Em busca de nós mesmos

Clóvis de Barros Filho · Capítulo 28 de 31

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Em busca de nós mesmos

Liberdade

Mas isso é cuidar de alguém. Agora, será que eu posso cuidar de mim mesmo? Isso implicaria que eu pudesse discernir sobre coisas que possam me alegrar e me entristecer. Implicaria que minha inteligência estivesse a serviço dos meus afetos. Exigiria que eu tivesse a capacidade de, por antecipação, encontrar coisas no mundo que pudessem me alegrar e me livrar daquelas que fossem me entristecer. Cuidar de si exige uma incrível capacidade de antecipação do resultado afetivo dos encontros com o mundo. Cuidar de si não é nada fácil, pois você está sozinho diante de um mundo que sempre surpreende e raramente no sentido da alegria. Cuidar de si, ter zelo com os próprios afetos, usando a inteligência para evitar aquilo que apenas supomos que possa entristecer.

O cuidado consigo mesmo pode estar cheio de erros, pois só evitaremos mundos que entristecem em função de experiências anteriores. Só vamos procurar mundos que alegram em função de experiências anteriores, e, todo mundo sabe, as experiências anteriores não se repetem tal e qual. Às vezes, porque nos entristecemos um dia, perdemos a chance de nos alegrarmos; porque nos alegramos um dia, perdemos a chance de evitar uma tristeza.

Cuidar de si não é nada fácil. Acho mesmo que é o que tentamos fazer o tempo inteiro. Usamos a inteligência para encontrar mundos alegradores e evitar mundos entristecedores. Mas a inteligência é pouca diante de um mundo tão complexo. O mundo será sempre muito mais difícil do que a nossa capacidade de antecipá-lo, diagnosticá-lo e identificar o que nos convém e o que não nos convém. Cuidar de si é só uma tentativa fadada ao fracasso porque, se fosse bem-sucedida, talvez não morrêssemos nunca.

 

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Liberdade

Clóvis: Muito se fala de liberdade. A palavra “livre” está na boca de todos. Mas o que pode ser livre? Livre é atributo de qual substância?

Você sabe que amargo é atributo de chocolate e que jamais seria atributo de um criado-mudo ou de um cabide. Dizer que um cabide é amargo é um absurdo.

Livre é atributo de quê? O que pode ser livre? Alguém dirá: A pessoa pode ser livre.

Mas isso é vago demais. Afinal, o que é livre numa pessoa?

A primeira coisa em uma pessoa que pode ser livre é na sua ação, na sua conduta. O indivíduo preso está privado de muitos comportamentos e de muitas ações. A segunda coisa é em nosso pensamento; podemos pensar o que nos vem à cabeça, sem limites. A terceira coisa que poderia ser livre em nós é o nosso desejo. Aquilo que queremos para nós. Será?

Será que somos livres para querer? Será que somos livres para desejar?

Ou o desejo se impõe a nós? Ou assistimos ao nosso corpo desejar sem nada poder fazer? Será que o desejo nos tiraniza? Será que no desejo reside a nossa maior escravidão?

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Falar de liberdade nos remente a um lindo conceito da filosofia do século 20, que é o conceito de má-fé. Costumo brincar nas palestras que somos sempre dois. Refiro-me a nós mesmos enquanto corpos que desejam, que sentem, que se alegram, que sofrem, que pensam, mas me refiro também a nós enquanto consciência que temos de nós mesmos, do nosso corpo, das nossas sensações e dos nossos pensamentos. Dessa forma, quando você vê que engordou, são dois: o gordinho e quem percebeu que engordou. Quando você brocha, são dois: o brocha e o envergonhado.

Vergonha é uma forma particular de tristeza. Já sabemos que tristeza é sempre perda de potência, diminuição da nossa potência de agir. A vergonha é uma tristeza com uma causa muito especial, é um atributo flagrado em si mesmo, é uma tristeza que nós mesmos nos proporcionamos.

Podemos nos entristecer com o que acontece no mundo, podemos nos entristecer com outras pessoas, podemos nos entristecer com ocorrências. A vergonha é sempre uma tristeza causada por nós mesmos.

É o flagrante de um desalinhamento. É quando percebemos um comportamento, uma conduta, um pensamento incompatível com a nossa identidade, com o que acreditamos ser, incompatível com as características que acreditamos serem as nossas. Esse desalinhamento

nos faz perder a face, nos faz entristecer, nos faz corar, nos produz vergonha.

A vergonha é uma tangência privilegiada entre o corpo e a alma. Na vergonha existe flagrante consciente e racional de um atributo vergonhoso em nós mesmos. E na vergonha também há corpo, célula, hormônio, sensação. A vergonha é a imbricação nobre entre a razão e a paixão na tristeza. É, portanto, um momento privilegiado para percebermos o quanto nossa razão depende de nossas paixões e o quanto nossas paixões dependem daquilo que pensamos.

A cada conduta que temos, podemos ter alguma consciência. Podemos nos alegrar com o que fazemos — o que chamamos de orgulho — e podemos nos entristecer com o que fazemos — o que chamamos de vergonha. A possibilidade de pensar sobre nós mesmos, de ter consciência de si, é condição para a nossa liberdade. Quem não pensa sobre si acanha a liberdade de sua conduta; afinal, vai agindo sem discernimento sobre outras possibilidades de vida. Quanto mais você conseguir ter consciência de si, mais perceberá o quanto a sua vida pode ser outra e mais se dará conta da própria liberdade.

E o que vem a ser má-fé? É a negação dessa dualidade, a negação da consciência de si, a negação da liberdade. Aquele que age de má-fé está o tempo inteiro justificando suas condutas não pelo próprio discernimento, não pela própria escolha e sim pela fatuidade dos encontros pelo mundo, pela inexorabilidade das circunstâncias de vida.

Aquele que age de má-fé nega que poderia ter agido diferentemente, nega que sua vida seja feita de escolhas, nega que está onde está, mas que poderia ter escolhido estar em outro lugar. Portanto, aquele que nega a liberdade e nega a escolha acaba negando a própria humanidade.

Aquele que age de má-fé faz questão de fazer do gato o seu grande ídolo.

