Era Uma Vez em Hollywood
Capítulo Cinco: O ataque-surpresa de Pussycat
Capítulo Cinco
O ataque-surpresa de Pussycat
Pasadena, Califórnia
7 de Fevereiro de 1969
2:20 da manhã
São duas da manhã na Greenbriar Lane, em um condomínio suburbano localizado em um bairro nobre de Pasadena, na Califórnia.
Ao longo de toda aquela rua sem saída, há uma coleção de casas suburbanas com gramados muito bem aparados e pessoas brancas de classe média alta morando dentro delas. Naquela hora da noite, exceto por algum gato aleatório, ou algum coiote corajoso que se aventurou pelo bairro para fuçar as lixeiras, não há movimento algum na vizinhança. Todos os moradores daquela rua aparentemente dormem um sono profundo, trancados na segurança de seus lares, em suas camas confortáveis, ouvindo o ronronar suave do ar-condicionado.
Parados na calçada em frente a uma casa escura com uma caixa de correio bonitinha na qual se lê Os Hirshberg estão cinco membros da “Família” de Charlie Manson. Os desdentados Clem; Sadie; Froggy; um dos mais jovens membros da Família, Debra Jo Hillhouse (vulgo Pussycat); e o próprio Charlie.
Charlie está de pé atrás de Debra Jo; suas duas mãos estão nos ombros dela enquanto fala suavemente em seu ouvido:
— Muito bem, Pussycat — ronrona Charlie —, chegou a sua hora de cruzar a linha. De encarar o medo. De olhar o medo nos olhos. E agora, docinho… Chegou a hora de você agir sozinha.
Debra Jo o lembra de que aquele não é o seu primeiro “Ataque-surpresa”. Seu líder espiritual reconhece que, sim, ela já havia feito aquilo antes, mas não sozinha. Ele a relembra da filosofia da Família, que prega que a união faz a força.
Como ele explica:
— É por isso que a gente faz o que faz, da forma como a gente faz, e é por isso que a forma como nós vivemos é fundamentalmente importante.
Mas, em seguida, ele esclarece, enquanto massageia gentilmente suas omoplatas debaixo da camiseta preta encardida.
— Porém, os feitos individuais são igualmente importantes. Testar a si próprio. Encarar nossos medos. E a única maneira de encarar nossos medos é estando só. É por isso que estou te obrigando a fazer isso, Debra Jo.
Charlie é a única pessoa em todo o planeta, exceto por seu pai, que ela permite que a chame pelo seu nome de batismo, e não pelo que ela recebeu depois.
— Eu quero fazer isso — diz Debra Jo, sem muita convicção.
— Por que você quer fazer isso? — pergunta Charlie.
— Porque você quer que eu faça — responde ela.
— Sim, eu quero — concorda Charlie. — Mas eu não quero que você faça por mim. Nem quero que faça por eles — acrescentou, gesticulando com a cabeça na direção dos outros membros. — Eu quero que você faça por você.
As pontas dos dedos de Charlie em suas omoplatas captam o leve tremor que percorre o corpo de Debra Jo.
— Sinto que você está tremendo, gracinha.
— Eu não estou com medo — protesta ela.
— Shhh... Tudo bem. Não precisa mentir — diz ele, e explica à beldade morena: — Noventa e sete por cento de todas as pessoas que você conheceu na sua vida, e 97% de todas as pessoas que você ainda vai conhecer, passam 97% de suas vidas fugindo do medo. Mas não você, bonitinha. Você está indo ao encontro do medo. O medo é o sentido de tudo. Sem o medo, nada faz sentido.
Embora a tremedeira de Debra Jo não diminua, seu corpo parece relaxar sob o toque de Charlie. De pé às suas costas, ele se inclina para frente e pergunta, num sussurro, à sua orelha direita:
— Você confia em mim?
— Você sabe que sim — diz ela. — Eu te amo.
— E eu também te amo, Debra Jo — diz Charlie —, e é esse amor que vai dar o empurrãozinho que você precisa na direção da grandeza. Eu estou no seu coração, Pussycat, estou nas suas patinhas, na sua cauda, no seu focinho, estou dentro do seu crânio de felina.
