Em busca de nós mesmos

Clóvis de Barros Filho · Capítulo 20 de 31

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Em busca de nós mesmos

Um pálido ponto azul

Tentei explicar conceitos altamente complexos da forma mais simplificada possível. Sei que para alguns essas ideias podem parecer duras, difíceis, fechadas demais. Infelizmente, não há como torná-las mais simples na forma escrita — se fizermos isso, corremos o risco de deturpá-las. Como já dito, ao final do livro há leituras recomendadas para cada seção. Vale a pena conferir.

Ainda teremos algumas ideias difíceis até o final da Parte 2. Mas, na minha opinião, nada comparado à ideia de que o tempo pode não ter direção. Então vamos lá.

3 Nota de Pedro Calabrez: alguns pesquisadores criticam o uso de “entropia” como sinônimo de “desordem”. Uma alternativa seria “incerteza” — que também é alvo de críticas. Optei pelo termo original de Ludwig Bolztmann, que propôs a segunda lei da termodinâmica. “Desordem”

é também o termo usado por Sean Carroll, autor da visão cosmológica aqui exposta.

4 Nota de Pedro Calabrez: não estou considerando aqui a teoria dos multiversos. No entanto, é importante ressaltar que, ainda que o nosso universo tenda ao vazio, existe a possibilidade de novos universos surgirem a partir dele.

 

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Um pálido ponto azul

Calabrez: O caminho que traçamos até aqui foi uma breve introdução às grandes cosmologias — concepções e visões do cosmos — da Antiguidade até hoje. Os mais importantes cosmólogos do mundo atual são físicos. A maioria das pessoas conhece nomes como Stephen Hawking e Neil deGrasse Tyson.

Por que eles são importantes? O que os torna importantes? Considero “importância” aqui o impacto de suas pesquisas e de seus ensinamentos para a sociedade em geral e para a ciência em específico.

Descrevi há pouco uma visão naturalista do cosmos. O mundo natural evolui de acordo com padrões inquebráveis: as leis da natureza. A única forma confiável de aprender sobre como o mundo funciona é observando seu funcionamento.

Concorde ou não, o naturalismo é hoje o modus operandi padrão da ciência. Com isso quero dizer que todos os grandes paradigmas científicos que se encontram ativos são naturalistas. Sem exceção. Todas as revistas científicas de alto impacto (como Nature e Science) abordam o

mundo de forma naturalista. Todos os cosmólogos importantes que mencionei apresentam visões naturalistas.

Isso incomoda muita gente. Muitos pensam que com isso a ciência está dizendo que a religião ou a espiritualidade são desnecessárias.

Existem de fato cientistas que defendem essa postura.

Mas isso não me parece verdade.

O que aprendi com o naturalismo é que, ao buscar as melhores formas de falar sobre o mundo, devemos nos esforçar para que essas formas sejam coerentes entre si e coerentes com o que é observado no mundo.

Para isso, é preciso duvidar. Duvidar de tudo.

Imagine um mundo sem a postura de dúvida. Sem motivação investigadora. Sem a intenção constante de entender melhor as coisas.

Sem abertura para jogar fora ideias obsoletas, adotando ideias melhores.

Sem tudo isso, ainda acreditaríamos que o Sol é o deus Rá, como fizeram os egípcios. Ou Hélios para os gregos, Tonatiuh para os astecas, e por aí vai.

Não estou banalizando a importância dos mitos. Caracterizar o Sol como um deus já foi um dia o melhor jeito de falar sobre o mundo. Os mitos dizem muito sobre quem somos e especialmente sobre quem já fomos. No entanto, falar de um deus Sol nos dias de hoje não é mais a melhor forma de explicar como o mundo funciona. Não é coerente com as observações que fazemos do mundo com as ferramentas da ciência. O

Sol não é um deus. É uma estrela. Sabemos o que são estrelas, do que são feitas e como nascem e morrem.

A postura científica não busca trazer verdades absolutas. As verdades científicas são provisórias. São a melhor explicação que temos para aquele fenômeno naquele momento. Pode ser que haja explicações melhores. Se as encontrarmos, mudaremos nossa maneira de falar sobre o fenômeno. Se não as encontrarmos, continuaremos procurando.

Vivemos em um universo repleto de mistérios.

Os exemplos são muitos.

