Era Uma Vez em Hollywood

Quentin Tarantino · Capítulo 7 de 29

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Era Uma Vez em Hollywood

Capítulo Três: Cielo Drive

Capítulo Três

Cielo Drive

 

O Cadillac Coupe de Ville de 1964 de Rick Dalton, com seu motorista Cliff Booth ao volante, sai do estacionamento subterrâneo do prédio da William Morris, pega a Charleville e, uma quadra depois, vira a esquina e entra na Wilshire Boulevard.

Enquanto os dois veteranos dirigem pela rua movimentada no Cadillac antigo, a subcultura hippie que invadiu a cidade como uma nuvem de gafanhotos desfila pela calçada com suas mantas, batas e pés descalços e sujos. Um atormentado Rick Dalton, que ainda não compartilhou com seu amigo Cliff o motivo de seu incômodo, olha pela janela do carro enquanto faz um comentário antipático aos transeuntes hippies.

— Bando de esquisitos... Essa cidade já foi um lugar bom pra caralho pra se morar, sabe. Mas agora, olha só pra isso — diz, e então acrescenta com o desprezo de um fascista: — Eu adoraria enfileirar esse pessoal contra uma parede e fuzilar todo mundo.

Eles deixam a movimentada Wilshire e fazem o caminho de volta até a casa de Rick, na Cielo Drive, percorrendo ruas mais calmas e residenciais. Rick tira um cigarro do maço de Capitol W, joga-o em sua boca, e o acende com seu Zippo, em seguida fechando a tampa prateada ao seu estilo de cara durão. Após uma longa tragada, dirige-se ao motorista.

— Bom, agora é oficial, meu velho — diz ele, deixando escapar um ruidoso suspiro pelo nariz. — Estou acabado.

Cliff tenta consolar seu patrão.

— O que é isso, parceiro, do que você está falando? O que aquele cara disse pra você?

Rick abre o jogo.

— Ele me disse a porra da verdade, foi isso que ele me disse.

— O que te incomodou tanto? — pergunta Cliff.

Rick gira a cabeça na direção do amigo.

— Ter que encarar o fato de que eu joguei minha maldita carreira no vaso e puxei a descarga. Foi isso que me incomodou, porra!

— Mas como foi isso? — pergunta Cliff. — O cara te decepcionou?

Rick dá mais uma tragada profunda no seu cigarro.

— Não, ele quer me botar pra fazer filmes no cinema italiano.

Uma resposta rápida de Cliff:

— Então, qual é o problema?

— Eu vou ter que fazer essas merdas desses filmes italianos, essa é a porra do problema! — grita Rick.

Cliff decide seguir dirigindo enquanto deixa Rick desabafar. O ator dá mais um trago longo no cigarro ao mesmo tempo em que sente pena de si mesmo. Quando solta a fumaça, recomeça a falar:

— Cinco anos de progresso. Dez de estagnação. E, agora, uma queda vertiginosa.

Enquanto lida com o tráfego de Los Angeles, Cliff tenta oferecer uma perspectiva ao chefe.

— Olha, eu nunca tive uma carreira propriamente dita; então, não posso dizer que eu sei exatamente como você se sente…

Rick o interrompe:

— Como assim? Você é meu dublê.

Cliff lhe dá a real:

— Rick, eu sou o seu motorista. Desde Besouro Verde, e desde que você perdeu sua carteira de motorista, é isso que eu sou. Eu sou seu empregado. E não estou reclamando. Eu gosto de levar você aos lugares. Até o set e de volta pra casa. Para fazer os testes. Para as reuniões e coisa e tal. Eu gosto de ficar de caseiro em Hollywood Hills quando você está viajando. Mas já não sou mais dublê há um bom tempo. Então, do meu ponto de vista, ir para Roma e estrelar filmes não me parece um destino pior do que a morte, como você aparentemente está achando.

Rick rebate rapidamente.

— Você já assistiu a um faroeste italiano? — pergunta, e, então, respondendo à própria pergunta, acrescenta: — São péssimos. Uma farsa completa.

