Em busca de nós mesmos
Nascer e crescer
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Nascer e crescer
Calabrez: Uma girafa consegue ficar em pé pouco depois de nascer. Os filhotes de zebra são capazes de correr 45 minutos após o nascimento.
Golfinhos já nascem nadando. Em contrapartida, os seres humanos nascem frágeis. O cérebro humano nasce incompleto. O bebê da espécie humana é o mais frágil dos filhotes entre todos os mamíferos. Levamos um ano para conseguir andar. Mais cerca de três anos para articular pensamentos que permitam uma comunicação mais ou menos eficiente entre nós. Muitos outros anos mais até que possamos nos reproduzir e viver por conta própria. Nascemos totalmente dependentes das pessoas ao nosso redor. Tem gente, aliás, que leva isso muito a sério e permanece na casa dos pais por muito tempo depois dos cabelos brancos começarem a surgir.
À primeira vista, parece uma enorme desvantagem para nós.
Imagine só, nascer com o cérebro “pronto”, como os outros bichos. Ou pelo menos “semipronto”! Seria incrível!
Vamos com calma.
Essa vantagem primária que as outras espécies têm sobre nós traz consigo uma tremenda desvantagem. Um cérebro que nasce “pronto” ou “semipronto” sem dúvida é capaz de se virar sozinho mais rápido. Para isso, deve ser um cérebro pré-programado, que já nasce com uma série de programações pré-inscritas.
Isso é ótimo para a sobrevivência do animal no nicho ecológico no qual ele nasce. Mas tem um preço enorme: adaptabilidade. Tire o animal desse nicho, e ele terá grandes dificuldades de se adaptar e sobreviver.
Quando foi a última vez que você viu um urso polar na floresta? Ou uma zebra nas montanhas nevadas da Noruega? Ou um caribu vivendo no deserto?
Em contrapartida, seres humanos têm uma grande capacidade de adaptação. Conseguimos sobreviver nos mais variados ambientes ecológicos. Desde ambientes terrivelmente frios, como o Ártico, até ambientes terrivelmente quentes, como desertos. Sobrevivemos na secura do cerrado e na extrema umidade da floresta amazônica. Em pressões altas, próximos ao mar (e até mesmo dentro dele), e baixas, no topo de montanhas.
Isso só é possível porque nascemos com um cérebro “incompleto” —
que vem com menos coisas pré-programadas, permitindo moldar-se de acordo com as experiências às quais é submetido.
Faço um alerta.
Isso pode levar alguns leitores a lembrar da ideia de tábula rasa de John Locke. A ideia de que nascemos como uma folha em branco. Sem uma natureza, sem uma essência a priori.
Essa ideia é incorreta. Como todos os animais, temos uma natureza.
Temos
pré-programações
biológicas.
Somos
profundamente
influenciados por nossos genes. O psicólogo Steven Pinker, professor de Harvard, escreveu um livro chamado Tábula rasa: a negação contemporânea da natureza humana. Obra essencial para entender essa questão.
Hoje sabemos que nada é derivado somente da experiência. Assim como nada é derivado somente da biologia. Tudo é resultado da relação entre biologia e experiência.
Pense em um pianista. Ele está tocando uma belíssima sonata. Você chega para ele e pergunta: “Essa música vem de você ou do piano?”.
Notamos rapidamente que a pergunta não faz sentido. A música é fruto da relação entre piano e pianista. Ambos são necessários.
A mesma coisa pode ser dita sobre os seres humanos. Nada é fruto exclusivo da nossa natureza, da nossa biologia, dos nossos genes. Por outro lado, nada é fruto exclusivo das nossas escolhas, das experiências que vivemos, do ambiente (social, cultural) no qual nascemos. Tudo é uma relação entre biologia e experiência.
Apesar de termos sim uma natureza, somos diferentes dos outros animais nesse quesito. Temos uma maior janela de flexibilidade para nos
adaptarmos ao ambiente onde nascemos e nos desenvolvemos (e às experiências por ele proporcionadas). Isso envolve obviamente nossas escolhas. Somos mais livres nesse sentido. Algo que Rousseau, à sua maneira, já tinha dito.
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Os neurônios no cérebro do bebê humano são dispersos e desconexos. Há bilhões de sinapses já formadas, é claro. Mas uma transformação está ocorrendo. Durante os primeiros dois anos de vida, os neurônios do bebê começam a estabelecer novas conexões em uma velocidade estonteante.
