Em busca de nós mesmos
Felicidade
legitimador (em alguns grupos, ainda é). Diplomas universitários hoje legitimam pessoas a trabalharem em certas posições dominantes. Se você viajasse no tempo com seu diploma de Harvard, lá para uns dois mil anos antes de Cristo, seu diploma seria inútil.
Atualmente, em muitas culturas, o dominante é aquele que conta com as melhores condições financeiras, representadas por um belo carro ou uma casa luxuosa. Antigamente as condições financeiras eram demonstradas por meio de diferentes posses materiais. Hoje, entre adolescentes, o dominante pode ser Justin Bieber ou Anitta, dependendo do recorte social. Os exemplos são inúmeros.
Em suma, na espécie humana, os critérios que definem a legitimação de indivíduos para posições de poder são relativos à cultura do grupo que estivermos analisando. São, portanto, múltiplos e constantemente mutantes. No entanto, ao que tudo indica, temos uma natureza biológica propensa a viver em — e aceitar as — relações sociais assimétricas.
Nelas alguns poucos mandam e gozam dos benefícios do poder. Outros muitos obedecem.
Há quem diga que, em certa medida, os dominados também gozam de certos benefícios da obediência. Argumentam que muita gente não deseja o peso da responsabilidade de ocupar uma posição de poder.
Outros dizem que, na verdade, o desejo último de todo dominado é se tornar dominante. Esta eu deixo para o leitor resolver.
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Felicidade
Clóvis: Os pensadores estoicos estavam empenhados em refletir para que pudéssemos todos viver melhor. Eles sugeriram o desapego em relação às coisas, às pessoas. Se a sua alegria depender da presença de alguma coisa ou de alguém, ela é obviamente frágil, pois as coisas se destroem e as pessoas morrem. Antes de se destruírem completamente, as coisas vão perdendo suas características; as pessoas vão se transformando. Aquela pessoa que um dia o alegrou pode se tornar uma pessoa amarga e passar a entristecê-lo.
A única felicidade consolidada e que não é frágil é a felicidade que você consegue sem depender da presença de alguma coisa ou de alguém.
É uma felicidade que você consegue consigo mesmo. E isso tem muito a ver, no caso dos estoicos, com evitar a dor e o sofrimento. Se você estiver na paz, estiver de boa, contemplando as coisas, para eles já é o máximo que dá para conseguir. Não é aquela coisa de mil orgasmos e uma vida cheia de luxúria. Não. É uma vida de paz, uma vida de resignação às coisas como elas são.
Agora, pare para pensar: você tem um namorado ou uma namorada, em um determinado instante, está beijando na boca, aqueles beijos que não acabam mais, e você quer que aquele momento não acabe, pois é um presente que dispensa o passado e o futuro, símbolo da vida boa.
Mas não pode ter apego. O que será que isso significa? Significa que acabou o instante, a pessoa vai embora, e você não vai querer de maneira nenhuma que ela esteja ali, pois isso já é apego. É o instante pelo instante. Você vai embora, entra no ônibus para ir para casa e se esquece do que passou. Agora o ônibus é que é legal, embora lotado e com odores mil. Aí você chega em casa, e tem gente que pede para você arrumar o seu quarto, e você acha isso muito legal, curte cada momento, e nada de pensar nos beijos e na pessoa. Você só pensará na pessoa quando ela aparecer na sua frente de novo. Será mesmo?
É muito bacana filosofar. É muito legal acreditar que o instante tem que esgotar nele mesmo a sua razão de ser. É muito interessante imaginar que o passado e o futuro só atrapalham. Mas será mesmo que dá para viver como eles sugerem? Será mesmo que, depois de dar muitos beijos numa pessoa, você vai embora e pode abrir mão de pensar no que acabou de acontecer? Será mesmo que, depois de curtir com a pessoa uma noite incrível de muito amor, você vai embora e aquilo desaparece porque você estará entretido com o táxi que vai levá-lo para o aeroporto?
Ah, sabe, é bem bacana para refletir, quase poesia, mas nada tem a ver com as nossas experiências. Pelo menos não com a minha.
