Era Uma Vez em Hollywood
Capítulo Quatro: Brandy, você é uma boa menina
Capítulo Quatro
Brandy, você é uma boa menina
Depois que Cliff ficou viúvo, ele nunca mais teve nenhum relacionamento sério com uma mulher. Ele só transava com as garotas. Ele se aproveitava de toda aquela onda de amor livre/buceta livre que pairava no ar no final dos anos 1960. Mas não teve nenhuma namorada séria e, definitivamente, nenhuma esposa. Porém, Cliff tinha em sua vida uma fêmea que ele amava, e que o amava de volta. Sua pitbull de pelo castanho-avermelhado, cabeça chata e com as orelhas cortadas, chamada Brandy.
* * *
A cadela espera ansiosamente ao lado da porta do trailer de Cliff pelo barulho do Karmann Ghia do dono estacionando lá fora. No instante em que ela o escuta, o cotoco do rabo começa a balançar rapidamente de um lado para o outro, e ela grunhe e arranha instintivamente a porta com a pata. Como passa o dia inteiro fora, Cliff deixa a pequena TV preta e branca ligada para que Brandy não se sinta sozinha. No momento está passando o episódio do dia 7 de fevereiro de 1969 do programa de variedades das noites de sexta na ABC, The Hollywood Palace. Toda semana, um apresentador convidado diferente chamava ao palco uma série de atrações musicais. Na semana anterior, o apresentador tinha sido o comediante e pianista Victor Borge. Naquela semana, era o crooner do musical da Brodway Camelot, Robert Goulet. Goulet chora enquanto assiste a uma interpretação dramática que Jimmy Webb faz do clássico metafísico MacArthur Park.
MacArthur Park is melting
in the dark
All the sweet green icing
flowing down
A porta da frente se abre, e lá está Cliff Booth em seu figurino jeans completo de Billy Jack. Como sempre acontece toda noite quando Cliff volta para casa, Brandy fica totalmente maluca. Cliff, que trata Brandy com pulso firme (“Ela gosta de ser tratada com pulso firme,” disse a Rick), deixa que ela pule em cima dele para desopilar um pouco. Mas, naquela noite, Cliff tem uma agradável surpresa para a amiguinha. Cliff e Rick almoçaram no Musso and Frank, e o dublê comeu uma bisteca, e passou o dia inteiro com o osso no bolso da jaqueta da Levi’s, enrolado em um dos guardanapos de pano branco do restaurante. Depois de deixar que Brandy faça aquela algazarra de boas-vindas por alguns instantes, ele grita com ela:
— Tá bom, desce, desce, desce.
A cachorra senta sobre as patas traseiras, com o focinho virado para cima, apontando para Cliff. Agora que tem sua atenção total, Cliff puxa o guardanapo branco com o osso carnudo de dentro do bolso da jaqueta jeans.
— Olha o que eu trouxe pra você — atiça ele.
Uma coisa pra mim?, pensa Brandy.
Enquanto vai desembrulhando o osso, ele diz:
— Cara, você vai ficar maluca.
Então, de dentro do guardanapo, emerge o osso da bisteca. Excitada, Brandy fica de pé sobre as patas traseiras e se apoia com as dianteiras na cintura de Cliff. Cliff ri do quanto Brandy fica faceira. O cara pode levar uma mulher no Musso and Frank, pedir a mesmíssima bisteca, uma garrafa de vinho tinto, e completar com uma fatia de cheesecake que nem de longe ela demonstraria a mesma alegria. O raciocínio se encaixa perfeitamente na teoria de Cliff sobre a mentalidade mercenária das mulheres. Ele acredita que aquilo que as pessoas chamam de namoro não passa de uma transação financeira. As garotas preferem sair com um idiota rico, para quem uma conta de restaurante não significa porra nenhuma, do que com um babaca apaixonado que economizou e gastou até o último centavo com elas.
Mas não esta garota. Ele estende a mão segurando o presente e a cadela dá um salto, pegando o osso no ar com suas poderosas mandíbulas. Cliff o solta, e Brandy corre para o seu cantinho e deita em seu travesseiro, onde fica mastigando, sozinha, o osso bovino.
