Era Uma Vez em Hollywood
Capítulo Treze: “O doce corpo de Deborah”
Capítulo Treze
“O doce corpo de Deborah”
Embora todo mundo na comunidade de dublês soubesse que Cliff Booth era o dublê de Rick Dalton, esse não era o motivo pelo qual ele era mais conhecido. Este era apenas o motivo legal pelo qual ele era mais conhecido. Na lista de coisas pelas quais Cliff Booth era conhecido, essa estava ali pelo quarto lugar. O primeiro item da lista costumava ser o seu incrível histórico militar. Ter mais mortes confirmadas de soldados inimigos japoneses do que qualquer outro americano em serviço no teatro do Pacífico era uma façanha e tanto. E estas eram apenas as mortes confirmadas. Pergunte a qualquer um de seus colegas combatentes da resistência filipina por quantas mortes não confirmadas de soldados inimigos japoneses Cliff Booth havia sido responsável, e a resposta seria Putamerda, sei lá!
Entretanto, depois que começou a circular abertamente o boato de que Cliff Booth havia assassinado a esposa em 1966, seu status de herói de guerra tornou-se a segunda coisa pela qual ele era mais conhecido dentro da comunidade de dublês.
O terceiro item na lista das coisas pelas quais Cliff Booth era conhecido dentro da comunidade de dublês era o seu talento como ringer.
Cliff Booth era o melhor ringer da indústria do cinema nos anos 1960.
O que é um ringer? Nem tente procurar; não é um termo oficial.
Bom, digamos que você seja o chefe da técnica e esteja trabalhando com um diretor muito babaca que grita com os caras da sua equipe o tempo todo. Ou com algum ator imbecil que fica o tempo todo reclamando dos caras da sua equipe e botando neles a culpa pelos próprios erros. O chefe da técnica e os membros da equipe não podem enfiar a porrada no diretor ou quebrar a cara do ator quando eles enchem o saco.
Mas o que o chefe da técnica pode fazer é contratar um dublê freelance (alguém que não faz parte de sua equipe). E esse cara é o ringer.
E o ringer pode fazer aquilo que eles não podem. Que, basicamente, é dar um cacete no babaca, de preferência na frente de toda a equipe.
Digamos que você esteja trabalhando, por um ano, sob o sol escaldante do Mississippi, para aquele careca nazista filho de uma puta do Otto Preminger, em O Incerto Amanhã. E que esse sádico de merda tenha menosprezado e repreendido membros da sua equipe na frente de todo mundo durante o ano inteirinho. Então, você contrata Cliff Booth como dublê por um dia, e faz com que ele arruíne, de propósito, uma cena na frente do Otto. Daí você e sua equipe simplesmente escolhem um lugar para sentar e ficam curtindo o show.
Booth acertou um soco no queixo de Preminger bem no meio da descompostura que ele lhe passava, fazendo com que o diretor caísse durinho na lama do Mississippi. A desculpa de Cliff foi que, sendo um herói da Segunda Guerra Mundial, ele teve um flashback quando Preminger começou a gritar com ele em seu sotaque alemão da Gestapo, e se esqueceu de onde estava. E quando o gerente de produção entregou a passagem para que ele voltasse para casa de ônibus no dia seguinte, Cliff deixou o Mississippi com um bônus (que não apareceu na contabilidade) de 700 dólares no bolso. E, naquela noite, celebrando com a equipe no bar do hotel, ele não precisou pagar por nenhum de seus drinques.
Ou digamos que você faça parte da equipe de dublês do seriado de TV James West. O protagonista, Robert Conrad, orgulhava-se de fazer ele mesmo (boa parte de) suas cenas de ação. Bom, isso talvez fosse mais ou menos verdade.
Mas, embora atuasse em suas próprias cenas de ação, ele não se importava muito com quantos dublês se machucavam no processo. Principalmente quando isso significava batizar algum dublê durante as lutas (definição de “batizar”: acertar um soco de verdade, por acidente, durante uma briga encenada), coisa pela qual ele jamais assumia a responsabilidade. A culpa era sempre deles. Eram eles que não estavam no lugar em que deveriam estar. Eram eles que não tinham sido profissionais. Eram eles os culpados por ele ter machucado sua mão. Conrad fazia isso com tanta frequência que, na comunidade de dublês, ganhou o apelido de Robert Nunca-Encontrou-um-Dublê-que-Não-Pudesse-Culpar Conrad.