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Para os estoicos, a filosofia não é um discurso, não é uma dissertação, não é um texto, não é uma ideia. Mas pode ser tudo isso, desde que tenha a ver com a vida vivida, com uma vida mais feliz, com sofrer menos. Os estoicos se preocuparam em de fato fazer a vida boa acontecer. E há uma série de exercícios para que a vida possa ser melhor. Muitos desses exercícios têm a ver com certo controle do que passa pela nossa cabeça. Quando eles dizem que é preciso viver o presente — o amor fati de Nietzsche, o carpe diem de Horácio — e realmente se preocupar com o instante vivido, no fundo estamos declarando guerra ao passado, declarando guerra a todo tipo de construção mental que resgata fatos ocorridos.
Toda vez que você se impede de reconstruir na mente fatos ocorridos, não tem as sensações correspondentes a essa produção mental. Veja que interessante: declarando guerra ao passado, você se obriga a um esquecimento. E não deixar o passado entrar é policiar-se para dar ao presente vivido uma importância tal que não sobre espaço para que o passado entre pela janela. Quando se policia contra o passado, você evita uma série de eventos em que sofreu humilhações, dissabores, decepções, coisas que o machucaram e que você permite que sejam resgatadas pela
mente. Quando evita essa reconstrução, você evita redobrar esse dissabor.
É muito interessante, porque algumas coisas da vida parecem gigantescas, catastróficas, medonhas no momento em que acontecem. O
convite é para que você tenha um pouco de recuo, olhe as coisas de cima, saiba que daqui a três meses já não se lembrará mais daquilo, que daqui a dez anos estará rindo da situação; portanto, você desconstrói a gravidade de uma ocorrência nefasta e com isso se permite uma inscrição em um presente que tem mais chance de ser alegrador.
Eis aí o primeiro exercício, a luta constante contra o passado. Se o passado foi bom, será nostálgico, e isso é ruim; se o passado foi ruim, será cheio de culpa, remorso e arrependimento, o que também é ruim.
Portanto, não há nenhuma chance de o passado, enquanto produção presente da mente que reconstrói o mundo vivido, ser uma coisa boa.
Sentir saudade não é bom, e arrependimento também não é bom.
Veja que interessante: quando Nietzsche diz que uma vida boa pressupõe saber esquecer, ele está seguindo uma tradição que tem a sua gênese muito antes dele.
Pois muito bem, o combate ao passado por meio do respeito ao instante vivido é a linda lição desta reflexão. É isso que deve nos acompanhar, porque muitas vezes damos mole para resgatar ocorrências que serão revividas pela mente. Ocorrências essas que já nos causaram dano e podem vir a causar novamente. O que é lamentável.
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Coisas a respeito do que vai acontecer passam pela nossa cabeça. É
natural.
Lembro-me de uma vez em que estive no Rio de Janeiro e saí de uma palestra em Niterói para dar outra palestra em Duque de Caxias. Saí com duas horas e meia de antecedência para um trajeto que no Google está previsto para 35 minutos. Portanto, eu estava com folga. Mas houve um acidente na Linha Vermelha, e o trânsito estava pior do que de hábito.
Minha mente foi atravessada por imagens do futuro.
No começo do trajeto, eu pensava que estava com duas horas e meia de antecedência e, fosse o trânsito que fosse, chegaria no horário.
Perceba que essa antecipação, essa projeção — que chamamos de futuro
— era favorável, e, quando isso acontece, denominamos de esperança. À
medida que o trânsito foi piorando e o tempo passando, outro tipo de imagem passou pela minha cabeça: a de que eu não chegaria no horário.
E me via tendo que me desculpar, atraso imperdoável. Conforme o tempo foi passando, eu percebia que o atraso era inevitável e seria grande. Era uma sensação desagradável, porque aquilo que passava pela minha cabeça sobre o que ia acontecer — o tal do futuro — não me era conveniente e, não sendo conveniente, produzia em mim um afeto apequenador de potência, redutor da energia vital.
