Em busca de nós mesmos

Clóvis de Barros Filho · Capítulo 11 de 31

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Em busca de nós mesmos

A transição entre Antiguidade e Idade Média

Os estoicos sabiam disso, sabiam que a coisa pode ser enroscada se você pensa em morrer e se abate com isso. E vou mais longe: na hora em

que você pensa em morrer, não é somente o fato de você deixar de existir. E as pessoas que gostam de você? E as pessoas de quem você gosta? E aquelas que dependem de você, quer seja afetiva, econômica ou socialmente? Tudo isso é um obstáculo para a vida boa.

O que os estoicos tinham para oferecer na contramão disso? Eles acreditavam que vale a pena apostar nessa história de encaixar-se no cosmos, de buscar a excelência de si mesmo. Sabe por quê? Porque acreditavam no cosmos infinito e eterno. Se o cosmos é eterno e você faz parte dele, então você é eterno também. Você é um fragmento de eternidade, é um pedaço de uma coisa eterna.

Perceba que não é uma vida eterna individual, singular, só você. Isso não rola. É você enquanto parte de um todo eterno e que se torna eterno na medida em que participa desse todo. Mas a participação nesse todo eterno é estranha, porque implica a sua morte. Isso significa que você vai deixar de ser matéria animada e vai passar a ser outra coisa, vai participar de outros agenciamentos. Por exemplo, eu, quando morrer, parte de mim poderá virar adubo ou combustível, talvez vire chifre de touro, outra parte poderá virar maçaneta ou chuva. Por que não? Nessas loucas combinações da matéria, poderei estar por aí, rodando. Meio dilacerado, meio reduzido a uma zona, mas estarei por aí. O cosmos é eterno, eu faço parte dele, então sou eterno também.

 

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A transição entre Antiguidade e Idade Média

Calabrez: Vou começar com uma cronologia para que o leitor consiga situar as ideias na linha do tempo do nosso diálogo. Acredita-se que tanto a Teogonia de Hesíodo quanto a Odisseia de Homero foram compostas em torno do século 8 antes de Cristo (entre 700–800 a.C.).

Platão viveu entre os séculos 5 e 4 a.C. (nasceu em 428/427 e morreu em 348/347 a.C.). Aristóteles viveu no século 4 a.C. (384– 322 a.C.).

Todos eles produziram suas principais ideias e obras na Grécia.

Os filósofos estoicos viveram durante o século 3 a.C., quando a escola estoica foi fundada em Atenas por Zenão de Cítio (334–262 a.C.). Outros notáveis estoicos foram Sêneca (1 a.C.–65 d.C.), Epicteto (50–135 d.C.) e o imperador Marco Aurélio (121–180 d.C.). A história do estoicismo, portanto, percorre tanto a Grécia quanto a Roma antigas.

Aproximadamente a partir da morte de Marco Aurélio, o pensamento estoico começou a dar lugar ao pensamento cristão. As últimas escolas estoicas foram fechadas no século 6, em 529, por ordem do imperador romano Justiniano I (que ordenou o fechamento de todas as escolas

filosóficas pagãs, ou seja, não cristãs). O declínio do estoicismo acompanhou o declínio das religiões politeístas greco-romanas.

O período entre a composição da Odisseia e a queda do Império Romano (século 5, ano 476) é conhecido como Antiguidade Clássica. O

período de transição, que começa com o declínio do Império Romano a partir do século 3, culminando com sua queda, é conhecido como Antiguidade Tardia. O fim da Antiguidade é marcado pelo início da Idade Média, que compreende o período entre os séculos 5 e 6 e a queda do Império Romano Oriental (a queda de Constantinopla em 1453).

A filosofia antiga é dominada por visões de mundo em que o elemento central é a ordem. O mundo antigo era amplamente alicerçado na ideia de um cosmos ordenado. As reflexões e descrições que os pensadores antigos fizeram da realidade são de uma sofisticação e beleza impressionantes. Considerando-se os limitados recursos que possuíam para observar o universo — essencialmente, os sentidos do corpo (olhar para o céu a olho nu, por exemplo) e a capacidade de pensar e refletir

—, é no mínimo de cair o queixo o quanto foram longe, o quanto capturaram as nuances e sensibilidades da natureza em geral e da natureza humana em específico.