Charlie tira os dedos dos ombros da jovem e a envolve em seus braços, abraçando-a por trás. Ela solta o peso do corpo sobre ele, e os dois balançam juntos, lentamente, de um lado para o outro, jogando o peso da esquerda para a direita, como se Charlie ninasse um bebê em seus braços.
— Me conceda o privilégio de guiá-la nessa travessia, e a garota que emergirá daquela casa será colossalmente mais poderosa do que a que vai entrar.
Então, Charlie desfaz o abraço, e dá um pequeno passo para trás e um tapa na bunda do short jeans de Debra Jo para enviá-la na direção da casa dos Hirshberg.
* * *
Em 1968, Terry Melcher, o produtor musical dos Byrds, gênio por trás de Paul Revere and the Raiders e menino de ouro da Columbia Records, passou um bom tempo às voltas de Charlie Manson e sua “Família”, quando eles se enfiaram na casa que Dennis Wilson tinha em Hollywood e ficaram sugando o dinheiro do membro dos Beach Boys. Terry Melcher nunca esteve tão convicto do talento musical de Charlie quanto Wilson. No que diz respeito às aspirações musicais de Manson, Terry não acreditava que Charlie fosse totalmente desprovido de talento. Sua opinião sincera a respeito da música de Charlie era que ela era muito, muito, muito razoável.
Porém, se Charlie Manson tinha algo a oferecer, era como cantor e compositor de música folk. E naquele clube numeroso, Charlie não servia nem para amarrar os cadarços de gente como Neil Young, Phil Ochs, Dave Van Ronk, Ramblin’ Jack Elliot, Mickey Newburry, Lee Dresser ou Sammy Walker, nem, sinceramente, de nenhum dos expoentes do gênero da época. Além disso, a cena folk, como ela havia sido até poucos anos atrás, estava morta. Àquela altura, todos os representantes do estilo que tinham ganhado fama estavam plugando suas guitarras em amplificadores para tentar se tornarem astros do rock.
E como Terry Melcher representava a Columbia Records e eles já tinham o Bob Dylan, eles não precisavam de Charlie Manson. Além disso, Melcher não estava mais no ramo dos cantores e compositores de música acústica (não que algum dia ele tenha estado). Paul Revere and the Raiders o haviam transformado em um dos reis das paradas de sucesso nas rádios populares. Ele não teria o menor interesse em invadir o selo Vanguard Records para tentar roubar artistas para a Columbia. Ele estava atrás da nova bandinha da moda cheia de cabeludos capazes de produzir hits grudentos, se apresentar no American Bandstand e em todos os programas de rock das estações de TV locais (Groovy, Boss City, The Real Don Steele Show, Where the Action Is, It’s Happening), e disputar um espaço nas páginas das revistas Sixteen e Tiger Beat. Talvez Bobby Beausoleil fosse um desses caras, mas Charles Manson certamente não era.
* * *
Não que Charlie não tivesse algum talento — ele tinha, mas pouco. Mas o que ele não tinha era a disciplina para lapidar aquele pouco talento que ele tinha. Mesmo se Charlie tivesse um repertório melhor, ainda assim Terry não teria gravado um álbum dele para a Columbia. Mas talvez isso pudesse ter resultado em Melcher levando uma de suas músicas para ser gravada por Linda Ronstadt.
Terry até achava Charlie uma figura interessante e fora do comum. Porém, mesmo levando isso em consideração, Terry não ficou tão fascinado com ele quanto seus outros amigos (Dennis Wilson e Greg Jakobson). O motivo real pelo qual Terry Melcher passava tanto tempo com Charlie e sua “Família” quando estavam enfiados na casa de Dennis Wilson não tinha nada a ver com um suposto potencial que o produtor musical enxergasse em Manson do ponto de vista comercial. Tinha a ver com o fato de que Terry adorava comer uma anjinha morena de 15 anos de idade chamada Debra Jo Hillhouse, que fazia parte da “Família”. Quando Terry a viu pela primeira vez, ela ainda usava o nome verdadeiro, Debra Jo. Mas, pouco depois, passou a responder apenas pelo seu nome na “Família”, “Pussycat.”
