Era Uma Vez em Hollywood
Capítulo Quatorze: “Arma secreta contra Matt Helm”
Capítulo Quatorze
“Arma secreta contra Matt Helm”
O toca-fitas no Porsche preto de Sharon Tate está tocando o primeiro disco de Françoise Hardy em inglês, Loving. A faixa que emana dos alto-falantes estéreo do carro esportivo é a versão de Hardy para a canção “There but for Fortune”, de Phil Ochs. Sharon ama essa música, e, sentada ao volante do seu Porsche, dirigindo pelo Wilshire Boulevard a caminho do Westwood Village, ela canta junto:
Show me the prison, show me the jail
Show me the prisoner whose face is growing pale,
And I’ll show you a young man with so many reasons why,
And there but for fortune, may go you or I.
Lágrimas escorrem por seu rosto enquanto canta. A atriz está cumprindo uma série de pequenos afazeres. Ela pegou algumas roupas na lavanderia a seco. Três vestidos curtinhos ao estilo mod, cuja barra vinha até o meio das coxas de Sharon, e o blazer azul de Roman estão embrulhados em plástico transparente e pendurados em cabides num gancho nas costas do banco do carona. Ela também pegou um par de sapatos plataforma com a sola bem grossa numa pequena sapataria no Santa Monica Boulevard. E agora ela está indo para a última tarefa do dia. Ela havia encomendado a primeira edição de Tess of the d’Urbervilles, de Thomas Hardy, para dar de presente a Roman. E o velhinho querido que é o dono da livraria tinha telefonado no dia anterior para avisar que o livro havia chegado. Então, cantando junto com a Mademoiselle Hardy, curtindo um choro descompromissado, Sharon acelera pelo Westwood Village.
Ela vê a jovem hippie parada na calçada balançando o dedão cerca de um quilômetro e meio após ter entrado na Wilshire. A hippie solitária parece amistosa, e Sharon está num clima amistoso, de modo que ela pensa: Por que não?
Um ano depois, a resposta para aquela pergunta seria: porque essa caroneira pode matar você. Mas, em fevereiro de 1969, até mesmo as pessoas que poderiam ser roubadas, como Sharon em seu Porsche preto bacana, não pensavam assim.
Ela para perto do meio-fio, na frente daquela linda hippiezinha sardenta, pressiona o botão para abrir a janela do carona, e informa:
— Eu estou indo para o Westwood Village.
A jovem se inclina, empinando a bunda, para olhar pela janela para a motorista. Ela pode até ser uma menina de espírito livre, mas não vai simplesmente sair entrando no carro de qualquer um. Porém, após ver a linda loira atrás do volante, o sorriso da hippie aumenta, e ela diz:
— Bem, cavalo dado não se olham os dentes.
Sharon sorri de volta para ela e a convida para entrar.
As duas jovens engatam com facilidade um papo durante os treze minutos que Sharon leva para chegar até Westwood Village e estacionar o carro. A garota hippie diz que seu nome é Cheyenne, e que está pegando carona até Big Sur para se encontrar com um grupo de amigos. Juntos, eles irão até um festival ao ar livre em que Crosby, Stills e Nash (mas não Young) vão tocar, junto com a James Gang, a Buffy Sainte-Marie e a 1910 Fruitgum Company. Sharon acha que parece muito divertido. Se fosse daqui a dois dias, depois que Roman tivesse ido para Londres, ela consideraria levar Cheyenne até Big Sur e se juntar a ela e ao seu grupo de amigos para assistir ao show. Talvez ela não fizesse isso, mas certamente consideraria. Sharon sempre foi uma pessoa impulsiva. Roman não, e essa era uma das poucas coisas que a fazia parecer mais bacana do que o marido, o badalado diretor de cinema. Nos treze minutos que passaram juntas, falaram sobre Big Sur e Crosby, Stills e Nash, ouviram Françoise Hardy, e comeram as sementes de girassol que Cheyenne trazia em sua bolsinha de couro.
— Bom, tchau-tchau, e divirta-se em Big Sur.
Foram as últimas palavras de Sharon para Cheyenne durante um abraço de despedida no estacionamento pago nos fundos do Westwood Village Theatre, onde um enorme pôster de seis painéis do filme Joanna, do amigo de Roman, Michael Sarne, está colado na parede. Depois, enquanto Sharon segue para o oeste e adentra o Westwood Village para completar seus afazeres, a hippiezinha dá sequência à sua aventura californiana em direção ao norte.