Ainda que os antigos falassem de deuses e deusas, de seres mitológicos e afins, seu pensamento era orientado pela busca de uma ordem, uma razão, uma lógica racional (λόγος, ou logos em grego) por trás dos fenômenos naturais. Considera-se que a filosofia ocidental

propriamente dita inicia-se com o trabalho dos pensadores pré-socráticos, tendo como notáveis Tales de Mileto (624–546 a.C.), Anaximandro (610–546 a.C.), Pitágoras (570–495 a.C.), Heráclito (535–

475 a.C.) e Demócrito (460–370 a.C.), entre outros.

É de Tales a famosa frase “todas as coisas estão cheias de deuses”. O

olhar descuidado pode enxergar nessa afirmação uma visão de fé espiritual ou até mesmo religiosa. No entanto, Tales defendia que todas as coisas tinham por trás de si um princípio físico, material (ἀρχή, ou arché, em grego). Ele acreditava que essa substância material que compõe todas as coisas era a água. Este é um princípio importante na filosofia pré-socrática, adotado por diversos outros pensadores. Tales defendia ainda que toda matéria é dotada de vida, ou seja, que existe animação em toda a matéria que compõe o universo — princípio que, como Clóvis nos mostrou, é carregado até mesmo por Aristóteles.

Anaximandro de Mileto, discípulo de Tales, merece ser mencionado.

Ele foi o primeiro a descrever o cosmos celeste de forma mecânica, sem nenhuma menção aos deuses. O Sol, a Lua e os demais planetas eram para Anaximandro o fogo que emanava do buraco em rodas que percorriam os céus. Por isso, é considerado por alguns historiadores como o “pai da filosofia científica”.

Tudo flui, tudo se transforma, nada permanece. Esta é a ideia central do pensamento de Heráclito de Éfeso, “o Obscuro”, segundo Diógenes Laércio. As coisas mudam, e a mudança é uma alternância entre opostos:

coisas quentes esfriam, coisas frias esquentam. A realidade, para ele, se dava na harmonia derivada dessa constante alternância — e teria como princípio físico ( arché) o fogo, que sempre muda e nunca é o mesmo.

Demócrito, por sua vez, é o primeiro a propor a “teoria atômica”.

Segundo ele, todas as coisas são formadas por pequenas partículas —

pequenas pedras minúsculas e invisíveis, os átomos. Como o próprio nome denota, os átomos de Demócrito são eternos e indivisíveis —

átomo vem do grego ἄτομον, ou atomon, que significa indivisível, aquilo que não pode ser cortado.

Hoje, curiosamente, sabemos que tudo é composto por átomos que, apesar de divisíveis (em elétrons, prótons e nêutrons — e estes dois últimos em partículas ainda menores), estão sempre em movimento.

As ideias pré-socráticas, à primeira vista, podem ser banais.

Tudo é água? Tudo é fogo? Que besteira!

Por isso é importante situar essas ideias no momento histórico em que surgiram.

Para a época, o pensamento pré-socrático é altamente sofisticado.

Pela primeira vez (em que se tem registro), o mundo ocidental buscava compreender a realidade (o mundo, a natureza, os seres vivos e tudo mais) por meio da razão e não mais com explicações estritamente religiosas. Isso se torna ainda mais evidente com o surgimento de Sócrates (470/469–399 a.C.) e de seu principal discípulo, o jovem Arístocles, que todo mundo conhece pelo apelido de Platão — do grego

Πλάτων, ou Plátōn, que significa “o amplo”, pois Platão tinha ombros largos. Sócrates e Platão influenciaram literalmente todos os pensadores posteriores. E continuam influenciando até hoje.

A filosofia antiga então é baseada no princípio de que a busca pela verdade se dá pelo uso da razão (e não da fé). Além disso, dentro das principais visões de mundo propostas pelos maiores pensadores da Antiguidade (essas visões de mundo são chamadas de “sistemas filosóficos”), o exercício da razão revelou que o universo é ordenado e coeso.

Com o declínio do pensamento estoico e das demais escolas clássicas de filosofia, concomitante com a ascensão do cristianismo no mundo ocidental, o princípio de uso da razão para buscar as verdades é progressivamente substituído pelo princípio da fé.

