Em busca de nós mesmos
A Teogonia de Hesíodo
Na verdade, Platão acreditava que nossas almas já tivessem contato com a verdade das coisas antes do nascimento, ou seja, que já tivéssemos conhecido essa verdade quando a alma ainda estava sem corpo, essa alma que é eterna, que não morre junto com o corpo. Existe um momento da vida da alma em que ela é acompanhada do corpo, o que Platão denomina de aprisionamento. Imagine o seguinte: a alma está lá, somente ela, em contato com as verdades. Então, por alguma razão
estranha, essa alma acaba encapsulada, aprisionada por um corpo qualquer — como o seu, por exemplo — e tem que conviver com esse corpo até que ele se deteriore, que é quando finalmente a alma retomará sua liberdade, isto é, uma vida sem corpo, uma vida de carreira solo.
Mas, se a alma já estava em contato com as ideias verdadeiras, então, quando nascemos, já sabemos tudo.
Pois é. De fato, as almas que nos constituem têm grande familiaridade com a verdade, mas, no nascimento, passam por uma espécie de esquecimento. E o que nos toca fazer durante a vida? Tentar relembrar aquilo que sempre soubemos. A busca da verdade não é uma aventura completamente no escuro e virginal. É uma retomada de contato, a relembrança de coisas que nossa alma sempre soube muito bem. Por isso, quando nossa vida permite que nossa alma retome o contato com essas ideias, ela exulta, porque essa é a praia dela, é isso que lhe é familiar. Então, nossa vida é boa porque a nossa alma sorri. Veja só que ideia genial.
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A Teogonia de Hesíodo Clóvis: Voltemos a falar sobre a saída do caos em direção ao cosmos.
Ulisses que sai da guerra de Troia, de volta a Ítaca.
Vou relatar um poema superconhecido e de leitura bem difícil.
Enquanto a Odisseia é agradável e fácil de ler — tem até versão infantil
—, a Teogonia de Hesíodo é um poema realmente hermético. Vamos lá.
Ela fala do primeiro deus. E você tem ideia de qual é ou de quem é o primeiro deus da mitologia grega? Pois esse deus é Caos, não podia ser outro. Caos é um deus que ainda não tem cara humana. Outros deuses têm cara humana, como Zeus, por exemplo, que é personificado. Mas Caos não. Então, como imaginar um deus que ainda não tem cara de homem?
Se você quiser imaginar Caos de acordo com Hesíodo, imagine o escuro, com orvalho, aquela garoa estranha, um clima úmido. Imagine um pouco de fumaça, dessas de festa. Junte a fumaça, a umidade e o escuro. Então imagine um precipício, queda livre. E o que é mais legal: uma queda livre sem fim, que não termina nunca. E Caos encontra um segundo deus, ou melhor, uma deusa: Gaia.
Gaia é a terra firme, é o sólido, é a Terra, é onde o precipício acaba, é onde você cai depois da queda livre. Gaia é o fim do Caos. É quando o Caos queda livre vira chão para pisar. Gaia é onde você está pisando agora, é o sólido que nos dá sustentação, é a referência que faltava.
Assim, já temos uma dupla: Caos, queda livre no escuro, e Gaia, onde você pisa.
De Gaia surgirá um terceiro deus: Urano. O céu. Urano, que Gaia tirou de dentro de si e que nasceu sem fecundação, foi gerado espontaneamente. Urano, apesar de ser filho de Gaia, não saía de cima dela. Ele cobria Gaia — no sentido de cobertor e no sentido de amante.
Urano era voraz, não parava de fazer sexo — e, vamos combinar, quem consegue fazer sexo com a Terra inteira deve ser um cara com proporções interessantes e com uma pegada razoável. Urano fecundou Gaia várias vezes e em sucessivas levas.
Urano copula com Gaia, é obcecado por ela. E desse amor intrépido e tórrido nascem várias gerações de filhos. Os primeiros são os titãs, os primeiros deuses com cara humana. Seis homens e seis mulheres com força descomunal, de grande beleza, muito próximos cronologicamente de Caos; portanto, violentíssimos. Deuses da guerra, da Terra. Além dos titãs, o amor de Urano e Gaia gerou os ciclopes. Como já sabemos, os ciclopes só têm um olho. E esses vão fazer parte do resto da nossa história, lembre-se deles, eles voltarão. São Brontes, que significa trovão, Estéropes, o relâmpago, e Arges, que é o raio.
A terceira leva de deuses é ainda mais assombrosa. São mais fortes, mais violentos do que os titãs, mais monstruosos. São os chamados hecatônquiros, nome que, em grego, significa “cem braços”. Além de cem braços, cinquenta cabeças. São de força descomunal. Hesíodo, o autor de toda essa narrativa, chega a dizer que é melhor não mencionar seus nomes de tão perigoso que isso pode ser. Todavia, acaba citando, e os três hecatônquiros são Coto, Briareu e Giges. São os filhos do amor louco de Urano e Gaia.