Com suas tradicionais botas brancas de couro, passando por head shops, cafés, pizzarias e máquinas de venda de jornal que distribuem, de graça, o Los Angeles Free Press, Sharon tira seus enormes óculos escuros da bolsa e os coloca para proteger seus olhos do sol reluzente da Califórnia. À medida que se aproxima do seu destino, ela percebe que seu novo filme, a comédia de aventura e espionagem Arma Secreta Contra Matt Helm, está passando no Bruin Cinema, bem à sua frente. Na fachada, em letras grandes:
DEAN MARTIN COMO MATT HELM
EM
ARMA SECRETA CONTRA MATT HELM
E. SOMMER S. TATE N. KWAN T. LOUISE
Sorrindo enquanto atravessa a rua, ela para na frente do seu desenho no cartaz do filme. Olha para a parte de baixo e encontra seu nome nos créditos. Ela estica o braço e passa seu dedo por cima das letras. Após se deleitar por ter lido seu nome, visto uma ilustração sua pendurada numa bola de demolição ao lado de Dean Martin, e celebrado o fato de o filme estar sendo exibido num dos principais cinemas de Westwood, ela apressa o passo para chegar até a livraria, a quatro prédios de distância. Na Arthur’s Rare Books for Sale, o som de “Stormy”, da Classics IV, emana do rádio atrás do balcão. No instante em que Sharon atravessa a porta e escuta a voz de Dennis Yost, seu corpo inteiro relaxa em reação. Junto com Art Garfunkel, Dennis Yost da Classics IV tem a voz mais bonita do rock’n’roll atual, pensa Sharon. E ela acha que a voz de David Clayton-Thomas, da Blood, Sweat and Tears, é a mais sexy.
— O que posso fazer por você, minha jovem? — pergunta Arthur.
Ela cumprimenta o idoso do outro lado do balcão enquanto tira os óculos do seu rosto.
— Oi. Vim buscar o livro que você me ligou pra dizer que tinha chegado.
— Qual livro?
— Tess of the d’Urbervilles, do Thomas Hardy. Eu encomendei há algumas semanas. Está no nome de Polanski.
— Rapaz — diz Arthur —, isso é que é livro, menina.
Ela se empolga.
— Eu sei, ele é ótimo, não é? Eu vou dar de presente para o meu marido.
— Bom, o seu marido é um sujeito de sorte — diz Arthur. — Primeiro porque eu adoraria poder reler Tess of the d’Urbervilles como se fosse a primeira vez. E segundo porque eu queria ter idade para estar casado com uma belezura como você.
Sharon dá mais um sorriso e estica o braço por cima do balcão para tocar a mão cheia de manchas do velho. Ele também sorri.
* * *
Com a Classics IV ainda tocando em sua cabeça, Sharon deixa a loja de Arthur e volta andando até o seu carro. Suas pernas longas e torneadas transportam sua minissaia branca pela calçada da Westwood Boulevard, em direção ao cinema em que seu filme está em cartaz. Sharon passa pelo cinema e começa a atravessar a rua, mas não consegue aproveitar o sinal verde para pedestres da esquina, o que a obriga a dar a marcha à ré com suas botas brancas de couro. De costas para o cinema, com a raríssima primeira edição em suas mãos, olhando para o sinal vermelho, algo fisga Sharon por trás. Algo que a impede de atravessar a rua quando a luz finalmente fica verde. Quase como uma truta presa a uma linha invisível, ela se vira e anda de volta até o Bruin para ficar olhando para os cartazes diante do cinema. Um deles mostra Dean com Elke Sommer. O cartaz ao lado mostra ela e Dean espiando por trás de um muro, olhando para alguma coisa intrigante. Na foto, Sharon está vestindo seu figurino azul bebê, com o adorável chapéu com pompom que ela usa nos últimos 45 minutos de filme. O cartaz ao lado é mais um que mostra ela e Dean. É uma foto da sua primeira aparição no filme. No pôster, ela está estirada no chão no meio do saguão de um hotel na Dinamarca após ter levado um tombo engraçado, com Dean agachado ao seu lado para ajudá-la. Cara, ela lembra bem desse dia. Ela estava muito nervosa. Nenhum de seus outros trabalhos tinha exigido que ela fosse engraçada, muito menos que fizesse comédia pastelão! Aquela era sua primeira vez. E ser uma trapalhona desengonçada era praticamente a definição de sua personagem. Foi por isso que ela aceitou o papel. Mas isso não a deixou menos nervosa na primeira vez em que teve que cair de bunda para provocar um efeito cômico. E não apenas isso, mas precisou fazer aquilo na frente do Dean Martin, que tinha passado vinte anos assistindo ao Jerry Lewis caindo de bunda. Então, se ela fizesse tudo errado, Dean saberia. Agora, tanto o Dean quanto o diretor, Phil, disseram que ela tinha feito um bom trabalho com o seu tombo. E eles sabiam do que estavam falando, né? Ainda assim, ambos eram tão cavalheiros que, mesmo se ela tivesse feito tudo errado, eles não diriam isso a ela. Sharon não estava insegura em relação a todo o seu desempenho cômico. Ela realmente achava que tinha pegado o jeito da coisa. Ela só tinha algumas dúvidas em relação àquela primeira queda. Será que ela realmente tinha sido engraçada ou era apenas a “gatinha sensual” tentando ser engraçada? Como é que a gostosona saberia?