Debra Jo entrou para a Família de Charlie aos 15 anos de idade. Na época, era a mais jovem do grupo, e, sem sombra de dúvidas, a mais bonita também. Apenas a escultural Leslie Van Houten poderia competir pelo título. Terry Melcher não era o único — Dennis Wilson também adorava comer Debra Jo. Na verdade, os únicos contatos sérios que Manson conseguiu fazer na cena musical de Los Angeles não foram devidos à sua música, mas ao fascínio que exercia a buceta adolescente de Debra Jo Hillhouse. Debra Jo ocupava um lugar especial no coração de Terry Melcher. (Se soubesse cantar, ela certamente teria assinado um contrato para gravar um disco.)
E tenha em mente que tudo isso aconteceu durante o período em que Terry Melcher vivia com Candice Bergen, o zeitgeist da beleza dos anos 1960.
Mas mesmo tendo uma beldade loura como Bergen em casa, Terry nunca desperdiçava uma oportunidade de se encontrar com Pussycat. Em dado momento, sua atração por ela ficou tão descarada que ele tentou contratar Debra Jo como empregada, e levá-la para morar em sua casa na Cielo Drive junto com ele e Candy. (Candice Bergen pode ter feito vistas grossas para muita coisa, mas foi esperta o bastante para rejeitar essa ideia.)
Debra Jo Hillhouse tinha a personalidade impassível de um felino (por isso que Charlie a chamou de Pussycat) que encantava muitos homens mais velhos, incluindo alguns membros dos Straight Satans, a gangue de motoqueiros que andava com Charlie e a Família na época do Spahn Ranch.
Uma coisa que diferenciava Debra Jo de todas as outras meninas que Charlie atraiu para o seu bando era o fato de ela ainda ter uma relação com o pai, e de esse pai ter uma relação com Charlie. Todas as outras meninas, de uma forma ou de outra, haviam se juntado à Família de Charlie em resposta às relações degradadas em suas próprias famílias. Rejeitar os pais, divorciar-se de sua família real, tornar-se membro de uma nova Família, que tinha Charlie como papai: tudo isso fazia parte do discurso persuasivo de Manson. Mas, no caso de Debra Jo Hillhouse, fora pelo pai que ela havia conhecido Charlie, um ano atrás.
Certa tarde, depois de transarem na mesa de bilhar de Dennis Wilson, enquanto fumavam um baseado e bebiam garrafas de cerveja mexicana geladíssima, Terry Melcher perguntou a Debra Jo como ela tinha conhecido Charles Manson.
Debra Jo contou a ele:
— Meu pai deu uma carona pra ele uma vez.
— Peraí — disse Terry, surpreso —, você conheceu o Charlie pelo seu pai?
Ela assentiu, balançando a cabeleira morena.
— Charlie estava pedindo carona, meu pai ofereceu, eles começaram a conversar, e se deram bem. Então, Papai o levou para casa para jantar. Foi assim que nos conhecemos.
Terry deu uma tragada profunda no baseado e passou para Debra Jo. Enquanto segurava a fumaça da maconha nos pulmões, ele perguntou a ela:
— E quanto tempo depois disso você foi morar com o Charlie?
— Naquela noite — disse Debra Jo. — Eu saí escondida de casa e a gente deu uns amassos no carro do Papai. Depois, eu peguei as chaves e a gente foi embora e levou o carro.
Puta merda, pensou Terry. Como é que um merdinha como o Charlie conseguiu fazer uma coisa dessas? Quer dizer, se fosse uma dessas vadias hippies feiosas tipo a Mary Brunner ou a Patty Krenwinkel, tudo bem. Mas uma gostosa como a Debra Jo?
Então, Debra Jo lhe contou toda a história de Manson com os Hillhouse. Que terminava com o pai dela pedindo a Charlie para se juntar à “Família”.
O que fez Terry exclamar:
— Puta que pariu, você só pode estar de sacanagem!
Debra Jo sorriu e fez que não com a cabeça. Porém depois acrescentou:
— Mas até o Charlie achou que isso seria esquisito demais.
Jesus Cristinho, pensou Terry, ele não era capaz nem de convencer a Candy Bergen a ter uma empregada hippie, enquanto o Charlie aparentemente não tinha a menor dificuldade em persuadir todo mundo que ele conhecia a fazer o que ele queria que fizessem. Qualquer que fosse o encanto de Charlie, Terry era completamente imune a ele, muito embora mesmo para Melcher estivesse bem claro que havia alguma coisa no cara. Na sua época, Terry havia presenciado muitos astros do rock manipulando garotas hippies para que elas fizessem umas coisas muito absurdas para eles. Mas os pais das garotas também? Isso já era um outro grau de persuasão. Terry duvidava que até mesmo o Mick Jagger fosse capaz de fazer uma porra dessas.