De modo que todos consideraram um grande e glorioso dia quando Cliff Booth — com um nocaute “acidental” — botou Bob para dormir vestindo suas calças apertadas.
Alguns dos dublês choraram de rir.
Mais uma vez, Cliff deixou o set com 700 dólares de bônus em seu bolso traseiro e um engradado de cerveja no porta-malas do carro.
Depois, durante as filmagens de 100 Rifles numa locação dentro de um bar na cidade de Almeria, na Espanha, ele se tornou o único homem branco de que se tem notícia a derrotar Jim Brown numa briga de socos. Agora, muito embora essa história pareça sensacional, também pode ser que justamente não passe de baboseira. Em primeiro lugar, é pouco provável que Cliff também estivesse lá na época em que Jim Brown e Burt Reynolds estavam na Espanha filmando 100 Rifles. Ele provavelmente estava com Rick, filmando sua participação no episódio de Bingo Martin (mais tarde, em 1969, Rick e Cliff estariam em Almeria filmando Sangue Vermelho, Pele Vermelha com Telly Savalas). Além do mais, a lenda de um branco vencendo Jim Brown numa briga de socos talvez seja apenas isso: uma lenda. Supostamente, ou foi: (a) Cliff num bar na Espanha, em 100 Rifles; (b) Rod Taylor no Quênia, no set de Os Mercenários; (c) Rod Taylor de novo, não no set de Os Mercenários, mas na Mansão da Playboy, na frente do chafariz; ou (d) isso jamais aconteceu.
Mas a briga mais famosa de Cliff dentro de um set foi a “disputa amistosa” entre ele e o mais renomado artista marcial de todos os tempos, Bruce Lee.
Na época em que aconteceu o que viria a ser conhecido na carreira de Cliff como o “Incidente Bruce Lee”, Bruce ainda não era um superastro do cinema, nem uma lenda. Ele era apenas o ator que interpretava Kato, o parceiro do Besouro Verde, no seriado de TV O Besouro Verde, um programa de baixo orçamento feito para surfar na popularidade do seriado do Batman. Mas na comunidade de Hollywood, até mais do que por seu papel no programa, Bruce Lee era conhecido como “professor de caratê” dos ricos e famosos (“professor de caratê” é como Hollywood se referia a ele, não como Bruce se referia a si mesmo). Assim como as celebridades, no futuro, se exercitariam com personal trainers em seus quintais em sessões de uma hora, Steve McQueen, James Coburn, Roman Polanski, Jay Sebring e Stirling Silliphant treinavam com Bruce Lee em suas casas. É um pouco engraçado pensar que um dos artistas marciais mais talentosos de todos os tempos perdia seu tempo ensinando Roman Polanski, Jay Sebring e Stirling Silliphant a dar um chute. Seria mais ou menos como se Muhammad Ali tivesse passado grande parte do seu tempo dando aulas de boxe a James Garner, Tom Smothers e Bill Cosby. Só que Bruce Lee tinha uma estratégia em mente. Assim como Charles Manson, toda aquela coisa de sifu espiritual era apenas um bico. Da mesma forma que Charles Manson queria ser astro do rock, Bruce Lee queria ser astro do cinema. James Coburn e Stirling Silliphant eram o seu Dennis Wilson. Steve McQueen e Roman Polanski eram o seu Terry Melcher. A cada quatro sessões de treino com Roman Polanski, Bruce falava sobre A Flauta Silenciosa, o filme que ele estava tentando emplacar com o roteirista vencedor do Oscar, Stirling Silliphant (que, assim como Dennis Wilson com Charlie, realmente acreditava no potencial de Bruce), que teria em seu elenco James Coburn e o próprio Bruce (em quatro papéis diferentes). Bruce havia até mesmo acompanhado Roman e Sharon numa viagem para esquiar na Suíça só para tentar fazer com que Polanski embarcasse no projeto.
Até parece que o Roman Polanski faria um filme pretensioso de ação com o James Coburn depois de ter dirigido O Bebê de Rosemary. Roman realmente gostava de Bruce e tinha respeito por ele. Ele até mesmo o admirava. Mas, toda vez que Bruce falava sobre A Flauta Silenciosa, ele parecia um pouco menor, aos olhos de Roman. Na verdade, aquilo o fazia pensar em como Hollywood sempre fazia aflorar o pior nas pessoas.