* * *
A história de como Cliff e Brandy acabaram juntos é bastante peculiar. Faz pouco mais de dois anos. Cliff estava de bobeira em seu trailer atrás do drive-in de Van Nuys quando seu telefone tocou. Do outro lado da linha era Buster Cooley, um amigo dublê de Cliff que também era um desocupado. Cooley devia 3.200 dólares a Cliff, uma soma acumulada ao longo dos últimos cinco ou seis anos. Quatrocentos aqui, 550 ali. A primeira vez que emprestou dinheiro ao amigo, Cliff estava na melhor fase de sua vida. Foi na época em que sua parceria com Rick lhe permitiu que ele fosse o dublê do protagonista em diversos filmes de ação. Rick reclama e resmunga o tempo todo sobre essa época, mas, para Cliff, aquele foi o melhor momento de sua carreira. Ter dinheiro pela primeira vez na vida foi algo que deixou um pobretão como Cliff meio desorientado. Sua grande aquisição foi um barquinho que ficava ancorado na Marina del Rey, e no qual ele morava. Foi durante esse período de abundância que ele emprestou a maior parte da grana a Cooley. Agora, Cliff não era mais idiota. Cooley talvez estivesse se aproveitando dele, mas não o estava passando para trás. Sempre que Buster lhe pedia dinheiro emprestado era porque estava realmente precisando. Estavam prestes a tomar seu carro, sua TV, despejá-lo de seu apartamento, ele ia perder o carro outra vez; ele precisava pagar o cartão de gasolina da Union 76, o primeiro e o último mês de aluguel para conseguir sair e alugar um novo apartamento. Buster Cooley talvez fosse um folgado, mas não era um trambiqueiro. Se ele conseguisse o dinheiro, ele o devolveria a Cliff, e Cliff sabia disso. Para Cliff, não fazia sentido ligar para Buster e humilhá-lo. Primeiro, porque isso não o faria receber seu dinheiro mais rápido; segundo, porque Buster simplesmente passaria a evitá-lo dali em diante; e, terceiro, chegaria o dia em que os dois acabariam se encontrando (LA é uma cidade pequena). E se Cliff pressionasse Cooley e ele tentasse se esquivar, quando se encontrassem, Cliff seria obrigado a confrontá-lo. E é em situações como essa, entre homens como esses, que as coisas podem ficar feias bem rápido. Cliff sabia que, se Buster ganhasse alguma grana, ele receberia pelo menos uma parte do que emprestara. Mas ele também sabia que Buster jamais ganharia uma grana. Então, mentalmente, havia dois anos, ele dissera adeus àquele dinheiro. E embora certamente pudesse fazer um bom uso daquela grana naquele momento, ainda assim ele ficava feliz de ter podido ajudar um velho amigo. Talvez não com 3 mil dólares, mas, enfim, se na época ele não pudesse ter feito aquilo, ele não teria feito.
Sendo assim, Cliff ficou agradavelmente surpreso quando ouviu a voz de Cooley do outro lado do telefone. E ficou ainda mais surpreso quando Buster lhe perguntou se poderia encontrá-lo em Van Nuys naquele dia mesmo. Pouco mais de uma hora depois, a picape Datsun vermelha 1961 de Buster estacionava na frente do trailer de Cliff. Cliff ofereceu uma cerveja ao amigo e, depois que ambos abriram duas latas de Old Chattanooga, Cooley trouxe à tona a grana que devia ao velho camarada.
— Sim, e quanto àqueles 3 mil dólares que eu te devo…
— Três mil e duzentos dólares — corrigiu Cliff.
— Três mil e duzentos? Tem certeza? — perguntou Cooley.
— Positivo — disse Cliff.
— Bem, você sabe melhor do que eu. Três mil e duzentos — disse Cooley. — Sobre isso: não tenho essa grana.
Cliff não respondeu, simplesmente deu um gole na cerveja.
— Mas não se desespere, eu tenho uma coisa muito melhor.
— Você tem uma coisa melhor do que 3.200 dólares em notas verdinhas americanas? — perguntou Cliff ceticamente.
— Pode apostar seu cu que sim — disse Cooley, confiante.
Cliff sabia que a única coisa melhor do que dinheiro eram analgésicos, de modo que a menos que Cooley tivesse lhe trazido uma maleta cheia de Excedrin, ele não ficaria muito empolgado.