São formadas cerca de dois milhões de novas sinapses a cada segundo no cérebro de um bebê. Aos dois anos de idade, uma criança tem aproximadamente o dobro do número de sinapses encontrado no cérebro de adultos.
Nesse momento, essa explosão de novas conexões dá lugar a um processo chamado “poda sináptica”. Tal qual quando podamos uma planta, deixando-a mais enxuta, esse processo reduz o número de sinapses.
Mas quais sinapses são podadas e quais permanecem?
Sinapses que são úteis, ou seja, que participam de fato de circuitos cerebrais, são mantidas e reforçadas. Em outras palavras, tais conexões se tornam mais fortes. Sinapses não utilizadas são descartadas.
De certa forma, o cérebro que temos hoje foi lapidado a partir de possibilidades que já se encontravam nele quando tínhamos alguns poucos anos de idade. Do ponto de vista do cérebro, aquilo que somos hoje é, em grande medida, definido pelo que foi removido — e não pelo que foi adicionado, como se costuma imaginar.
Ao longo de nossa infância, nosso cérebro adapta-se para interagir de forma mais eficiente com os aspectos fundamentais do ambiente no qual crescemos. Um exemplo disso é a linguagem. Conforme somos expostos a diferentes sistemas linguísticos, nosso cérebro se adapta ao sistema linguístico predominante no ambiente. Nada impede, inclusive, que seja mais de um sistema linguístico.
Por exemplo: o cérebro de um adulto nascido no Japão e exposto ao longo dos primeiros anos de vida exclusivamente ao idioma japonês terá dificuldades para discernir os sons de “r” e “l” — que nós distinguimos facilmente no português. Isso ocorre porque esses sons não são distintos no idioma japonês.
O princípio aqui é simples. Ao nascer no Japão ou no Brasil, uma criança ouvirá e responderá igualmente aos sons de ambos os idiomas, japonês e português. Com o passar do tempo, a habilidade de ouvir sons particulares ao idioma nativo será aprimorada, enquanto a habilidade de ouvir sons diferentes do idioma nativo se tornará pior.
Mas nada impede que aprendamos novos idiomas mesmo depois de adultos. E isso não se aplica só a idiomas, mas a qualquer tipo de
aprendizado. Existe uma grande maleabilidade no cérebro humano.
Nosso cérebro é capaz de refinar suas conexões — criando, reforçando, afrouxando e abandonando sinapses ao longo de toda a vida. Essa característica de maleabilidade é chamada de “neuroplasticidade”.
Costumamos dizer que o cérebro é plástico. Isso quer dizer que o cérebro nunca para de se desenvolver, até nosso último dia de vida.
No entanto, há períodos mais críticos de plasticidade, quando o cérebro está mais maleável; portanto, mais sujeito a alterações e influências do ambiente. O cérebro é extremamente sensível nos três primeiros anos de vida (que incluem o período intrauterino). A partir daí, continua altamente maleável durante a infância. Na adolescência, essa maleabilidade é reduzida e, entre os 20 e 25 anos de idade, o cérebro atinge seu estágio maduro — com seus menores níveis de plasticidade, que permanecem relativamente estáveis durante o restante da vida adulta.
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Acabamos de ver que o cérebro “incompleto” com o qual nascemos traz uma enorme vantagem em termos de adaptabilidade. Essa incompletude neural é acompanhada por duas grandes características da espécie humana.
Primeira característica: somos um animal altamente social.
Um famoso psicólogo chamado Abraham Maslow publicou em 1943
um artigo científico no qual descrevia uma hierarquia das necessidades humanas. Ou seja, apontava as necessidades mais fundamentais e como as menos fundamentais se construíam somente depois que as mais básicas estivessem atendidas.
Essa hierarquia de necessidades ficou muito famosa e até hoje é utilizada por alguns professores e livros. Ela é tipicamente apresentada na forma de uma pirâmide colorida, conhecida como pirâmide de Maslow.
Para Maslow, o nível primário de motivação humana é a satisfação de necessidades fisiológicas (água, ar, alimentação, sono, descanso).
Após satisfazer as necessidades fisiológicas, o ser humano focará nas necessidades de segurança. Isso envolve segurança pessoal, segurança financeira, saúde, bem-estar, segurança contra acidentes e doenças.