* * *
Debra Jo, com os joelhos claramente trêmulos, aproxima-se lentamente da casa dos Hirshberg. Ela atravessa o gramado coberto de orvalho. Sente a umidade da grama nas solas de seus enormes pés descalços; a sensação geladinha é revigorante. Quando ela deixa o gramado e pisa no caminho de concreto que leva até o portão dos fundos, vai deixando um rastro de pegadas molhadas atrás de si.
Ela estica o braço por cima do portão de madeira e, da maneira mais silenciosa que consegue, levanta a tranca de metal enferrujada do outro lado, empurra a porta para abri-la, e entra no quintal. Seus amigos, assistindo a tudo da calçada, vão desaparecendo lentamente de seu campo de visão.
Agora, Pussycat está por conta própria dentro da propriedade particular dos Hirshberg. Ela faz uma varredura nos arredores. Há uma piscina em formato de rim. Um gramado verde. Uma árvore grande. Algumas mesas de piquenique. E alguns triciclos infantis da Big Wheels bastante gastos. Mas, exceto pelos triciclos, o quintal é bonito e bem cuidado, assim como o gramado da frente.
Então, a voz de Charlie sussurra em seu ouvido: Como está o seu coração?
Ela responde, baixinho, à voz em sua cabeça:
— Batucando como uma britadeira.
Calma, Pussycat, ronrona ele. Esses tambores selvagens vão acabar acordando a vizinhança inteira. Controle isso, ordena ele, e controle-se você. Examine seus arredores.
Ela observa o quintal com um pouco mais de atenção, e seu coração acelerado começa a bater gradualmente mais devagar.
Quem mora aí?, pergunta ele.
— Não sei... Os Hirshbergs eu acho.
Não seus nomes, sussurra ele, ríspido. Quem são eles? Eles têm filhos? Você está vendo brinquedos?
Ela olha para os triciclos e faz que sim com a cabeça.
Muitos brinquedos? Um balanço?
— Não, só alguns triciclos.
O que isso diz a você?, pergunta ele.
— Não sei, o que deveria me dizer?
Ei, bonitinha, repreende ele delicadamente, sou eu quem faço as perguntas aqui. E é você quem responde. Entendeu?
Ela faz que sim com a cabeça.
Então, ou eles têm filhos ou conhecem alguém que tem, deduz Charlie. Será que eles são o Vovô e a Vovó? Responderemos a essa pergunta mais tarde. Eles são ricos?
Mais uma vez, Debra Jo assente.
Como você sabe?
— Eles moram aqui, né? — responde ela, um tanto quanto sarcástica.
Calma lá, Pussycat, alerta Charlie. Não julgue o livro pela capa, minha querida. Talvez eles sejam inquilinos. Podem ser quatro aeromoças ou garçonetes morando juntas, dividindo o aluguel. Então, ele pergunta repentinamente: Eles têm uma piscina?
— Sim.
Toque na água, ordena.
Pussycat vai se esgueirando pelo gramado que cobre a maior parte do quintal em direção à piscina. Em seguida, mergulha seus dedos na água.
Assim que sua mão se molha, a voz dentro de sua cabeça pergunta: Está quente?
Ela faz que sim.
Então, eles são ricos, explica Charlie. Só gente rica consegue bancar uma piscina aquecida o tempo todo.
Faz sentido, pensa Pussycat.
Você está pronta para entrar na casa?, sussurra Charlie.
Ela faz que sim.
Charlie fica sério: Não balance a cabeça, sua vadia! Eu te fiz uma pergunta. Você está pronta para entrar na casa?
— Sim — responde ela.
Sim o quê?, ele pergunta.
— Sim, senhor? — arrisca.
Ele começa a gritar, furioso. Não é “sim, senhor”, caralho, e o que foi que eu te disse sobre quem faz as perguntas aqui, porra?
Então, ela responde mais alto do que deveria, levando em conta aquela situação:
— Sim, eu estou!
