Em busca de nós mesmos
O estoicismo
Lembremos de Ulisses. Ele queria voltar para Ítaca, mas as armadilhas de Poseidon o impediam. Ulisses estava bem em Ítaca, mas a necessidade de lutar na guerra de Troia fez com que se movimentasse para longe de onde deveria permanecer. Assim, convido você a observar a própria vida
e tentar identificar a pertinência das reflexões de Aristóteles em sua própria trajetória. Nos seus movimentos do bem e nos seus movimentos do mal. Claro está que, toda vez que você tem um sonho que faz brilhar os olhos, isso parece uma boa direção para o movimento do bem. E, toda vez que alguém diz que um determinado trabalho não dá dinheiro e que você tem que se adequar às necessidades do mercado e às carências da sociedade, isso parece estar na contramão da natureza e ser, portanto, profundamente do mal.
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O estoicismo
Clóvis: Agora vamos falar dos estoicos. Teoria em grego quer dizer
“contemplação do divino”, e, para os estoicos, é o próprio conhecimento do mundo. E o mundo, para eles, é comparável a um organismo vivo.
Aqui duas questões se destacam. A primeira é que todo o organismo vivo é constituído por partes, e essas partes estão agenciadas entre si para compor o todo. A segunda é que cada parte é feita do melhor jeito possível para cumprir a sua função. Então, nada mais adequado para enxergar do que o olho, nada mais adequado para digerir do que o estômago e os intestinos, nada mais perfeito para respirar do que o pulmão, e, para irrigar o sangue e fazê-lo circular pelo corpo, o coração.
Existe, portanto, uma ideia muito cara aos estoicos: a de que a natureza é uma forma de perfeição do ser com vistas a certa finalidade.
E essa finalidade é a de cada parte que compõe o todo. O todo é o próprio divino. Por isso, a contemplação do divino é a contemplação do todo na sua maravilhosa perfeição.
É evidente que essa perspectiva é muito próxima daquilo que a mitologia já nos tinha legado e daquilo que Aristóteles já nos tinha
ensinado; afinal, ela é atravessada por finalidades, por partes que constituem o todo e, de certa maneira, por um todo que também é finito, harmônico e ordenado. Portanto, estamos diante de uma espécie de herança aristotélica no pensamento estoico.
Insistir nisso é fundamental, porque os estoicos terão uma concepção de ética e de vida boa bastante original. Quando você pensa em estoicismo, quando alguém usa a palavra “estoico” ou “estoicamente”, quase sempre refere-se a um comportamento de resignação diante da dor de suportar grandes sacrifícios, grandes sofrimentos, com vistas, evidentemente, a um bem maior. Essa ideia no senso comum da palavra
“estoico” tem muito a ver com o que os estoicos recomendavam como vida boa e filosofavam em termos de existência excelente, que veremos nas próximas reflexões.
Por enquanto, basta destacar que o deus dos estoicos, o divino para os estoicos, está na própria maravilha do mundo. E sabe por quê? Porque, de certa maneira, o homem reconhece que os organismos vivos, as coisas da natureza, são maravilhosas. Não foi ele que as fez, e, portanto, elas traduzem a dimensão do divino que está impregnada na natureza.
A primeira ideia propriamente filosófica da escola dos estoicos é o radical determinismo de todas as ocorrências. O que isso quer dizer?
Simplesmente o seguinte: tudo o que acontece tem causas que o determinam. Isso significa que as coisas só poderiam acontecer do jeito
que acontecem. Significa também que não existe espaço para a sorte, para o azar, para o acaso, para a contingência.
Na verdade, os estoicos acreditavam que, toda vez que você pensa em sorte, em azar, em que poderia ser diferente do que é, isso resulta da ignorância das causas que incidem sobre uma ocorrência. Se você de fato conhecer as causas, saberá antecipadamente quais seus efeitos. Acredite se quiser, mas esse determinismo radical dos estoicos os leva a uma filosofia de destino, de previsão, de antecipação.