* * *
Uma diferença entre Lee e Manson era que Bruce tinha o que era necessário para se tornar um fenômeno. Não na época em que atuava em O Besouro Verde. Mas alguns anos depois, primeiro em seus filmes de Hong Kong com Lo Wei, e depois, em sua extravagante aventura de artes marciais pela Warner Bros., Operação Dragão.
Porém, em 1966, quando ele ainda interpretava o parceiro do Besouro Verde, Kato, Bruce Lee tinha uma fama entre os dublês americanos que trabalhavam no seu programa.
E ela era ruim.
Lee não tinha muita consideração nem respeito pelos dublês americanos, e se esforçava para deixar bem clara sua falta de respeito. Uma das maneiras utilizadas para fazer isso era batizá-los com socos e chutes durante as cenas de luta. Ele era advertido constantemente por fazer esse tipo de coisa, e, assim como Robert Conrad, sempre tinha uma desculpa para fazer parecer que a culpa era dos dublês. A coisa chegou a tal ponto que havia um grande número de dublês que simplesmente se recusava a trabalhar com ele.
E, verdade seja dita, Cliff não gostou de Lee no minuto em que bateu os olhos nele. Isso aconteceu antes mesmo de Rick começar a gravar sua participação como vilão convidado no programa. A primeira vez que Cliff testemunhou as técnicas de combate cenográfico de Lee foi quando o dublê levou Rick até os estúdios da Twentieth Century Fox para o teste de figurino para o episódio da semana seguinte. Os dois homens ficaram bem afastados do local da gravação, e assistiram a Bruce e o ator que contracenava com ele, Van Williams, fazendo uma externa de luta, na qual Lee executava uma série de chutes incrivelmente velozes e dava saltos como um Nureyev. Quando Lee terminou, a equipe inteira o aplaudiu. Rick, definitivamente impressionado, virou-se para Cliff e disse:
— Esse cara é incrível, hein?
Estranhamente, Cliff bufou, desdenhando.
— Pff, esse merda não é de nada! Podia ser muito bem o Russ Tamblyn no lugar dele. O cara é um bailarino. Deviam mandar o pé de valsa de volta lá pro West Side Story.
Rick retruca:
— Porra, Cliff, o cara é rápido pra caralho. Aqueles chutes são fodas.
— No filme eles parecem fodas — diz Cliff, dando uma de entendido. — Mas não têm potência nenhuma. Tudo bem, o cara é rápido, isso eu admito. Mas uma firula, por mais rápida que seja, ainda é uma firula. Nenhuma dessas bichinhas do caratê vale nada numa briga de verdade. Judô é um pouco diferente. Se você luta judô e pega um cara que não sabe o que está fazendo, dá pra dar uma surra nele. Mas nenhuma dessas bichinhas do caratê tem qualquer força nos chutes, e nenhum deles é capaz de aguentar um soco.
Então, Cliff aponta para Kato, enfatizando.
— Muito menos aquele anãozinho ali.
Cliff raramente falava aquele tipo de coisa; então, Rick deixou que ele fosse até o fim.
— Combate corpo a corpo, cara. Esse é o lance. Um Boina-Verde daria um pau nesse merda. Tudo o que ele faz é firula. Tudo o que o Ali ou o Jerry Quarry fazem é pra machucar. Tudo o que um Boina-Verde faz é pra matar. Eu queria ver essa bicha aí no meio da selva, lutando contra um japa vinte quilos mais pesado do que ele, segurando uma faca, só pensando em matar — disse Cliff, bufando. — Se isso acontecer, o Besouro Verde vai precisar arrumar um novo motorista.
— Tá bom, tá bem. Talvez, numa situação de matar ou morrer, você tenha razão…
— Eu tenho razão — interrompe Cliff.
— Mesmo assim, Cliff — continuou Rick —, a rapidez daqueles chutes é impressionante.
— Alongamento — disse Cliff, com desprezo. — É tudo alongamento aquilo ali. Se eu for até a sua casa e te alongar três horas por dia, de segunda a sexta-feira, em três meses você vai fazer tudo o que esse merda faz.