— Ah, é? — retruca Cliff. — E quantos você viu? Um? Dois?

Rick devolve com autoridade:

— Vi o suficiente! Ninguém gosta de spaghetti westerns!

Falando baixinho, Cliff diz:

— Aposto que alguns italianos devem gostar.

— Olha — diz Rick —, eu cresci vendo Hopalong Cassidy e Hoot Gibson. E te digo que esses malditos faroestes de carcamano dirigidos pelo Guido DeFatso e estrelados pelo Mario Bananano não são pra mim.

Rick encerra sua admoestação aos italianos enquanto arremessa o cigarro pela janela do carro.

— Eu ainda estou puto porque aquele comedor de espaguete do Dean Martin fez Onde Começa o Inferno. E nem vou falar do maldito Frankie Avalon morrendo na bosta do Álamo.

— Mais uma vez — arrisca Cliff —, eu não sou você, mas, pra mim, isso parece que seria uma experiência de vida bem bacana.

— Como assim? — pergunta Rick, com curiosidade genuína.

— Fotógrafos atrás de você o tempo todo. Beber uns drinques numas mesinhas com vista para o Coliseu. Comer as melhores massas e as melhores pizzas do mundo. Comer umas gatinhas italianas... Se quer saber, pra mim isso ganha fácil de ficar perambulando por Burbank e apanhando do Bingo Martin.

Rick dá uma gargalhada.

— Bem, até que esse argumento é bom.

Os dois seguram o riso por alguns instantes, mas logo um sorriso se forma no rosto de Rick. Apagar incêndios era parte fundamental na dinâmica de Cliff e Rick desde que os dois formaram uma equipe. Às vezes, eram incêndios simbólicos, como agora. Mas o primeiro incêndio, o que forjara a parceria, fora literal.

Aconteceu durante a terceira temporada de Lei da Recompensa (a temporada de 1961-1962). Cliff Booth foi chamado para ser o dublê do protagonista da série. Rick não gostou de Cliff logo de cara, e por um motivo muito bom: Cliff era bonito demais para um dublê. Lei da Recompensa era a festa da buceta para Rick. Tudo o que ele não precisava era de um bonitão, que ficava ainda melhor do que ele mesmo em seu figurino, se intrometendo naquele mar de gostosas. Mas ele começou a ouvir sobre os feitos de Cliff na Segunda Guerra Mundial. E descobriu que Cliff não era apenas um herói, mas um dos maiores heróis da Segunda Guerra. Tinha ganhado a Medalha de Valor duas vezes. A primeira, por matar italianos na Sicília. Ele recebeu aquela distinção honrosa uma segunda vez por motivos diversos. Mas, o principal deles era: exceto pelos camaradas que jogaram a bomba em Hiroshima, nenhum outro soldado americano foi oficialmente responsável por matar mais soldados japoneses do que o sargento Clifford Booth.

Rick, por outro lado, teria passado meses pulando das cadeiras de sua cozinha para deixar os pés chatos se achasse que isso o deixaria de fora do Exército (especialmente durante uma guerra). Mesmo assim, admirava os homens que serviram ao país e que o fizeram com distinção.

Mas o incêndio que forjou os laços entre os dois homens aconteceu cerca de um mês após Cliff ter começado a trabalhar em Lei da Recompensa. Um dos diretores eventuais do programa, Virgil Vogel, inventou de fazer o protagonista da série, Jake Cahill, usar um enorme casaco de inverno, e que esse casaco fosse tingido em um tom branco de sapato de enfermeira. Na vida real, seria uma coisa ridícula, mas, em um filme em preto e branco, ficaria bem legal. Em todo o caso, os figurinistas levaram tanto tempo para preparar esse casaco que ele não ficou pronto a tempo do episódio de Vogel. Então, os produtores decidiram deixar aquilo para o episódio seguinte. E, no final do episódio seguinte, Jake Cahill pegava fogo. Todo mundo achou que seria uma boa maneira de usar aquele casacão de inverno, já que tinham gasto tanto tempo para prepará-lo.