Por quê?
Veja que loucura. Parece contraditório, porque falar de determinismo, de conhecer as causas, significa que você acredita na razão como competente para explicar tudo o que acontece no mundo. É um racionalismo exacerbado.
Nossa, existe o destino e podemos saber do futuro. Isso parece coisa de picareta e de charlatão.
Mas essa contradição é apenas aparente, porque funciona bem assim.
A verdade é que essa capacidade cartomântica de prever o futuro entre os estoicos é uma espécie de hiper-racionalismo, de confiança absurda na razão, pois as causas do futuro estão rodando por aqui. Se soubermos diagnosticá-las, interpretá-las, poderemos conhecer seus efeitos por antecipação. Por isso um indivíduo verdadeiramente sábio não é só aquele que não se surpreende com o mundo quando ele acontece, mas
aquele capaz de antecipar aquilo que vai acontecer, diagnosticando as relações causais que determinarão o que está por vir.
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Um dos grandes estoicos é Marco Aurélio, figura proeminente no Império Romano. Ele foi um grande governante e também filósofo.
Marco Aurélio observa que, se contemplarmos o mundo de muito perto, teremos pequenos fragmentos de mundo que poderão parecer feios, nojentos. Mas ele nos ensina que o mundo só nos parecerá feio por conta do nosso recorte, da nossa perspectiva fragmentada, da nossa incapacidade de contemplar o todo. Ele garante que, se olharmos o mundo de um pouco mais longe, perceberemos que qualquer coisa é maravilhosa. Tudo que você puder ver é maravilhoso exatamente porque está inscrito em um mundo que é ele mesmo maravilhoso.
O exemplo de Marco Aurélio é a baba do javali. Se você olhar de muito perto, a baba é nojenta, gosmenta, medonha mesmo. Mas, se for recuando e começar a entender a função da baba do javali, como o javali usa a baba para se relacionar com outros javalis, você perceberá que a tal baba não é tão feia assim. Pelo contrário. Não há nada que supere a baba do javali na hora de ajudá-lo a xavecar outro javali. A beleza do mundo tem que ser entendida a partir do todo, em função do todo. Aí então cada coisa encontrará, por conta do todo e da presença no todo, a sua beleza.
É claro que esta é uma lição de sabedoria que nos ensina algo que, para os estoicos, era muito óbvio: ou você se entende como pertencendo a uma ordem harmoniosa, bela, justa, ajustada, na qual você é uma peça e uma parte, e as partes só têm beleza enquanto partes porque fazem parte de um todo maior, ou você continuará tendo perspectivas fragmentadas do mundo, e o mundo nunca lhe parecerá nem belo, nem justo, nem harmonioso, nem bom. E aí é claro que faz toda a diferença acreditar viver em um mundo fechadinho, redondo, harmônico e belo ou acreditar viver em um mundo que é uma zona, caótico, conflituoso, feio, medonho, baboso, que cheira mal, nojento.
Veja que a sabedoria dos estoicos parte da compreensão de que o universo é maravilhoso. Essa é a teoria.
Perceba que a ciência só será boa se nos permitir entender o funcionamento do todo. Claro que a ciência estudará as partes, estudará o pequeno, estudará o fragmentado. Mas só será boa se, a partir desse estudo, ajudar a entender o todo do universo, a ordem cósmica que é o terreno em que jogamos este estranho jogo da vida.
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A ideia de Marco Aurélio deixa alguns intrigados. A história da baba do javali desperta curiosidade intelectual. Como alguns ficam perplexos, vamos dar outro exemplo.