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Muito da nossa presença no mundo não é objeto de nenhuma decisão, são meras reações às coisas que vão acontecendo diante de nós. Porém, parte de nossa existência é revestida por condutas deliberadas e escolhidas no meio de tantas outras que pareceram piores. Essas escolhas são sempre complicadas. Na hora de eleger a melhor conduta, na hora de jogar no lixo aquilo que não vamos fazer, a equação é complexa.

Muitas vezes nos servimos de regras morais. Regras morais são fundadas em princípios morais, isto é, referências de conduta que nos parecem importantes, que parecem ter valor e que gostaríamos que norteassem nossa vida. Por exemplo, somos cordiais com as pessoas porque a cordialidade é importante para nós. Dizemos a verdade para as pessoas porque ela é importante para nós. Somos leais aos nossos parceiros porque a lealdade é importante para nós. Porém, o que acontece é que, na hora de decidir, muitos desses princípios entram em conflito.

Imagine que alguém volte do cabeleireiro, alguém que você queira bem, e você não goste muito do resultado capilar que vê. Nesse momento, você fica em dúvida entre dizer a verdade e ajudar a pessoa numa próxima escolha de style ou dizer que gostou para ser amável, para ser gentil, para ser polido. Você percebe que existe aqui um conflito entre a polidez e a gentileza de um lado e a verdade de outro.

Outras vezes, nas intimidades com outros corpos debaixo dos lençóis, você não tem a melhor das sensações. Alguém dá uma mordida desagradável, alguma coisa que a pessoa talvez acredite causar prazer, mas de que você não gosta muito e fica na dúvida entre dizer que gostou ou dizer a verdade.

Cada conduta pode ser objeto de conflito e problema. É o colega que cola, e você se vê na dúvida entre ser leal ao colega ou dizer a verdade ao professor. Você que é servidor público e recebe uma proposta que lhe permitirá proporcionar a quem ama uma vida material mais digna em troca da facilitação de um privilégio para um agente corruptor. Você fica na dúvida de por que não proporcionar às pessoas que ama uma vida materialmente melhor em nome de uma sociedade que na verdade você nunca viu e nem conhece?

Como você vê, os dilemas morais fazem parte da nossa vida. Portanto, muito mais do que ter princípios e regras morais, é preciso pensar para estabelecer uma hierarquia entre eles, pois somente essa hierarquia

permitirá escolher entre os princípios aqueles que verdadeiramente nortearão a sua vida.

Calabrez: Isso me faz pensar em Sócrates. Ele foi condenado à morte e preso. Teve, portanto, seu direito de ir e vir totalmente impedido.

Podemos dizer que Sócrates perdeu sua liberdade. No entanto, parece-me que Sócrates foi mais livre do que muitos homens que hoje gozam de ampla possibilidade de deslocar-se para onde bem entendam.

Outro exemplo que me vem à cabeça é mais recente: o francês Jean-Dominique Bauby. Ele era um ator, escritor e editor-chefe da prestigiosa revista de moda El e. Em 1995, aos 43 anos de idade, sofreu um devastador derrame cerebral. O resultado foi o que em neurologia chamamos de “síndrome do encarceramento”. Como o nome sugere, o paciente fica encarcerado em seu próprio corpo, incapaz de se mover, falar, respirar. .

Ao acordar no hospital, Bauby só conseguia mexer a pálpebra esquerda. No entanto, as faculdades mentais de pacientes com síndrome do encarceramento em geral permanecem intactas. As memórias e a capacidade de raciocínio, por exemplo, não sofrem prejuízos. Esse aprisionamento — uma mente intacta dentro de um corpo paralisado —

pode ser considerado uma terrível perda de liberdade.

Eis o paradoxo: mesmo encarcerado, sem poder se mover, Bauby escreveu um livro. Utilizando apenas o piscar de sua pálpebra esquerda, com a ajuda de uma pessoa que passava o dedo sobre o alfabeto, de

novo e de novo, para cada letra. Ele compôs e editou — dentro de sua cabeça — o belo livro O escafandro e a borboleta, que foi adaptado para o cinema em um filme de mesmo nome.

Sobre esse tipo de liberdade também podemos pensar em Stephen Hawking. Aos 21 anos de idade, foi diagnosticado com esclerose lateral amiotrófica — doença neurodegenerativa que progressivamente paralisou todo seu corpo. Hoje, o professor Hawking comunica-se por meio de um computador. Um sensor capta movimentos em sua bochecha — a única musculatura que ele ainda é capaz de controlar. Enclausurado em uma cadeira de rodas, ele é responsável por importantíssimas ideias da astrofísica nas últimas décadas. Um exemplo é a já mencionada evaporação dos buracos negros.

Quantas pessoas são livres para se mover, correr e pular — mas possuem mentes incapazes de alçar voo, de criar e refletir, de pensar diferente, de desconstruir e reconstruir ideias? Falo aqui dos preconceituosos e canalhas, por exemplo.

É natural para mim, ao falar de liberdade, pensar na liberdade da mente. A liberdade de Sócrates, Bauby e Hawking.

Isso pode levar o leitor a pensar que a mente é uma entidade independente do corpo. Ou seja, que flutua livre, independentemente das condições do corpo. Ao que tudo indica, isso é um erro. “O erro de Descartes”, como disse o neurocientista António Damásio. Erro dos

pensadores dualistas, que consideram mente e corpo como coisas separadas e independentes.

Há casos documentados de pessoas afáveis e amistosas que de repente apresentam comportamentos agressivos, chegando a assassinar familiares ou amigos. Quando examinam essas pessoas, os médicos descobrem tumores pressionando estruturas do cérebro associadas ao processamento emocional. Se o tumor é removido, a pessoa retorna ao estado amistoso — e cai em prantos, em um misto de arrependimento e horror, ao dar-se conta de que matou um ente querido.