Rick lançou um olhar de desconfiança, e Cliff se corrigiu.
— OK, talvez não tudo. Mas quase tudo.
* * *
A briga entre Cliff e Bruce aconteceu quando Cliff estava no set de O Besouro Verde, trabalhando como dublê de Rick. Bruce, como de costume, estava cercado pela equipe, falando sobre suas façanhas. Então, alguém lhe fez a pergunta que as pessoas mais lhe faziam: quem venceria uma luta entre ele e Ali? Bruce ouvia essa pergunta constantemente. E, dependendo da situação e do humor, a resposta variava. Tempos depois, no set de Operação Dragão, quando John Saxon fez essa mesma pergunta, Bruce supostamente teria dito: “Os punhos dele são maiores do que a minha cabeça.” Porém, Bruce admirava o talento de Ali; por isso, começou a estudar suas lutas, gravadas em película de 16mm. E, ao examinar essas gravações, ele fez uma descoberta: Ali deixava o lado esquerdo exposto.
Num ringue de boxe, ele sabia que Ali o destroçaria.
Mas Bruce acreditava sinceramente que não havia ninguém que ele não pudesse derrotar em uma luta. O truque seria lutar com Ali sem luvas de boxe, e permitir que Bruce utilizasse seus chutes.
Então, quando lhe fizeram essa pergunta no set de O Besouro Verde naquele dia, ele disse:
— Se nos trancassem numa sala e dissessem que vale tudo? Eu daria uma surra nele.
E Cliff, que ali estava fazendo um freela de dublê, riu.
Bruce perguntou a ele:
— Qual é a graça?
Por um breve instante, Cliff tentou evitar o confronto.
— Relaxa, cara, eu só estou aqui pra fazer o meu trabalho.
Mas Bruce não achou que isso era o suficiente.
— Mas você riu do que eu disse, e eu não disse nenhuma coisa engraçada.
— Ah, você disse, sim — retrucou Cliff, sorrindo.
Putíssimo, Bruce perguntou ao dublê:
— O que você achou tão engraçado?
OK, lá vamos nós, pensou Cliff.
— Eu acho que você deveria ter vergonha de insinuar que seria qualquer coisa além de uma mancha no estofado do carro de Muhammad Ali.
Todos os olhos do set se voltaram para Bruce.
Mas Cliff, que sabia que, a partir daquele instante, poderia dar adeus ao seu trabalho, pensou que deveria, pelo menos, fazer aquele dinheiro valer a pena; então, continuou:
— Um tampinha que nem você daria uma surra no campeão mundial dos pesos pesados? Um atorzinho de merda daria uma surra no Ali? Que se foda o Ali, Jerry Quarry mesmo te pregaria no chão que nem um martelo! Me responde uma coisa, Kato: alguma vez na sua vida você já levou um soco de verdade?
Furioso, Bruce respondeu:
— Não levei não, dublezinho. Porque ninguém consegue me acertar!
— Foi o que eu achei que você diria — disse Cliff.
Cliff olhou para a equipe, que, de olhos arregalados, assistia àquilo tudo.
— Eu não acredito que vocês estão comprando o papo furado desse tampinha.
Voltando-se para Bruce, acrescentou:
— Cai na real, parceiro. Você é um atorzinho de merda! Se você levar um soco na cara, acabou a briga. Se perder um dente, acabou a briga. Jerry Quarry lutou cinco rounds com o Muhammad Ali com a mandíbula quebrada! Sabe por quê? Porque ele tem uma coisa que você nem sabe o que é: coração!
Bruce, vestindo sua roupa de motorista, fez uma pose de maioral, olhou para o chão, sacudiu a cabeça, e então olhou para o dublê e disse, sorrindo:
— Você tem uma boca bem grande, dublezinho. E eu adoraria fechá-la, especialmente na frente dos meus amigos. Mas sabe como é, minhas mãos estão cadastradas como armas letais. Isso significa que se eu me envolver numa briga com você e te matar por acidente, eu vou parar na cadeia.
Cliff retrucou com:
— Se qualquer pessoa matar alguém por acidente numa briga, ela vai parar na cadeia. Isso se chama homicídio. E eu acho que todo esse papo furado aí sobre “arma letal” é uma desculpa que vocês, bailarinos, usam, pra nunca entrar numa briga de verdade.