Atendidas as necessidades de segurança, o ser humano guia-se para as necessidades de amor e pertencimento. Para Maslow, isso envolve amizades, intimidade, família.
Se as necessidades de amor e pertencimento estiverem devidamente atendidas, então o ser humano buscará satisfazer as necessidades de estima — que envolvem autoestima e autorrespeito.
Finalmente, quando todas as necessidades anteriores estiverem plenamente atendidas, o ser humano se dedicará a satisfazer as necessidades de autorrealização. Nesse nível, o indivíduo buscará ser o
melhor que é capaz de ser, buscará expressar o seu potencial máximo.
Esse potencial varia entre indivíduos e pode ser atingido nas mais diversas áreas da vida, como artes, negócios, família, etc.
O uso da pirâmide de Maslow é frequente para demonstrar as necessidades e motivações humanas. Acontece que, apesar da fama, esse modelo hierárquico apresenta um grande problema.
O problema deve-se ao fato de que somos mamíferos — e todos os mamíferos nascem relativamente incompletos. Ao nascer, mamíferos são incapazes de cuidar de si. São incapazes, inclusive, de cuidar das necessidades fisiológicas mais básicas, como alimentação e segurança.
Isso é verdade para todos os mamíferos, mas é especialmente sério para a criança humana. Como vimos, o bebê da espécie humana é um dos mais frágeis filhotes da natureza. Sem o cuidado dos pais e da família, a criança não é capaz de se alimentar e proteger-se. Não é capaz de atender às necessidades mais fundamentais da pirâmide.
Ou seja, o grande erro da hierarquia de Maslow é esquecer que, como mamíferos, nossa principal necessidade é social. Precisamos de pessoas para sobreviver, precisamos de apoio, carinho e segurança que só outros seres humanos podem oferecer. E não precisamos disso por capricho, por mero desejo. É uma necessidade de sobrevivência. Sem isso, morremos nos primeiros dias de vida.
A grande necessidade humana primária, a maior das nossas necessidades, é a necessidade de apoio social. Este é um fator-chave de
sobrevivência — e significa que será uma grande prioridade de nosso cérebro.
Sabemos hoje que a maior prioridade do cérebro humano é pensar sobre outras pessoas. Você pode testar isso agora: tente calcular a porcentagem dos seus pensamentos que envolvem outros seres humanos todos os dias. Rapidamente você enxergará a nossa grande prioridade: a vida social.
Tudo isso está diretamente atrelado à nossa sobrevivência. Não temos chifres ou garras. Não somos fortes. Não corremos particularmente rápido. Parecemos um bicho muito meia-boca, se observarmos nossas proezas físicas.
Mas as grandes proezas humanas não são físicas: são mentais. E, como falei antes, a mente é o que o cérebro faz. Uma mente complexa só é possível a partir de um cérebro complexo.
Em termos de sobrevivência, o ser humano é fisicamente meia-boca?
Sim.
Apesar disso, temos uma força: conseguimos nos unir e, por meio de uma união altamente flexível e adaptável (que naturalmente requer uma grande inteligência), resolver problemas inimagináveis para qualquer outra espécie.
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O cérebro é formado por camadas de neurônios. A camada superior, que encobre as camadas mais profundas, é chamada de córtex cerebral. As estruturas do córtex, ou seja, as estruturas corticais, são largamente responsáveis por processos cognitivos como linguagem, pensamento abstrato e planejamento racional. São os processos que fundamentalmente diferenciam-nos de outros animais, inclusive de outros primatas.
Existe uma fina camada que encobre o córtex. É a camada mais superior de neurônios no cérebro, chamada de neocórtex, novo córtex (do grego νέος, ou néos). Trata-se da estrutura mais recente, evolutivamente, no cérebro dos animais. Só mamíferos possuem neocórtex.
Estudos comparativos entre primatas (incluindo o ser humano) sugerem que uma das principais razões para o aumento do neocórtex dos primatas ao longo da evolução foi justamente a necessidade de acomodar os primatas em sociedades maiores e mais complexas.
Vamos entender isso com um exemplo.
