Em busca de nós mesmos

Clóvis de Barros Filho · Capítulo 14 de 31

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Em busca de nós mesmos

A desconstrução do Humanismo

Esta ideia já era encontrada na “tábula rasa” do filósofo John Locke (1632–1704). Para ele e muitos outros pensadores da época, o ser humano nasce como uma folha em branco. Não há conteúdos mentais pré-inscritos em nossa natureza. Não há uma psicologia inata. As livres escolhas é que preencherão essa folha. Nossa mente, nossas ideias e conhecimentos são fruto de percepção e experiência. A experiência é que construirá nossa essência. E a experiência humana é, por definição, livre.

 

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A desconstrução do Humanismo

Calabrez: Não é surpreendente, então, a revolução ocorrida na transição entre os séculos 19 e 20 com o trabalho de três grandes pensadores, cada um em um campo diferente de atuação. Friedrich Nietzsche na filosofia.

Charles Darwin nas ciências naturais. E Sigmund Freud nas ciências da mente.

Lembre-se da visão iluminista. Para ela, a grande causa daquilo que o ser humano é, e também a causa do que ele faz, é sua liberdade e o bom exercício das faculdades da razão. Os ideais de humanismo, racionalidade e liberdade governam a visão iluminista. Sendo assim, o ser humano é diferente de todos os outros animais — e sua superioridade é possível justamente devido a esses grandes ideais.

Os pensadores que mencionei acima irão desconstruir tais ideias, cada um à sua maneira.

Nietzsche (1844–1900), filósofo alemão, põe em cheque a ideia de que a racionalidade humana é essa coisa libertadora que os pensadores antes dele afirmavam. Para ele, substituímos os velhos ídolos (o cosmos, o logos, Deus e a autoridade religiosa) por novos ídolos.

Mas quais novos ídolos?

Justamente os ideais de liberdade, racionalidade, ciência, humanismo, etc. O problema, para Nietzsche, está na idealização dessas visões. Ao idealizar visões de mundo, criamos valores transcendentais — valores considerados superiores a tudo. Sua filosofia tratará de desconstruir essa idealização. A proposta é que, ao colocar ideais acima de tudo, ao situar certos valores num patamar transcendental, estamos situando-os acima da vida. Sendo assim, seguimos “crentes” em novos ídolos. Ídolos superiores à única coisa que de fato existe: a vida.

Contemporâneo de Nietzsche, o naturalista inglês Charles Darwin (1809–1882) propôs uma ideia. Uma “ideia perigosa”, nas palavras do filósofo norte-americano Daniel Dennett. A ideia de Darwin, assim como as ideias dos demais pensadores que estou citando aqui, teve um enorme número de ramificações e um gigantesco impacto em todo o pensamento posterior. Sua ideia é o perfeito exemplo de um novo paradigma, tal como defini anteriormente. Os avanços de hoje no campo da genética são possíveis devido à ideia inicial de Darwin, de que todos os seres vivos derivam de um mesmo ancestral comum e se modificaram ao longo de um processo contínuo que ele chamou de “seleção natural”.

Já Freud (1856–1939), médico neurologista austríaco, propõe uma ideia radical — contrariando toda uma tradição de pensadores que afirmava que o pensamento humano é consciente, livre e racional.

E qual é essa ideia?

É uma das mais conhecidas popularmente: a ideia de que a imensa maioria de nossos processos psicológicos na verdade é inconsciente. Em outras palavras, não tomamos conhecimento, ou seja, não sabemos da maioria das coisas que motivam nossos pensamentos, afetos e comportamentos.

Todos esses modelos teóricos são revolucionários, cada um em seu campo. Mas todos têm uma característica em comum: desconstroem a ideia de que o ser humano é especial, livre senhor de seu destino. Não somos anjos caídos, mas sim primatas que se ergueram e hoje andam eretos. Não temos pleno conhecimento do que nos motiva e das causas que nos rodeiam. Somos muito mais bichos, animalescos, muito mais determinados, muito menos livres, muito menos tábula rasa do que gostariam os pensadores iluministas.