Em busca de nós mesmos
Poder
Os hindus insistem na existência de um carma e afirmam que as boas ações produzem bom carma, o que inevitavelmente leva a boa fortuna, boas ocorrências, encontros alegres com o mundo. Em compensação, as más ações produzem mau carma, o que leva consequentemente a má fortuna, má sorte, encontros apequenadores, brochantes e entristecedores com o mundo.
Ora, meu amigo, eu humildemente lamento discordar. Discordo porque conheço centenas e centenas de casos de pessoas, na vida real e na literatura, que agem bem, são bons pais de família, fazem o bem, ajudam os outros, mas levam uma vida recheada de encontros desgraçados com o mundo. A quantidade de gente traída, humilhada no
amor, explorada no trabalho e que passou a vida fazendo o bem me permite discordar. A experiência empírica me mostra que as boas ações e as boas condutas podem até trazer o carma que quiserem, mas que garantirão sorte, boa fortuna e encontros alegres com o mundo, ah, só se for lá longe! Aqui perto não me parece acontecer.
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Poder
Clóvis: Quando pensamos em poder, podemos pensar primeiro na possibilidade que cada um de nós tem de conseguir executar uma tarefa, realizar um intento. Por exemplo, eu tenho o poder, a capacidade de escrever um livro, de dar uma aula. E não tenho o poder de voar ou de fazer um bom desenho.
Esse sentido da palavra poder não é único. Entendemos por poder uma característica de relação entre duas ou mais pessoas. Quando duas pessoas se relacionam e há exercício de poder, é porque a vontade de uma delas determina a ação da outra. Pense, você que trabalha e está subordinado a um chefe, esse chefe exerce o poder, uma vez que o seu comportamento, as suas atividades, as suas condutas são determinadas pela vontade de seu superior. O poder reside aí: a vontade de um determina a conduta do outro.
A relação de poder parece, num primeiro momento, um pouco injusta; afinal de contas, por que alguém, além de definir o que irá fazer, ainda define o que os outros irão fazer? Olhando pelo lado daquele que se
submete, por que não poder deliberar sobre a própria conduta? Por que cada um não manda em si?
Rapidamente percebemos que, para que a vida em sociedade aconteça, as relações de poder têm de estar em toda a parte.
Simplesmente não é possível que cada um apenas mande em si. Há poder em todo lugar. Eu mesmo, na universidade, dou aula numa sala claramente pequena para o número de alunos que tenho e, no entanto, não cabe a mim decidir em que classe darei aula, bem como não cabe a mim decidir o dia da semana em que darei aula. Tampouco decido o quanto eu ganho. Estou claramente submetido a relações de poder. Mas não é pelo fato de eu não decidir a classe para a qual darei aula que vou pegar uma arma e me rebelar, matando todos que encontrar pela frente.
Pelo contrário: toda quinta-feira vou à universidade, vou à sala que me destinaram e dou aula durante o período e no horário que também determinaram. Perceba que eu aceito esse poder, aceito não ser o titular da prerrogativa de decidir sobre essas coisas. Podemos então entender que algumas relações de poder são aceitas não só por quem o exerce como por quem a ele se submete. Chamamos nesse caso de poder legítimo, o poder aceito pelos envolvidos.
Na escala da sociedade também é assim. As leis são escritas por alguns, mas obedecidas por todos. Poderíamos nos perguntar: por que cargas d’água obedecemos? Em outras palavras, qual o fundamento da legitimidade do poder exercido pelos nossos governantes? Por que não
há uma revolução por minuto? Uma rebelião por minuto? Acatamos muitas decisões que não são tomadas por nós. Eis aí uma grande questão sobre a legitimidade do poder que vai encontrar uma espécie de resposta na próxima reflexão. Mas reflita que grande parte das relações de poder, ainda caracterizadas pela subordinação de uns e pela soberania de outros, é aceita tranquilamente, harmonicamente, sem nenhum tipo de contestação. Por que será que aceitamos tão fácil não sermos nós mesmos os artífices das escolhas que constituem a nossa vida?
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Parece desequilibrado, e injusto até, alguém dever agir em função de uma decisão tomada por outro que não ele mesmo, razão pela qual poderíamos imaginar uma tendência ao resgate da soberania, certa indignação e certa luta para a recuperação do poder decisório sobre a própria vida. Mas não é o que acontece.
Na sociedade, as relações de poder costuram o tecido social, parecem imprescindíveis, pois sem elas a sociedade não existiria. O que será que fundamenta esse exercício de poder? A natureza e os atributos de natureza possuídos por aqueles que exercem o poder e aqueles que a ele se submetem foram durante muito tempo legitimadores e justificadores de relações desse tipo. Há o grande mito de Gilgamesh, primeiro relato de que temos registro. Gilgamesh, o grande rei que não queria morrer, exercia poder sobre a sua cidade em função do seu tamanho, atributo de
natureza, o tamanho garantidor da prerrogativa do exercício do poder entendido como normal e aceitável por conta do tamanho do soberano.
Ao longo da história do pensamento e da história das cidades, outros elementos de natureza garantiram a legitimação do exercício do poder.
Provavelmente o tamanho das mamas em algum matriarcado, o tamanho do falo em algum patriarcado.