A plateia, sua burra, pensa ela. Ou a plateia ri de uma piada, ou ela não ri.
* * *
O anúncio na janela da bilheteria diz que a sessão começa às 3h30min. Ela confere o reloginho de ouro em seu pulso fino, e ele marca 3h55min. Bom, tudo bem, é mais ou menos nesse momento em que ela entra no filme. Puta merda, será? pensa Sharon. Será que dá tempo de assistir a Arma Secreta Contra Matt Helm no meio da tarde e ainda ficar pronta pra essa merda desse Playboy After Dark que eu preciso fazer hoje? Tá, pera aí, Sharon. Não faz nem quarenta minutos que você estava se gabando do quanto você é mais espontânea do que o Roman. Se não fosse por ele, você estaria dirigindo até Big Sur com Cheyenne neste exato momento para dançar de pé descalço na lama ao som de Crosby, Stills e Nash. E agora você está aqui parada, no meio da calçada, discutindo com você mesma por doze minutos pra ver se você pode ou não assistir ao seu próprio filme? Sharon, pensa ela, você é uma tremenda hipócrita.
— Uma, por favor — pede ela à garota bonitinha de cabelo cacheado e rosto elástico encapsulada no cubo de vidro da bilheteria.
— Setenta e cinco centavos — responde a garota através da abertura de metal no meio da caixa de vidro.
Sharon começa a revirar sua bolsa atrás de três moedas de 25 centavos, e então para, quando um pensamento cruza sua mente.
— Hmmm… e quanto é se… hã… eu estiver no filme?
A testa da garota encaracolada da bilheteria exibe rugas de pensamento.
— Como assim?
— Eu quero dizer — diz ela — que eu estou no filme. Eu sou a Sharon Tate. Meu nome está no cartaz. Sou a ‘S. Tate’.
Os olhos da garota encaracolada da bilheteria se arregalam.
— Você está nesse filme? — pergunta ela, levemente incrédula.
Sharon sorri e balança a cabeça.
— Sim. Eu faço a Srta. Carlon, a trapalhona.
Ela caminha até o lugar onde estão os cartazes do filme e aponta para aquele em que ela e Dean aparecem espiando por trás do muro.
— Essa sou eu.
A garota da bilheteria dá um gritinho ao olhar para o cartaz de onde ela está sentada, e, depois, volta-se para a loira sorridente.
— É você?
Sharon balança a cabeça.
— Aham.
— Mas é a garota do Vale das Bonecas — aponta a garota encaracolada.
Sharon sorri novamente e, dando de ombros, diz:
— Sim, eu sou a garota do Vale das Bonecas.
A garota encaracolada da bilheteria está começando a reconhecê-la, mas ela ainda tem uma questão. Ela aponta para o cartaz e diz:
— Mas você está de cabelo ruivo ali.
— Eles pintaram meu cabelo.
— Por quê?
— O diretor queria que a personagem tivesse o cabelo ruivo — responde Sharon.
— Uau! — exclama a garota encaracolada da bilheteria. — Você é muito mais bonita ao vivo.