No primeiro caso, havia esperança de chegar na hora, havia ganho de potência cada vez que o mundo a viver passava pela minha cabeça. Mas,
quando eu imaginava chegar atrasado, eu apequenava a minha potência e não havia esperança, mas temor. Essa é a sensação ruim que você sente toda vez que o futuro — imagem criada no presente sobre o que vai acontecer— é desfavorável.
Pois muito bem, alguém poderia pensar que o temor é uma desgraça, e é mesmo. E aí você inclui o medo da morte. Mas tem um futuro legalzinho. É o futuro esperançoso. Futuro legalzinho é o futuro em que a antecipação do que vai acontecer traz boas sensações, como chegar na hora, apesar do trânsito.
O que eu quero sustentar aqui, junto com os estoicos, é que, mesmo quando o futuro é legalzinho, não é bom. A esperança, embora seja agradável, embora tenha a ver com uma imagem favorável, não é um afeto legal. Sabe por quê? Primeiro, porque, quando você é esperançoso e pensa no que vai acontecer, está desfocado do que está acontecendo, está desfocado do presente vivido, está desfocado do mundo tal como se apresenta. Você está fragilizado, a cabeça em um lugar e o corpo em outro.
Segundo, porque essa esperança é um desejo, portanto, é elaborada na ignorância sobre se aquilo vai realmente acontecer ou não. A esperança é um afeto na ignorância e também na impotência, pois, quando esperava chegar na hora, eu nada podia fazer, em nada podia colaborar para de fato chegar na hora. O trânsito na Linha Vermelha condena a
uma espécie de procissão sem volta e é também um afeto sem gozo, afinal, ele é sempre na falta, como todo desejo.
Quem espera chegar na hora ainda não chegou e ainda não sente a alegria de chegar na hora. Portanto, toda esperança é sem gozo, sem consciência e, claro, sem poder. Sem poder fazer nada.
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É preciso lembrar que a esperança é constituída por pelo menos duas coisas: uma, o que passa pela sua cabeça. E o que passa pela sua cabeça tem a ver com o que você gostaria que acontecesse. Depois, o que você sente em função do que passa pela sua cabeça, que às vezes é bom e conveniente.
Além da incerteza, isto é, da ignorância sobre o que vai acontecer, a esperança é um sentimento acompanhado de castidade. Sabe por quê?
Porque o gozo é sempre em uma relação com o mundo bem na sua frente, o gozo exige atrito, exige presença, exige encontro. Já a esperança é só uma quimera, é só um pensamento. A esperança é um sentimento de castidade sem gozo, sem prazer. E finalmente, o pior de tudo, a esperança é um sentimento acompanhado de impotência, e isso é de uma pertinência incrível porque, se você pudesse fazer acontecer aquilo que você espera, a esperança viraria alegria no mesmo segundo, viraria encontro, presente, prazer, gozo e felicidade. Mas, como você não pode fazer acontecer, você espera.
A impotência é a marca registrada do esperançoso. Você espera que o avião saia na hora porque você tem impotência para fazê-lo sair na hora; você espera que uma mulher lhe dê bola pela sua impotência de seduzi-la; você espera que o ônibus chegue pela sua impotência de fazê-lo chegar; você espera ser promovido pela impotência de se promover; você espera de verdade que a sua vida seja feliz pela impotência de alegrar-se naquele mesmo segundo.
Ah, impotente esperançoso! Só lhe resta isso mesmo: torcer. Torcer para que o acaso o favoreça, torcer para que variáveis que você não controla tornem a sua vida melhor porque, se de fato tivesse o bago grande, você faria acontecer. E quem sabe faz a hora, não espera acontecer.
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Você imagina que essa história de condenar a esperança nos leva ao amor pelo presente, pelo instante. Passado e futuro, dois males a evitar.
Esse amor pelo mundo como ele é, pelas coisas como elas são, pelas pessoas, pelas situações que se apresentam diante de nós, enfim, essa reconciliação com o real, se você pensar bem, é uma sugestão profundamente lúcida porque, afinal de contas, se tudo o que passar no espetáculo da sua percepção lhe for amável, lhe parecer justo e bom, é claro que a vida tem toda a chance de valer a pena. Aconteça o que acontecer, vai estar tudo certo. Mais que isso: aconteça o que acontecer,
você irá adorar. Você irá adorar sempre, curtir sempre, sorrir sempre, amar sempre, e aí a vida não tem como ser ruim.