No pensamento estoico, a ordem cósmica ( logos) é representada pela composição ordenada e maravilhosa de todas as coisas. Clóvis nos mostrou que essa composição harmônica é o divino, é deus. É muito importante perceber que o deus estoico não é um deus pessoal, preocupado com os seres humanos e suas mazelas. Ele não é bondoso ou maldoso, piedoso ou cruel. Ele não tem intenções, vontades ou planos para os seres humanos — ele não tem personalidade. O deus estoico é absolutamente impessoal e, exatamente por isso, indiferente. Ele é, na verdade, a totalidade da natureza, o conjunto de coisas naturais que compõem o universo.

Isso inclui uma série de regras impessoais, tais como as leis naturais, por exemplo. Afinal, o tempo é inexorável, e isso significa que envelheceremos. Os seres vivos morrem, e isso é igualmente inexorável.

As doenças não ligam para nós, elas simplesmente acontecem. E o cosmos não está nem aí se achamos isso bom ou ruim — essas coisas simplesmente fazem parte do funcionamento do universo. Sendo assim, o tempo, a morte e as doenças, para um estoico, são parte de deus. Deus, afinal, é a natureza e o universo em sua totalidade, com suas regras e características naturais. Essa totalidade é maravilhosa, justamente porque expressa, para o estoico, uma grande ordem, logos, do universo.

Na Idade Média, o logos, a ordem cósmica, a ordem harmoniosa do universo, é encarnada em uma figura pessoal, excepcional e divina: o Cristo de Deus.

Teoria, como Clóvis explicou, é a contemplação do divino. Para os estoicos, isso se dava pelo uso da razão, para compreendermos a harmonia do universo. Com o cristianismo, isso muda radicalmente. A teoria para os cristãos se dá por meio da fé no verbo divino (a palavra de Deus, trazida a nós pelo Cristo). Ou seja, a harmonia do universo agora é encarnada em um Deus único e pessoal. O Deus cristão tem personalidade, vontades, intenções e preocupações para com os seres humanos. E o caminho para a salvação é a fé. Compreender o universo é conhecer e ter fé na palavra de Deus. O mundo é visto como obra da vontade de Deus.

O pensamento cristão foi muito influenciado pelo pensamento antigo.

Os princípios cosmológicos da Antiguidade e da Idade Média eram fortemente baseados em dois grandes modelos de compreensão do cosmos: os modelos de Aristóteles e Ptolomeu.

Clóvis já nos explicou três grandes características do universo aristotélico: ele é finito, harmônico e hierarquizado. Essas características permanecerão vivas no pensamento cosmológico da Idade Média. Mas a harmonia e a hierarquia agora são obras de Deus e refletem sua perfeição.

Há outras características importantes, que explicarei a seguir.

Algumas destas características foram aprimoradas matematicamente por uma série de pensadores que viveram entre Aristóteles e a Idade Média.

Em especial, o modelo geocêntrico de Ptolomeu (100–170 d.C.), contemporâneo dos estoicos, que seguiu amplamente adotado e utilizado séculos após sua morte.

A primeira característica é a imutabilidade do universo celeste. Tanto para os gregos quanto para os cristãos, os corpos celestes (os pontinhos de luz que aparecem no céu durante a noite) eram eternos e imutáveis.

Essa imutabilidade era uma grande prova da ordem maravilhosa do universo, pois indicava sua perfeição harmoniosa — afinal, o cosmos era perfeito e nada poderia mudá-lo. Para os cristãos, essa imutabilidade representava a perfeição de Deus.

O segundo é o geocentrismo. A ideia de que a Terra, nosso planeta, seria o centro imóvel do universo. Ou seja, os demais astros (eternos e imutáveis) circundavam a Terra, enquanto ela permanecia sempre no mesmo lugar, como centro de tudo. Ainda que houvesse motivos religiosos por trás da adoção do geocentrismo pela Igreja, a principal razão para isso era o fato de que esse modelo cosmológico era amplamente aceito pelos cientistas da época.

Veja então que o cosmos para os pensadores da Idade Média — e isso inclui a grande maioria dos cientistas, inclusive os físicos — era finito, harmônico (ordenado), hierarquizado, com corpos celestes imutáveis que revolviam ao redor de um centro imóvel: a Terra.