Em busca de nós mesmos
Platão e a busca pela verdade
Uma segunda teoria ética moderna, de Kant, dirá que o verdadeiro fundamento de uma boa decisão está nas razões pelas quais você decidiu agir do jeito que agiu — que ele chamava de máximas e que podemos chamar de princípios, de valores. Existem boas razões para você agir do jeito que age, como, por exemplo, o fato de que qualquer um poderia
fazer o que você está fazendo naquele momento, qualquer um poderia pretender que todos fizessem daquela forma, uma espécie de universalização possível da conduta.
Ora, vamos combinar, isso pode ter a ver com a nossa felicidade ou não. Muitas vezes o nosso prazer, o nosso bem-estar, implica uma conduta que não gostaríamos que outros tivessem conosco e que, portanto, estariam excluídas do rol das boas condutas.
Espero que você tenha entendido que, aquilo que os gregos disseram do agir bem, viver bem, viver de acordo com o cosmos e então sentir-se feliz, essa correspondência entre a felicidade do agente e o bem agir, ao longo da história do pensamento, nem sempre se sustentou.
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Platão e a busca pela verdade
Clóvis: Na Odisseia, Ulisses sai do caos, da desarmonia de estar fora de lugar, e enfim chega a Ítaca, onde se restabelece a ordem cósmica. Essa alegoria que nos ensina tanto sobre o jeito grego de pensar está presente na primeira filosofia.
Um grande nome, talvez o maior de todos os tempos, é Platão. Ele escreveu os Diálogos — aparentemente 35 de autoria confiável —, nos quais apresenta temáticas como a virtude, a beleza, a amizade, a coragem, a justiça, entre outras. Platão inicia os diálogos apresentando as opiniões dominantes sobre tais temas no tempo dele. Portanto, apresenta o estado da arte, mostra o que as pessoas mais influentes pensavam sobre aquele assunto naquele momento. Expostas essas várias opiniões politicamente fortes, que ele denominava de doxa, Platão pouco a pouco ia colocando as ideias umas contra as outras, em enfrentamento, como se quisesse atritá-las, verificar e testar suas consistências. O
objetivo era sempre encontrar algum tipo de argumento satisfatório.
Todos os diálogos de Platão são movidos por uma espécie de vontade de verdade, vontade de encontrar algum tipo de definição, de ideia que
satisfizesse a curiosidade inicial sobre o tema proposto. Perceba que, da mesma maneira que Ulisses sai da zona da guerra de Troia em busca de Ítaca, do caos em busca da harmonia cósmica, Platão, diálogo a diálogo, sai da turbulência da doxa, da turbulência das opiniões dominantes em circulação na cidade, e busca uma verdade consistente, uma verdade que seria tranquilizadora e que corresponderia à harmonia de Ulisses em Ítaca. Perceba que, da mesma maneira que, para Homero, Ulisses sai do caos em direção ao cosmos, Platão nos convida a sair das aparências de verdade, ou das verdades aparentes, em busca de algo racionalmente consistente que possa pairar sobre as múltiplas impressões de circunstância.
Para Platão, somos constituídos de corpo e alma. Nosso corpo é esse que você conhece, é esse que você vê. Ele tem certa duração, é finito, deseja e tem sentidos que permitem ter algum contato com o mundo. A alma, entre outras funções, seria responsável pelo pensamento, pela inteligência, pelas ideias.