Beleza, agora aquilo era um desafio real, feito na frente de um monte de colegas de Bruce. Então, Bruce sugeriu que eles fizessem uma “disputa amistosa”. Melhor de três. Quem cair duas vezes perde. Ninguém tenta machucar ninguém. É só pra ver quem acaba de bunda no chão.
— Vamos nessa, Kato — foi a resposta de Cliff.
Sob os olhares empolgados da equipe, os dois homens se prepararam para lutar. O que Bruce não sabia era que Cliff adorava esse tipo de luta, muito embora elas geralmente acontecessem em lugares como estacionamentos de bares à uma da manhã. Sempre que Cliff entrava em uma disputa como aquela, especialmente contra alguém que tinha algum tipo de treinamento em combate, ele utilizava uma tática sorrateira tão elementar que ele sempre se surpreendia com o quanto ela funcionava.
A técnica é simples.
Ele dá a primeira queda ao oponente.
Ele não oferece muita resistência, e se prepara para aguentar qualquer golpe que for dado. Na verdade, oferece tão pouca resistência que o oponente, especialmente se for um lutador versado, acredita que Cliff não passa de um falastrão de boteco metido a besta.
Cliff também sabe que, nesse tipo de disputa, seu oponente sempre usará o golpe, ou combinação de golpes, com a qual ele se sente mais confortável. Ou seja, após provocar a primeira queda, o oponente de Cliff normalmente já mostrou seu principal golpe.
E, se Cliff parece não ter experiência em combate e o cara acha que pode nocauteá-lo, dezenove vezes em vinte, o outro cara vai usar o mesmíssimo golpe de novo. E agora que Cliff sabe qual é, ele espera, contra-ataca, e arrebenta o cara.
Do ponto de vista de Bruce, ele não tinha a intenção de machucar aquele branquelo linguarudo. Ele só queria fechar a sua matraca e deixá-lo com cara de bobo na frente de toda a equipe. Para começo de conversa, Bruce arrumaria uma encrenca enorme se machucasse esse cara. Os dublês já reclamavam que Bruce batia neles, e vinham avisando o chefe da técnica, Randy Lloyd, que não queriam mais trabalhar com ele. Além disso, durante as suas demonstrações no set, Bruce havia deslocado acidentalmente a mandíbula de um dos cenógrafos com um chute mal calculado. Se Bruce quebrasse a cara de mais alguém naquele set, ele estaria ferrado.
De modo que o Pequeno Dragão decidiu que sua melhor estratégia seria fazer alguma coisa visualmente impressionante, mas que não machucasse o cara. Apenas alguma coisa que o derrubasse no chão. Mas, que, ao mesmo tempo, também mostrasse para aquele babaca com quem ele estava lidando.
Um chute giratório no ouvido arrancaria a cabeça desse merda e, talvez, prejudicasse sua habilidade de fazer contas dali em diante. Um chute direto o jogaria sobre o carro atrás dele, mas sabe lá Deus que ossos se quebrariam. Entretanto, assim como Rudolf Nureyev, Bruce Lee tinha um talento para saltar como poucos que já existiram. Nureyev e Lee pareciam flutuar pelos ares, executar seus movimentos, e, quando eles quisessem, aterrissar suavemente no chão.
Assim, Bruce decidiu que dar um salto colossal, com muita altura, mas pouca impulsão, seria o movimento mais seguro. Ele sairia do chão, produzindo uma imagem incrível, e encerraria seu voo enfiando seu pé na região do tórax daquele babaca, jogando-o para trás, fazendo-o cair de bunda no chão. Estaria dando uma lição naquele filho da puta.
E foi exatamente o que ele fez. Cliff caiu de bunda no chão na frente da equipe, que aplaudiu. Do chão, o dublê loiro olhou para ele, deu um sorriso bobo, e disse:
— Bonito salto, pé de valsa.
Então, levantando-se do chão, ele disse:
— Faz de novo.
Beleza, agora eu vou atravessar o peito desse merda com meu pé, pensou Bruce. Eu só preciso ter cuidado pra que o babaca não quebre o cóccix quando cair no chão.