Mas, se a filosofia se dispõe a aconselhar isso, é porque sabe que no mundo da vida isso não acontece. A verdade é que muitas das coisas que passam pela nossa percepção, bem diante dos nossos olhos, são asquerosas, inaceitáveis, indignas, nos agridem, ofendem e humilham. É
possível flagrar a agressão covarde a um idoso, a mentira, a hipocrisia. A verdade é que o mundo é cheio de canalhice, portanto, essa história de que o amor é por tudo e aconteça o que acontecer está tudo bem, nós sabemos que não é bem assim, não funciona desse jeito, não toleramos tudo.
Muita coisa do mundo nos alegra, nos faz sorrir, é de extraordinária beleza. E torcemos para que se conserve assim. Mas muita coisa — e eu diria a grande maioria — nos é inaceitável; por isso, a essa história de que a vida boa implica simplesmente um amor pela realidade, eu preferiria sugerir a transformação do que é ruim, a revolução, a subversão, a mudança. O que não é bom tem que ser transformado.
Transformado para nós e para as próximas gerações. A mera contemplação amorosa do mundo implica uma aceitação conformada das coisas como elas são, e não dá para conformar-se com tantos comportamentos inaceitáveis, como tampouco dá para conformar-se com uma natureza que treme, que gera ondas gigantes e que nos mata aos montes cada vez que resolve se irritar.
Ah, o amor pelas coisas como elas são. É lindo, é poético, é sábio. Mas não tem nada a ver com a nossa vida.
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Vamos agora colocar um ponto final na briga dos estoicos com o medo da morte. Podemos retomar a Odisseia e Ulisses.
Você lembra que Ulisses estava de boa em Ítaca, provavelmente sem inquietações. O momento presente dava conta; portanto, passado e futuro não faziam sentido. E o medo da morte, uma bobagem. Mas aí Ulisses é convocado para a guerra de Troia. São dez anos guerreando e mais dez tentando voltar para casa. Nesses vinte anos Ulisses esteve fora de lugar, vivia na nostalgia; portanto, atravessado pelo passado.
Mas ele finalmente consegue voltar para casa, encontra-se com Penélope e deita com ela no leito nupcial. Nesse momento, os deuses promovem uma distensão do tempo, ou seja, um instante que vira eternidade. E, quando um instante vira eternidade, não há passado e não há futuro. É só Ulisses e Penélope. É só o presente que conta, reconciliação completa com o instante, com o mundo. Aí, é claro, não tem como temer a morte, porque ela é uma cogitação que não vem. E é lógico, Ulisses só pode amar Penélope, só pode amar Ítaca, só pode amar o leito nupcial, pois isso tudo permite a ele uma vida que locupleta e que, portanto, não se deixa atravessar pela nostalgia dos tempos vividos,
muito menos pela projeção dos tempos a viver, nos quais a morte, perniciosa, se instala para nos corroer a vida, nos amargar a existência.
Os deuses distendem o instante. Nesse momento, a vitória da morte está consumada, o fragmento de eternidade se perfaz, e, evidentemente, somos sábios no momento em que a vida é boa e que a inteligência do homem venceu sua própria paúra, seu próprio receio da sua própria condição. A finitude é só a finitude. Que acabará, acabará mesmo.
Agora, pensar nisso é coisa de gente que não tem em casa uma Penélope nem o leito nupcial para tornar a existência de um jeito que dispense esse tipo de cogitação.
Calabrez: Acredito que esta seja a pergunta mais importante. O que nos faz felizes? Alguns dos mais celebrados cientistas do mundo dedicam-se a essa questão hoje. E quais são as respostas? O que a ciência tem para nos dizer sobre a felicidade?
Falar de felicidade hoje é algo paradoxal.