Cliff estava pronto, disposto e preparado para fazer a cena do fogo. Mas depois que foi explicado para Rick como tudo aconteceria, o ator decidiu que queria tentar ele mesmo fazer aquilo. Então, uma substância inflamável foi aplicada nas costas do casacão branco de inverno de Jake, bem longe do seu rosto e cabelo.

Mas, o que ninguém na equipe sabia — nem mesmo os figurinistas, pois haviam mandado tingir a jaqueta em outro lugar — era que a tinta branca usada no processo continha 65% de álcool em sua composição. Eles não sabiam, e ninguém disse a eles, porque não havia uma cena com fogo no episódio para o qual a peça havia sido originalmente pensada. Então, quando encostaram uma chama nas costas da peça de roupa que Rick estava usando, ela explodiu como fogos de artifício.

Quando Rick ouviu o barulho de seu casaco sendo consumido pelas chamas, seu pânico se inflamou tanto quanto a indumentária. Imediatamente, ele sentiu as labaredas subindo pelos ombros e estalando em volta da cabeça. Naquele momento, ele quase fez a pior coisa que poderia ter feito na situação: sair correndo cego de medo. Mas, um instante antes de Rick perder a cabeça, ouviu Cliff Booth dizer calmamente:

— Rick, você está em cima duma poça d’água. Se jogue no chão.

Rick fez exatamente isso, e as chamas foram rapidamente apagadas, antes que tivessem a chance de causar algum dano real. E foi nesse momento que Rick e Cliff se transformaram numa equipe.

Outra característica incrível que Cliff Booth trouxe para a equipe foi que, além de ser um bom amigo, um bom dublê, e um herói de guerra, naquele mundo de faz de conta, Cliff era um matador de verdade. Só em seu programa de TV, Rick matou algo em torno de 240 pessoas. Isso sem contar os índios e fugitivos que matou nos faroestes ou os cento e cinquenta nazistas aniquilados em Os 14 Punhos de McCluskey. E, quando interpretou o psicopata de luvas de couro pretas em Jigsaw Jane, ele matou a maioria das vítimas usando um reluzente canivete prateado.

Rick lembra de uma vez em que estava bebendo cerveja e falando com seu dublê sobre seu personagem em Jigsaw Jane, no bar que fica dentro do Smoke House, perto da Riverside Drive. Enquanto conversavam e bebiam, Rick perguntou a Cliff se ele havia matado algum soldado inimigo usando uma faca.

— Vários — respondeu Cliff.

— Vários? — repetiu Rick, surpreso. — Quantos são vários?

— O quê? Você quer que eu fique aqui sentado contando?

— Bom, sim — disse Rick.

— Bom, vamos ver…

Cliff se pôs a pensar. Começou a contar em silêncio, para si mesmo, usando os dedos; então, os dedos se acabaram, e ele os usou de novo, até que parou e disse: “dezesseis.”

Se o gole de whiskey sour estivesse dentro da boca de Rick naquele momento, ele teria chegado perto de cuspi-lo, como numa cena de uma comédia.

— Cacete, você matou dezesseis caras com uma faca? — perguntou, incrédulo.

— Japas na guerra — esclareceu Cliff. — Mas sim.

Rick ficou em silêncio; depois, se inclinou para a frente e perguntou ao amigo:

— Como você fez isso?

— Você está perguntando como eu fui capaz de fazer isso, do ponto de vista mental e emocional? — perguntou Cliff. — Ou como eu fiz isso, do ponto de vista físico e prático?

Uau, boa pergunta, pensou Rick.

— Bom, acho que, primeiro, como você fez?

— Bom, não todas as vezes, mas, na maioria delas, eu cheguei por trás e peguei o otário de surpresa. Uma pedra entra no coturno do sujeito. Ele fica para trás do pelotão para tirar o coturno e se livrar da pedra. Eu chego por trás, enfio uma faca nas costelas do cara, cubro a boca dele com a mão, e giro a faca até sentir que o espírito está saindo do corpo.

