Em busca de nós mesmos

Clóvis de Barros Filho · Capítulo 16 de 31

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Em busca de nós mesmos

Naturalismo poético

A grande pergunta é: se a filosofia clássica tinha essa preocupação com a vida de carne e osso, o que aconteceu para que a filosofia se tornasse esse compêndio de textos, tratados e ideias que pouco ou nada têm a ver com o nosso cotidiano e com a nossa vida vivida no dia a dia?

Aqui vai uma grande observação: entre os estoicos e nós, passamos por séculos e séculos de pensamento dominado pelos discípulos que reivindicavam a discussão sobre a vida para eles, para a teologia, para os ensinamentos de Deus e dos profetas. Pois esses discípulos tiraram da filosofia a reflexão. Se isso é bom ou se é ruim, não me pergunte. Mas a filosofia perdeu essa prerrogativa e foi limitada a uma discussão conceitual, distante da felicidade, distante da vida boa, da salvação —

distante, portanto, de todas as preocupações que antes eram estritamente filosóficas.

 

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Naturalismo poético

Calabrez: Antes de prosseguir, gostaria de fazer um comentário. Desde que comecei a falar da transição entre Antiguidade e Idade Média, fiz aqui um grande resumo. Omiti intencionalmente uma série de pontos-chave em todo esse processo histórico. Simplifiquei o pensamento de autores complexos. Deixei de falar de muitos pensadores fundamentais.

Pulei importantes ideias para chegarmos aqui.

Um leitor atento pode dizer: “Você falou de Iluminismo sem mencionar Kant! Isso é quase uma heresia!”.

Tendo a concordar, mas explico: este diálogo não é um registro histórico perfeito do pensamento humano ao longo dos séculos.

Meu objetivo é didático, ou seja, levar o leitor à compreensão de um certo

“fio da meada”, uma certa lógica na progressão do pensamento antigo até o que compreendemos hoje como cosmos.

Nas recomendações de leitura ao final do livro damos muitos caminhos para aqueles que desejem aprofundar-se.

Aos leitores mais experientes, já conhecedores da história do pensamento, peço que compreendam essa escolha. Por uma questão de

tempo e espaço, tive de me restringir àquilo que acredito ser mais fundamental dentro dessa complexa — e fantástica — história. Tudo para que conseguíssemos chegar finalmente aqui.

E onde é “aqui”?

Aqui é hoje. O mundo contemporâneo. Quero dividir com você, leitor, uma visão cosmológica contemporânea. Não é a única, obviamente. Mas é uma que, em meu entendimento, reúne de forma elegante o momento em que nos encontramos hoje.

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Há aqueles que, ao ler como os pensadores antigos enxergavam deuses nas coisas, podem dizer: “Que bando de idiotas! Chamar o sol de deus!

Sabemos que o sol é um astro, uma estrela. Sabemos suas características físicas e químicas. Quanta baboseira!”.

O mesmo pode ser dito em relação ao fervor com que os pensadores da Idade Média se apegavam aos modelos astronômicos geocêntricos, e por aí vai. .

Eu gostaria então de deixar claro que não há na natureza algo chamado “conhecimento”.

Veja bem o que quero dizer: não existe no universo um negócio chamado “conhecimento”, que possui substância própria ou é composto de substâncias que têm um lugarzinho na tabela periódica. O

conhecimento não tem matéria, não tem energia, não tem realidade

física. O conhecimento não está em algum lugar do universo esperando que os seres humanos o capturem, aprisionem e compreendam. O

conhecimento é uma construção. O conhecimento é uma produção humana. Ele não é um dado a priori do mundo.

Prótons, nêutrons e elétrons, quarks e o campo de Higgs, por exemplo, são todos exemplos de dados a priori do mundo, de fundamentos da natureza (de acordo com o que sabemos hoje). Conhecimento é a maneira como descrevemos esses dados e os integramos em uma ou mais visões de como o mundo funciona.

Como toda produção humana, o conhecimento será fortemente influenciado por tudo aquilo que é genuinamente humano. Ganância, medo, inveja, preguiça, raiva e tantas outras coisas.

Um exemplo: não faltam casos de fraude na história do pensamento.