Animadíssimo, Charlie a responde em seu cérebro, Agora sim! Essa é a minha Pussycat! Que tipo de porta leva do quintal pra casa?
Ela olha para a casa e responde:
— Uma porta de vidro de correr.
Bom, então você está com sorte, garota. Esse é o tipo de porta que mesmo os mais prevenidos tendem a se esquecer de trancar. Agora, vá até lá e veja se você tirou mesmo a sorte grande.
Enquanto seus pés descalços vão atravessando o gramado molhado em direção ao concreto do quintal dos fundos, Debra Jo pensa, Se eu tirei mesmo a sorte grande, a porta estará trancada e eu poderei voltar para casa. Ela se aproxima da porta de vidro e se agacha. Espia a parte de dentro. Tudo escuro. Nenhum movimento. Ela escuta com muita atenção. Exceto pelos tambores selvagens em seu coração, que voltou a bater com força, ela não escuta som algum. Ela estica um dos braços e tenta puxar a pesada porta de vidro para o lado. Ela não se abre.
Charlie volta a aparecer em sua cabeça. Essas portas às vezes são pesadas. Tente de novo, com mais força, usando as duas mãos.
Dessa vez, ela segura o puxador com as duas mãos e faz mais força para abrir a porta. Ela se abre parcialmente. Quando percebe que a porta se moveu, Debra Jo respira fundo.
Puta merda, pensa. Eu vou ter que entrar.
Ela consegue ouvir o sorriso de Charlie em seu cérebro. Em seguida, ele penetra em sua alma para servir de copiloto nessa próxima fase do ataque-surpresa. Agora, antes de entrar na casa, você precisa aniquilar seu ego. Deixar de existir. Fique de quatro, como a gatinha que você é. A sua energia tem de ser igual à de um gato de algum vizinho que entrou pela porta dos fundos para explorar uma casa. Entendeu?
Ela faz que sim.
Deixe a porta de correr aberta, instrui ele, caso você precise fugir às pressas.
Pussycat puxa a cortina para o lado e, de quatro, entra sorrateiramente na casa. Usando as mãos e os joelhos, ela atravessa o piso duro e frio de linóleo da cozinha até o carpete felpudo da sala de estar.
Quando chega no meio da sala, ela senta no chão e deixa que seus olhos se acostumem à escuridão enquanto examina seu entorno.
Charlie continua com as suas perguntas.
Quem são essas pessoas? Elas são velhas? São de meia-idade? São pais ou avós?
— Eu não sei.
Olhe para os móveis, diz ele a ela, os objetos de decoração.
Pussycat esquadrinha a sala. Ela observa os retratos enquadrados na parede, em cima da TV, os bibelôs sobre o aparador da lareira; ela vê o aparelho de som com uma pilha de discos encostados na parede.
Ela engatinha até os discos e examina a coleção.
Rudy Vallée.
Kate Smith.
Jackie Gleason.
Frankie Laine.
Jack Jones.
John Gary.
Trilhas sonoras de musicais da Broadway: South Pacific; Fiddler on the Roof; No, No, Nanette. A trilha sonora do filme Exodus.
— São velhos — diz Pussycat a Charlie. — Acho que são avós.
Bom, não vamos achar nada, Debra Jo, vamos deduzir. Ele pergunta, As crianças moram aí?
— Eu não sei.
Bem, procure descobrir.
Ela dá uma olhada e vê que o lugar está, definitivamente, muito arrumado.
— Tem alguns brinquedos no quintal, mas acho que as crianças não moram aqui.
Por que não?, pergunta Charlie.
— Porque as pessoas que moram aqui são velhas — decreta Pussycat. Os velhos são limpos. Organizados. As coisas ficam nos seus lugares. Esse é um luxo que as pessoas que têm filhos não podem ter.
Muito bom, Pussycat. Ela consegue sentir o sorriso de Charlie se espalhando por todo o seu corpo. Como está o seu coraçãozinho?
— Tranquilo.
Eu acredito. Você está vendo as escadas?
Ela faz que sim.
Como está o seu ego?
— Inexistente.
Então, acho que você já está pronta para levantar do chão e ficar de pé.