Urano não saía de cima de Gaia, e por isso ela não conseguia parir seus filhos. Eles causavam desconforto em seu ventre. Gaia queria ver suas fisionomias, queria pari-los e então recorre aos próprios filhos, pedindo ajuda. Lança uma mensagem dizendo que o pai das crianças é um tirano que não permite o parto e, por isso, é preciso fazer algo.
Quem se dispõe a ajudá-la é o caçula dos titãs, Cronos. Ele lança mão dos recursos que tem, dos metais que tem, elabora um instrumento cortante, segura o pênis do pai com a mão esquerda e com a direita o amputa. Urano, atravessado pela dor, recua, sai de cima de Gaia e vai parar no céu.
Entre Gaia e Urano, entre a Terra e o céu, surge o tempo e o espaço onde os filhos de Gaia podem finalmente ocupar suas posições, onde as gerações vão se suceder, o espaço que finalmente permitirá que alguma ordem um dia nele se estabeleça. Cronos lança o pênis do pai no mar. O
sangue de Urano em contato com a Terra fará surgir as erínias, as deusas
da vingança, mas, ao mesmo tempo, as brumas do mar em contato com os líquidos penianos de Urano farão surgir Afrodite, a deusa do amor. Do mesmo gesto de Cronos, dois resultados muito diferentes: o surgimento das deusas da vingança e da deusa da beleza e do amor.
Veja a sofisticação, complexidade e sutileza da interpretação possível.
O comportamento de Cronos pode ser avaliado do ponto de vista moral sob a égide da salvação dos tormentos da mãe, mas também sob a égide da crueldade da amputação do pai. Comportamento de valor complexo que teve consequências também complexas no mundo.
Cronos toma o poder do pai e reina soberano. Mas teme seus filhos.
Ora, nada mais compreensível para quem amputou o pênis do pai.
Cronos adota uma estratégia curiosa para impedir qualquer ameaça a sua soberania: engole seus filhos tão logo nascem. Você deve considerar que, como os deuses são imortais — e os filhos de Cronos são deuses —, permaneciam vivos em seu ventre. Cronos teve seis filhos, engoliu cinco.
O sexto teve destino diferente.
A esposa de Cronos, Reia, uma titânide, indignou-se com o comportamento do marido e resolveu proteger o sexto filho da volúpia devoradora do pai. Escondeu-o nos grotões de Gaia com a aquiescência desta. Cronos é enganado, levado a comer pedras no lugar da criança.
O último filho que cresceu protegido se tornará um deus sublime, de beleza estonteante e inteligência extraordinária. Ele é chave da nossa história, da transformação do caos em cosmos. Refiro-me a Zeus, deus
dos deuses, o maior de todos. Em algum momento de sua trajetória, Zeus
— que foi amamentado pela cabra Amalteia, de cujo chifre jorrava ambrosia, a comida dos deuses, de sabor e capacidade de nutrição inigualáveis — começa a se questionar sobre o motivo do isolamento, da solidão, do esconderijo e sobre o que haveria lá fora. Depois de rapidamente esclarecido por Reia, Zeus começa a perceber que, para poder viver normalmente, não lhe resta alternativa a não ser dar as caras, explicar a Cronos o que aconteceu e enfrentar o pai tirano.
Meu amigo, é nesse momento, quando Zeus encara Cronos, que tem início a mais espetacular passagem da nossa história: a guerra dos deuses. A guerra entre Cronos e seus irmãos, os titãs, contra Zeus. Zeus liberta seus irmãos do ventre de Cronos, e ocorre uma luta feroz e grandiosa entre a primeira geração de deuses, os titãs, e a segunda geração de deuses, que, pelo fato de se reunirem no Olimpo, são denominados olimpianos.
A guerra dos deuses. Agora sim, a narrativa esquenta.
Cabe aqui uma observação: como os deuses não morrem, quando um deles é engolido, continua vivo e com plena saúde. Não se trata de ser mastigado como no filme Tubarão. No momento em que um deus é regurgitado, é devolvido mais ou menos no mesmo estado em que foi engolido.
Cronos engoliu os irmãos de Zeus, e a primeira medida deste, com o auxílio de Gaia, foi fazer com que Cronos os vomitasse, libertando a
segunda geração de deuses para a Terra. O procedimento subsequente de Zeus foi tirar os ciclopes e os hecatônquiros da prisão imposta por Cronos.
Cronos, você se lembra, era um titã. Da cópula entre Urano e Gaia tinham surgido os titãs e também os três ciclopes, Raio, Relâmpago e Trovão, além dos hecatônquiros, de cem braços e cinquenta cabeças.