— Desembucha, Buster, o que você tem aí que é melhor do que grana?
Gesticulando com o dedão na direção da porta, Cooley disse:
— Vamos lá fora dar uma olhada.
Os dois homens saíram do trailer, ainda bebendo suas latas de Old Chattanooga, e Buster levou Cliff até a traseira de sua picape. De pé sobre as quatro patas, dentro de uma gaiola de ferro na caçamba da Datsun de Buster, estava Brandy.
Embora Cliff tivesse uma queda por cães, especialmente fêmeas, e Brandy fosse mesmo uma linda garota, ele não ficou muito impressionado logo de cara.
Incrédulo, Cliff perguntou:
— Você está querendo me dizer que essa cadela aí vale três mil e duzentos dólares?
— Não — respondeu Cooley, sorrindo. — Ela não vale 3.200 dólares. — explicou, e então, abriu ainda mais seu sorriso. — Ela vale alguma coisa entre 17 e 20 mil dólares.
— Sério? — perguntou Cliff, desconfiado. — E por quê?
Cooley responde com convicção:
— Porque ela é o melhor cão de rinha de todo o Hemisfério Ocidental.
Isso fez com que Cliff levantasse suas sobrancelhas.
Buster continuou:
— Essa cadela consegue vencer qualquer adversário. Pitbulls, dobermanns, pastores-alemães, dois cachorros de uma vez, não importa. Ela estraçalha qualquer um.
Cliff olhou para a cadela dentro da gaiola, avaliando-a em silêncio enquanto Buster prosseguia:
— Não se trata só de um cachorro, essa cadela é dinheiro no bolso. Ela é a possibilidade de comer um filé quando você bem entender. É como ser dono de uns cinco cavalos de tombo!
Um cavalo de tombo é um cavalo que você ensina a cair no chão sem se machucar ou se assustar. E em uma Hollywood que produzia centenas de faroestes para o cinema e a televisão, se você tivesse um cavalo que soubesse cair e levantar, era como ter uma máquina de imprimir dinheiro. A única maneira de ganhar dinheiro mais fácil seria tendo a sorte de ter um filho que virasse um ator mirim de sucesso.
— Lembra do Ned Glass? — pergunta Buster. — Que tinha aquele cavalo de tombo Blue Belle?
— Lembro — disse Cliff.
— Lembra quanto dinheiro ele ganhou com aquele pangaré?
— Lembro — responde Cliff. — Uma pequena fortuna.
— Essa cadela — diz Buster, apontando para a cadela na gaiola —, é que nem ter quatro Blue Belles.
— Beleza, Buster — disse Cliff —, estou te ouvindo. Qual é a sua proposta?
— Olha, eu não tenho dinheiro pra te dar — respondeu Cooley, com sinceridade —, pelo menos não 3 mil dólares. Mas o que eu posso te oferecer é metade dos lucros nessa Sonny Liston canina!
Cliff ficou escutando enquanto Buster descrevia seu plano:
— Eu tenho 1.200 dólares. A gente coloca ela numa rinha de cães que acontece em Lomita. Eu aposto os 1.200 dólares, sento num canto, e fico vendo ela fazer o trabalho dela. Depois que você vir essa garota em ação você vai sacar o potencial. Daí eu e você vamos colocando ela no circuito de rinhas, apostando nossos lucros, e, ali pela sexta luta, cada um de nós terá uns 15 mil.
Cliff sabia que Cooley não estava querendo lhe aplicar um golpe. Ele acreditava em tudo o que estava dizendo a Cliff. Mas Cooley estava oferecendo aquilo como se fosse uma coisa certa, e Cliff nunca acreditou nesse tipo de coisa. Além do mais, rinha de cães era uma coisa ilegal, sem falar que era de tremendo mau gosto, e havia simplesmente muita coisa que podia dar errado.
— Pelo amor de Deus, Buster — reclamou Cliff. — Eu não quero participar de rinha de cachorro nenhuma, eu só quero a porra da minha grana. Se você tem 1.200 para apostar, por que você não dá esse dinheiro para mim? — perguntou Cliff.
