville, de inspiração assumidamente estoica, que é fantástica: “Lamente um pouco menos” —
isso é passado —, “espere um pouco menos” — isso é futuro — “e ame um pouco mais” — isso é o instante presente, o que estamos vivendo agora. Se o passado não pedir passagem, se o futuro não se impuser, o presente estará bastando. Esse presente que basta é aquele que amamos, é o presente que é objeto do nosso amor, o maior dos nossos sentimentos, a principal das nossas emoções, a salvação para o medo da morte.
Calabrez: Além dessas importantes considerações, parece-me que há dois outros elementos que devem ser considerados no amor.
Primeiramente, a admiração. Não há amor sem admiração. A paixão quase que naturalmente nos faz admirar a pessoa. Mesmo se não admirarmos seu intelecto ou personalidade, por exemplo, podemos admirar sua beleza. Quando seguimos para o segundo estágio, o amor companheiro, a admiração se torna ainda mais importante. Quando se esgota a admiração, a chama do amor ameaça apagar, os laços se afrouxam, a conexão entre as partes diminui.
Outro elemento do qual falei brevemente é o cuidado. “Quem ama, cuida”, diz o ditado popular. De fato, cuidar e amar parecem andar de mãos dadas.
Só que precisamos ser rigorosos. O que significa admirar? O que significa cuidar? Será que confundimos admiração e cuidado com um misto de desejo e alegria?
Clóvis: A admiração é como chamamos um estado particular da nossa mente, da nossa imaginação. Sua mente está em atividade todo o tempo, mesmo quando você dorme. Na medida em que você vai vivendo e encontrando o mundo, o mundo vai oferecendo subsídios que estimulam a atividade da mente, e você faz conexões, associações. Quando, por exemplo, eu encontro um livro, dependendo do tipo, ele me faz pensar em aula, me faz pensar em trabalho. Há outros livros que me fazem pensar em entretenimento, em descanso. Observando as coisas o tempo inteiro, elas nos fazem pensar em coisas que, por sua vez, nos fazem
pensar em outras coisas, e essas conexões vão se produzindo até que novos estímulos determinem novas cadeias, novos encadeamentos.
E a admiração? A admiração é uma interrupção abrupta dessas conexões. É quando um elemento de realidade contemplado por nós não encontra em nós um gancho de conexão, de associação. Então ocorre uma paralisação súbita da atividade mental. A essa paralisação denominamos admiração. É importante perceber que a admiração é consequência da disposição das nossas ideias, da nossa capacidade de pensar e de imaginar. É, portanto, uma interrupção que tem por causa uma lacuna na nossa mente, uma falta de gancho. Isso significa que a admiração não tem por causa o mundo que contemplamos. Fosse outro o nosso repertório, fossem outras as nossas ideias, evidentemente seria outra a nossa disposição para pensar, e seriam outros os mundos que nos causariam admiração.
Perceba, quando diz que algo é admirável, que você está dizendo que ficou perplexo, ficou paralisado, ficou incapacitado de fazer associações diante de um mundo que acabou de flagrar. Mas esse mundo que determinou a paralisação em você não é admirável em si, porque, fosse outro o observador, talvez tivesse nexos de encadeamento, e a admiração não se produziria. É preciso lembrar que a admiração em si não é nem boa, nem ruim. É apenas um fato, uma realidade da sua atividade mental.
A admiração pode vir acompanhada de alegria. É alegre quando a interrupção dos nexos mentais de encadeamento é geradora de ganho de potência de agir.
A admiração pode ser triste. Nesse caso, ao mesmo tempo em que nos flagramos impotentes para seguir viagem nas nossas atividades mentais, brochamos, nos apequenamos, nos acanhamos diante da vida.
Muitas vezes olhamos para alguém e dizemos: “E aí, está viajando?”.
Passamos a mão na frente do rosto da pessoa para indicar que ela está no mundo da lua, está em outro lugar, mas não ali.
Pois bem. Quando dizemos que alguém está viajando, é perfeitamente possível que esse alguém esteja em intensa atividade de conexões imaginativas. É perfeitamente possível que esse alguém esteja muito distante da admiração. Mas é verdade também que, quando ficamos admirados, a inércia imaginativa nos faz parecer viajantes. Portanto, quando você observa alguém distraído, é muito difícil saber se esse alguém parece distraído por estar admirado ou pelo contrário, por estar em intensa atividade associativa.
Cabe lembrar que muitas vezes a admiração é produzida pela observação do comportamento de alguém. Nesse caso, naquele instante, aquele alguém é causa da nossa admiração. Que fique claro: isso não é necessariamente positivo. Primeiro, decorre de uma lacuna que é sua, observador. Segundo, pode vir acompanhado de profunda tristeza, de
profunda inércia “apequenadora”. Assim acontece quando admiramos o mal.
Mas como é possível admirar o mal? Quando admiramos, não é necessariamente algo que julgamos bom?
Naturalmente que não. O mal pode paralisar, pode bloquear a nossa atividade mental e, portanto, pode ser digno da nossa admiração paralisada.
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Agora, sobre o cuidado.
Certa vez, conversando com um amigo por telefone, ao nos despedirmos, ele me disse: “Se cuida”.
E eu respondi: “Você também”.
Desliguei o telefone e me perguntei o que isso quer dizer. “Se cuida. ”
Poderíamos imaginar uma situação mais fácil: um indivíduo cuida de outro. O que significa?
No fundo, cuidar implica uma blindagem afetiva de um lado e a promoção de outros afetos por outro. Quando cuida de alguém, você tenta fazer com que o mundo agrida esse alguém o menos possível. Você prepara o mundo para diminuir a tristeza. Quando cuida de alguém, você tenta proporcionar a esse alguém encontros alegres com o mundo, trata de preparar o mundo para entristecer o menos possível e alegrar o máximo possível. É claro que isso implica muitas coisas.
Você pode, por exemplo, cuidar oferecendo nutrição, proporcionando encontros alegres, alavancadores de potência, como um arroz com feijão bem preparado. Quando cuida de alguém, você impede que esse alguém coma coisas que entristeçam, zela pelos nutrientes que possam causar dano. Quando cuida, você prepara a cama, arruma as cobertas, e tudo isso é zelo com o mundo, para que o mundo possa alegrar.
No final das contas, cuidar de alguém é uma equação afetiva complicadíssima, que exige 24 horas de atenção para tudo que possa agredir no mundo. Cuidar de alguém é tarefa difícil, porque o mundo é ardiloso e astucioso na hora de entristecer.