PORRA, pensou Rick.

— Mas — disse Cliff, levantando seu indicador para filosofar —, agora que ele está morto, será que ele morreu por minha causa ou porque uma pedra entrou no coturno dele?

— Espera, deixa eu ver se eu entendi — disse Rick. — Você enfiava uma faca nas costelas do japa, depois cobria a boca dele com a mão, para impedi-lo de gritar, e ficava segurando o cara enquanto ele se debatia até morrer em seus braços?

Cliff deu um gole no seu copo highball que continha uma dose de Wild Turkey à temperatura ambiente, e disse:

— Isso.

— Uau! — exclamou Rick, virando o resto do seu whiskey sour gelado.

Cliff Booth sorriu consigo mesmo ao ver o patrão digerindo a cena; então, perguntou, provocativamente:

— Quer saber qual é a sensação?

Os olhos de Rick se voltaram para o rosto de Cliff.

— Como assim?

Cliff repetiu em voz baixa, de forma deliberadamente lenta.

— Eu disse: quer saber qual é a sensação? — repetiu Cliff em voz baixa e deliberadamente lenta, e depois, dando de ombros, acrescentou: — Digo, pro seu personagem.

Rick não disse nada durante um tempo. O bar pareceu muito silencioso, e então Rick Dalton deixou escapar um “sim” muito tímido.

Cliff sorriu para o seu amigo e patrão, tomou um gole grande da bebida, bateu com força o copo pesado no balcão, e disse, mais uma vez dando de ombros:

— Mate um porco.

Como é?, pensou Rick.

— Como é? — disse Rick.

— Mate. Um. Porco — repetiu Cliff em um tom sinistro.

Após o instante de silêncio em que as palavras “mate um porco” pairaram no ar, Cliff continuou sua explicação.

— Compre um porco bem gordo. Leve-o até os fundos de sua casa. Então, ajoelhe-se ao seu lado. Abrace o bicho, sinta ele, sinta sua vida, seu cheiro, ouça seus grunhidos e roncos. Então, com a outra mão, enfie uma faca de açougueiro na lateral do bicho e segure firme, parceiro.

Sentado em seu banquinho, Rick ouvia Cliff, hipnotizado.

— O porco vai gritar feito um maluco e sangrar feito um filho da puta. E vai lutar contra você. Mas continue segurando com uma das mãos e enfiando a faca com a outra. E mesmo que pareça uma eternidade, em menos de um minuto você vai sentir o porco morrendo em seus braços. E é nesse momento que você vai sentir a morte. A vida é um porco que grita, sangra e se esperneia violentamente em seus braços. E a morte é você abraçado em um enorme pedaço de carne imóvel.

À medida que Cliff ia descrevendo passo a passo o assassinato daquele porco imaginário, Rick ia ficando cada vez mais pálido, imaginando-se reproduzindo aquela cena no seu quintal.

Cliff percebeu que tinha a plateia na palma da mão; então, decidiu esmagá-la.

— Então, se você quiser ter a experiência de como é matar um homem, matar um porco é o mais perto que você pode chegar disso dentro da lei.

Rick engoliu em seco, enquanto se perguntava se seria ou não capaz de fazer aquilo.

Cliff acrescentou:

— Depois, leve esse porco até um açougue e peça para cortarem os pedaços para você. Bacon, costelinhas, linguiça, paleta, pé. Dá pra comer o bicho inteiro. E fazendo isso você vai demonstrar respeito pela morte dele.

Rick bebeu mais um gole do seu whiskey sour.

— Não sei se consigo fazer isso.

— Ah, consegue sim — garantiu Cliff. — Você pode até não querer fazer, mas você consegue. Na verdade, dá pra argumentar que se você não consegue fazer isso, então você não merece comer porco.

Após um segundo, Rick deu um tapa no balcão do bar e disse:

— Puta que pariu, tá bom, eu vou fazer. Vamos arrumar um porco.