Buster respondeu honestamente:
— Porque você e eu sabemos que, se eu te der 1.200 dólares, isso é tudo o que você vai receber — enfatizou Buster. — Eu não quero te pagar 35 centavos por dólar emprestado. Você foi um cara ponta firme pra caralho quando eu precisei de ajuda, e eu quero que você lucre alguma coisa! Então, vamos comigo pelo menos na primeira luta em Lomita. Veja ela lutando. Confia em mim, Cliff, vai ser uma das coisas mais emocionantes que você vai presenciar. Se ela ganhar, são 2.400 dólares. Se você não quiser continuar, os 2.400 são seus.
Cliff bebeu mais um gole de cerveja enquanto olhava para o musculoso animal dentro da gaiola de ferro.
Buster finalizou seu discurso:
— E você me conhece; então, sabe que eu não estou tentando te dar um golpe. Se eu estou falando é porque eu acredito nisso. Confia em mim. Pelo menos essa primeira luta essa cadela pode vencer.
Cliff olhou para a cadelinha na gaiola e depois para o filho de uma cadela parado à sua frente com uma lata de cerveja na mão. Em seguida, se agachou e aproximou seu rosto ao do cão do outro lado das grades. Os dois entraram numa disputa de quem piscaria primeiro. Quando a menina não conseguiu mais suportar a poderosa encarada do homem, ela rosnou e tentou mordê-lo. A gaiola de ferro impediu que os dentes caninos perfurassem o lindo rosto de Cliff Booth. Ele virou-se e olhou para Buster Cooley.
— Qual é o nome dela?
Cliff, Buster e Brandy foram até Lomita para a primeira luta. Tudo o que Buster disse acabou se revelando verdade: Brandy era foda mesmo, e matou o outro cachorro em menos de um minuto. Eles ganharam 2.400 dólares naquela noite. Cliff não estava acreditando o quanto aquela experiência havia sido incrível. Foda-se o Dérbi de Kentucky, ele pensou, estes foram os 45 segundos mais emocionantes do mundo dos esportes.
Cliff tinha sido fisgado.
Nos seis meses seguintes, eles frequentaram o circuito de rinhas de cão em todo o condado de Los Angeles, no condado de Kern, e em Inland Empire. Eles puseram Brandy para lutar em Compton, Alhambra, Taft e Chino. E Brandy ganhou todas as lutas, e a maioria, com facilidade. Ela se machucou pouquíssimas vezes, e, mesmo assim, nada muito feio. E, sempre que se machucava, eles davam um tempo para que ela pudesse se recuperar. Entretanto, após as primeiras cinco lutas, nas quais Brandy parecia indestrutível, as apostas foram subindo, e a competição, ficando cada vez mais acirrada. Essas lutas os levaram até Montebello, Inglewood, Los Gatos, e Bellflower. Brandy seguia vencendo, mas as lutas se tornaram aflitivamente mais longas e mais sangrentas. Ela se feria muito mais, e demorava muito mais tempo para se recuperar.
Esse era o lado negativo. O lado positivo era que cães mais fortes se traduziam em muito mais dinheiro quando ela vencia.
Após a nona luta, Cliff e Buster já haviam ganhado cerca de 14 mil dólares cada um. Porém Buster, que sabia que tinha uma coisa boa em suas mãos quando aquilo finalmente aconteceu, tinha um número na cabeça. Vinte mil dólares para cada. Depois disso, Brandy poderia se aposentar. Mas foi durante sua décima luta, em San Diego, na qual a cadela lutou com um pitbull chamado Caesar, que ela se machucou — e se machucou feio. A luta foi interrompida e terminou sem vencedor. Cliff sabia que Brandy tinha muita sorte pela luta ter sido interrompida, porque se aquilo tivesse se estendido por mais vinte minutos, Caesar a teria matado. Tanto em tempos de guerra quanto em tempos de paz, Cliff tinha visto pessoas que ele amava serem destroçadas. Mas a agonia que ele experimentou assistindo a Brandy ser violentamente castigada por Caesar foi mais do que ele podia suportar.
De modo que Cliff ficou chocado quando Buster inscreveu Brandy em uma outra rinha em Watts, contra um macho monstruoso chamado Augie Doggie, antes que ela estivesse totalmente recuperada da última surra.