O universo está em expansão acelerada, e não sabemos ao certo os porquês disso. Existe uma “energia escura”, ou “energia fantasma”, acarretando essa expansão. Existe também um tipo de matéria que não conseguimos identificar com nenhum dos nossos recursos científicos atuais. Só sabemos de sua existência devido às “pegadas” que essa matéria deixa: a gravidade que ela exerce em outros tipos de matéria. Os cientistas chamam-na de “matéria escura”. Um detalhe interessante: a energia escura e a matéria escura, somadas, representam 95% da massa/energia do universo observável.

O que ocorre dentro de buracos negros?

O que veio antes do Big Bang?

O que exatamente foi o Big Bang?

Estes e outros muitos mistérios são de deixar qualquer um perplexo.

Há tantas coisas que não sabemos, tantas coisas que talvez nunca

saibamos. O terreno de possibilidades aberto pela ciência é muito vasto.

Gosto muito da alegoria da “ilha do conhecimento” proposta pelo físico Marcelo Gleiser. Para ele, vivemos em uma ilha onde o conhecimento se acumula progressivamente. O oceano ao redor da ilha representa nossa ignorância. A ilha tende ao crescimento, pois acumulamos cada vez mais conhecimento conforme o tempo passa.

Nosso conhecimento é cada vez maior. Consequentemente, a ilha é cada vez maior.

Acontece que, quanto maior ficar a ilha, maior será o tamanho de suas fronteiras. E isso aumentará o contato da ilha com o oceano de ignorância. Em outras palavras, o aumento de conhecimento acarreta um necessário aumento da consciência que temos de nossa própria ignorância.

E não há fim para esse processo: nunca haverá o momento em que construiremos um computador com as capacidades do demônio de Laplace.

Talvez, quando você estiver lendo estas páginas, tenham se passado anos desde a publicação deste livro, e alguns mistérios tenham sido desvendados. Se isso tiver acontecido, estou seguro de que muitos novos mistérios terão surgido. Estamos fadados ao mistério e precisamos encontrar conforto dentro desta ideia: não somos capazes de saber tudo.

Isso não é derrotismo. Admitir nossa ignorância só é triste para aqueles que têm pretensões delirantes de grandiosidade. Admitir nossa ignorância nos permite a humildade para virar a página e recomeçar,

abandonando visões de mundo obsoletas ou admitindo que estávamos errados desde o princípio.

Somos limitados. Primeiramente pelas ferramentas, instrumentos e teorias do momento em que vivemos. Mas somos limitados sobretudo pela própria aparelhagem cognitiva humana. Nosso cérebro é uma máquina. Inevitavelmente há coisas que ele não será capaz de compreender.

Devemos ser humildes sempre.

Nosso Sol, fonte de nossa energia e da vida, é apenas uma entre cem bilhões de estrelas que ocupam nossa galáxia, a Via Láctea. Até 2016, os cientistas estimavam que o universo observável continha entre 100 e 200

bilhões de galáxias. Hoje, após novas observações do telescópio Hubble, esse número aumentou para 2.000.000.000.000. Isso mesmo: dois trilhões de galáxias. Lembre-se: isso é o universo observável. Há partes do universo que ainda não somos capazes de enxergar.

Mas vamos com calma, pois em 2018 será lançado o telescópio espacial James Webb — sucessor do Hubble. É incrível imaginar quais serão as novas descobertas.

Em meio a essa imensidão indescritível, em uma galáxia dentre dois trilhões de galáxias observáveis, próximo a um dos cem bilhões de estrelas desta galáxia, existe um pequeno planeta azul. Nosso jovem planeta, com 4,5 bilhões de anos. Afinal, o Big Bang ocorreu há 13,8

bilhões de anos. Nesse planeta, em um momento específico do cosmos,

quando havia direção do tempo e complexidade. . Naquele momento, devido a uma série de eventos altamente improváveis, surgiu algo chamado “vida”. É um momento fugaz, pois um dia não haverá mais vida. Não haverá mais passado e futuro. Estrelas morrerão, e buracos negros evaporarão. Mas, nesse momento especial e passageiro, a vida é possível. Mais do que isso, a vida inteligente é possível. Consciência e autoconsciência são possíveis. Eu e você somos possíveis.