Imagine uma sociedade de primatas milhões de anos atrás. Essa sociedade, por quaisquer motivos, sobreviveu de forma eficiente. O
número de membros do grupo aumentou, tornando a sociedade populosa, com uma grande quantidade de indivíduos. Os indivíduos que, por mutações genéticas aleatórias, nasceram com um maior volume de neocórtex, foram capazes de lidar de forma mais eficiente com a
complexidade do ambiente — e, assim, capazes de sobreviver e procriar com maior eficácia. Esse traço (neocórtex mais volumoso) foi então transmitido para as gerações futuras. Progressivamente, um neocórtex maior foi garantindo maior sobrevivência em ambientes cada vez mais complexos.
Acontece que não há nada mais complexo do que o mundo social.
Interagir com outros seres inteligentes, saber quem é amigo e quem é inimigo, aprender a conquistar aliados por meio da comunicação. . Ao que tudo indica, a vida social foi uma das principais razões pelas quais os cérebros de primatas (em especial o córtex e o neocórtex) tornaram-se progressivamente maiores ao longo da evolução. Conviver em sociedades complexas é um fator-chave de sobrevivência — mais importante na natureza atual do que atributos como força e velocidade.
Não é à toa que nenhum outro animal faz isso tão bem quanto o ser humano. Afinal, somos o animal mais inteligente da natureza observável.
Atividades sociais ocupam a vasta maioria do dia a dia dos seres humanos.
Somos o animal mais social do planeta.
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Agora que você entendeu a primeira característica humana fundamental (nossa natureza social) que acompanha um “cérebro incompleto”, vamos à segunda — que é muito séria e pode ser muito triste.
Segunda característica: os primeiros anos de vida são determinantes —
para o bem ou para o mal.
Em 1965, Nicolae Ceaușescu encontrava-se na posição de secretário-geral da Romênia, líder máximo do país de regime comunista. Um ano após assumir o cargo, Ceaușescu instaurou leis que baniam o aborto e quaisquer formas de contracepção em toda a Romênia. O motivo?
Aumentar a população e a força de trabalho. Um “imposto de celibato”
era aplicado a famílias que tinham menos de cinco filhos. Mulheres com mais de dez filhos recebiam o título de mães heroínas, outorgado pelo estado. Agentes especiais do governo, ginecologistas conhecidos como
“polícia menstrual”, inspecionavam mulheres em idade fértil para garantir que estivessem produzindo o máximo possível de filhos. Além disso, foram instauradas duras leis para dificultar o divórcio —
casamentos só eram dissolvidos em casos excepcionais.
Resultado: a taxa de natalidade explodiu.
Famílias pobres, sem condições de cuidar dos filhos, abriam mão da guarda das crianças, que eram enviadas para orfanatos públicos.
Conforme o número de crianças órfãs crescia, o governo construía mais e mais orfanatos.
Ceaușescu foi deposto em 1989, ano em que os orfanatos romenos acumulavam 170 mil crianças abandonadas. Nos anos 1990, a mídia ocidental teve acesso a alguns desses orfanatos. Fotos das condições desumanas em que as crianças viviam estamparam jornais pelo mundo
inteiro. Os bebês tinham apenas alguns minutos de contato humano por dia, somente no momento da alimentação. O restante do dia ficavam sozinhos nos berços, sem qualquer estímulo para o cérebro. Os cuidadores eram orientados a não brincar e interagir com as crianças —
acreditava-se que isso as deixaria mimadas. Quando cresciam, viviam uma vida mecanizada. Vestiam as mesmas roupas, tinham o mesmo corte de cabelo, faziam fila para usar potes de plástico como banheiro.
Esse cenário não era novidade na Europa nos anos 1960. Especialmente após o fim da Segunda Guerra Mundial, em 1945, devido ao grande número de mortes de adultos, centenas de milhares de crianças que ficaram órfãs viviam em condições semelhantes ou piores. É
importante notar: milhões de crianças, mundo afora, ainda hoje são submetidas a esse tipo de realidade.
Essas crianças, com grande frequência, apresentam sérios problemas de desenvolvimento — que se estendem para a vida adulta. Os problemas envolvem principalmente o desenvolvimento social e afetivo.
Um comportamento comum apresentado por crianças nessas condições é uma postura “indiscriminadamente amigável” — pulam no colo, abraçam, beijam e se apegam facilmente a pessoas totalmente estranhas.