Mas Buster estava confiante.
— Cara, eu te prometi 20 mil dólares, e eu me prometi 20 mil dólares, e nós estamos quase lá, velho! Essa vai ser a última luta dela, porra!
— Última luta porra nenhuma! — gritou Cliff. — Não tem a menor chance de ela vencer aquele monstro do Augie Doggie nessas condições, caralho.
— Mas essa é a beleza da coisa — disse Buster, animadamente. — Ela não precisa vencer. Como ela nunca perdeu antes, a gente coloca ela pra lutar e aposta no outro cachorro.
Foi aí que Cliff partiu pra cima de Buster. Os dois se atracaram num combate selvagem do lado de fora do trailer, por cerca de quatro minutos, até que Cliff Booth quebrou o pescoço de Buster Cooley.
E matou o cara.
A briga aconteceu por volta de cinco da tarde. Cliff ficou assistindo TV ao lado do cadáver de Buster até cerca de duas da manhã. Então, depois que o drive-in fechou, Cliff enfiou o corpo no porta-malas do carro de Cooley, um Impala Sport Coupe 1965 branco que ele havia comprado com o dinheiro das vitórias de Brandy. Com Brandy sentada no banco do carona, Cliff dirigiu até Compton e abandonou o carro lá, com as chaves escondidas no quebra-sol. Ele se afastou do carro e ficou passeando com Brandy a noite inteira, até o dia amanhecer. Quando o sol nasceu, ele e a cadela pegaram um ônibus de volta para casa em Van Nuys.
Não era a primeira vez que Cliff cometia um homicídio e escapava da cadeia. A primeira vez tinha sido em Cleveland, nos anos 1950. A segunda, quando Cliff assassinou sua mulher, dois anos atrás. Essa era a terceira vez, e Cliff também se safou. Ele nunca ficou sabendo o que aconteceu com Buster Cooley ou com o carro. Na verdade, ninguém que ele conhecia jamais falou em Buster novamente. Isso tinha sido no ano anterior. E, desde então, Cliff botou Brandy para lutar apenas duas vezes, só quando estava realmente precisando de grana. Após a última luta, no entanto, Cliff prometeu a Brandy, muito embora ela não o entendesse, que ela nunca mais lutaria novamente. E essa era uma promessa que Cliff pretendia cumprir.
* * *
Em seu trailer, na noite da sexta-feira, 7 de fevereiro de 1969, Cliff estala os dedos e aponta para uma cadeira. Ao lado da poltrona reclinável de Cliff há essa cadeira de madeira com um travesseiro de cachorro. Brandy sobe nela e assume sua posição, sentada sobre as patas traseiras, esperando enquanto Cliff prepara seu jantar. Ele o faz sem muita pressa, embora saiba que isso é uma tortura para o cão. Mas tudo bem — Cliff sabe melhor do que ninguém que a tortura forja caráter. Antes de preparar a refeição da cadela, ele abre a geladeira e tira de um anel de plástico uma lata de cerveja Old Chattanooga.
Sua pequena televisão em preto e branco está sintonizada na afiliada local da ABC, o Canal 7 KABC. Uma propaganda da marca de cigarros que Cliff fuma, Red Apple, passa na telinha monocromática. Um típico cara dos anos 1960 com o cabelo emplastado de Brylcreem vestindo um terno preto com gravata olha para a câmera, que o enquadra na altura dos ombros.
Um locutor em off pergunta a ele:
— Você daria uma mordida nessa maçã?
O típico cara responde, entusiasmado:
— Pode apostar que sim!
Então, ele traz uma maçã até a sua boca e dá uma mordida bem crocante nela.
Cliff toma um gole de sua Old Chattanooga e depois larga a lata sobre o balcão da cozinha. Ele abre o armário e tira duas latas de comida de cachorro da Wolf’s Tooth (Comida da boa para cães da pesada). Cliff abre as latas com um abridor vagabundo e depois vira a gororoba, que sai no formato da lata, dentro do pote de Brandy. Sabendo que está na hora da comida, e assistindo sua refeição escorregar para fora da lata e cair no pote fazendo um barulho, Brandy está sofrendo para ficar quietinha em sua cadeira sem dar um pio. Mas Cliff a treinou, e a treinou muito bem. Ela pode não saber muita coisa, mas sabe o que se espera dela na hora da comida. E ela sabe muito bem que deve ficar naquela cadeira, sem choramingar, até que o dono lhe dê o sinal para comer.