Já falei na segunda parte do livro sobre a doença de Alzheimer. Uma doença triste e debilitante. O paciente perde a memória, a capacidade de tomada de decisão e o raciocínio. Além disso, sofre com alterações emocionais, depressão e apatia. Sua personalidade muda. Seu comportamento muda. Sua mente definha pouco a pouco, gerando sofrimento também para os familiares, que presenciam as alterações. Em suma, a pessoa deixa de ser quem era. A doença de Alzheimer está associada ao acúmulo de um certo tipo de proteínas, as proteínas tau e beta-amiloides, que causam degeneração dos neurônios. Em outras palavras, são estruturas cerebrais que morrem.

O cérebro do psicopata é diferente do meu e do seu. Ele tem disfunções em uma série de circuitos. O psicopata é incapaz de sentir empatia, carinho e vergonha, por exemplo. Quando vê uma pessoa sofrendo, você sofre junto com ela (a não ser que ela seja sua inimiga). O

psicopata não sente essa empatia, essa dor partilhada — seu cérebro é incapaz disso.

Depressão, bipolaridade, transtorno obsessivo-compulsivo, pânico, déficit de atenção, esquizofrenia. Todas essas já foram consideradas doenças “psicológicas”, ou seja, doenças da mente — sem relação com o corpo. Hoje, alguns dos maiores avanços na compreensão dessas (e tantas outras) doenças é no estudo das disfunções cerebrais e também genéticas do paciente.

Quem sofre com Alzheimer não tem liberdade para lembrar-se das coisas. Quem sofre com depressão não tem liberdade para sentir-se feliz e motivado. A pessoa com um tumor (como mencionado acima) não tem liberdade para não sentir raiva. O psicopata não é capaz de sentir empatia, tal como você não é capaz de enxergar a luz infravermelha que sai do seu controle remoto.

São mentes aprisionadas, limitadas, ceifadas. Em outras palavras, mentes doentes. Repito mais uma vez a frase do grande professor de Harvard, Steven Pinker: “A mente é o que o cérebro faz”. E o cérebro faz parte do corpo, assim como o nariz e o estômago. A mente existe em relação íntima com o cérebro e, portanto, com o corpo.

Corpos doentes estão associados a mentes doentes. Veja Platão. Viveu oitenta anos, numa época em que não existia privada nem antibiótico.

Era um atleta. Como eu disse anteriormente, seu nome, acredita-se, era Arístocles. O apelido Platão significa “o amplo”, “ombros largos”.

Alimentava-se bem. A famosa “dieta do Mediterrâneo” é até hoje uma das mais saudáveis que conhecemos. Dormia à noite — afinal, não havia luz elétrica, smartphone e Netflix. Manteve-se também intelectualmente ativo até seus últimos dias.

Se você lembrar do Capítulo 20 da Parte 2, perceberá que essas são práticas fundamentais à manutenção da saúde do corpo em geral e do cérebro em específico. Previnem ansiedade, depressão, Alzheimer, derrame cerebral. A liberdade da mente está intimamente associada à liberdade do corpo. O corpo doente condena a mente ao aprisionamento.

Mentes livres precisam de corpos saudáveis e livres.

Se Sócrates não tivesse seu corpo aprisionado e morto, quanto mais conseguiria ter feito pelo pensamento humano?

Bauby morreu pouco tempo depois da publicação de seu livro. E só sobreviveu para publicá-lo com a ajuda de máquinas hospitalares.

Imagine que Platão tivesse vivido uma vida sedentária, regada a estresse, tabagismo, junk-food e Rivotril. Talvez sintomas de demência surgissem precocemente. Teria ele escrito A república, uma obra-prima do pensamento humano (concluída quando ele tinha mais de 50 anos de idade)?

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O leitor pode ter concluído que a pessoa adulta, de corpo e mente saudáveis, pode ser totalmente livre.

Será?

Infelizmente, tudo indica que não é bem assim. A imensa maioria do que eu e você pensamos, desejamos, sentimos e fazemos é resultado de operações mentais às quais não temos acesso. Na ciência, chamamos esse mundo de “inconsciente”. Leibniz, Schopenhauer e Nietzsche, por exemplo, já falavam de processos inconscientes (sem usar este nome).

Mas foi Sigmund Freud, brilhante e revolucionário, quem nomeou e tornou famosa a ideia de que não temos conhecimento da maioria dos processos mentais que ocorrem dentro de nós. As ciências da mente hoje ajudam a compreender as dinâmicas e engrenagens do inconsciente.

Se você está sentado lendo este livro, aposto que não está consciente da pressão que o assento está fazendo sobre suas nádegas. Agora você está — só porque chamei sua atenção. Antes, isso era um processo totalmente inconsciente. Você não está consciente dos mecanismos que controlam sua pressão arterial, frequência cardíaca, respiração, peristaltismo e tantas outras coisas.

Mas isso não se restringe às funções fisiológicas aparentemente

“mecânicas”. Nossos desejos, decisões e julgamentos frequentemente fogem ao nosso controle consciente. Darei alguns exemplos (todos derivados de estudos científicos):

Um supermercado colocou nas prateleiras quatro vinhos franceses e quatro vinhos alemães. Para cada vinho francês, havia um equivalente alemão (em termos de uva, preço e

secura/doçura). Em dias alternados, o supermercado tocou músicas francesas e alemãs. Nos dias de música alemã, 73%

dos vinhos vendidos foram alemães. Nos dias de música francesa, 77% dos vinhos vendidos foram franceses. Após a compra, os participantes responderam um questionário que demonstrou que não haviam percebido a influência da música sobre a preferência.

Em outro estudo, os participantes que seguravam um copo de café quente tenderam a descrever certas pessoas como mais generosas e cuidadosas do que participantes que seguravam um copo de café gelado (e descreviam as mesmas pessoas). Os pesquisadores ofereceram-lhes presentes para que escolhessem se ficariam com o presente para si ou dariam para amigos. Os participantes do grupo que segurou o copo de café quente tiveram tendência significativamente maior à escolha de dar o presente a amigos.

Quando pesquisadores forçaram pessoas ao sentimento de nojo — com um cheiro ruim ou um filme nojento —, elas tenderam a fazer julgamentos (do que é bom e ruim, certo e errado) mais severos do que pessoas não submetidas ao nojo.

Participantes de um estudo que preencheram o questionário da pesquisa ao lado de um tubo de gel

higienizador para as mãos tenderam a apresentar visões políticas mais conservadoras do que aqueles que preencheram o questionário sem a presença do tubo.