Agora, só pra constar, se você um dia estiver andando pela rua, reconhecer uma atriz, e achar que ela parece mais bonita ao vivo do que nos filmes ou na TV, resista à tentação de dizer isso a ela. Por que isso não é uma coisa que elas gostam de ouvir. Isso as faz sentirem-se inseguras. Porém, Sharon sabia o quanto era bonita; então, embora aquilo a incomodasse um pouco, no fim das contas, ela não dava muita bola.
— Bem — diz ela, dando uma desculpa para a garota da bilheteria —, é que acabei de arrumar o meu cabelo.
A garota da bilheteria grita pela porta aberta do seu guichê, chamando o gerente do dia, Rubin, que está no saguão do cinema:
— Ei, Rubin, vem cá!
Rubin vai até a área das bilheterias do Bruin, e a garota encaracolada aponta seu dedo para Sharon e diz:
— Essa é a garota do Vale das Bonecas.
Rubin para, olha para Sharon e pergunta à garota da bilheteria:
— Patty Duke?
Ela balança sua cabeça encaracolada e diz:
— Não, a outra.
— A garota de A Caldeira do Diabo?
Ela balança sua cabeça encaracolada novamente.
— Não, a outra.
Sharon entra no jogo de adivinhação:
— A que termina fazendo filmes pornô.
Rubin a reconhece:
— Ah!
— Ela está no nosso filme — diz a ele a garota de cabelo encaracolado.
— Ah! — diz Rubin, novamente.
— Ela é a ‘S. Tate’ — diz a garota de cabelo encaracolado da bilheteria.
— Sharon Tate — corrige a atriz, que depois corrige a si própria —, Sharon Polanski, na verdade.
Agora que foi plenamente atualizado, Rubin se transforma no gerente gracioso recebendo uma celebridade como cliente.
— Bem-vinda ao Bruin, Sra. Tate. Obrigado por vir ao nosso cinema. Gostaria de entrar para assistir ao filme?
— Eu posso? — pergunta ela, graciosamente.
— Sem dúvida — fazendo um gesto com a mão indicando a entrada da sala de exibição.
Sharon atravessa o saguão e abre a porta que leva ao auditório às escuras. Como ficou jogando conversa fora com a garota encaracolada da bilheteria dentro do guichê de vidro, ela reza para não ter perdido sua entrada e seu tombo humorístico. Quando entra na sala de cinema, ela escuta os rolos de filme girando no projetor dentro da cabine sobre a sua cabeça, e até mesmo o leve tic… tic… tic… da película de 35mm passando pela abertura.
Ela adora aquele som.
No Texas, quando ela ia ao cinema que ficava na base do Exército de seu pai, ou quando ia até a sala de exibição local de sua cidade, o Azteca, fosse com suas amigas para ver alguma coisa como Clamor do Sexo, ou quando era escalada para levar sua irmãzinha Debra para ver o novo filme da Disney, ou com um garoto, ao Starlight Drive-In, para assistir ao novo filme do Elvis ou da série A Praia dos Amores (e, invariavelmente, se envolvia numa espécie de luta enquanto ela tentava assistir ao filme e ele, dar uns amassos), Sharon nunca encarou o que via como uma “obra cinematográfica”. Nem, honestamente, como “arte”. Cinema não era arte, não como o livro de Thomas Hardy em suas mãos. Era apenas uma coisa divertida para se fazer. Era entretenimento. Mas sua relação com Roman a convenceu de que o cinema poderia ser arte. O Bebê de Rosemary de Roman não era como Tess of the d’Urbervilles, mas também era arte, só de um tipo diferente. Ela havia lido o livro O Bebê de Rosemary e visto o filme de Roman, e o filme dele era mais artístico. Ela também nunca tinha percebido que alguns diretores faziam seus filmes com a mesma potência dos grandes autores. Não todos os diretores. Não a maioria deles. Nenhum dos diretores com quem ela já havia trabalhado, exceto seu marido. Mas alguns.