Por um lado, a felicidade é um tema estudado racionalmente desde o princípio da filosofia, de forma séria e profunda, como Clóvis nos mostrou desde o início do livro. Felicidade, viver bem, viver da melhor forma possível — isso está na raiz do pensamento filosófico da Antiguidade.
Por outro lado (e daí vem o paradoxo), existe uma enorme banalização do termo. Afinal, você compra felicidade no McLanche.
Livros e mais livros de autoajuda dedicam-se a explicar os caminhos para
a felicidade. Devido a isso, a felicidade é constantemente associada a
“sentir-se bem”, ou seja, àquilo que chamamos em psicologia de
“emoções positivas”.
O instante feliz, nesse caso, seria aquele em que estamos repletos de emoções positivas, como a alegria. É sentir-se bem. É o instante em que nos sentimos completos, plenos.
No entanto, prefiro compreender a felicidade não como um
“elemento”, mas como um “constructo”.
O que isso significa?
Vou dar um exemplo paralelo. Vamos pensar em temperatura. Pressão barométrica. Velocidade do vento. Cada uma dessas coisas é um elemento. Em conjunto, esses elementos compõem aquilo que chamamos de “clima”. Ou seja, a temperatura não é o clima. O clima é um constructo — e um dos elementos é a temperatura, outro, a velocidade do vento, etc.
Com a felicidade é a mesma coisa. É óbvio que emoções positivas (ou seja, sentir-se bem, viver momentos alegres) são um elemento importante da felicidade. Mas a felicidade não se esgota nisso.
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O primeiro passo para entender a felicidade em uma perspectiva científica é a compreensão de uma descoberta inquietante da psicologia durante as últimas décadas.
Estudos conduzidos por alguns dos maiores cientistas do mundo são taxativos: aquilo que sentimos quando olhamos no espelho está errado.
A sensação que temos ao olhar no espelho é óbvia: cada um de nós sente que é um ser unificado. Sentimos que nosso “eu” é um só. Ou seja, “eu sou Pedro, e esta é minha vida”, por exemplo.
Isso é um erro.
Hoje sabemos que na verdade é como se o ser humano tivesse dois “eus” diferentes.
Podemos chamar um deles de “eu experiencial”, o eu que vive o instante. É o eu que está tendo a experiência de ler este livro agora. Os estudos sugerem que ele tem uma duração de cerca de três segundos —
ou seja, é extremamente presente; portanto, experiencial.
Temos um segundo eu que podemos chamar de “eu projetivo”. É o eu que pensa sobre a vida, olhando para fora do agora. Olhando para trás (para o que chamamos de passado) e para a frente (para o que chamamos de futuro).
Perceba que existe uma parte de nós, experiencial, que vive. E outra que é projetiva, ou seja, que pensa sobre a vida. Em outras palavras, viver e pensar sobre a vida, do ponto de vista psicológico, são duas coisas muito diferentes.
Só que uma coisa não é mais importante do que a outra. Na verdade, o importante é saber compreender as características desses diferentes
“eus”. Afinal, se são diferentes, significa que aquilo que vai fazer o eu
experiencial feliz não necessariamente faz o mesmo pelo eu projetivo. De fato, sabemos hoje que as condições de felicidade do eu que vive são fundamentalmente diferentes das condições de felicidade do eu que pensa sobre a vida.
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Então o que faz cada um desses nossos diferentes “eus” feliz?
O eu projetivo, como vimos, é o eu que pensa sobre a vida. Isso significa que ele vive de histórias. Olhar para o passado é contar uma história do que já foi. Olhar para o futuro é contar uma história do que se acredita que virá a ser.
O que faz essas histórias felizes são os objetivos e as conquistas. É
olhar para o passado e enxergar conquistas de valor; olhar para o futuro e enxergar objetivos de valor.
Tem muita gente que diz: “Dinheiro não traz felicidade! Conquistas profissionais não trazem felicidade!”. É incorreto dizer isso.
Dinheiro e conquistas profissionais são, para muita gente, objetivos importantes, valiosos. Muita gente olha para o passado e enxerga valor em suas conquistas profissionais e financeiras.