Um estudo observou que strippers recebiam gorjetas significativamente maiores quando estavam ovulando do que quando estavam fora da ovulação e que as gorjetas eram ainda menores quando estavam menstruadas. Já as strippers que tomavam pílula anticoncepcional não apresentavam variações.

Eu poderia continuar e preencher um livro inteiro sobre as diversas formas pelas quais nossas decisões, desejos e comportamentos são influenciados por fatores inconscientes. .

Mas termino apenas com uma provocação: estudos indicam que o cérebro inicia um comportamento segundos antes de acharmos que decidimos aquele comportamento. Em outras palavras, do ponto de vista de operação cerebral, a crença de que decidimos ocorre após a decisão ocorrer (inconscientemente). Por esses e outros motivos, diversos pesquisadores acreditam que o livre-arbítrio é uma ilusão. E não é gente pequena não. Estou falando de alguns dos cientistas mais respeitados do mundo, de universidades como Harvard e Oxford.

Essa eu deixo você, leitor, resolver. Do meu lado, digo apenas que a liberdade é muito mais complexa e provavelmente muito mais limitada

do que as nossas sensações de livre-arbítrio cotidianas fazem parecer.

Uma provocação: será que qualquer um é livre para ser cientista e contribuir para o conhecimento como fez Einstein? Será que todos temos a liberdade para treinar futebol e jogar tão bem quanto Lionel Messi?

Clóvis: Em qualquer atividade humana é fácil perceber a combinação de talento — habilidade, dom natural — e esforço — dedicação e transpiração. Qual será o comportamento de maior valor? Aquele determinado pelo talento, pelo dom natural — pela virtude, como diria Aristóteles — ou o comportamento que resulta de esforço, dedicação e transpiração?

É curioso observar que o esforço resulta da vontade, da decisão, da deliberação de cada um. Quando nos esforçamos, poderíamos não nos esforçar. O esforço é uma decisão, é o que chamamos de força de vontade.

O talento não. Este é um dado da natureza, um presente, um recurso natural que herdamos do nascimento. O talento impõe-se a nós, não escolhemos, não decidimos. O talento é o que é.

O esforçado poderia não ser, mas o talentoso tem que ser. Vivemos uma crise do valor do talento porque a ideia de mérito — ou de meritocracia, tão badalada no mundo profissional e das organizações —

implica sempre a possibilidade de agir diferente, a possibilidade de não ser o que se é. Todo mérito pressupõe uma decisão meritória e por isso há o aplauso pelo esforço, pela dedicação, pelo sangue nos olhos e pela faca nos dentes.

Já o comportamento talentoso sem esforço costuma ser entendido como resultado de uma injustiça na distribuição natural de recursos e por isso nem sempre é tão aplaudido. No mundo artístico, o talento ainda é reconhecido. Fora dele, o que se espera é que você rale de sol a sol. O talento cedeu a vez ao esforço. Normal em uma sociedade que vê na igualdade o princípio ético fundamental; afinal, na hora de nos esforçarmos, todos estamos no mesmo ponto de partida. Se a régua é o esforço, partimos do mesmo lugar, mas, se a régua for o talento, há uma desigualdade de princípio que jamais poderemos subverter. Por isso o aplauso é ao esforço, mesmo que este seja medíocre, amarrado e emperrado.

No esporte isso é claro. Dois irmãos, Raí e Sócrates, fizeram história no futebol brasileiro. Sócrates era puro talento e zero de esforço. Raí, algum talento e muita dedicação. No final das contas, Sócrates era muito mais jogador do que Raí, mas este último foi muito mais aplaudido e venerado com títulos do que Sócrates.

Calabrez: Isso pode nos remeter inclusive a uma questão de justiça.

Afinal, parece não ser “justo”, no sentido atual da palavra, alguns nascerem com tanto (de talentos naturais como inteligência, destreza esportiva, beleza, etc. ) e outros com tão pouco. A distribuição de talentos na natureza é radicalmente assimétrica. E assimetrias sociais

hoje são consideradas injustas por muita gente. Muitos trazem isso inclusive para a esfera econômica: alguns nascem com quase nada, enquanto outros nascem bilionários.

Mas justiça não é um conceito fundamental da natureza. Não existe uma partícula chamada “justiça” ao lado dos quarks e do bóson de Higgs.

Justiça é um certo jeito que usamos para nos referir às relações entre os seres humanos e o mundo.

Clóvis: Os atributos naturais, os recursos que a natureza lega a cada um, acabam sendo fator de legitimação do exercício de certo poder, ao menos para o pensamento antigo. Imagine um indivíduo que tenha nascido com algum problema físico, um deficiente físico. Esse indivíduo é pobre em recursos naturais, pelo menos alguns deles. Então, será entendido como inferior. Isso significa que, na hierarquia social, ele terá mais que obedecer do que mandar e estará condenado a uma posição de submissão em relação àqueles que lhe são naturalmente superiores.

Na hora de pensar uma cidade justa, os gregos têm uma opinião muito clara a respeito: os recursos da cidade devem permitir que cada um fique no seu lugar e devem permitir que as pessoas dotadas de mais talento, de mais legado da natureza, possam desabrochar seus recursos no sentido da excelência. Assim, a cidade justa para os gregos acaba reforçando traços de força e de potência preexistentes na condição natural de cada um. Aristóteles não dá margem à dúvida: “Para quem temos que entregar a melhor flauta? Ora, a melhor flauta para o melhor

flautista”. O indivíduo talentoso por natureza deve dispor do recurso mais caro.

Também devemos dar escolaridade, condição de aperfeiçoamento do pensamento, para quem já é naturalmente talentoso para pensar. Isso significa que a cidade justa acaba reforçando aquilo que a natureza já distribuiu de forma desequilibrada. Você haverá de concordar que no mundo moderno muitos de nós pensamos rigorosamente o contrário: a cidade justa deve corrigir as desigualdades de princípio, deve facilitar a vida daquele que é naturalmente mais frágil. Desse modo, aqueles que têm alguma deficiência contam com uma série de facilidades aplaudidas por todos — ou quase todos. O que se pretende é que o cego possa deslocar-se tendo facilitação para isso, que o cadeirante possa tomar um elevador sem dificuldade e que haja tudo para que o indivíduo com alguma dificuldade possa ter uma vida equiparada à vida daquele que não tem dificuldade nenhuma, ao mais bem-dotado por natureza.