Ela relembra um incidente que aconteceu no set de O Bebê de Rosemary que ilustra bem esse ponto. O diretor de fotografia, Billy Fraker, havia preparado um plano; era do personagem de Ruth Gordon, a Sra. Castevet. Ela está no apartamento de Rosemary e pede para usar o telefone no outro cômodo. Rosemary diz a ela para ir até o quarto fazer a ligação; então, a Sra. Castevet senta na cama e fala por um momento ao telefone. E o plano era do ponto de vista de Rosemary dando uma rápida olhada para a idosa em seu quarto enquanto ela fazia a ligação. Desse modo, Billy Fraker posicionou a câmera no corredor para que ela filmasse Ruth Gordon através do vão da porta. E, do jeito que Fraker a posicionou, você veria claramente Ruth Gordon enquadrada entre os dois marcos da porta. Quando Roman olhou pelo visor, ele não gostou do que viu, fez ajustes. Quando foi feito o que Roman queria, a Sra. Castevet não estava mais claramente em cena. Ela ficava um pouco escondida pela lateral esquerda da porta. Quando Sharon olhou pelo visor, da câmera (ela sempre olhava os planos de Roman pelo visor) ela não entendeu porque Roman fizera a mudança. Se aquele era para ser um plano da Sra. Castevet, ele obviamente não estava tão bom quanto o anterior. Ela estava cortada pela metade.
O diretor de fotografia também não entendeu. Mas Roman era o diretor; então, Fraker fez o que ele disse. Sentado num caixote de maçãs, Roman bebia café de um copo branco de isopor enquanto a equipe ajustava a câmera quando Sharon lhe perguntou por que ele havia mudado o plano.
Roman simplesmente abriu um sorriso de duende sabichão e disse: “Você vai ver.” Em seguida, ele ficou de pé e saiu andando.
Que diabos isso quer dizer? pensou Sharon. Logo depois, ela se esqueceu daquilo, por cerca de seis meses. Os dois foram juntos à primeira sessão de teste com uma plateia, que estava sendo realizada no Alex Theatre, em Glendale, na Califórnia. Roman e Sharon sentaram perto dos fundos da sala, de mãos dadas. Roman, que geralmente gostava de sentar mais perto da tela quando assistia aos filmes de outras pessoas, gostava de sentar perto dos fundos quando assistia aos seus. Porque, nesse caso, ele estava prestando mais atenção na plateia do que no filme.
O cinema estava lotado. A cena com a Sra. Castevet no apartamento de Rosemary apareceu na tela. Ruth Gordon pergunta a Mia Farrow se pode usar seu telefone na outra peça. Mia diz que sim, e aponta para o seu quarto.
Roman inclinou-se para perto de sua esposa e sussurrou para ela:
— Lembra de quando você me perguntou por que eu mudei aquele plano?
Ela tinha se esquecido daquilo, mas agora ela lembrava.
— Sim.
— Observe — disse ele, e apontou, mas não para a tela.
Roman apontou, em vez disso, para o mar de cabeças sentado à sua frente, cerca de seiscentas pessoas.
Na tela, Mia Farrow, no papel de Rosemary, dá uma olhada para a idosa em seu quarto, e o filme corta para o que ela está vendo. Que é a imagem de Ruth Gordon, no papel de Sra. Castevet, sentada na cama, falando ao telefone, parcialmente escondida pela lateral esquerda da porta.
Então, de repente, Sharon testemunhou todas as seiscentas cabeças à sua frente inclinando-se levemente para a direita para tentar enxergar além da lateral da porta. Sharon chegou a levar um susto com aquela visão. É claro que eles não enxergariam melhor se movessem suas cabeças, só existia o que estava na tela. E eles também não se inclinaram para a direita de forma consciente; todos fizeram isso de forma instintiva. Ou seja, Roman havia manipulado seiscentas pessoas, e, logo, esse número chegaria à casa dos milhões, espalhados por todo o mundo, a fazer uma coisa que elas jamais fariam se parassem para pensar. Mas elas não estavam pensando. Roman estava pensando por elas.
E por que ele fez aquilo?
Porque ele podia.
Ela olhou para ele e lhe deu o mesmo sorriso de duende sabichão que ele havia dado a ela aquele dia, mas, neste dia, ela entendeu. O único pensamento em sua cabeça foi: UAU!
Em alguns momentos, Sharon sabia que ela não havia apenas se apaixonado por um bom diretor de cinema e se casado com ele. Ela havia se apaixonado por um Mozart cinematográfico e se casado com ele. Este foi um desses momentos.
Por outro lado, a película de 35mm da qual ela participa e que está sendo projetada na tela do Bruin agora está tão distante desse nível artístico cinematográfico quanto a Terra da Lua. Arma Secreta Contra Matt Helm não era cinema de arte, era apenas um filme. E não era sequer um bom filme. Quer dizer, a menos que você dê umas boas risadas assistindo ao Dean Martin no papel de Matt Helm. E já que este é o quarto filme do Matt Helm que Dean Martin faz, pelo jeito muita gente dá umas boas risadas assistindo ao Dean Martin no papel de Matt Helm. (O contrato de Dean Martin para interpretar Matt Helm era tão bom que ele ganhou mais dinheiro nos primeiros três filmes da série do que Sean Connery nos primeiros cinco em que interpretou James Bond, algo que enfurecia o avarento ator escocês.)