Na filosofia, mais próximo de nós, a natureza também legitimava o exercício do poder político. E o elemento de natureza que garantiria essa legitimidade era a inteligência, o uso da razão. Um domínio sobre as próprias paixões, sobre o próprio corpo, uma soberania sobre si mesmo, sobre os próprios apetites em nome da busca de uma verdade, de ideias perfeitas, de um mundo transcendente. Esse sábio, esse filósofo, por conta da sua inteligência, deveria exercer o poder. Os valentões como Gilgamesh ocupariam agora uma segunda classe: a dos que defenderiam fisicamente a cidade. E os que não fossem nem muito inteligentes, nem valentões, a esses caberia o resto: trabalho braçal, servidão.
Claro que a natureza não foi o único elemento que fundamentou a legitimidade do poder. Mas ainda hoje permite que identifiquemos situações de exercício de poder em nossas relações. A beleza, por exemplo, claramente garante a quem a detém prerrogativas de poder.
Também a inteligência e vários outros elementos com os quais a natureza nos brinda desde o nascimento. Certamente que a natureza perdeu a prerrogativa e o monopólio legitimador do poder, mas é
evidente que ainda hoje garante para muitos uma situação extremamente privilegiada nas relações.
Calabrez: Há uma assimetria nas relações humanas. Alguns indivíduos são mais socialmente legitimados. Tornam-se dominantes. Outros, ao contrário, obedecem às regras definidas pelos dominantes. São, portanto, dominados. Ao que tudo indica, há um componente biológico que explica essas dinâmicas. Em outras palavras, temos uma natureza que nos inclina a estruturas socialmente assimétricas.
Alguns anos atrás, um estudo interessantíssimo colocou macacos em uma gaiola onde eles poderiam olhar para uma tela na qual passavam imagens, ou então poderiam optar por tomar suco. Uma coisa ou outra, o macaco tinha que escolher entre olhar as imagens ou tomar suco. Eu quero que você entenda isso porque é muito importante: macaco adora suco. Pode ser de laranja, uva, não importa. Se for açucarado, macaco é doido por suco. O canudo liberava muito pouco suco. Para beber suco, o macaco deveria ficar muito tempo sem olhar a tela.
O que essa pesquisa queria avaliar era justamente quais imagens eram mais interessantes para o macaco. Afinal, se o macaco escolher deixar de tomar suco para ver uma imagem, é porque essa imagem é realmente muito interessante para ele. Vale ressaltar que todos os macacos do estudo eram machos.
Adivinhe quais tipos de imagem chamaram a atenção dos macacos a ponto de pararem de tomar suco?
Apenas duas categorias de imagens.
Em primeiro lugar, fotos da bunda de fêmeas. Ou seja, uma espécie de revista Playboy “macáquica”.
Em segundo lugar, fotos do rosto dos machos e das fêmeas alfa do grupo. Em outras palavras, o rosto dos macacos mais socialmente proeminentes da sociedade em que esses macacos viviam. Ou seja, uma espécie de revista Caras dos macacos.
Lembra dos estudos comparando neocórtices de diferentes primatas, mencionados na segunda parte do livro? Eles foram capitaneados por um cara chamado Robin Dunbar, antropólogo, psicólogo evolucionista e professor da Universidade de Oxford. Após os estudos comparativos, ele propôs que o interesse pela vida dos outros é parte fundamental do processo evolutivo dos primatas, especialmente dos grandes primatas (dos quais o ser humano faz parte).
Grandes primatas são altamente sociais. Para os membros das sociedades desse tipo de animal, é de grande importância obter informações sobre os outros membros. Tais informações permitem uma melhor navegação no ambiente social. Isso, por sua vez, permite maior cooperação — fator fundamental para a sobrevivência.
Para muita gente, uma das consequências disso tudo é péssima: a fofoca. Ou seja, a tendência que muita gente tem de cuidar da vida alheia, muitas vezes transmitindo histórias de forma seletiva e extrapolada ou deturpada e mentirosa. Tudo isso é uma espécie de
desvio prejudicial de uma propensão natural que nós (e a maioria dos primatas) temos a nos interessar pela vida dos outros, a falar sobre outras pessoas. Outros primatas não falam, é claro. Apesar disso, comunicam-se de diferentes maneiras, demonstrando a mesma inclinação psicológica e comportamental. Essa inclinação, ou seja, esse interesse natural pela vida alheia, é especialmente intenso em relação às pessoas socialmente proeminentes em nossa sociedade.
Mas quem são as pessoas mais socialmente proeminentes nas sociedades humanas?
As pessoas socialmente legitimadas. Nas sociedades de chimpanzés (outro grande primata), por exemplo, os machos e fêmeas alfa não são necessariamente os mais fortes ou maiores. Frequentemente são os membros com maior capacidade de influenciar os demais, ou seja, aqueles com habilidades sociais, tais como gerenciamento de conflitos e persuasão. Veja que as sociedades de chimpanzés são altamente complexas.
A espécie humana não poderia ser diferente. Somos, afinal, um grande primata. No entanto, temos um cérebro maior e mais complexo, que permite estruturas sociais ainda mais complexas. Os elementos que definem os membros “alfa” do nosso grupo variam de acordo com a cultura do grupo. Entre militares, os dominantes são aqueles que têm medalhas no peito. Entre lutadores de artes marciais, os dominantes são aqueles que têm a faixa mais escura. Possuir um belo cavalo já foi