Concluindo essa história, o que os gregos chamavam de uma cidade justa é mais ou menos o contrário do que nós chamamos. Pelo menos no que diz respeito à relação com os atributos naturais. Para os gregos, a cidade justa é aquela que coloca o naturalmente dotado em posição de superioridade e em condição de busca da excelência, e o naturalmente desprovido em condição de jamais sair do lugar que lhe é naturalmente devido.

Calabrez: Parece-me que, pelo menos nessa questão, o mundo atual nos permite maior liberdade do que o mundo antigo.

O mundo tende, cada vez menos, a suportar modelos aristocráticos nos quais a essência do indivíduo é determinada pelo seu lugar “natural”

de nascimento. Em seus sistemas legislativos, as sociedades buscam oferecer oportunidades de maneira mais equilibrada aos cidadãos, considerando as discrepâncias entre eles — um exemplo é a acessibilidade às pessoas com deficiências.

Isso é inegável. Incomoda-me, no entanto, a visão de que o mundo atual é plenamente livre. De que podemos ser e viver o que bem entendermos. Em uma espécie tão social quanto o Homo sapiens, a plena liberdade individual é necessariamente um delírio. Não há indivíduo sem sociedade. Logo, não há liberdade individual plena.

O maior indício de que não somos tão livres talvez seja o quanto mudamos ao longo de um mesmo dia para tentar nos adequar àquilo que outras pessoas esperam de nós. .

Clóvis: Uma distinção que me parece relevante é entre uma simples escolha e uma decisão. Às vezes podem parecer significar a mesma coisa.

Mas uma escolha é uma simples constatação da superioridade de um meio, de uma estratégia, de uma ação para a obtenção de um determinado fim ou objetivo. Aquele que escolhe acredita dominar a extensão das consequências de cada uma das possibilidades cogitadas e

assim, de forma lógica e racional, constata que uma delas é mais propícia a permitir alcançar o objetivo almejado.

Poderíamos dizer que, no caso dessa escolha racional, não há propriamente uma escolha, dado que a seleção da alternativa mais conveniente decorre de critérios que se impõem completamente a quem está agindo.

Por outro lado, uma decisão exige a identificação da melhor alternativa entre vários possíveis caminhos, sem que o decisor acredite dominar todas as variáveis ou todas as consequências possíveis das alternativas em exame. Seja porque não dispõe de tempo hábil para essa avaliação, seja porque a eficácia de cada uma das possibilidades depende de ocorrências supervenientes, isto é, cronologicamente posteriores à tomada de decisão —, o ato de decidir vai além de uma mera constatação. Exige, portanto, um comprometimento pessoal e uma tomada de risco.

Podemos dar dois exemplos.

Aquele que pretende emagrecer e tem à disposição dois tipos de alimento com os devidos valores nutricionais, deverá optar de maneira lógica pelo menos calórico. Trata-se de uma mera constatação.

Mas aquele que pretende carreira longa em uma mesma empresa e deve decidir entre várias alternativas não controla as políticas de gestão e de recursos humanos dos anos que se seguem — em especial em tempos de tanta transformação. Este indivíduo é obrigado a decidir, a assumir um risco, porque deverá identificar e adotar uma alternativa sem controlar tudo que interfere no acerto ou erro da decisão.

Podemos dizer que quase todas as nossas grandes encruzilhadas existenciais são uma questão de decisão e quase nunca uma questão de escolha racional. Isso porque quase sempre as condições que temos para identificar o caminho que percorreremos não nos autorizam o esgotamento das variáveis em jogo, condenando-nos a uma certa incerteza, a assumir grandes riscos e a nos manter acompanhados por uma angústia que nos será fiel.

Por isso talvez tenhamos que esperar de nossos educadores, tanto na formalidade da escola quanto na informalidade da vida, que preparem jovens para decidir, muito mais do que simplesmente escolher.

Um elemento complicador de toda decisão existencial está no conflito possível e provável entre aquilo que entendemos ser nossas características mais intrínsecas e o que a sociedade espera de nós.

Acreditamos ter talentos, aptidões, gostos, desejos, inclinações e apetites que são nossa marca registrada. A sociedade, por sua vez, estabelece as condições de manifestação de cada um desses elementos definidores de nós mesmos.

Isso faz com que a adaptação necessária entre as condições materiais e sociais de existência e tudo aquilo que acreditamos ser a nossa definição seja potencialmente dolorosa. A sociedade já estava ali quando nascemos, acredita ter direito adquirido e não pode tolerar heresia

crônica, sob pena de não garantir um mínimo de ordem e convivialidade. É muito provável que tenhamos que tomar nossas decisões em função de instâncias repressivas cuja contundência ignoramos, ao menos parcialmente.

Você vai ao teatro, e o ator ou a atriz interpreta um papel, encarna a personagem, finge ser quem não é. Termina a peça e volta a ser quem ele ou ela é, o seu verdadeiro eu.

Já você pega as crianças, vai a uma festinha de aniversário, se vê conversando com outros pais e começa a perceber que desempenha bem o papel de pai ou de mãe, fala de coisas de paternidade ou maternidade, de filiação, age como pai ou mãe, adverte o filho — afinal, você está numa festa de aniversário cheia de gente chata que cobra de você certa postura paterna ou materna. Você sai dali, vai dormir e no dia seguinte vai à casa da sogra, encontra toda a família e se vê novamente meio que encenando e falando coisas tipicamente familiares, conversando com cunhados. O domingo passa, você acorda na segunda-feira, vai trabalhar e se pega passando por bom profissional na frente de executivos japoneses que estão ali na expectativa da sua performance. De terno e gravata, você encena a figura do executivo eficaz. Na quarta-feira, você vai ao jogo de futebol à noite, você é torcedor e encarna bem esse papel, grita, esbraveja na arquibancada.