Se você tiver uma foto da Gisele Bündchen por aí, pegue o rosto dela e recorte somente o nariz. Você verá que, somente o nariz dela, isolado do resto, é estranho. Mas, se recuar um pouco e colocar o nariz de volta no rosto, não será mais estranho. Se recuar um pouco mais e juntar o rosto ao corpo dela, ficará tudo maravilhoso. Você percebe que, se o nariz dela não fosse como é, ela não seria tão bonita quanto é. Acho que você entendeu que a beleza da parte não se deixa capturar enquanto parte isolada do todo, mas sim enquanto integrante de um todo maior.
E qual é a graça e a importância dessa reflexão? Muito simples: é que o todo não se deixa flagrar pelos sentidos. O todo do mundo, o cosmos, só se deixa entender pela razão. O que estamos tentando dizer é que você só irá compreender e achar a baba do javali bonita se inseri-la em um todo que só tem existência para você na razão, na inteligência, na imaginação e nunca na percepção sensorial. O mundo, por mais finito que seja, com começo, meio e fim, não se deixa apreender pelos sentidos de alguém. Então, se a beleza das coisas depende do posicionamento delas no mundo, porque elas participam de um todo que é belo, justo e harmonioso, a beleza só é definitivamente capturada quando inserida em uma realidade que é pensada, cogitada, imaginada e, portanto, alguma coisa da razão.
O que estou tentando dizer é que, se você não tiver desenvolvimento de inteligência e de razão para entender o mundo como cósmico, integrado e harmônico, não terá condição de perceber a beleza das
coisas que fazem parte dele, pois essa beleza só se deixa entender quando situada num todo que é ele mesmo pensado, cogitado e imaginado.
Vamos imaginar que em algum momento você me encontre. Ao olhar para mim, o que é que você vê? Um sujeito careca, pançudinho, um pouco desengonçado, corcunda. E, se você olhar só para mim, terá um desgosto. Mas Marco Aurélio me ajuda, mandando-lhe me colocar no contexto cósmico imaginado por você. Aí o mundo é lindo, eu faço parte do mundo, sem mim o mundo não existe; portanto, trate de me achar bonito. Eu não valho por mim mesmo, mas valho como parte de uma beleza universal.
Agora traremos outro grande filósofo da fase romana dos estoicos para conversar conosco: Epicteto. Contemporâneo de Jesus, era escravo, não sabia escrever, e aquilo que você lê como livro de Epicteto não foi ele quem escreveu. Ele dava aulas e tinha gente graúda que sabia escrever, que assistia suas aulas e anotava os seus dizeres, o que deu origem ao livro chamado Manual.
Veja que bacana: Marco Aurélio, imperador. Epicteto, escravo. Eis aí o time dos estoicos romanos.
E qual é a mais curiosa, importante e conhecida ideia de Epicteto?
Existem dois tipos de situações na sua vida, muito diferentes uma da outra: aquilo que depende de você e aquilo que não depende de você. E
é muito importante saber distinguir aquilo que depende de você daquilo que não depende de você. Sabe por quê? Porque, em relação àquilo que depende de você, você tem que dar tudo, fazer o melhor possível, tem que se esmerar e gastar todas as suas energias. Agora, no que não depende de você, não adianta gastar um tostão porque realmente não depende de você.
Vamos imaginar que você esteja em um aeroporto desses estranhos, de meteorologia incerta. Pois muito bem, você sabe, o avião levanta voo somente se as condições climáticas estiverem boas, caso contrário, não tem jeito, o avião não decola. O que acontece é simples: precisa ter sol, tempo aberto. Você fica angustiado, tem compromisso, o voo precisa sair no horário, mas claramente não depende de você.
Por outro lado, chegar no horário do voo, tomar cuidado para que possa antecipar algum contratempo, isso sim depende de você. Elaborar um plano B para o caso do avião não decolar depende de você. Então você rapidamente percebe que algumas coisas estão na sua mão e outras não. O clima não está na sua mão. Mas o plano B sim.