À primeira vista, parece bonitinho — mas sabemos hoje que é um mecanismo de compensação comum em crianças negligenciadas, que costuma acompanhar sérios problemas nas relações afetivas da vida adulta. Mas não para por aí: o Q. I. de crianças submetidas a essas
condições é frequentemente muito abaixo da média. Estudos cerebrais demonstram que elas apresentam uma atividade neural consideravelmente reduzida.
Espero, leitor, que você tenha entendido a seriedade disso. Ao contrário do que muitos pensam, não são somente os abusos físicos que causam sérios males ao desenvolvimento de uma criança. Diversos estudos demonstram que abandono afetivo e negligência afetiva também estão associados a elevados riscos de a criança desenvolver transtornos psiquiátricos, tais como depressão e ansiedade.
Quando digo que o contato social é uma necessidade, não estou sendo leviano no uso da palavra. Significa literalmente que é necessário. Em psicologia, a “teoria do apego” (ou “teoria da vinculação”) vem demonstrando desde os anos 1950 que um recém-nascido precisa desenvolver um relacionamento próximo (que envolve contato, carinho, amparo físico e afetivo) com pelo menos um cuidador primário. Sem isso, seu desenvolvimento social e emocional não ocorre normalmente.
É biológico, está inscrito em nossa natureza. Não somos tábula rasa.
Dividimos essa característica com outros mamíferos — em especial os primatas.
O cuidador primário frequentemente é a mãe biológica. Mas não necessariamente. Nosso desenvolvimento cultural permite remodelarmos as estruturas familiares. Muitos têm cuidadores primários que não são a
mãe, tais como pais, avós, tios. E também aqueles sem nenhum vínculo genético.
Crianças que são adotadas e removidas de orfanatos, passando a receber carinho e apoio de forma saudável, tendem a se recuperar em diferentes graus. Quanto mais nova for a criança, melhor a recuperação.
Lembre-se das janelas de neuroplasticidade que expliquei anteriormente.
A mais crítica, sem dúvida, é durante os três primeiros anos de vida. Não é à toa que crianças de até dois anos de idade que vivem em situações de negligência, quando acolhidas por uma família, tendem a se desenvolver normalmente. A partir daí, o tamanho do dano está associado à idade: quanto mais tarde a criança for acolhida, pior.
Mas esses casos ocorrem com crianças já nascidas. E antes disso? Qual é o papel do desenvolvimento intrauterino?
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O ano era 1944. A Segunda Guerra Mundial aproximava-se do fim, e a Europa vivia um de seus momentos mais sombrios. Durante o outono, soldados alemães bloquearam a Holanda ocidental, impedindo a entrada de combustível e alimentos. Após o bloqueio nazista, veio o inverno —
um dos mais duros já vividos no país. O frio congelou a água dos canais.
A comida tornou-se escassa. As pessoas sobreviviam com uma dieta de sopas ralas, ingerindo cerca de quinhentas calorias por dia. Para que você tenha uma medida de comparação, um Big Mac tem 490 calorias.
Em maio de 1945, o bloqueio foi suspenso, e a Holanda, liberada pelas tropas aliadas. Estima-se que, durante esse período, conhecido como “inverno da fome”, cerca de vinte mil pessoas tenham morrido —
em sua maioria idosos. Dezenas de milhares adoeceram.
Mas houve outro grupo que sofreu terrivelmente o impacto do inverno da fome: as cerca de quarenta mil mulheres que estavam grávidas naquele período. Os fetos que se desenvolviam em seus úteros não escaparam ilesos das condições a que as mães foram expostas.
Alguns dos efeitos foram imediatos: houve um significativo aumento no número de abortos espontâneos, fetos natimortos, complicações de parto e deficiências derivadas da privação de nutrientes.
Só que os efeitos não pararam por aí.
As crianças que sobreviveram até a vida adulta apresentaram maiores taxas de obesidade, diabetes e problemas cardíacos. Eram homens e mulheres com maior tolerância à glicose (precursora de diabetes), pressão arterial elevada e problemas com colesterol. O risco de transtornos psiquiátricos, como esquizofrenia, transtorno de personalidade esquizoide/esquizotípica e transtornos afetivos (depressão, por exemplo) teve aumento significativo.
O que aconteceu com esses fetos? Por que a privação de nutrientes trouxe tantos problemas na vida adulta?
A resposta em um primeiro momento é óbvia: fetos estão em um período crítico de desenvolvimento e precisam de plenos nutrientes e
calorias para que esse desenvolvimento ocorra da melhor forma.