Na tela da pequena televisão em preto e branco, uma Marlo Thomas dos anos 1960, com seu penteado bufante, olha para a câmera, que a enquadra dos ombros para cima, enquanto um locutor em off pergunta:
—Você daria uma mordida nessa maçã?
— Pode apostar que sim! — responde ela.
E, então, traz uma enorme maçã até sua boca e dá uma mordida crocante nela.
Em sua cadeira, Brandy balança furiosamente o rabo de um lado para o outro, enquanto o corpo musculoso vibra de excitação, expectativa e instinto canino. Agora que Cliff já despejou as duas latas de comida de cachorro no pote de Brandy, ele volta a atenção para o fogão e tira a panela de água fervente do fogo. Cliff vira a panela cheia de macarrão fervente num escorredor e, após sacudi-lo algumas vezes para se livrar do excesso de água, joga a massa de volta na panela.
* * *
Na tela da TV, uma jovem negra com os ombros desnudos e um enorme cabelo black power olha para a câmera enquanto um locutor em off pergunta:
— Você daria uma mordida nessa maçã?
Ela olha para o narrador ausente da tela e diz:
— Pode apostar que sim.
Então, a gata com o black power traz um cigarro aceso até seus lábios, dá uma longa tragada, solta um longo jato de fumaça dando um gemido de prazer, e depois diz:
— Uma mordida pra ficar legal. Aprecie Red Apple.
* * *
Cliff pega o sachê de queijo em pó da caixa aberta de Macarrão com Queijo da Kraft, rasga o pacote, e joga o conteúdo em cima da massa na panela. Ele mistura o pó laranja com uma grande colher de pau usando muita força. As instruções dizem para acrescentar leite e manteiga, mas Cliff acha que se a pessoa tivesse dinheiro pra comprar leite e manteiga, ela estaria comendo outra coisa. Enquanto Cliff prepara seu jantar, Brandy deixa escapar um choramingo de seu corpo que vibra e se repuxa. Cliff olha para ela. Colocando a panela com o macarrão com queijo em cima do balcão, ele se vira e volta toda sua atenção para cadela.
— Eu ouvi um choramingo? — pergunta Cliff a ela.
Brandy sabe que não deve choramingar, mas não conseguiu evitar, ela é apenas um cão. Cliff continua falando com a cadela em um tom autoritário.
— O que foi que eu te disse sobre choramingar? Se você choramingar, eu jogo essa merda toda no lixo — informa ele, referindo-se às duas latas de Wolf’s Tooth amontoadas no seu pote de comida. — Eu não quero fazer isso, mas eu vou fazer. Você entendeu?
Brandy responde com um nítido “Woof!”.
— Muito bem — diz Cliff.
Então, ele pega um saco grande de Gravy Train, uma ração seca para cães muito popular na época, e joga por cima da ração úmida no pote, criando uma montanha de comida de cachorro. Cliff não dá a mínima se as bolinhas secas se esparramarem pelo chão da cozinha porque não importa onde elas forem parar, Brandy vai encontrá-las e comê-las.
* * *
Na televisão, depois que o locutor em off descreveu todos os diferentes produtos de tabaco da linha Red Apple, o comercial corta para o famoso ator Burt Reynolds, enquadrado dos ombros para cima, fumando um charuto da Red Apple com piteira de plástico.
O locutor em off chama sua atenção:
— Ei, Burt Reynolds, você daria uma mordida nessa maçã?
Burt olha para a câmera e diz:
— Ah, pode apostar que sim.
Ele dá uma tragada no charuto, solta a fumaça, e, depois, diz o slogan da Red Apple Tabaco:
— Uma mordida pra ficar legal. Aprecie Red Apple.
* * *
Cliff pega a panela pelo cabo, vai até a sala de estar, e senta em sua poltrona reclinável na frente da televisão. Brandy só tem olhos e ouvidos para ele. Depois que ele se acomoda na poltrona e dá a primeira garfada no macarrão com queijo da Kraft, emite um barulhinho de estalo com o canto da boca.