Aí um dia você pensa: máscara no teatro, máscara na festinha, máscara na casa da sogra, máscara de executivo, máscara de torcedor,

máscara, máscara, máscara. . Será que por trás de todas essas máscaras haverá uma não máscara? Uma essência? Um verdadeiro eu? Um Clóvis de verdade que não é professor na USP, que não é palestrante em empresa, em convenção de vendas, que não é aquele que se reúne com executivos para vender suas consultorias, que não é aquele que toma café da manhã com a filha e que está sempre perto dos filhos? O que haverá por trás de todas essas máscaras, de todas essas personagens?

Pois é. Talvez nada. Talvez sejamos apenas máscaras sem rosto.

Personagens em busca de um ator que não existe. Personagens em um eterno teatro, e, por trás delas, só o vazio. Apenas uma força cega, uma energia sem finalidade, sem causa. Apenas vontade. O resto, máscaras.

Máscaras sem rosto. Fingimento permanente. Às vezes com maior, às vezes com menor consciência. É o que chamamos de graus diferentes de cinismo para uma vida na qual vamos nos adaptando como atores que escondem o vazio do seu próprio ser. Afinal, onde apareceria o eu verdadeiro? No vaso pela manhã? Será mesmo? Ou tomando banho sozinho? Ou quem sabe no meio do oceano, velejando?

Vixe! Máscaras mais ou menos sofisticadas de alguém que luta para acreditar ser alguma coisa, mas que não é nada a não ser uma personagem em um teatro sem fim.

E agora, meu amigo? Chupa essa manga.

Calabrez: Não consigo imaginar sociedade mais mascarada do que a que vive em um mundo de redes sociais. Acho apropriado o nome “perfil” ao

se referir às nossas páginas dentro das redes. Perfil no Facebook, perfil no Instagram. Afinal, perfil implica, por definição, que há um outro lado

— um lado escondido daquilo que estamos vendo.

As pessoas investem uma enorme quantidade de energia para transformar-se em vitrines. Vivemos em um mundo repleto de manequins ambulantes.

Mamas acrescidas de silicone, músculos abastecidos com anabolizantes, rostos paralisados por toxina botulínica, sorrisos cirurgicamente construídos no ortodontista, implantes capilares, barrigas e glúteos lipoaspirados e — por que não? — “lipoesculturados”, maquiagem, tatuagem, tinta para o cabelo, piercing no umbigo e onde mais couber, bronzeamento artificial, roupas, acessórios, celulares, namorado(a) troféu para mostrar aos amigos. . Tudo isso cuidadosamente arquitetado para produzir um perfil, uma vitrine de si, para que as pessoas cliquem, curtam e compartilhem. Tudo isso em nome de uma vida aparentemente livre, completa e feliz, escancarada para o mundo através da janela global chamada internet.

De fato, os estudos mostram que olhar no espelho e se sentir bem é um importante fator contributivo para o bem-estar. Isso significa vestir-se e adornar-se do jeito que bem entender. Ser dono do próprio corpo é muito importante.

O problema é quando isso se torna regra existencial. Quando absolutamente tudo é aparência, somente aparência. Quando

construímos nossa vida, incluindo nosso corpo, baseados num desejo de aprovação constante. Ignoramos quaisquer reflexões profundas sobre nós mesmos, pois o que importa é mostrar-se especial para o olhar alheio.

Eis que temos uma bola de neve: tornar-se especial, cada vez mais especial, nos faz desejar uma aproximação cada vez maior da perfeição, e a perfeição é uma grande ilusão.

Sabe aquela celebridade que parece tão perfeita nas fotos do Instagram? Nos esquecemos que ela tem diarreia de vez em quando.

Aquele seu amigo que está sempre sorrindo seus 28 dentes brancos nas baladas e festas, rodeado por pessoas perfeitas? Há dias em que ele está triste e não tem vontade de sair da cama.

Ou então a foto daquele corpo escultural, sem qualquer imperfeição, que faz você pensar “eu queria um corpo assim”? Pois saiba: esse corpo existe! Depois de dezenas de cliques, até encontrar a luz certa, sob o ângulo certo. Talvez com a ajuda de alguns anabolizantes esteroides e uma pitada de Photoshop. Esse corpo existe, portanto, em outro lugar, mas não neste mundo aqui, real, de carne e osso, onde vivemos.

Não quero dizer com isso que a internet é um mal. Quero apenas alertar para uma ambivalência. Nada é puramente positivo, assim como nada é puramente negativo. Penso que a internet nos trouxe uma liberdade gigantesca. Maior talvez do que quaisquer outras tecnologias anteriores.

Um exemplo: hoje somos capazes de nos manifestar e de denunciar coisas que, por muito tempo, passaram por baixo do pano, como preconceito e discriminação. Outro exemplo: se dependêssemos dos meios de comunicação de massa (como TV, revistas e jornais), talvez não chegássemos a saber de uma série de pilantragens cometidas pelos nossos líderes políticos. Mais um exemplo: o acesso ao conhecimento nunca foi tão amplo — e aumenta a cada dia. Após alguns cliques, você consegue acesso a uma aula ministrada na Universidade de Harvard do sofá da sua casa no Brasil. Devemos lembrar que por muito tempo só gente muito rica, aristocratas e nobres, tinha acesso ao conhecimento.

Hoje mais da metade do Brasil já tem acesso à internet — e esse número cresce a cada ano.

Ao mesmo tempo, a internet nos limita.

De alguma maneira, somos todos moradores da biblioteca de Babel, descrita em um conto de 1941 pelo escritor argentino Jorge Luis Borges.

Trata-se de uma biblioteca infinita, cujos livros contêm todas as sequências possíveis entre letras. Portanto, em alguma das infinitas prateleiras deve haver um livro que explica o que é a biblioteca, por que ela existe e qual é a melhor forma de viver dentro dela. No entanto, os bibliotecários de Babel suspeitam que nunca conseguirão encontrar esse livro da sabedoria em meio a tantos outros livros que não têm sentido algum, compostos por sequências aleatórias de letras que nada são além de combinações caóticas de informação — ou seja, baboseira.

