Em busca de nós mesmos
Cérebro: um cosmos dentro do cosmos
Devemos ser humildes sempre. Mas, além de humildes, devemos ser agradecidos. Isso é uma dádiva que nos foi dada pela natureza. Uma bênção — talvez a maior das bênçãos que é possível receber dentro da natureza atual. Alguns irão agradecer a Deus, outros aos deuses, às deusas ou à própria natureza. Independentemente disso, seja agradecido, leitor. Pois você está vivo e possui um cérebro que, sem qualquer sombra de dúvida, é a máquina mais complexa do universo conhecido. Se isso não é sagrado, não sei o que seria.
Eis que chegamos ao maior mistério do cosmos: como uma máquina biológica com cerca de 1,3 quilograma é capaz de fazer tudo isso?
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Cérebro: um cosmos dentro do cosmos
Calabrez: O estudo do sistema nervoso dos seres vivos em geral e do cérebro em específico é realizado por uma série de campos científicos que se reúnem sob o nome de “neurociências”. Neurociência afetiva, neurociência cognitiva, neurociência computacional, neurobiologia molecular, biopsicologia e tantos outros.
Estudar o cérebro humano é algo que faz parte da minha rotina diária há anos. Apesar disso, toda vez que paro para pensar sobre o cérebro, volto a ficar maravilhado — da mesma maneira que fiquei quando abri um livro de neurociências pela primeira vez.
Caso segurasse um cérebro humano em suas mãos, eu garanto: você não ficaria impressionado.
Eis que temos um bolo de carne cuja massa varia entre 1,2 e 1,3
quilograma. Ou seja, pouco mais do que uma caixa de leite que compramos no supermercado. Além disso, não é muito grande: cabe na palma da mão. A textura é esquisita e difícil de descrever. Meio gelatina, meio esponja. Parece uma espécie de queijo tofu, porém muito mais firme.
Nada impressionante, certo?
Agora, pense: apesar do cérebro compor em média 2% da massa corpórea de um ser humano, ele consome cerca de 25% de sua energia.
Isso significa que, apesar do seu pequeno volume e massa, o cérebro realiza algo muito importante para nós — afinal, consome 1/4 daquele que é um de nossos recursos mais preciosos, a energia.
Como todo aparelho biológico, o cérebro é composto por células.
Diversos tipos de célula constituem o cérebro, mas as maiores responsáveis pelas funções cerebrais são as células chamadas neurônios.
Cada cérebro possui em média 86 bilhões de neurônios. Este é um número recente, obtido graças a estudos realizados por pesquisadores brasileiros. Antes disso, acreditava-se que o cérebro possuísse cerca de cem bilhões de neurônios. Era o número que eu usava em aulas e palestras. É o bacana da ciência: aprendemos coisas novas e abandonamos ideias obsoletas.
Os neurônios são células que recebem e transmitem informações entre elas; portanto, realizam conexões. Cada neurônio realiza em média entre um mil e dez mil conexões com outros neurônios. Essas conexões ocorrem em pontos de contato microscópicos chamados sinapses.
Vamos calcular quantas sinapses existem em cada cérebro humano.
São 86 bilhões de neurônios e de um mil a dez mil sinapses por neurônio. O resultado: entre 86 e 860 trilhões de sinapses em cada cérebro humano. Lembra do número de galáxias no universo observável que
mencionei anteriormente? Dois trilhões de galáxias, de acordo com as estimativas mais recentes. Ou seja, existe um número maior de conexões no cérebro humano do que galáxias no cosmos.
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É comum você ver fotos de cérebros por aí. A maioria das pessoas sabe hoje como é a aparência de um. No entanto, dificilmente as pessoas param para apreciar e respeitar a foto de um cérebro.
É graças ao funcionamento do seu cérebro que você está lendo estas palavras e compreendendo o que significam. Seus pensamentos, planos e sonhos para o futuro, assim como seus afetos, memórias e experiências
— tudo emerge de padrões elétricos, químicos e magnéticos fantasticamente complexos que ocorrem no cérebro. Quando seu cérebro é alterado, você é alterado.
O uso de álcool e outras drogas é um perfeito exemplo cotidiano. Há exemplos mais contundentes: uma pequena lesão cerebral é capaz de mudar totalmente sua personalidade. Isso não ocorre se você danificar qualquer outra parte do corpo. Se você já desmaiou ou passou por anestesia geral, pergunte a si mesmo: o que era o mundo durante essa experiência? Você sabe a resposta. Não havia mundo. Você teve a experiência de um mundo que se “desligou”. Porque, de certa forma, a aparelhagem que produz sua experiência consciente de mundo foi
“desligada”. A atividade do seu cérebro é responsável por quem você é.
Isso inclui a construção da realidade em que vivemos.
O mundo não é triste. Mas também não é alegre. O mundo não é difícil, belo, estressante ou amedrontador. O mundo simplesmente é. Uma coleção de matéria e energia dançando com a música que chamamos de
“leis naturais”. Os valores do mundo são produção nossa. Produção de nosso cérebro.
Um dia, saindo do trabalho, o mundo estava estressante. Depois de duas cervejas, eis que o mundo se tornou menos estressante. Veja bem: o mundo continuou o mesmo. O que mudou foi o cérebro.
Gostaria que você, leitor, da próxima vez que deparar com a foto de um cérebro humano, fizesse uma reflexão.
Aquele cérebro foi uma vida. Como a minha e a sua, repleta de altos e baixos. Houve amor, mas também houve ódio. Momentos alegres, sorrisos e risadas de doer a barriga. Tristezas, angústias, lágrimas e dias em que não dava vontade de sair da cama. Preguiça de ir ao trabalho, empolgação com uma notícia boa, saudade do abraço de alguém.
Algumas certezas e muitas dúvidas. Curiosidade, reflexões profundas e indagações existenciais. Tudo isso contido em 1,3 quilograma que cabe na palma da sua mão.
Tudo o que sabemos sobre o cosmos, todas as visões de mundo que já existiram, desde a Pré-história e os mitos antigos até a física quântica contemporânea, foram produzidos por cérebros humanos. Todos os
grandes pensadores dos quais falamos aqui devem suas ideias ao funcionamento dessa espetacular máquina biológica.
Nosso pequeno cérebro é um gigantesco cosmos dentro do cosmos.
Ou seria o contrário? Afinal, não existiria a ideia de cosmos se não houvesse cérebros humanos. Sendo assim, poderíamos dizer que na verdade é o universo que vive dentro desse cosmos fantástico chamado cérebro. Entendê-lo é compreender a nós mesmos. Passear pelo cérebro é visitar as raízes de quem somos. Jornada importante. Talvez essencial para uma vida plenamente humana.