É claro que Rick jamais fez aquilo. Havia tantas variáveis naquele experimento que o impulso inicial de Rick acabou se dissipando. Onde eu compro um porco? Como eu vou limpar todo aquele sangue da piscina? Como eu vou tirar o porco morto da minha casa se esse negócio deve pesar uma tonelada? E se o maldito bicho me morder? Mas apesar de Rick jamais ter feito aquilo, ele certamente contemplou sua execução. E era essa sua maneira particular de cometer um homicídio planejado a sangue-frio, similar ao assassino de Jigsaw Jane.

* * *

Cliff dirige o Cadillac de Rick até o lugar em que o estaciona na entrada de automóveis, na frente de casa na Cielo Drive. Do outro lado do para-brisa, há uma gigantesca e imponente pintura a óleo de Rick usando um uniforme de cavalaria, fazendo uma careta, com um pé no seu rosto. É um dos seis painéis que compõem um outdoor de divulgação de A Revolta dos Comanches, o primeiro filme que ele estrelou depois que Lei da Recompensa o transformou em astro da TV. A imagem completa consiste de Rick Dalton, no papel do tenente Taylor Sullivan da Cavalaria dos Estados Unidos, no chão, cercado por (aparentemente) índios Comanches, com o chefe pisando com um mocassim na lateral do rosto de Sullivan em uma pose vitoriosa, mantendo o furioso e desamparado oficial de cavalaria no chão. Um amigo de longa data de Rick havia encontrado o painel em um antiquário em Dallas, no Texas, e comprado e enviado para Rick. Rick, por sua vez, nunca gostou muito do cartaz, exceto pelo fato de que era ele quem aparecia ali, e não o badalado Robert Taylor. Ele também não alimentava ilusões de que A Revolta dos Comanches fosse qualquer coisa além do que era: um filme rasteiro de cavalaria versus índios dos anos 1950. O lado bom incluía a oportunidade de ter trabalhado com o bambambã veterano dos faroestes, R. G. Springsteen, e o fato de Rick ter ficado deslumbrante em seu uniforme azul de oficial da cavalaria. Mas, tirando isso, o filme não era nada memorável.

Então, quando Rick recebeu aquele painel com sua imagem, a primeira coisa que pensou foi: O que eu vou fazer com essa merda? A resposta foi simplesmente deixá-lo ali fora, na entrada de automóveis.

Isso faz cinco anos.

Quando Cliff desliga o motor do carro, Rick dá início a um de seus ataques passivo-agressivos de mau humor. Ele está incomodado com algo; então se força a se incomodar com alguma outra coisa. Neste caso, o painel na entrada de automóveis.

— Será que a gente pode — diz ele, gesticulando exageradamente na direção da pintura a óleo — tirar essa merda da entrada daqui de uma vez por todas?

— E onde você quer que eu coloque?

— Por mim, você pode jogar isso fora!

Cliff faz uma cara de criança contrariada.

— Ahhh, mas o Felix achou isso pra você — provoca. — Não seja chato; é um presente muito legal.

— Só porque eu não quero passar todas as manhãs e noites olhando para uma pintura a óleo da minha cara como tenho feito pelos últimos cinco anos, não quer dizer que eu sou chato — explica Rick. — Só estou cansado de ficar olhando pra essa porra, tá bem? Por que você não coloca lá na garagem?

Cliff dá uma risadinha.

— Na sua garagem? Tá uma bagunça.

— Bom, você não pode dar uma arrumadinha pra encaixar esse pôster por lá?

Cliff tira os óculos escuros.

— Sim, eu posso — diz ele, e depois completa: —, mas isso não é uma coisa para fazer essa tarde; isso é uma coisa para fazer no fim de semana.

Exasperado, Rick ventila sua frustração de uma maneira menos autoritária:

— É só que eu não preciso de uma foto enorme da minha cara na frente de casa. Parece que estou fazendo propaganda do Museu Rick Dalton.