Seres humanos — uma espécie que tem duzentos mil anos. Parece muito. Mas imagine a existência do universo. Imagine todo o período de existência do universo encaixado dentro de um só ano. Um calendário cósmico. O Big Bang ocorre no primeiro minuto de 1º de janeiro. O

momento em que escrevo este livro ocorre à meia-noite de 31 de dezembro. A Via Láctea é formada em 16 de março. Nosso sistema solar se forma em 2 de setembro. Sabe quando surge a humanidade? Às 23h52

de 31 de dezembro.

Duzentos mil anos parecem muita coisa para quem vive míseros cem anos. Mas são quase nada perante a vastidão do cosmos.

Em 14 de fevereiro de 1990, a sonda espacial Voyager 1 havia completado sua missão primordial: estudar Júpiter e Saturno. Em 2012, ela saiu do sistema solar. A primeira aeronave humana a entrar no espaço interestelar. Mas, em 1990, ela tirou uma foto. Uma selfie no espaço. Uma das mais famosas fotos da história: uma imensidão escura.

Lá no meio, difícil de ver, um pontinho. Um pálido ponto azul: a Terra, fotografada a seis bilhões de quilômetros de distância.

A essa distância, a Terra pode não parecer muito interessante.

Mas para nós é diferente. Considere novamente esse ponto. É

aqui. É o nosso lar. Somos nós. Nele estão todos aqueles que você ama, todos aqueles que você conhece, todos de quem você já ouviu falar, todos os seres humanos que já existiram, todos que já viveram suas vidas. A totalidade de nossas alegrias e sofrimentos, milhares de confiantes religiões, ideologias e doutrinas econômicas, todos os caçadores e coletores, todos os heróis e covardes, cada criador e destruidor de civilizações, cada rei e plebeu, cada jovem casal apaixonado, cada mãe e cada pai, cada criança esperançosa, cada inventor e cada explorador, cada professor de ética, cada político corrupto, cada “superstar”, cada

“líder supremo”, cada santo e cada pecador na história da nossa espécie viveu ali — nesse grão de poeira suspenso num raio de sol.

A Terra é um palco muito pequeno numa vasta arena cósmica.

Pense nos rios de sangue derramados por todos aqueles generais e imperadores para que, em glória e triunfo, eles pudessem ser mestres momentâneos de uma fração de um ponto. Pense nas infinitas crueldades cometidas pelos habitantes de um canto desse pixel contra seus iguais de outro canto. Pense em quão frequentes

foram os desentendimentos entre eles, em quão sedentos eles estavam para matar uns aos outros, em seus ódios fervorosos.

Nossas atitudes, nossa autoimportância imaginária, o delírio de que temos uma posição privilegiada no universo são desafiados por esse ponto de luz pálida. Nosso planeta é uma manchinha solitária na grande escuridão cósmica que nos envolve. Em nossa obscuridade, em toda essa vastidão, não existe qualquer indício de que a ajuda virá de outro lugar para nos salvar de nós mesmos.

A Terra é o único mundo que conhecemos, até agora, capaz de abrigar a vida. Não há outro lugar, pelo menos num futuro próximo, para onde a nossa espécie possa migrar. Visitar? Sim.

Assentar-se? Ainda não. Goste você ou não, no momento, a Terra é onde temos de armar morada.

Já foi dito que a astronomia é uma experiência de humildade e formação de caráter. Talvez não exista uma demonstração melhor da tolice das vaidades humanas do que essa imagem distante do nosso pequeno mundo. Para mim, ela reforça a nossa responsabilidade de sermos mais gentis uns com os outros e de preservar e valorizar o nosso pálido ponto azul, o único lar que já conhecemos.

Essas foram as palavras de Carl Sagan em uma conferência pública na Cornell University, em 1994. Pale Blue Dot ( Pálido ponto azul), além disso, é o título de um livro de Sagan. Uma recomendação: procure o

vídeo na internet para ouvir esse belíssimo texto na voz do autor. Um gigante cujo ombro serve de apoio para que todos nós enxerguemos mais longe.

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Em meio a tudo isso, eis que estamos aqui. Eu escrevendo, você lendo.

Nós dois refletindo sobre todas essas coisas incríveis.

Você tem ideia de quão raro e especial é isso? Nascemos com um cérebro capaz de apreciar toda a elegância do cosmos. Um cérebro capaz de contemplar e compreender a vastidão complexa do universo. Um cérebro que consegue filosofar sobre a existência e pensar sobre si próprio, tentando entender como nós mesmos funcionamos. Um cérebro que permite, acima de tudo, que sejamos capazes de construir um mundo amanhã melhor do que este que temos hoje.