Cientistas — às vezes renomados — pegos falsificando dados para que os resultados se encaixassem em suas hipóteses. Outro exemplo: é comum na história da ciência a relutância em abandonar um paradigma. Como vimos, carreiras são construídas em cima de certos paradigmas — e a derrubada deles significa quase sempre a derrubada (ou, no mínimo, o retrocesso) das carreiras construídas a partir deles. Devemos lembrar sempre que essas carreiras são vidas. Pessoas que querem prestígio, que têm vergonha e que precisam alimentar suas famílias. Seres humanos.

Isso obviamente não serve para justificar quaisquer comportamentos.

Devemos repudiar com veemência o cientista que frauda, devemos

criticar fortemente o cientista que se agarra a paradigmas superados. No entanto, situar a produção de conhecimento como empreendimento humano nos permite entender melhor por que essas coisas ocorrem.

Elas ocorrem porque são coisas humanas.

Apesar disso tudo, apesar da imperfeição e falibilidade inerentes a todo empreendimento humano, é preciso lembrar de algo fundamental.

Os pensadores da Antiguidade, da Idade Média, da Renascença e da Modernidade, os pensadores contemporâneos (que alguns chamam de pós-modernos), todos eles, mesmo com esse monte de limitações humanas, foram orientados por uma grande intenção: explicar como as coisas funcionam.

Até hoje esta é a grande intenção que nos orienta. Eu na psicologia e neurociências. Clóvis na filosofia. Nós dois em sala de aula, como professores.

Perceba o termo que usei: explicar. Significa que o pensamento humano sempre irá falar sobre as coisas. Criar discursos. Criar formas de falar sobre as coisas do mundo para explicá-las.

Esses jeitos de falar sobre as coisas são múltiplos. Sempre foram, e há quem diga que sempre serão. Mas são regidos, pelo menos na história do pensamento racional, por algumas grandes regras. Sem elas não teríamos chegado até aqui. Sem essas regras, não seríamos capazes de substituir os jeitos antigos por jeitos “melhores” de explicar as coisas (ou seja, jeitos que explicam o mundo de maneira mais coerente com seu funcionamento de fato).

A primeira regra é a noção de que nem todos os jeitos de falar sobre o mundo são iguais. Há jeitos melhores e há jeitos piores.

Mas o que os torna melhores ou piores?

Os jeitos melhores são úteis — e isso significa que são consistentes entre eles e consistentes com o mundo.

Em contrapartida, os jeitos piores são não úteis. No jargão científico, dizemos que são “errados” ou “falsos”. Significa que não são consistentes com os jeitos melhores e não são consistentes com o mundo.

A segunda regra é a ideia de que nossos propósitos no momento da explicação determinam o melhor jeito de falar sobre o mundo.

Vamos nos aprofundar nisso, pois pode parecer esquisito à primeira vista. Como temos feito desde o início, usaremos um exemplo.

O exemplo será o mesmo que usei antes: a revolução copernicana.

Antes da revolução, havia um jeito de falar sobre o mundo. Esse jeito de falar sobre o mundo era o modelo aristotélico-ptolomaico. Naquele mundo (ou seja, naquele momento da explicação), todas as formas de conhecer o mundo (observação astronômica, cálculos matemáticos, etc. ) eram relativamente coerentes entre si e eram coerentes com aquilo que se observava no mundo. Eram, portanto, o melhor jeito de explicar aquele mundo.

Com a revolução, surgiu um novo jeito de falar sobre o mundo. Houve avanços tecnológicos em telescópios e o desenvolvimento de cálculos matemáticos mais precisos, que culminaram com a mecânica newtoniana. Com isso, o jeito anterior de falar sobre o mundo não era mais coerente — nem com esse novo modelo, nem com o mundo agora observado. O modelo aristotélico-ptolomaico tornou-se um modelo não útil ou, em outras palavras, um modelo errado, um modelo falso. O novo modelo newtoniano mostrou-se coerente com todos os demais modelos que por sua vez eram coerentes com as observações do mundo naquele momento.

Séculos depois, surge o modelo de Albert Einstein. Ele introduz novas formas de falar sobre o mundo. Essas formas são coerentes entre si e coerentes com o mundo naquele momento. Exatamente por isso tornaram-se um jeito melhor de falar sobre o mundo. A mesma coisa vem acontecendo com a teoria quântica mais recentemente.

Enxergamos os mesmos movimentos na biologia.