Então, de repente, o ronco de um motor e o som de uma harmonia dos Beatles invade o carro pela janela do motorista. Os dois homens viram-se para a esquerda e veem, pela primeira vez, os novos vizinhos de porta de Rick, Roman e Sharon Polanski, no seu Roadster inglês dos anos 1920. “A Day in the Life” emana do rádio do carro, sintonizado na 93 KHJ. O carro, contendo o lindo casal de Hollywood, está parado no topo de uma elevação que serve como entrada de carros, esperando pela abertura do portão eletrônico. Roman está ao volante, e, no banco do carona, a esposa segura um controle de plástico. Os dois pombinhos estão conduzindo uma animada conversa que nem Rick nem Ciff conseguem ouvir por cima do barulho do motor do Roadster e da pretensiosa sonoplastia dos Beatles. Cliff só tem olhos para a loira deslumbrante no banco do carona, enquanto Rick a ignora, concentrado no diminuto cineasta polonês no banco do motorista.

* * *

Fora Mike Nichols, nenhum outro jovem diretor da época era mais bem-sucedido ou famoso do que Roman Polanski. Mas o operador de megafone polaco tinha um grau de popularidade que ofuscava Nichols, seu colega de palcos e telas. Em 1969, Polanski era um astro do rock!

Ele se tornara conhecido ao dirigir seu primeiro filme em língua polonesa, A Faca na Água, que foi um sucesso no circuito de filmes estrangeiros, e chegou até a ser indicado ao Oscar na categoria melhor filme estrangeiro. Após o sucesso desse primeiro filme, Polanski mudou-se para Londres e começou a rodar em inglês.

Dois de seus filmes, Armadilha do Destino e A Dança dos Vampiros (no qual conheceu sua esposa, Sharon), tiveram boa recepção da crítica, mas não grande êxito financeiro. Mas seu suspense psicológico Repulsa ao Sexo foi um sucesso improvável que transcendeu a fronteira dos filmes de arte, e conquistou sucesso no circuito mainstream. Depois de uma enxurrada de cópias malfeitas de Psicose pela Hammer Studios e dos suspenses franceses sem suspense algum, como os enlatados sem alma de Claude Chabrol, ou as amadoras trapalhadas noturnas em Paris dos supostos filmes hitchcockianos de Truffaut, veio o suspense levemente inspirado em Psicose e ambientado em Londres dirigido por Polanski, Repulsa ao Sexo. Quando você se pergunta como seria atualizar um suspense de Hitchcock para uma plateia moderna, que dançava ao som dos ritmos londrinos, a resposta perfeita é Repulsa ao Sexo.

O estudo de personagens depravados e paranoicos de Polanski, estrelando a linda, porém amaldiçoada, Catherine Deneuve, funcionou. Mas se um suspense de Hitchcock funcionava para entreter, o filme de Polanski funcionava para perturbar. Hitchcock também era capaz de perturbar, e o fazia — Suspeita, Pacto Sinistro, A Sombra de uma Dúvida, e, claro, Psicose. Mas só até certo ponto. Com Polanski, perturbar as plateias era o objetivo principal.

O suspense hitchcockiano de Polanski com toques de Buñuel conquistou as plateias.

Após Polanski demonstrar que sabia como mexer com as emoções do público com Repulsa ao Sexo, Robert Evans, o mandachuva da Paramount Studios, o convidou para fazer um filme em Hollywood. Ele conseguiu atrair Roman, um exímio esquiador, ao seu escritório enviando a ele o roteiro de um filme que estava prestes a ser lançado pelo estúdio, sobre uma competição de esqui, chamado Os Amantes do Perigo.

Então, em uma jogada que faria o preço das ações da Paramount subir três pontos em seguida, Evans lhe entregou o romance de Ira Levin, O Bebê de Rosemary, e disse: “Dá uma lida nisso.” O resto, como diria Martin Schwarz, é história dos filmes de terror.

