Em busca de nós mesmos
Deus
O mesmo acontece quando eu dou uma palestra. Me envolvo, a palestra me encanta, só penso na palestra, totalmente focado, e por isso não tenho por que pensar no passado ou no futuro. E posso lhe garantir: quando você não tem que pensar no que vai acontecer, você não pensa na morte e finalmente vence esse medo estúpido de morrer.
Faça a sua vida ser atrativa, tesuda, fascinante a cada segundo, e você não se lembrará de que vai morrer. E a vitória será definitiva.
Viva aos estoicos! Foda-se o medo da morte! Como é que vou pensar em morte quando estou tão focado nessas reflexões? Dane-se a morte!
Esta é a lição de Sêneca, Epicteto e Marco Aurélio.
22
Deus
Clóvis: O homem sempre se perguntou se Deus existe, e muitos chegaram à conclusão de que a própria inteligência não dá conta de resolver esse enigma. Não teríamos competência racional para decretar com certeza por sua existência, tampouco por sua inexistência.
Pascal sugere um estratagema para resolver a parada. E esse estratagema é bem interesseiro. Você sabe, Pascal foi um gênio da matemática, o cara que descobriu a área da elipse. E fez filosofia, lá pelo ano de 1600, numa obra chamada Pensamentos, na qual propõe o seguinte: o que nós ganhamos apostando que Deus existe?
Bem, se apostarmos que Deus existe e ele existir mesmo, ganhamos a eternidade e aparentemente uma eternidade bem legal, bem confortável, longe de todos os males.
Mas e se Deus não existir e apostarmos que ele existe? Aí não ganhamos nada. Mas também, diz Pascal, perdemos muito pouco, porque, afinal, o que Deus cobra de nós? Uma ou outra privação no mundo terreno, nesta vida de carne e osso, nesta vida do mundo da vida.
E Pascal pergunta o que será mais vantajoso: perder uma eternidade
cheia de coisas legais ou perder uma ou outra sacanagem num mundo finito e deteriorado? A resposta dele é que é mais vantajoso apostar que Deus existe porque, se ele existir e apostarmos nele, nossa! Vai ser para sempre de boa!
Agora, se ele não existir, o que perdemos é um ou outro ataque de raiva, a impossibilidade de dar um tiro na cabeça de alguém que nos enche o saco ou eventualmente sair galinhando desbragadamente e enganando nossas vítimas.
Você entendeu qual é a de Pascal. Do meu lado, não sei se embarco nessa aposta não, afinal, as tais privações, dependendo do deus, não são tão poucas assim. E, apostar que a vida é só esta, num mundo que é só este, e botar para quebrar, pode ser uma boa.
Deixo você com essa reflexão. Se quiser ler Pensamentos de Pascal, tem até em banca de jornal.
• • • • • •
Para quem acredita que Deus existe e que é bondoso e poderoso, uma pergunta costuma incomodar: se ele é bondoso e poderoso, como é que permite tanta maldade no mundo?
De duas, uma: ou ele é bondoso, mas não pode fazer nada e então não é poderoso, ou ele é poderoso, mas é malvado porque não faz o que poderia fazer para impedir tanta maldade.
Ora, a pergunta parece embaraçosa, mas a filosofia responde com leveza, graça e inteligência: se Deus é criador, então cria algo diferente dele. Se ele é perfeito e criou o mundo, se o mundo fosse perfeito, Deus não teria criado nada além dele próprio e só existiria Deus. Para que houvesse algo diferente de Deus, foi preciso que ele criasse algo diferente de si mesmo. Portanto, se ele é perfeito, cria algo imperfeito.
Assim, se Deus é amor, só pode ter criado algo diferente do amor: o ódio.
Se Deus é paz, só pode ter criado a guerra. Se Deus é beleza, só pode ter criado a feiura. Se Deus é inteligência, só pode ter criado a burrice.
Dessa maneira, começamos a entender o mal no mundo. Se o mal é a imperfeição, Deus deixa o mundo ser imperfeito para que o mundo possa ser o mundo. E aqui cabe outra pergunta: qual a vantagem de criar algo diferente de si mesmo? Por que Deus aceita essa diminuição? Afinal, Deus mais o mundo é pior do que Deus somente.
A resposta é que Deus aceita essa imperfeição por amor. Por amor à sua criatura. Então, pense comigo: a minha aula não é perfeita porque a aula perfeita seria dada por Deus. Se Deus garantisse a perfeição da minha aula, só haveria a aula de Deus e não haveria a minha aula. Para haver a aula do professor Clóvis, para que o professor Clóvis possa existir, é preciso que Deus permita a aula imperfeita. Se Deus garantisse a perfeição do mundo, ele estaria sempre no nosso lugar, afinal, somos imperfeitos. Se Deus garantisse a perfeição da minha aula, seria Deus a dar a aula e não eu. Portanto, para que possa existir o professor Clóvis, é
preciso que Deus permita, é preciso que ele se retire, é preciso que ele aceite essa diminuição. E Deus aceita essa diminuição por amor. E, por amor, ele deixa que Clóvis seja Clóvis, que o professor possa ser ele mesmo com todas as suas imperfeições.
O que vale para a minha aula vale para qualquer outra coisa. Deus poderia garantir a perfeição de tudo, mas, nesse caso, só haveria mesmo Deus. Tudo seria Deus. Tudo seria perfeito, e o mundo não existiria. Por isso, o amor de Deus por nós e a relação de Deus com a sua criatura faz lembrar as pegadas na areia da praia: elas indicam que Deus já passou por ali, mas foi embora para que o mundo possa ser como é. Foi embora para que você possa existir enquanto você. Foi embora para que todos nós possamos ser diferentes uns dos outros na medida da nossa própria e específica imperfeição.
• • • • • •
Há muitos problemas em acreditar em um deus transcendente. A grande pergunta é: quando Deus nos recomenda algo, ele recomenda porque é bom? É bom por si mesmo?
Nesse caso, temos a competência para identificar o que é bom e reconhecemos que o que Deus recomendou é realmente bom. Ou será que uma coisa é boa apenas e tão somente porque Deus a recomendou?
Tudo o que ele recomenda é bom de ofício?
Analisemos a primeira possibilidade: Deus só recomenda o que é bom, e o que ele recomenda é bom por si mesmo. Ora, meu amigo, neste caso, a nossa inteligência consegue identificar o que é bom, consegue discernir como devemos agir, consegue identificar o que não serve para nós. A nossa inteligência nos garante a possibilidade de atribuir valor às coisas do mundo, como também valor às nossas condutas. E, se somos inteligentes para isso, se temos moral — já que moral é a inteligência a serviço da vida boa —, neste caso Deus estaria um pouco demais, estaria sobrando na parada. Nós mesmos nos bastaríamos.
Vamos imaginar agora a segunda hipótese: a coisa é boa porque Deus disse. Se ele não tivesse dito, não seria boa. O que confere bondade às coisas é o fato de Deus tê-las recomendado. Assim, tudo dependeria da recomendação dele e não seria necessário inteligência para identificar o que é certo e o que é errado, não teríamos competência de razão para atribuir valor às coisas do mundo. E não teríamos moral.