No caso do dinheiro especificamente, quanto mais for usado para comprar experiências e não meramente coisas, maior será o valor percebido pela pessoa. Afinal, uma experiência é uma história, e o eu projetivo vive de histórias. É por isso que estudos mostram
reiteradamente que viajar é uma forma muito boa de gastar dinheiro —
pois é gastar dinheiro com uma experiência.
Nesse sentido, conquistas profissionais e financeiras podem sim trazer felicidade — para um pedaço de nós, para esse pedaço de nós que pensa sobre a vida. O problema obviamente é quando alguém acredita que só isso será fonte de felicidade. Aí cometemos um grande equívoco.
Existe outro elemento importante para a felicidade do eu projetivo, que chamamos de “significado”. Uma vida com significado é uma vida na qual você sente que pertence a algo maior e mais importante do que você. Muita gente encontra isso na religião, na espiritualidade e na família. Alguns encontrarão no trabalho. Pessoas que praticam atividades filantrópicas ou algum tipo de ativismo social frequentemente encontram nessas atividades uma grande fonte de significado.
É fácil notar que nossa sociedade é expert em prometer felicidade para o eu projetivo. Desde que nascemos, somos bombardeados com objetivos para conquistar. Entrar na escola, tirar nota boa, passar de ano, passar no vestibular, entrar na melhor faculdade, conseguir o melhor estágio, ser efetivado, ganhar dinheiro, encontrar um grande amor, conquistar a casa própria, casar, ter filhos, ter sucesso profissional. . Além disso, somos rodeados de potenciais fontes de significado: nossa família, nossa igreja, nosso emprego e por aí vai.
Não importa se você nasceu numa família simples ou em Dubai. A única coisa que mudará são os objetivos e potenciais conquistas
oferecidos. Obviamente os objetivos e conquistas do filho de um bilionário serão diferentes daqueles oferecidos ao filho de um morador da periferia. Ainda assim, desde que nascemos, nos são oferecidos muitos objetivos e potenciais conquistas.
Acontece que temos um outro eu — o eu experiencial. Como vimos, ele é muito diferente do eu projetivo. Esse eu experiencial está preocupado em viver, enquanto o eu projetivo se ocupa em pensar sobre a vida.
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O que faz o eu experiencial feliz em primeiro lugar é o engajamento. É
viver o mais engajado possível em suas atividades.
Engajamento tem a ver com desafios. Sabemos hoje que o ser humano precisa de desafios para se manter feliz, para se manter motivado e funcionando bem. Quando não enfrentamos desafios ou quando o desafio que enfrentamos é pequeno demais para nossas competências, tendemos ao tédio, à desmotivação. Quando, ao contrário, enfrentamos um grande número de desafios simultâneos ou desafios grandes demais para nossas competências, tendemos ao estresse.
Engajamento é o estado psicológico que ocorre quando encontramos um equilíbrio entre os desafios que enfrentamos e nossas competências.
Em outras palavras, quando encontramos um desafio em linha com nossas competências, enfrentamos esse desafio de forma engajada.
Isso pode inclusive nos levar a um estado psicológico conhecido como flow, traduzido para o português como “fluxo” ou “fluir”. Quando estamos em flow, perdemos a consciência de nós mesmos, perdemos a noção do tempo, mergulhamos na atividade que estamos realizando, nos tornamos hipermotivados — e só percebemos tudo isso depois que o estado de flow acaba. Você olha para trás e pensa: “Nossa, eu estava extremamente engajado”.
Por quê?
Porque o eu experiencial vive. Não cabe a ele pensar sobre a vida, nem pensar sobre o flow. Quem vai perceber e pensar a respeito do flow é o eu projetivo.
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Então, como vimos, a primeira coisa para termos um eu experiencial feliz é o engajamento.
Uma segunda coisa — necessária inclusive para que o engajamento surja — parece simples, mas não é nada fácil: é saborear e aproveitar o que está acontecendo enquanto está acontecendo. É estar aqui com a cabeça aqui. É enfrentar os desafios com a cabeça nos desafios.
E aí temos um problema enorme.
Esse problema é escancarado quando olhamos para um estudo da Universidade de Harvard publicado em 2010 na revista Science — uma das mais importantes publicações científicas do mundo.