Suspeito que nós, nos dias de hoje, somos como moradores de uma biblioteca de Babel. Vivemos mergulhados em um oceano de informações, muitas vezes sem o discernimento pleno de que aquelas informações podem ser mentirosas, deturpadas ou no mínimo insuficientes para responder as grandes questões que fazem parte das nossas vidas. Por vezes incapazes de responder até mesmo as pequenas questões do dia a dia. Isso é muito limitador.

Além disso, a internet nos incentiva a adequar nossas vidas a um certo modo de viver, cujo valor central é ser admirado. Não quero dizer que isso seja algo recente. Todas as sociedades viveram isso. Mas a massificação promovida pela internet torna esse processo intenso como nunca. Como disse o pensador polonês Zygmunt Bauman, vivemos uma sociedade de consumo onde a própria vida é um produto, cujo marketing envolve construir uma embalagem que agrade o maior número de pessoas.

Existe então uma ambivalência. A tecnologia que liberta ao mesmo tempo limita. Cabe a nós, como indivíduos e sociedade, escolher o melhor caminho, aproveitando o que há de melhor — e evitando o que há de pior. Isso não significa repudiar os avanços tecnológicos. Afinal, seria um tremendo retrocesso. Significa apenas usar nosso senso crítico ao utilizá-los.

Clóvis: Em Atenas, havia um cara com muita fama de dar nó em pingo d’água, resolver qualquer problema, um engenheiro faz-tudo, um mestre

de obra desses que você contrata para resolver qualquer problema. A rainha de Creta contratou-o para resolver um probleminha: ela era louca para dar para um touro. Touro desses de quatro patas e chifres. Mas o touro não queria saber dela. A vaca que o touro queria não era a rainha de Creta.

Nosso herói foi até Creta em grande estilo e fabricou uma vaca toda estilizada, dentro da qual a rainha ficaria acoplada, como se estivesse pilotando uma moto de altíssima velocidade, de tal maneira que a vulva da suposta vaca coincidisse com a da rainha. Não deu outra: ao largar o touro, ele viu aquela vaca VIP, aquela vaca prime, e sentou o ferro na vaca com a rainha dentro. Foi um espetáculo.

A rainha exultou; porém, engravidou. Engravidou de uma figura estranha, meio humana e meio bovina: o Minotauro. O rei não gostou. E

colocou nosso herói e seu filho assistente dentro de um labirinto do qual não conseguiriam sair jamais. Junto a eles, o Minotauro.

Então nosso herói articulou um sistema para sair dali. Foi juntando gravetos e, com asas de cera, saíram dali voando, ele e o filho, Ícaro.

Mas a advertência que o pai deu era clara: não voe nem muito alto, nem muito baixo. Se voar muito alto, o sol derreterá as asas; muito baixo, a umidade pesará demais. Vá na manha, pelo meio do caminho. Os dois saíram voando por aquelas ilhas, vendo paisagens maravilhosas. Ícaro encantou-se e decidiu dar um rolê lá em cima. Foi subindo, subindo cada vez mais, e aí deu no que deu: perdeu as asas e não conseguiu se salvar.

A moral da história é muito clara. Olha só a roubada: o cara inventou a vaca e por isso incorreu na ira do rei de Creta e foi parar no labirinto.

Inventou as asas e acabou vendo o filho espatifar-se diante de seus olhos.

Desde os tempos da mitologia, já sabiam que não é todo artefato tecnológico que nos convém. Não é toda tecnologia que nos traz felicidade. Não é todo invento que nos faz a vida melhor.

Calabrez: A tecnologia hoje permite acesso. Essa talvez seja a palavra-chave. Acesso a um número quase ilimitado de opções.

“Opções de quê?”

De tudo.

Aplicativos e shopping centers oferecem cardápios repletos de opções de roupas, acessórios, estilos de vida, alimentos, informações, ideias e prazeres. Só que não são pequenos cardápios. Cada um deles nos dá um grande número de possibilidades. Liberdade como nunca antes. Controle total sobre quem somos e nos tornaremos. Com isso, obviamente, deve seguir a plenitude, a satisfação e quem sabe a felicidade. Certo?

A resposta é: mais ou menos.

De fato, a privação de liberdade (que inclui um número muito restrito de opções e possíveis escolhas na vida individual) está associada à insatisfação. Não ter controle e diversidade de opções em nossas escolhas é uma ótima receita para produzir tristeza em um ser humano.

A solitária das prisões é um exemplo extremo. Tira a liberdade por completo — perde-se o controle inclusive da noção de tempo. Não

sabemos se é dia ou noite, não sabemos há quanto tempo estamos isolados. Essa privação de liberdade, quando nos tiram totalmente o controle sobre nossas vidas, é psicologicamente destruidora.

Aparentemente, então, liberdade de escolha e controle estão associados a uma vida melhor.

Acontece que, como mostrou o psicólogo americano Barry Schwartz, há um paradoxo. Quando temos muitas opções, ou seja, liberdade de escolha em abundância, também nos angustiamos. Em outras palavras, um grande número de opções nos leva à insatisfação e, no limite, à tristeza.

Acho que você, leitor, já deve ter vivido isso. Eu vivo frequentemente.

Chego a um restaurante. Sento-me à mesa e abro o cardápio. São páginas e páginas de opções. Dezenas delas. O que acontece? Em primeiro lugar, aumenta o tempo de reflexão sobre qual opção será escolhida. Fico meia hora escolhendo. Além disso, aumenta a probabilidade de não escolher nada ou de escolher qualquer coisa porque não aguento mais pensar.

Quando escolho, eis o que acontece: ou fico insatisfeito porque escolhi qualquer coisa, ou fico insatisfeito porque permaneço imaginando que poderia ter escolhido algo melhor — ou ambos.

É justamente isso que os estudos mostram: um grande número de opções gera angústia, dificulta o processo de decisão e aumenta a probabilidade de insatisfação com a escolha.

Cardápios com muitas opções são ruins para os restaurantes. As pessoas passam mais tempo à mesa, é claro. No entanto, não estão consumindo. Ou seja, estão ocupando a mesa que poderia estar sendo usada por alguém que consumisse.