O curto romance de Levin, na prática, uma novela, conta a história de Rosemary Woodhouse (Mia Farrow), uma jovem recém-casada com um ambicioso ator chamado Guy Woodhouse (John Cassavetes). Eles se mudam para um loft típico de Nova York, e dão início a uma relação com um excêntrico casal de idosos que mora no prédio, Minnie e Roman Castevet (Ruth Gordon e Sidney Blackmer). A pobre Rosemary nem imagina que o casal é uma dupla de satanistas em busca de um receptáculo para a profetizada gestação do Anticristo. A visão de Evan de que Polanski seria a pessoa certa para levar aquela trama às telas deveria entrar pra história como uma das decisões mais inspiradas que um executivo de um estúdio já tomou.

Após ler o material, Polanski tinha apenas um porém. Mas era um porém dos grandes: Polanski era ateu. E, se você não acredita em Deus, você rejeita, na mesma medida, o conceito do diabo. Agora, quantos diretores poderiam dizer — e diriam — E daí? É só um filme. Você não precisa acreditar em macacos gigantes pra dirigir King Kong. E eles não estariam errados. Mas Roman não se sentia à vontade para fazer um filme que reiterasse a crença em uma religião, uma filosofia que ele rejeitava inteiramente. Ainda assim, o cineasta sabia que o filme poderia ficar mito bom. Então, como ele conciliou sua crença pessoal com o material em suas mãos? Ele encenou o texto exatamente como havia sido escrito, acrescentando, porém, uma mudança de perspectiva quase imperceptível.

Nada, até o momento final do filme, confirma as sinistras suspeitas de Rosemary. Polanski não dá à plateia em momento algum um vislumbre de qualquer coisa que possa ser considerada sobrenatural. Todas as “evidências” que Rosemary tem sobre a sinistra conspiração que acredita estar se forjando contra ela são anedóticas e circunstanciais. Como gostamos de Rosemary e estamos assistindo a um filme de terror, a maioria dos espectadores interpreta seu olhar investigativo como superficial.

Então, em vez de o casal de vizinhos idosos ser o líder de uma seita macabra de satanistas, e em vez de o marido de Rosemary ter vendido a própria alma e a alma do filho que ainda nem nasceu para o diabo, não seria igualmente possível, e sinceramente mais provável, que Rosemary esteja sofrendo de uma paranoia aguda provocada pela depressão pós-parto?

É verdade que, no clímax do filme, revela-se que, de fato, os Castevets e seus amigos conspiraram contra Rosemary. Mas a existência real de Satã permanece ambígua. Quem poderia afirmar que os Castevets e seus amigos não eram apenas um bando de lunáticos? Se no final todos gritassem Ave, Pã! em vez de Ave, Satã!, você questionaria a validade de sua crença?

Entre qualquer um dos cineastas que Evans poderia ter convidado para filmar aquele livro, é quase impensável que não o tivessem transformado em um filme de monstro. Polanksi realizou a proeza hercúlea de não fazer um filme de monstro e, ainda assim, fazer a plateia se mijar de medo. Depois, Evans e sua equipe fizeram a parte deles ao criar uma das melhores campanhas de divulgação de um filme de seu tempo, e editar um trailer horripilante que, de alguma forma, melhorou ainda mais o filme. O resultado final foi um sucesso retumbante, que fez de Roman Polanski não apenas um dos diretores mais badalados do mercado, como também um ícone da cultura pop (citado nas letras do musical Hair), além do primeiro diretor de cinema a atingir, de fato, um status de astro do rock.

* * *

E aí está ele, em carne e osso, com a esposa gostosa, vizinho de porta de Rick. Taí um cara que pegou o mundo pelas bolas, pensa Rick.

Então, o portão eletrônico na frente de Roman e Sharon se abre e o Roadster desaparece, tão rapidamente quanto surgiu.

— Puta merda — diz Rick para si mesmo —, era o Polanski.

E, então, para Cliff:

— Aquele era o Roman Polanski! Faz um mês que ele está morando aqui, e essa foi a primeira vez que eu o vi.