Enquanto Sharon descia pelo corredor escuro da sala procurando por um lugar para se sentar, ela viu que a cena que estava sendo projetada na tela era aquela em que Matt Helm desembarcava na Dinamarca.
Ah, que bom, pensa Sharon. A cena do hotel em que ela faz sua grande entrada é a próxima. Enquanto ela vai se espremendo entre as cadeiras de uma fileira vazia, ela dá uma olhada em volta da sala mergulhada na penumbra. Há entre trinta e cinco e quarenta pessoas espalhadas pelo imenso espaço.
Quando escolhe um assento no meio da fileira, Dean, encenando Matt na tela, faz um comentário espirituoso para uma aeromoça sensual, e a plateia ri.
Bom, pensa ela, as pessoas estão rindo e gostando do filme. Sharon pega em sua bolsa o enorme par de óculos que ela usa quando assiste a filmes, os coloca, e se acomoda em sua cadeira bem quando o agente secreto Matt Helm, vestindo sua combinação de blusa de gola rolê e casaco esportivo, adentra o saguão do hotel dinamarquês.
Duas espiãs vilãs diferentes, Elke Sommer e Tina Louise, o vigiam. Enquanto Helm conversa com o funcionário da recepção, T. Louise, falando no que supostamente deveria ser um sotaque húngaro, aborda o agente secreto, fazendo contato e combinando um encontro para mais tarde, àquela noite.
Quando ela se afasta, Matt Helm volta-se para o recepcionista e faz um comentário no bom e velho estilo humorístico de Dean Martin:
— Vocês têm um hotel e tanto aqui.
Entra em cena Sharon, interpretando sua desajeitada personagem, a agente secreta disfarçada “Freya Carlson”…
* * *
Enquanto aguardava, longe das câmeras, no set na Dinamarca, que seu diretor, Phil Karlson, a chamasse para entrar em cena, Sharon se lembrou de quando ela leu o roteiro pela primeira vez, cinco meses atrás.
Quando ficou sabendo que estavam lhe oferecendo um papel na nova comédia de espionagem de Dean Martin/Matt Helm, ela naturalmente imaginou que interpretaria uma sedutora gostosona e estilosa característica desse tipo de filme. E se tivessem lhe oferecido um dos papéis das outras três protagonistas — Elke Sommer, Nancy Kwan e Tina Louise —, ela estaria correta. Mas sua personagem, Freya Karlson, era a linda, embora inepta e atrapalhada, parceira de Matt Helm. Sharon já havia atuado em duas comédias antes de Arma Secreta Contra Matt Helm: a sátira sensual Não Faça Onda, com Tony Curtis, e o filme de Roman, A Dança dos Vampiros. Mas nenhuma dessas comédias lhe permitiu ser engraçada. Enquanto outros atores (Tony Curtis, Roman Polanski, Jack MacGowran) em ambos os filmes corriam loucamente para lá e para cá, levavam tombos e faziam caretas, Sharon agia apenas de forma blasé e sedutora (a “gatinha sensual”). O fato de ela ficar ridiculamente linda de biquíni em Não Faça Onda até foi usado de forma cômica, mas, ao contrário de Leigh Taylor-Young em O Abilolado Endoidou, o filme nunca explorou as possibilidades humorísticas de sua personagem.
Mas o papel de Freya Carlson era diferente. Nessa comédia, ela deveria ser o alívio cômico. Um alívio cômico para o Dean Martin, um dos mais brilhantes humoristas do ramo. Além disso, como sua personagem era uma trapalhona e sua interpretação se baseava em comédia pastelão (levar tombos, cair em poças de lama, derrubar coisas), essencialmente o que estavam lhe pedindo era para interpretar o papel de Jerry Lewis contracenando com o Dean Martin! Sharon mergulhou de cabeça naquela oportunidade.
Mas isso era passado, e agora ela estava no presente.