É o sinal para Brandy. Ela salta da cadeira, entra correndo na cozinha, e começa a devorar com voracidade a comida em seu pote. Cliff troca de canal em sua pequena televisão, do Canal 7 KABC para o Canal 2 KCBS, que exibe o seriado policial das noites de sexta-feira, Mannix, estrelando Mike Connors e Gail Fisher nos papéis do detetive Joe Mannix e sua secretária negra, Peggy. Na tela da TV, Peggy parece preocupada enquanto relata os acontecimentos da noite anterior para o chefe, que está sentado atrás de sua mesa.
— OK, Peggy, o que aconteceu? — pergunta Mannix.
— Estava todo mundo curtindo na boate ontem à noite — diz Peggy —, e daí, pá: uma mudança brusca.
Joe tenta justificar:
— Você sabe como são esses músicos; são uns sujeitos muito temperamentais. Vai saber o que deu nele?
Cliff gostava de Mannix, tanto do programa quanto do personagem. Joe Mannix é um cara como ele. Na verdade, uma parte de Cliff meio que gostaria de ser Mannix. E se ele fosse Mannix, a primeira coisa que faria seria comer a Peggy. Cliff também é um grande fã do personagem Matt Helm, o agente secreto. Não daqueles filmes sem graça do Dean Martin que são terrivelmente idiotas, mas dos livros escritos pelo Donald Hamilton. Matt Helm é racista sem querer e misógino querendo, e Cliff simplesmente adora esse personagem. Cliff cita os heróis desses livros policiais — Matt Helm, Shell Scott e Nick Carter — da mesma maneira que os britânicos citam Keats, e os franceses, Camus.
Quando foi assistir ao primeiro filme de Helm no cinema, O Agente Secreto Matt Helm, ele pediu, irritado, o dinheiro de volta à moça da bilheteria ainda nos primeiros quinze minutos. Se ele tinha ficado daquele jeito, imaginava como teria ficado o seu autor, Donald Hamilton. Dean Martin interpretou Matt Helm mal pra caralho! Agora, se os filmes tivessem sido mais fiéis aos livros, Mike Connors teria ficado perfeito no papel. Até mesmo as ilustrações de Matt na capa dos livros se parecem com ele.
Enquanto Mannix e Peggy continuam sua cena, Cliff coloca no chão a panela cheia de massa e pega uma edição do Guia da TV. Enquanto Brandy devora sua montanha de comida, Cliff procura o episódio de Mannix da semana e lê a sinopse em voz alta:
— “Morte em Menor Escala: Mannix procura pelo namorado desaparecido de Peggy, um músico negro que fugiu de um grupo de trabalhos forçados da prisão. Rumo ao sul, o detetive se depara com um enigmático chefe de polícia, uma testemunha preconceituosa, e um intrometido onipresente.”
Cliff arremessa o Guia da TV para longe, pega outra vez a panela cheia de comida laranja e amarela, e enfia uma garfada na boca. Enquanto mastiga, pergunta a si mesmo e à Brandy:
— O que seria um intrometido onipresente?
* * *
A aproximadamente 30 quilômetros de distância, em Chatsworth, na Califórnia, no que sobrou das ruínas do set de filmagens de faroestes conhecido como Spahn Movie Ranch, George Spahn, aos 80 anos de idade, está sentado num sofá em sua casa, vestindo roupão e pijama, assistindo ao mesmo episódio de Mannix ao mesmo tempo. Ele está acompanhado de sua cuidadora ruiva e sardenta de 21 anos, “Squeaky.” Eles assistem à TV daquele jeito todas as noites. George senta no sofá de roupão e pijama, enquanto Squeaky se esparrama no mesmo sofá, e põe a cabeça em seu colo. Como George é cego, ela descreve a ação na tela da TV para o velho deficiente.
— Agora aquela crioula que trabalha pro Mannix está pedindo pro Joe ajudá-la a encontrar aquele seu namorado crioulo trompetista da primeira cena.
— Peggy é crioula? — pergunta George, surpreso.
Squeaky revira os olhos e diz:
— Eu te digo isso toda semana.