Isso acontece no mundo dos relacionamentos românticos. O aplicativo Tinder é um ótimo exemplo. Um cardápio de pessoas com fotos e uma pequena descrição. O funcionamento é simples. Você curte uma pessoa.

Se ela não curtir de volta, você nunca saberá. Aquelas que curtirem de volta, você saberá — e poderá entrar em contato.

Veja a genialidade. Em primeiro lugar, o aplicativo remove totalmente a angústia da rejeição. Você nunca sabe quem o rejeitou, somente quem o curtiu. Imagine se, a cada rejeição, o Tinder avisasse:

“Você foi rejeitado”, “você foi rejeitado”. . As pessoas não suportariam um aplicativo desses por um dia!

Além disso, o Tinder dá um grande número de opções. Milhares de pessoas ao alcance. Parece ótimo. No entanto, o paradoxo da escolha talvez se aplique aqui. Por possibilitar uma grande liberdade, talvez o Tinder também nos limite — dificultando o processo de decisão e aumentando a probabilidade de insatisfação com nossos relacionamentos românticos.

Alguns estudos já sugerem que o número de parceiros sexuais passados está associado à insatisfação com o relacionamento atual. Ou seja, quanto mais parceiros passados, maior insatisfação com a relação

de hoje. Outros estudos sugerem que um maior número de relacionamentos passados está associado a maiores taxas de divórcio. A hipótese dos autores é simples: quanto mais você sabe que existem outras opções, mais ciente está de que existem alternativas diferentes da pessoa que está com você. Isso poderia torná-lo mais crítico e, portanto, menos satisfeito com o que tem.

Claro, você pode argumentar que é errado presumir que viver um relacionamento monogâmico seja algo bom. Mas esta é outra questão.

Estamos falando de casais que escolheram um relacionamento monogâmico — e que, portanto, acreditaram que aquilo lhes traria satisfação.

Eu costumo chamar isso de “síndrome Netflix”. Se já tentou escolher um filme ou seriado na Netflix, você sabe do que estou falando. São tantas opções que se torna muito difícil escolher. A escolha é muito demorada — e provavelmente aquilo que escolhermos não trará tanta satisfação.

O problema aparentemente está no processo de “maximização”.

Quanto mais queremos que uma escolha seja a melhor possível, que ela nos traga o máximo possível de satisfação, maior a probabilidade de ficarmos insatisfeitos. Como eu disse anteriormente, perfeição é uma ilusão. Quando buscamos perfeição (maximização) em nossas escolhas, provavelmente ficaremos insatisfeitos. Afinal, depois que escolhermos, ficaremos pensando que outra opção poderia ter sido melhor. Pelo visto,

isso vale para roupas, celulares, viagens, parceiros românticos e tudo mais.

Muita liberdade então pode ser fonte de angústia. Será este o carma de uma sociedade de consumo?

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Falar em carma, aliás, remete a um conceito diretamente ligado à liberdade, muito difundido nos dias atuais. Diversas pessoas acreditam que nossas escolhas livres, quando boas, geram algo positivo. Quando ruins, ao contrário, escolhas produzem negatividade. Alguns chamam de energia. Outros chamam de carma — e por aí vai.

De certa forma, há um determinismo nessa relação. A boa ação determina o bem, a má ação determina o mal. Esse determinismo, de forma contraditória, limita a liberdade. Afinal, se uma boa ação sempre produz coisas boas e uma má ação sempre produz coisas ruins, onde está a liberdade?

Você poderia responder: “Nas intenções e ações. As consequências não são livres. O mau comportamento sempre gera coisas ruins. O bom comportamento sempre gera coisas boas. Mas nossa intenção ao agir, assim como nossas ações de fato — eis aqui duas coisas livres e sob nosso controle!”.

Perfeito. Mas a liberdade plena seria se uma boa ação pudesse causar qualquer coisa (boa, ruim, neutra, ambígua) e uma má ação também.

Liberdade plena, aliás, significa que nada é puramente bom ou puramente mau — tudo é relativo. O relativismo é a moral mais livre, se considerarmos que liberdade é sinônimo de ter o maior número possível de caminhos a escolher.

Não quero com isso dizer que relativismo é uma visão boa ou ruim do mundo. Apesar de que, ao dizer isso, estou relativizando. Mas deixo as conclusões por conta do leitor.

Clóvis: Nunca se falou tanto sobre o pensamento oriental quanto hoje. A impressão que eu tenho é de que ele é muito mais citado do que conhecido. Aliás, isso também acontece com alguns clássicos ocidentais, como Marx e Nietzsche. Todo mundo fala sobre, mas poucos leem, poucos refletem a respeito.

Segundo a filosofia hindu, o objetivo último da vida é moksha, traduzido por esclarecimento, mas na verdade o significado literal de moksha é libertação. Ora, meu amigo, se há libertação é porque existe uma mudança, uma passagem da escravidão para a liberdade. Mas aí a pergunta que precisamos responder é:

Se existe libertação, ela é em relação a quê?

Bem, para começar, aos desejos. Os sábios orientais têm essa obsessão. Os desejos são o grande mal. Moksha é vencer os desejos. O

indivíduo esclarecido e livre conhece a verdadeira natureza humana.

Alcança um estado em que as distinções banais, como entre ser ou não ser, desaparecem. Consegue observar o mundo de forma desprendida.

Transcendente, diríamos. Liberto das preocupações da existência comum. Por exemplo, um sábio hindu não estaria como eu agora, preocupado com algum eventual trânsito na Marginal, pois transcendeu essas preocupações. Resta saber se ele chegaria sempre na hora marcada para dar a sua palestra.

Moksha é também a libertação em relação ao samsara, o ciclo de nascimentos e mortes. Aqui a perplexidade aumenta, porque o último objetivo da vida seria libertar-se de sua finitude. Imagino que seja libertar-se da tristeza, do medo e da angústia que a finitude da vida nos traz. É claro, isso merece problematização. Se a vida é boa, feliz e alegre, o fim dela será ruim. Não há como não lamentar o fim daquilo que é bom. Na verdade, a morte só não significa nada para quem vive mal.