Os pesquisadores instalaram um aplicativo nos celulares de milhares de pessoas no mundo inteiro. O aplicativo enviava mensagens em horários aleatórios para as pessoas, perguntando três coisas.
Primeiro, “como você está se sentindo neste exato momento?” — e a pessoa respondia numa escala quantitativa (ou seja, uma pergunta direcionada para o eu experiencial). Em seguida, “o que você está fazendo neste exato momento?”. Finalmente, “você está pensando em algo fora daquilo que está fazendo?”.
Quais foram os resultados? O estudo mostrou que 46,9% das respostas eram de pessoas que estavam fazendo uma coisa enquanto pensavam em outra. Ou seja, quase metade do tempo as pessoas estão aqui, mas com a cabeça em outro lugar.
Aí vem o resultado mais interessante da pesquisa: Quando as pessoas estão aqui, mas com a cabeça em outro lugar (os pesquisadores chamaram isso de “a mente vagando”), tendem a estar infelizes em relação ao momento que estão vivendo. O nome do artigo é
“ A wandering mind is an unhappy mind ”. Traduzido livremente, significa “uma mente que vagueia é uma mente infeliz”.
Para estar feliz, o eu experiencial precisa que estejamos aqui, saboreando e aproveitando o que está na nossa frente — e não com a cabeça em outro lugar, vagueando. Infelizmente, como vimos, em cerca de metade do tempo as pessoas estão fazendo justamente aquilo que está associado à infelicidade.
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Temos ainda um agravante para essa situação. Como eu disse, nossa sociedade é excelente ao prometer felicidade para o eu projetivo: objetivos, conquistas e significado. Mas é péssima para nos educar para saborear o presente, aproveitar o instante, viver com a cabeça naquilo que estamos vivendo.
A coisa mais comum é a pessoa acordar na segunda-feira esperando chegar a sexta. Trabalhar ou estudar esperando as férias. Tem gente que acorda já deitada. O sujeito abre os olhos, e, antes mesmo de tirar o pé da cama, a primeira coisa que pensa é: “Como eu queria voltar para a cama”. Essas pessoas estão em trânsito. Sempre aqui, mas com a cabeça em outro lugar. Aqui, esperando chegar a outro lugar. Você, leitor, sabe muito bem: o trânsito é extremamente angustiante. No sentido literal, mas também como metáfora da vida.
Antes de continuarmos, é importante notar que essas ideias têm uma sinergia muito grande com o pensamento estoico.
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Com isso tudo, conseguimos entender as diferenças entre o eu projetivo e o eu experiencial.
Agora também conseguimos compreender por que a maioria dos estudos que acompanham as pessoas ao longo de diferentes momentos
da vida (dos 18 anos até o fim da vida) aponta que, em termos de satisfação geral com a vida, o ser humano apresenta uma curva em “u”.
O que significa isso?
Quando temos 18 anos, nossa satisfação geral com a vida é alta.
Conforme passa o tempo, vai diminuindo, diminuindo. . Até que chega ao ponto mais baixo: em média, entre os 40 e 50 anos de idade. A partir daí, a curva começa a subir. A consequência é que idosos geralmente são muito mais satisfeitos com a vida do que pessoas de 30, 40 e 50 anos de idade.
O que explica essa curva? Por que isso ocorre?
Como eu disse, somos muito influenciados, desde que nascemos, a depositar todas as nossas apostas, energia e esforços em nosso eu projetivo. Além disso, vimos que esse eu vive de objetivos e conquistas, olhando para fora do agora.
Aos 18 anos, temos a vida inteira pela frente. Há muita coisa para conquistar. Estamos cheios de objetivos. Conforme o tempo passa, vamos aos poucos conquistando esses objetivos — e ajustando nossa vida àqueles que percebemos que não seremos capazes de conquistar.
Entramos na faculdade, conseguimos o emprego, conquistamos a casa própria, encontramos um grande amor, temos filhos, conseguimos sucesso profissional, vemos nossos filhos crescer e por aí vai. . Conforme cada um desses objetivos se torna uma conquista atingida, nos adaptamos e seguimos para o próximo.