Então, com menos altura e mais impulsão, ele deu um segundo salto sobre o dublê, que se esquivou no último instante. E o mestre em artes marciais praticamente caiu de quatro no chão. Então, pegando-o pelo seu cinto e pela perna, Cliff arremessou o artista marcial como um gato, com força, contra um carro estacionado no set.
Bruce ouviu um som de estalo vindo de suas vértebras inferiores quando se chocou contra o carro, e sua omoplata atingiu a maçaneta do passageiro. Ele se machucou de verdade. Estirado no chão de cimento, Bruce levantou os olhos para encarar o dublê branquelo que sorria para ele.
Bruce não queria mesmo machucar Cliff. Ele só queria dar uma lição no cara. Mas Cliff de fato queria machucar Bruce. Se Cliff tivesse arrebentado com as costas e o pescoço de Bruce pelo resto de sua vida ao jogá-lo contra aquele carro, ele nem se incomodaria.
Enquanto se levantava do chão, Bruce notou que Cliff estava se posicionando para um terceiro round. E ele reconheceu sua postura como uma posição militar de combate corpo a corpo.
Bruce estava putíssimo por aquele bosta ter conseguido machucá-lo. Mas, também, pela primeira vez, viu seu oponente como ele realmente era. Não era apenas um caipira dublê de caubói. Bruce sabia que Cliff sabia o que estava fazendo. Bruce percebeu que Cliff o havia enganado com aquela conversa mole, e o induzido a executar duas vezes o mesmo movimento. Bruce poderia ter golpeado Cliff de quatorze maneiras diferentes que o dublê jamais teria sido capaz de bloquear. Mas, ao fingir que era um pamonha sem qualquer treinamento, Cliff fez com que Bruce fosse preguiçoso e caísse direitinho na armadilha do dublê. Se a reação de Cliff não tivesse sido tão violenta, Bruce talvez tivesse até mesmo admirado aquilo.
Bruce também se deu conta rapidamente de que, embora Cliff não fosse tão habilidoso quanto os oponentes que ele havia enfrentado em todos os seus torneios de artes marciais, o sujeito era algo que nenhum deles era.
Um matador.
Bruce conseguia ver que Cliff havia matado homens com suas próprias mãos.
Ele conseguia ver que Cliff não estava lutando contra Bruce Lee.
Cliff estava lutando contra seu instinto de matar Bruce Lee.
O artista marcial costumava imaginar como ele reagiria no dia em que eventualmente se encontrasse numa situação de matar ou morrer com um lutador habilidoso. Ao que parecia, o dia era hoje.
Por sorte, o terceiro round foi interrompido pela esposa do chefe da técnica bem quando estava prestes a começar. E, como ele já esperava, Cliff foi sumariamente demitido. O problema com aquilo tudo é que Cliff não havia sido levado ao set de O Besouro Verde como um ringer, com a missão de surrar Kato em público. Ele deveria apenas ser o dublê de Rick durante a sua participação especial no programa. O chefe da técnica, Randy Lloyd, nem queria trabalhar com Cliff — Randy achava que Cliff era culpado pelo assassinato da esposa. E Randy trabalhava com a própria esposa, Janet, que tinha certeza de que Cliff era culpado pelo assassinato da esposa. E, sinceramente, eles preferiam chamar para um trabalho alguém que eles não achavam que tinha matado sua esposa. As pessoas estavam dispostas a perdoar um grande número de transgressões, especialmente nos anos 1960. Mas um dublê que matou a esposa e tentou quebrar a coluna de um dos protagonistas de um programa de TV na frente da equipe não era uma delas. Após o Incidente com Bruce Lee, para todos os efeitos, Cliff parou de trabalhar como dublê de Rick e passou a ser seu assistente pessoal.
Rick ficou tão puto com o Incidente Bruce Lee que Cliff pensou que ele também o demitiria. Mas, se fizesse isso, quem o levaria até o trabalho? Claro que ele poderia contratar alguém para isso. Mas, no final das contas, era mais fácil simplesmente perdoar Cliff. Rick pagava a Cliff um salário para que ele o levasse a lugares, fizesse alguns serviços estranhos, e estivesse disponível quando necessário. Um salário que supostamente seria engordado com uns bicos de dublê. Porém, depois do Incidente Bruce Lee, os parcos trabalhos como dublê que Cliff conseguia, graças aos boatos que circulavam pela cidade de que havia matado sua esposa, começaram a ser ainda mais escassos. A comunidade de dublês de Hollywood não precisava de mais um motivo para não contratar Cliff, mas, agora eles tinham, e foi Cliff quem deu a eles. A historinha de Rick naquela manhã sobre o assistente de direção babaca em A Batalha do Mar de Coral tinha sido muito pertinente.