Pussycat se levanta do chão e fica de pé. A sala parece muito diferente daquele ponto de vista. Ela tira a camiseta preta pela cabeça, passando pela volumosa cabeleira, e deixa que ela caia sobre o carpete felpudo. Em seguida, ela desabotoa e abre o zíper do seu short jeans e o escorrega suas longas pernas abaixo. Finalmente, ela tira a calcinha obscena e a arremessa na pilha de roupas. Depois que está nua, a garota se inclina para baixo, pega o short da pilha, enfia a mão dentro de um bolso volumoso, e tira de lá uma lâmpada vermelha. Ela coloca a lâmpada vermelha em sua boca, segurando-a com os lábios pela parte metálica.
Então, nua e de quatro, ela sobe a escada acarpetada que leva até o segundo andar da casa. Seu corpo felino desnudo se esgueira suave e silenciosamente até a área onde ficam os quartos.
Quando chega no topo da escada, sua cabeça gira lentamente para a direita e depois para a esquerda, e é na esquerda que ela vê uma porta que parece ser a entrada da suíte principal. Sem a presença de Charlie em sua cabeça agora, Debra Jo está completamente sozinha. Apoiada nas juntas das mãos e nos joelhos, ela se move, como o animal que lhe deu seu apelido, na direção da porta entreaberta do quarto.
Desprovida de seu ego, ela enfia, silenciosamente, a cabeça porta adentro e fica observando o quarto às escuras. Do seu ponto de vista, Pussycat descobre que sua dedução estava correta, e que aquela era mesmo a suíte principal, e que o casal deitado na cama king size da Craftmatic tem idade para ser um casal de avós.
Ela engatinha para dentro do quarto, retorcendo seu corpo nu ao passar pela fresta, tomando cuidado para não esbarrar na porta do quarto e ser traída pelo rangido de uma dobradiça. Assim que consegue manobrar mãos e joelhos para entrar no quarto, ela eleva seu olhar até a superfície da cama. O velho que dorme vestindo um pijama azul com listras brancas está deitado no lado mais próximo a ela e à porta.
O quarto tem cheiro de Gelol, Pinho Sol, Old Spice e chulé. O ar-condicionado enfiado na janela da parede direita do quarto produz um ruído de fundo constante que ajuda a mascarar seus movimentos sutis. Essa é a boa notícia. A má é que está muito mais frio na suíte principal do que na sala de estar e no corredor do segundo andar. Calafrios brotam como urticária em sua pele exposta. Os arrepios que percorrem seu traseiro desnudo dão à jovem que Charlie batizou de Pussycat uma ideia de como seria ter uma cauda. Divertindo-se com a fantasia de ser um gato doméstico, ela dá uma reboladinha com sua bunda magra. De todo modo, a temperatura congelante não chega a ser um obstáculo. Em vez disso, assim como as tonificantes águas geladas de um córrego de montanha, após a sensação inicial de frio fazer contato com seu corpo quente, ela sente-se revigorada pelos tremores que o percorrem.
Ela aproxima-se da lateral da cama. Em seguida, Debra Jo ergue-se lentamente de sua postura felina até ficar de joelhos. Seu rosto está muito próximo do rosto do velho dormindo em sua cama. A lâmpada vermelha em sua boca dá à jovem um aspecto inumano e inexpressivo, um meio-termo entre um robô e uma boneca inflável. Somente suas pronunciadas sobrancelhas negras, que quase se juntam formando uma única faixa de pelos, demonstram qualquer emoção.
Ela examina o rosto do velho. Sua respiração difícil, que quase se transforma em ronco. Seus cabelos brancos e ralos brotando do crânio redondo, um tufo para cada lado. Os lábios, afundados numa boca sem dentes. Ela olha para a mesinha de cabeceira e, como já esperava, ao lado de um par de óculos, um abajur e um pequeno relógio, há uma dentadura mergulhada num copo de água turva.
Seu olhar curioso pula da dentadura para o velhote adormecido e, depois, para a companheira idosa dormindo ao seu lado. Ela é levemente gordinha quando comparada ao marido esquelético e cadavérico. Diferentemente da cabeleira branca rala e rebelde do velho, a velha tem seus cabelos pintados num laranja vibrante cheio de cachinhos que, obviamente, necessitam de visitas semanais a um salão de beleza e litros de gel Dippity-do.