Um exemplo: quem já terminou a faculdade lembra da grande alegria, quase eufórica, ao passar no vestibular. Poucos meses depois, adaptou-se e partiu para a próxima conquista: conseguir um estágio. Isso ocorre com praticamente tudo.
Lá pelos 40, 50 anos de idade, já conquistamos todas as coisas que aos 18 imaginávamos que trariam plenitude. Olhamos para a frente — e não há nada muito novo a conquistar. Apenas mais do mesmo. Chegamos então ao ponto mais baixo da curva. . Uma espécie de crise, conhecida como crise da meia-idade. Essa crise é derivada do fato de que, conforme o tempo passa, vamos conquistando todos os almejados objetivos. Até que não temos mais novidades para conquistar.
“Ué, por que então a curva começa a subir novamente depois dessa crise?”
Porque as pessoas começam a apreciar aquilo que elas têm, aquilo que já conquistaram — aquilo que estão vivendo, no momento em que estão vivendo. Ou seja, começam a viver mais no presente, viver o instante, saborear as coisas que estão acontecendo enquanto estão lá. É como se descobrissem seu eu experiencial e passassem a valorizá-lo.
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Existe apenas uma variável que faz feliz tanto o eu projetivo quando o eu experiencial. Esta é, aliás, a variável mais importante. Não há nada mais importante para a felicidade humana do que isto: a qualidade das
nossas relações. Pessoas felizes são aquelas que têm relações de qualidade, que se rodeiam de pessoas queridas e amadas. Um dos maiores catalisadores de tristeza é a solidão. Como vimos anteriormente, o apego é uma necessidade humana.
Agora você já sabe o que as ciências da mente entendem hoje como uma vida feliz. Veja, no entanto, que nada disso é muita novidade. Pelo contrário, muitas correntes de pensamento orientais, como as védicas e budistas, e também correntes ocidentais, como o pensamento dos estoicos e de Spinoza, já diziam algumas dessas coisas. A diferença é que hoje temos a capacidade de confirmar, usando o método científico, a importância dessas ideias.
A felicidade é fruto de um equilíbrio. Não se trata de viver somente agora, como também não se trata de viver em função do passado ou do futuro. De um lado, é importante olhar para o passado e enxergar conquistas, olhar para o futuro e enxergar objetivos, olhar para a vida de maneira geral e enxergar significado. Por outro lado, devemos também apreciar, valorizar e saborear o presente, estando aqui, com a cabeça aqui, enfrentando desafios adequados às nossas competências. Na base de tudo isso, é fundamental semear e cultivar relações de qualidade com as pessoas que amamos.
Devemos evitar viver a vida como uma viagem. Na viagem, estamos o tempo inteiro esperando o destino chegar. Compramos passagens, esperamos a data, pegamos o táxi até o aeroporto, fazemos check-in,
despachamos bagagem, subimos no avião. Decolamos, voamos, pousamos, descemos, esperamos a bagagem, entramos no táxi e só então chegamos ao destino. .
Esse tempo todo, nosso maior desejo era que essas coisas acabassem logo, para o destino chegar o mais rápido possível. Tem gente que vive assim.
Um exemplo.
O rapaz é adolescente. Mas não quer ser adolescente. Quer ser adulto.
Está no ensino médio. Mas não quer estar no ensino médio, quer se formar e entrar na faculdade. Entra na faculdade. Agora não quer mais aquilo. Quer um emprego. Consegue o emprego. Pouco tempo depois, não quer mais aquela vaga. Deseja uma promoção para uma vaga melhor.
Esse é o eu projetivo governando a vida.
A proposta aqui é evitar viver a vida como uma viagem, esperando o destino e querendo que aquilo que estamos vivendo acabe logo. A proposta é viver a vida mais como um passeio. Todo passeio tem um destino, é claro. Mas a diferença é que, ao passear, também aproveitamos e saboreamos o caminho. Se o destino chegar, ótimo. Se não chegar, pelo menos aproveitamos aquele caminho que percorremos.