E agora, na locação na Dinamarca, no saguão daquele hotel dinamarquês, esperando que o diretor desse a deixa para que sua personagem invadisse a cena e executasse seu primeiro tombo humorístico, Sharon estava apavorada. Mas não por medo de se machucar, embora tenha ficado um pouco preocupada, no começo, com a possibilidade de bater a cabeça no piso duro do saguão do hotel. O chefe da técnica, Jeff, disse a ela para encostar o queixo no peito quando caísse que ficaria tudo bem. Eles colocaram um enchimento em sua roupa para proteger o traseiro e a lombar. E Jeff lhe deu algumas coisas para memorizar: encostar o queixo no peito quando caísse e levantar a garrafa de champanhe que ela segurava durante a queda para que não se quebrasse no chão, produzindo uma chuva de estilhaços de vidro. Além disso, a câmera estaria apontada para o seu vestido, de modo que, quando caísse, Sharon deveria fechar as pernas. Porém a parte mais apavorante de todas era levar um tremendo tombo humorístico na frente do antigo parceiro de Jerry Lewis.
Nos bastidores, enquanto aguardava a deixa para entrar em cena, com os braços carregados de tralhas e a cabeça cheia de coisas para lembrar, Sharon sentia-se mais conectada com seu personagem do que nunca. Assim como Freya, ela também estava fora de sua zona de conforto (Freya como agente secreta, Sharon como comediante) e intimidada pelo seu parceiro mais experiente (Matt Helm, o maior agente secreto do mundo depois de James Bond, e Dean Martin, metade de uma das maiores duplas humorísticas do cinema). Além do mais, assim como Freya, ela estava disposta a fazer um bom trabalho, mas também tinha um pouco de medo de estragar tudo. Alguém disse a ela, em determinado momento, que haviam considerado chamar Carol Burnett para o papel de Freya. Era óbvio por que eles haviam decidido optar por um caminho diferente. Mas, se eles se arrependeriam ou não dessa escolha, dependia inteiramente de como Sharon executaria aquela cena.
Phil Karson, o gentil cavalheiro que dirigia a película, disse a ela que este era o momento que definiria seu personagem para os espectadores. Em dado momento, chegou-se a sugerir que talvez sua personagem devesse ser apresentada como um outra beldade sensual, como as demais protagonistas do filme. Então, só depois que a plateia a julgasse pela sua aparência de vedete dos anos 1960, seria revelado que ela era uma personagem cômica. Mas, para o deleite de Sharon, Phil rejeitou a abordagem. “Você é o melhor personagem desse filme bobo”, dissera a ela. Na verdade, ele repensou todo o conceito. Sua personagem só usaria um figurino remotamente sexy lá pela metade do filme. Seus longos cabelos loiros foram pintados de ruivo e presos num rabo de cavalo. Ao contrário de Sommer, Kwan e Louise, que foram todas apresentadas usando roupas estilosas e estrangeiras, Sharon fez sua entrada vestindo o uniforme de uma representante da agência dinamarquesa de turismo. Enfiaram uns óculos engraçados em seu rosto, e ela passava a primeira metade do filme desfilando com uma coleção de chapéus idiotas.
— Na minha opinião — disse o diretor a ela —, o filme só começa de verdade depois que você entra em cena. Então, quando você entrar, precisa causar um estrondo.
Naquele momento, naturalmente, Sharon ficou empolgada com a confiança que o diretor depositou nela, mas a hora de causar o estrondo havia chegado, e ela estava torcendo para fazer um barulho dos grandes, e não apenas um estalinho.
* * *
Na tela do Bruin, Sharon, no papel de Freya Carlson, entra correndo em cena, trazendo uma garrafa de champanhe e gritando o nome do personagem do ator com quem contracena: Sr. Helm, Sr. Helm, Sr. Helm! Quando Dean se vira para olhar para ela, ela cai de costas por cima de sua maleta, e aterrissa de bunda no chão.
Toda a plateia da sessão da tarde no Bruin cai na gargalhada com o tombo cômico de Sharon. Uau! Isso foi demais, pensa ela. Ela chega a se virar em sua cadeira para olhar para as pessoas sorrindo. Se pudesse, apertaria as mãos de todas, e as agradeceria uma por uma. Quando volta a olhar para a tela, ela está com um sorriso de orelha a orelha em seu lindo rosto. Essa foi uma boa ideia, pensa ela. Ela abre o zíper das botas brancas, desliza seus pés para fora, joga as longas pernas por cima do encosto do assento à sua frente e se acomoda para curtir o restante do espetáculo.