A biologia aristotélica, paradigma dominante nas ciências naturais por dois milênios, era o melhor jeito de explicar as diferentes formas de vida na Terra. Quando surge Darwin e as ideias de ancestrais comuns e seleção natural, bem como as primeiras teorias genéticas (que começam com Gregor Mendel), a biologia aristotélica passa a ser um jeito não útil de explicar o mundo biológico, dando lugar à biologia evolutiva (que

permanece até hoje, com os devidos aprimoramentos e extensões, um dos paradigmas mais relevantes dentro das ciências biológicas).

No entanto, veja que esses dois bons jeitos de falar sobre o mundo —

teoria quântica e biologia evolutiva — são fundamentalmente diferentes.

Se eu perguntar para um físico o que é um cérebro, ele pode perfeitamente responder: “Nada mais do que uma coleção de partículas elementares que obedecem às leis naturais e imutáveis da física”.

Ele está errado? Claro que não.

Mas, neste contexto, neste momento da explicação, este não é o melhor jeito de falar sobre o mundo. Aqui é mais útil (mais coerente) falar: O cérebro é um órgão que funciona como centro do sistema nervoso em todos os animais vertebrados (e muitos dos invertebrados), operando como uma máquina biocomputacional que evoluiu de acordo com o processo de seleção natural, sendo selecionado para que os organismos respondam de formas biologicamente mais vantajosas (garantindo maior probabilidade de sobrevivência e procriação) aos desafios impostos pela natureza.

Nota-se assim que a biologia evolutiva é mais coerente com nosso objetivo neste momento da explicação.

Podemos dizer que esta é uma perspectiva poética de entendimento do mundo, pois admite múltiplas formas de falar sobre ele. Formas que serão mais ou menos úteis dependendo do contexto, do momento da explicação.

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Além disso, com os progressivos avanços científicos desde a Modernidade até os dias atuais, acumulam-se evidências cada vez mais contundentes daquilo que é conhecido como “naturalismo”.

Essa não é uma visão nova. Ela começa na filosofia. De certa maneira, alguns pensadores pré-socráticos podem ser considerados os primeiros naturalistas do Ocidente. Aristóteles apresenta fortes características de naturalismo em seus pensamentos. O estoicismo é talvez a escola filosófica da Antiguidade que mais se aproxima do naturalismo tal como o entendemos hoje. Muitos defendem que, após a Idade Média, no século 17, o pensamento do grande filósofo Baruch Spinoza é um exemplo de naturalismo. Na pós-modernidade filosófica, Nietzsche pode ser considerado um naturalista.

Mas o que significa “naturalismo” hoje?

Por naturalismo quer-se dizer essencialmente três coisas.

Em primeiro lugar, que só somos capazes de compreender um mundo: o mundo natural. Em segundo lugar, que o mundo evolui de acordo com padrões inquebráveis: as leis da natureza. Em terceiro, que a única forma confiável de aprender sobre como o mundo funciona é observando seu funcionamento. Essa observação do mundo, no entanto, não é meramente passiva — muitas vezes, exige posturas extremamente ativas, tais como a construção de intricados experimentos para demonstrar a existência de partículas elementares, por exemplo.

Muitos grandes cientistas adotam uma perspectiva naturalista para a compreensão do mundo. As ideias de Albert Einstein, Carl Sagan, Lawrence Krauss, Leonard Mlodinow, Michio Kaku, Neil deGrasse Tyson e Stephen Hawking são, entre muitas outras, exemplos de perspectivas naturalistas.

Recomendo enfaticamente que o leitor procure textos, vídeos e livros desses grandes pensadores. Com exceção de Einstein, cujo trabalho é extremamente difícil de compreender, todos os demais são capazes de explicar de maneira não tão complexa — mas extremamente elegante e profunda — algumas das descobertas mais fantásticas, inacreditáveis e surpreendentes da cosmologia contemporânea.

Recomendo também que assistam à série de TV chamada Cosmos. Há uma versão antiga, apresentada por uma das figuras mais carismáticas da história da ciência, o astrofísico e cosmólogo Carl Sagan, e uma atualizada, igualmente excelente, apresentada pelo célebre Neil deGrasse Tyson, também astrofísico e cosmólogo.

Essa perspectiva de entendimento do mundo (o naturalismo), portanto, aliada à já mencionada perspectiva poética dos muitos possíveis jeitos de falar sobre o mundo, compõe uma postura filosófica chamada “naturalismo poético”.

O termo naturalismo poético foi proposto pelo físico e cosmólogo norte-americano Sean Carroll. As ideias que descreverei aqui podem ser encontradas, em maior detalhe e profundidade, em sua obra chamada