Epicteto diz que algumas coisas dependem de você. Como — veja só que coisa engraçadíssima — o desejo, por exemplo. É engraçado porque a parte do desejo que depende de você é a parte do seu objeto, porque o desejo é constituído de uma energia vital, uma espécie de inclinação para o mundo, mais alguma coisa que passa pela sua cabeça, que é aquilo que você deseja. Pois muito bem, o objeto do desejo depende de você.
Outra coisa que depende de você é a qualidade dos seus julgamentos, das suas avaliações, dos seus juízos. Também a competência para informar-se a respeito das coisas, ter conhecimento das coisas do mundo.
Não sei se você começa a se dar conta, mas as coisas que dependem de você têm muito a ver com a sua cabeça, sua inteligência e sua razão.
Agora, o que será que não depende de você? Primeiro, as coisas do mundo que você não controla. Segundo, as coisas do seu corpo que você também não controla. É evidente que a parte afetiva relacionada a alegrias e tristezas em grande medida acontece sem que você possa controlar.
A lição está dada: saber identificar o que depende e o que não depende de você é jogar energia no que você pode controlar e não gastar energia, tempo e investimento com aquilo que você não pode controlar.
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Já falamos que, para os estoicos, tudo está amarrado em tudo, tudo é necessariamente do jeito que é, no mundo não existe nada diferente do que deveria ser.
Curioso é que, para os estoicos, essa coisa de atrair-se pelo mundo ou de rechaçar o mundo, gostar e não gostar, é tudo uma escolha. Bem, fica aí, na conta dos estoicos. Você que tire suas conclusões. Eu pessoalmente nem consigo entender o que isso quer dizer. As aversões e as atrações
são uma escolha. Ora, na minha concepção, tudo menos isso. Mas não importa. O que importa aqui é o que eles diziam.
Então, aquilo que passa pela nossa cabeça é resultante de uma liberdade da atividade de pensar. Mas, veja que curioso, se tudo no mundo é necessariamente do jeito que é, então, no nosso caso, temos liberdade para julgar, para pensar, para discernir e para atribuir valor.
Mas que fique claro: como no mundo tudo é necessário, os estoicos dizem que essa liberdade é estritamente interior e não tem nenhuma consequência no mundo prático, no mundo fora de nós. Assim, pensamos livremente, mas agimos como só poderíamos agir para fazer parte desse encadeamento causal que é o mundo da natureza.
Meu amigo, essa é uma pirueta difícil de engolir. Afinal, se tudo no mundo é necessariamente do jeito que é — o vento venta, a maré mareia, o gato gateia — por que a nossa mente, a nossa inteligência, também não funcionaria assim? Por que a nossa inteligência não pensaria a única coisa que poderia pensar? Por que só o nosso pensamento seria diferente e sujeito a essa liberdade interior? Será que não chamamos de liberdade de pensar a ignorância que é a nossa sobre as condições do nosso pensamento, as condições materiais de produção dos nossos juízos? Será que não é a nossa ignorância que nos faz acreditar nessa liberdade?
Chupa essa manga, meu amigo. Somos livres só para pensar. Na hora de estar no mundo, também somos rigorosamente determinados pelas
causalidades materiais que nos fazem ser e existir como só poderíamos ser e existir.
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Para os estoicos, o belo é necessariamente também o justo e o bom.
Assim, justiça, bondade e beleza são três perspectivas da mesma coisa.
Não há a menor possibilidade de haver justiça na feiura ou beleza na injustiça. E por que será? Porque, no final das contas, a referência para o belo, para o bom e para o justo é a mesma. É o cosmos. Se uma coisa é justa, é porque está de acordo com o cosmos. Se é bela, é porque está de acordo com o cosmos. Portanto, o cosmos não poderia conferir bondade e feiura ao mesmo tempo.
Assim, o que seria o belo? Seria um atributo de uma coisa do mundo em harmonia com o cosmos. Se você é parte de um todo belo e está em harmonia com ele, só pode ser belo também.