Em busca de nós mesmos

Clóvis de Barros Filho · Capítulo 18 de 31

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Em busca de nós mesmos

A direção do tempo

Primeiro: determinismo significa que não há livre-arbítrio. Falaremos sobre liberdade na terceira parte do livro.

Segundo: o determinismo busca identificar causas e efeitos do universo? A resposta é sim e não.

A ideia de causa e efeito, tão importante para a ciência (aristotélica e pós-aristotélica) não faz muito sentido hoje em dia — pelo menos não em um plano físico fundamental, ou seja, no plano das leis naturais fundamentais que regem o universo em um nível microscópico.

“Como assim, a ideia de causa e efeito não faz mais sentido? Tudo tem uma causa!”

Eu sei que essa é uma ideia um tanto difícil de engolir. Vou tentar explicar isso da forma mais didática possível. E, se você acha que a coisa até aqui está muito complicada, prepare-se: fica bem pior.

 

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A direção do tempo

Calabrez: Primeiramente, vamos definir “direção”. Quando dizemos que o tempo tem uma direção, queremos dizer o seguinte: o tempo sempre segue para a frente, nunca para trás.

Com isso, estamos afirmando duas coisas.

Primeiro, que o passado é diferente do futuro. Direção, neste caso, implica uma diferença entre dois pontos (passado e futuro), baseando-se em uma referência (o presente).

Segundo, que essa diferença é assimétrica e irreversível. Em outras palavras, nada no futuro é capaz de mudar o passado, pois é o passado que determina o futuro. O passado tem maior influência sobre o futuro do que o futuro sobre o passado.

Vamos aplicar o conceito de direção (diferença, irreversibilidade e assimetria) ao espaço.

Imagine que você é um astronauta flutuando no vácuo do espaço, muito distante de qualquer planeta, estrela ou outro corpo celeste. Nesse lugar não há direção. Em outras palavras, não há “acima”, “abaixo”,

“atrás” ou “à frente”. É fácil aceitar essa ideia. Só haverá direção do

espaço se houver um ponto de referência. “Acima do quê?” Como não há ponto de referência no vácuo do espaço distante, não existe uma direção pré-fixada do espaço. Sendo mais direto: flutuando no espaço, qualquer direção para a qual você apontar terá igual teor. Todas as posições são simétricas. Você não será capaz de dizer “ali é para cima, aqui é para baixo”.

É óbvio que isso não acontece quando pensamos no tempo. Todos que possuem um cérebro saudável concordam sobre qual direção do tempo é

“ontem” e qual direção é “amanhã”. Um ótimo exemplo é a memória.

Lembramos do que aconteceu ontem, mas não lembramos do que acontecerá amanhã. O futuro pode ser previsto (como fazem meteorologistas), mas não pode ser lembrado. Ir do presente para o passado é um movimento totalmente diferente de ir do presente para o futuro.

Agora vem a parte cabeluda dessa história.

Em um plano microscópico de leis fundamentais da física (como as leis de Newton, Einstein e a teoria quântica de campos), o tempo não tem direção. Em outras palavras, de acordo com essas leis, não existe diferença, assimetria e irreversibilidade entre passado e futuro. As leis da física tratam a direcionalidade do presente para o passado exatamente da mesma forma que tratam a do presente para o futuro.