Rick abre a porta do carro e sai, rindo baixinho. Cliff faz a mesma coisa: mais um exemplo das violentas mudanças de humor de Rick.

Enquanto atravessa o gramado na direção da porta de entrada de sua casa, o comportamento de Rick está totalmente diferente depois de ter visto Polanski. Ele fala, empolgado, por cima do ombro, com o amigo:

— O que é que eu sempre digo? Qual é a coisa mais importante a fazer nessa cidade quando você ganha uma grana? Comprar uma casa. Nada de alugar. Foi o Eddie O’Brien quem me ensinou isso.

Rick refere-se ao ator intensamente caricato Edmond O’Brien, que Rick conheceu quando este fez uma participação especial num episódio da primeira temporada de Lei da Recompensa. Rick segue se gabando de forma cada vez mais pronunciada.

— Ter uma propriedade em Hollywood significa que você mora aqui. Que você não está só de visita, não está de passagem. Você mora aqui, porra!

Após subir os três primeiros degraus que levam à sua porta de entrada, acrescenta:

— Quer dizer, eu estou aqui, tranquilo, na minha, e quem é que está morando bem do meu lado?

Ele enfia a chave na fechadura, gira, e, então, vira-se para o amigo a fim de concluir o argumento e responder à própria pergunta:

— O diretor da porra do Bebê de Rosemary. O cara é o diretor mais badalado da cidade, provavelmente do mundo inteiro, e é meu vizinho de porta — diz Rick, já dentro de casa quando finaliza o raciocínio: — Eu posso estar a uma festa na piscina de estrelar o próximo filme do Polanski!

Cliff quer dar no pé; então, fica parado na soleira da porta, sem entrar na casa.

— Então, você já está se sentindo melhor? — pergunta, sarcasticamente.

— Ah, sim, meu velho — responde Rick. — Desculpe por tudo isso, dê um jeito naquela porra daquele cartaz de A Revolta dos Comanches quando puder.

Cliff demonstra que entendeu, e, em seguida, pergunta:

— Precisa de mim para mais alguma coisa?

Rick gesticula com a mão para que o outro vá embora.

— Não, não, não. Tenho que decorar um monte de falas pra amanhã.

Cliff pergunta:

— Quer ajuda com isso?

— Não, não esquenta. Vou usar o gravador.

— OK. Se você não precisa mais de mim, vou arrastar minha carcaça até em casa.

— Não preciso, tá tudo bem — diz Rick.

Cliff começa a andar para trás para sair logo dali antes que Rick mude de ideia.

— OK, te pego amanhã de manhã às sete e quinze.

Rick repete:

— Saquei, sete e quinze.

Cliff reforça:

— Sete e quinze aqui na frente, dentro do carro.

Rick repete:

— Saquei, sete e quinze, aqui na frente, dentro do carro. Até mais, cara.

Rick fecha a porta de casa. Cliff vai andando até o carro estacionado ao lado do Cadillac do patrão. É seu Karmann Ghia azul-claro da Volksvagen, que precisa urgentemente de uma lavagem. O dublê salta para dentro do carro, enfia a chave na ignição, e a gira. O motorzinho do Volks desperta, fazendo barulho. Assim que é ligado, o som da estação de rádio de Los Angeles 93 KHJ começa a tocar. Billy Stewart cantarola o final de sua versão de “Summertime” enquanto Cliff dá ré e, em seguida, um rápido puxão no volante faz com que o nariz do Karmann Ghia vire-se para longe da casa, apontando para a descida da Cielo Drive. O loiro no banco do motorista acelera em ponto morto três vezes com a bota de Billy Jack, e, então, em sincronia com as acrobacias vocais de Billy Stewart, engata a primeira e pisa fundo, descendo rapidamente as ruas do bairro residencial de Hollywood Hills e fazendo todas as curvas fechadas em alta velocidade, a caminho de casa, que fica a três vias expressas de distância, na cidade de Van Nuys.