Cronos, quando assumiu o poder, trancafiou tanto os ciclopes quanto os hecatônquiros no Tártaro. Mas Zeus os libertou. Nesse momento, já havia dois times montados para o enfrentamento: de um lado, os doze titãs, um exército praticamente invencível; de outro, os brancaleones, o grupo dos irmãos de Zeus, dos ciclopes, dos hecatônquiros e do próprio Zeus. Havia todas as condições para um enfrentamento interessante.
É preciso perceber algo nessa história: à medida que os deuses vão aparecendo, vão assumindo uma cara cada vez mais humana, vão se personificando, e isso merece interpretação. Ou seja, é com a participação de um deus personificado — inteligente e, portanto, um deus que vai se distanciando das simples forças da natureza, como Caos, Gaia e Urano — que o cosmos poderá surgir. Em outras palavras, a mitologia indica que, mesmo entre os deuses, na teogonia, no surgimento dos deuses, o caminho em direção ao cosmos passa por uma personificação e, portanto, por um ganho de inteligência, discernimento e capacidade deliberativa. É fundamental perceber isso.
Voltando ao enfrentamento. Estamos agora com os times montados. E
o que acontece é a grande guerra dos deuses, descrita por muita gente. A maneira como Hesíodo conta e como outros contam é muito legal, pois é puro fruto da imaginação humana, todavia, de uma riqueza infinita enquanto produção desse imaginário. Até Max Weber, na virada do século 19 para o 20, fala da grande guerra dos deuses. Assim, tenho a nítida sensação de que você percebe que o surgimento do cosmos passa por esse enfrentamento de Zeus e seus amigos contra os titãs comandados por Cronos.
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Zeus conta com o vômito de Cronos que devolve seus irmãos Hades, Poseidon, Deméter, Héstia e Hera. Estes tinham todos os motivos para odiar Cronos. Zeus também liberta seus tios, os três ciclopes irmãos dos titãs, nascidos da cópula de Urano e Gaia, ganhando três aliados incríveis: o Raio, o Trovão e o Relâmpago. E liberta ainda os temidos hecatônquiros, também seus tios.
Nesse momento, alguém poderia pensar que tudo isso é estratégia de guerra, reforçar o time, juntar recursos bélicos para enfrentar os titãs, força invencível e supertemida. Mas na verdade há uma interpretação que nos interessa mais, que é mais sutil e mais filosófica. É o fato de que, por conselho de Gaia, Zeus coloca todo mundo para jogar. Isso significa
que, no caminho do caos ao cosmos, ninguém ficará de fora, todos estarão compreendidos e terão seu quinhão.
Quando Zeus faz Cronos vomitar seus irmãos — e na verdade Cronos vomita mais pela astúcia de Gaia e Reia do que propriamente de Zeus —
e também liberta seus tios, os ciclopes e os hecatônquiros, todos os que já haviam aparecido voltam a jogar. O elenco da novela é todo perfilado para deixar claro que, na hora de construir o cosmos, ninguém ficará sem nada. O cosmos é uma organização universal que não esquece ninguém, compreende a todos. Essa interpretação é fundamental.
Zeus triunfa sobre os titãs e, vencendo-os, trancafia seu pai e seus tios definitivamente. É claro que eles não morrem. Eles continuam por aí.
Quando há um tsunami no Japão ou na Indonésia, isso é titã de saco cheio de ficar no fundo da Terra e querendo retomar seu lugar sobre ela.
A vitória de Zeus é o ponto da mitologia que dá início à nossa aventura filosófica. Com Zeus, o cosmos será possível, a vitória sobre o caos está sacramentada e agora o que Zeus fará é distribuir o universo entre seus correligionários. E fará isso sob a inspiração de duas de suas mulheres.
Zeus toma o poder. Assim, já temos Urano, Cronos e Zeus, o terceiro detentor do poder, nessa linhagem. Zeus, no lugar de centralizar o exercício do poder, distribui pedaços do mundo entre seus correligionários. Essa distribuição é entendida como o marco zero da justiça. Zeus — que teria engolido sua segunda mulher, Têmis, a deusa
da justiça — compartilha o universo, e essa divisão está na origem do cosmos. Perceba então que agredir o cosmos é agredir uma decisão e uma ação entendidas como símbolos da justiça. No final das contas, todos foram incluídos. E Zeus pôde mostrar com clareza que tudo o que se encontra no cosmos faz parte dele e é relevante para o seu funcionamento. Portanto, na ideia de cosmos não cabe nenhum tipo de exclusão.
O fato é que todos os mitos — e são tantos —, todas as alegorias, todas as histórias que a mitologia grega vai nos ensinar podem ser reduzidos a dois grandes tipos. O primeiro são as tentativas de perturbação do cosmos. São mitos que contam ações de deuses ou de humanos que, pretendendo obter algum tipo de vantagem pessoal, agem para desarmonizar o cosmos, com ou sem consciência disso. Lembre-se do rei Midas, que pretendia transformar em ouro tudo o que tocasse.