Debra Jo estica seu braço até que sua mão fique sobre o rosto do velho, e mexe seus dedos. Ele não move um músculo, e simplesmente continua a respirar de maneira ruidosa e cadenciada. Ela está se sentindo confiante agora, de modo que vai levantando-se aos poucos, trocando o apoio dos joelhos pelo dos pés. Depois de todo o tempo que havia passado perto do chão, imitando um gato, ficar totalmente de pé lhe dá a impressão de ser um gigante, como o Gulliver.
Usando as partes carnudas de seus pés, ela vai se afastando lentamente da cama e de seus habitantes, e atravessa o quarto na direção da janela virada para a frente da casa. As cortinas estão abertas, e ela olha pelo vidro e vê Charlie e seus amigos parados na calçada. Froggy é o primeiro a vê-la, e ele começa a pular e acenar, entusiasmadamente, para Debra Jo. O resto do grupo acena para ela como se estivessem encenando os créditos de encerramento de A Família Buscapé.
Com a lâmpada vermelha enfiada na boca, Debra Jo olha para eles pela janela do quarto dos Hirshberg e acena de volta. Cuidadosamente, ela vai até uma cadeira de madeira estacionada na frente da penteadeira da mulher da casa, ergue-a do chão, e a traz até a janela. Ao lado da janela também há um abajur. Olhando rapidamente para o casal adormecido para se certificar de que não os havia acordado, ela começa a soltar, lentamente, a peça que mantém a cúpula do abajur em seu lugar. Após terminar de fazer isso e colocar a peça sobre a mesa, ela remove a cúpula de sua base e a coloca silenciosamente no chão. Tudo isso sempre de olho no casal na cama, atenta a qualquer sinal de que estejam recobrando a consciência. Até aqui, tudo certo. Mantendo os dois olhos fixos nos velhotes para perceber qualquer reação, ela desenrosca a lâmpada.
O gesto é, de longe, a coisa mais barulhenta que ela fez, e, mesmo assim, a respiração cadenciada do casal, o ar-condicionado e seu ego aniquilado evitam que o equilíbrio no quarto passe por qualquer mudança drástica. Após concluir a rotação final, Debra Jo retira a lâmpada do abajur. Em seguida, ela a coloca no chão acarpetado do quarto do casal. A invasora morena tira a lâmpada vermelha da boca e a rosqueia no soquete do abajur. Quando a lâmpada para de girar, ela sabe que concluiu sua tarefa.
Ela gira o pequeno botão do abajur até que ele faz um clique, banhando o quarto numa intensa luz vermelha. Ela fica olhando para o casal na cama em busca de uma reação à mudança no ambiente, pronta para sair correndo dali caso a luz vermelha tenha perturbado seu sono. Mas a lâmpada de baixa potência é fraca o suficiente para não acordá-los.
Então, ela sobe na cadeira ao lado da janela, que serve de moldura para o seu corpo nu sobre uma luz de fundo vermelha, como se fosse uma vitrine de Amsterdã em plena Pasadena. Ela sorri para os seus amigos lá embaixo, na calçada, que dão pulos de alegria pelo feito de Debra Jo. A morena de 15 anos começa a dançar girando seus peitos na janela para a diversão dos amigos lá fora. Eles aplaudem e comemoram. Ela fica se remexendo para cima e para baixo, dançando de forma cada vez mais alucinada, enquanto seus amigos gritam e assobiam, até que ela desce da cadeira, sai correndo pelo quarto, e salta na cama onde dorme o casal de velhos gritando “Gerônimo!”
O casal de velhos acorda e se depara com essa adolescente morena e nua rolando na cama com eles, rindo como uma lunática. A velha solta um grito de arrepiar os cabelos, enquanto o velho emite um:
— Mas que raios?
Debra Jo segura o velho pela nuca e lasca um beijão em sua boca desdentada. Quando ele tenta gritar, ela enfia sua língua nele. Então, ela o larga, salta para fora da cama, e começa a correr pelo quarto, descendo as escadas, passa pela sala de estar (pegando suas roupas no caminho), pela porta de vidro entreaberta, pelo quintal, pelo portão do quintal, e atravessa o gramado da frente, para se juntar, gargalhando, à sua “Família”, na Greenbriar Lane.