Mas existe, além da constatação óbvia, uma realidade que poucos conhecem a respeito do desenvolvimento intrauterino.
Problemas como disfunções cardiovasculares e obesidade derivam tipicamente de excessos contínuos. Sabemos bem disso: o mundo que hoje se alimenta de fast-food vê os índices desses males aumentarem perigosamente.
Acontece que os adultos que nasceram durante ou imediatamente após o inverno da fome não necessariamente cometiam excessos. Sem viver em excessos, tais males ainda assim surgiram. Por quê?
Ao que tudo indica, o período intrauterino é um período em que o corpo do bebê — e isso inclui o cérebro — está se adaptando ao mundo em que nascerá. A ideia é nascer o mais adaptado possível para a sobrevivência.
E como o bebê faz isso?
Capturando informações do corpo da mãe e se adaptando a elas.
Quando pensamos em desenvolvimento intrauterino, geralmente nos vem aquela ideia de colocar fones de ouvido na barriga da mãe para que o filho ouça Mozart. Mas a coisa é muito mais profunda e visceral do que isso.
Se a mãe estiver desnutrida e ingerindo baixas quantidades de calorias, o feto se desenvolverá de modo a viver da melhor forma possível em um mundo carente de nutrientes e calorias.
As crianças do inverno da fome, apesar de terem se desenvolvido em úteros famintos e desnutridos, nasceram em um mundo de abundância.
O que para nós é uma quantidade saudável de calorias e nutrientes era excesso para elas, para seus corpos.
Resultado: indivíduos que viviam de maneira relativamente saudável apresentaram problemas de saúde tipicamente encontrados em pessoas que vivem em excessos contínuos.
A importância do período intrauterino de desenvolvimento é crítica.
Todos sabem mais ou menos sobre o prejuízo acarretado pelo consumo de drogas — incluindo cigarro e álcool — durante a gravidez. Mas repito: a questão é profunda e visceral. Tudo o que ocorre no corpo da mãe é vivido em alguma medida pelo feto.
Sabemos que estresse, depressão e ansiedade durante a gravidez aumentam o risco de uma série de problemas para o desenvolvimento neurocomportamental do feto — que, por sua vez, acarretam um risco aumentado de prejuízos para a saúde ao longo da vida da criança e do adulto que será formado.
Os primeiros anos de vida são fundamentais para aquilo que seremos na vida adulta. E o período que passamos na barriga de nossa mãe não está apenas incluso nessa janela de desenvolvimento — ele é absolutamente fundamental.
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Vimos a importância do desenvolvimento nos primeiros anos de vida.
Antes de prosseguir, quero fazer um alerta.
Cuidar de crianças não é fácil. Muito pelo contrário: é um processo chato, pentelho, cansativo. Mas tem um jeito supersimples de fazer uma criança pentelha ficar quieta: coloque um tablet na mão dela e dê um pacote de biscoito recheado, chocolate ou salgadinho.
Dar alimentos com açúcar para uma criança antes dos três anos de idade, do ponto de vista do cérebro, deveria ser considerado crime. O
mesmo pode se dizer para sódio (sal) artificialmente adicionado aos alimentos. Depois disso, até os oito anos, mais ou menos, ainda é altamente recomendado que você não alimente crianças com açúcar artificial ou alimentos que o contenham.
Mas isso é impossível! Todos os amiguinhos da escola comem besteira!
Aqui eu lembro das palavras do meu grande amigo e médico neurologista Fabiano Moulin: “O mundo de hoje confunde o comum com o normal”.
É comum crianças comerem açúcar, serem sedentárias e passarem a maior parte do tempo olhando para telas de celulares, tablets e computadores. É comum, mas não é normal. A normalidade, para nosso corpo, é deturpada pela rotina atual em que vivemos.
Devido a isso, estamos criando uma sociedade doente. Os índices de obesidade infantil aumentam perigosamente. Estudos demonstram uma
associação entre o uso excessivo de redes sociais e transtornos psiquiátricos como a depressão. Já existe inclusive um termo acadêmico para isso: Facebook depression, “depressão de Facebook”. Outro exemplo: acumulam-se evidências que sugerem potenciais efeitos problemáticos para o cérebro, bem como aumento no risco de transtornos mentais, derivados do consumo excessivo de pornografia.