Todavia, Cliff sabia que uma das coisas mais interessantes sobre Hollywood era o fato de que, em última análise, ela era como uma cidadezinha do interior. Um dia desses, pela rua, num estacionamento, num restaurante, ou num semáforo fechado, ele se encontraria novamente com aquele babaca do Bruce Lee. E, nesse dia, ninguém além da polícia seria capaz de separá-los!
* * *
Depois de colocar a antena de TV de Rick no lugar e sem nada melhor para fazer até por volta de sete e meia, quando buscaria seu patrão no set, Cliff dirige o Cadillac de Rick pela Sunset Boulevard, em direção ao cinema.
Enquanto aguarda o sinal ficar verde, imaginando-se dando uma surra em Bruce Lee, Cliff olha para sua direita, para o Aquarius Theater, com seu enorme mural colorido anunciando o estrondoso sucesso Hair. E então vê duas das mesmas garotas hippies que tinha visto mais cedo pela manhã, incluindo a morena alta e saliente carregando picles que trocou olhares com ele e fez o sinal da paz. As duas estão paradas na frente do Aquarius gesticulando com seus dedões, tentando conseguir uma carona. A morena ainda está vestida do mesmo jeito que estava de manhã — short jeans, uma frente única de crochê, pés descalços, e uma grossa camada de sujeira.
A morena hippie dos picles vê Cliff num carro diferente do que ele estava de manhã, do outro lado da rua, indo para a direção oposta.
Ela sorri, acena, aponta para ele, e grasna:
— Ei, você!
Ele sorri para ela e acena de volta.
Ela grita, por cima do barulho do trânsito:
— Cadê o seu Volkswagen?
Ele grita de volta para ela:
— Esse aqui é do meu patrão!
Ela faz o sinal com o dedão.
— Me dá uma carona?
Cliff aponta o seu dedo na direção contrária.
— Estou indo na outra direção.
Ela balança sua cabeça e, gritando, lamenta:
— Que erro!
Ele grita de volta:
— Provavelmente!
— Você vai passar o dia inteiro pensando em mim! — alerta ela.
Ele grita de volta:
— Provavelmente!
O sinal fica verde na Sunset Boulevard, e o tráfego volta a andar.
Ele dá um discreto aceno a ela, e ela lhe dá um tchauzinho de garotinha triste enquanto o Cadillac amarelo-claro vai embora.
Quando chega ao cruzamento da Sunset com La Brea, Cliff pega a esquerda para descer o La Brea Boulevard. Sam Riddle, o disk jocquey da hora do almoço da rádio KHJ, lê o texto de um comercial da Tanya Tanning Butter. Não é um bloqueador solar, que te protege dos danos causados pelos raios do sol, mas um bronzeador, que potencializa a queimadura. Cliff passa pelo Pink’s Hot Dogs, na esquina do La Brea com a Melrose. Tem tanta gente aglomerada às voltas da carrocinha que até parece que os caras estão distribuindo buceta de graça, não vendendo cachorros-quentes a preços exorbitantes. Cliff passa o Cadillac para a pista da direita e vira à direita quando chega no Beverly Boulevard. Ele dirige por mais alguns metros, para o carro na frente de um pequeno cinema, e o estaciona.
Nos anos 1930, aquele cinema era uma casa de vaudevile chamada Slapsy Maxie’s.
Nos anos 1950, foi o primeiro lugar em que Martin & Lewis se apresentaram em Los Angeles.
Mais tarde, em 1978, o lugar seria transformado num cinema especializado em clássicos, chamado New Beverly Cinema. Mas, em 1969, o seu nome era Eros Cinema, e ele era um dos cinemas eróticos de Hollywood (o Vista, localizado no encontro do Hollywood Boulevard com o Sunset Boulevard, era o outro).
O Eros não exibia filmes pornô, que mais tarde seriam chamados de “Triplo XXX.”
Apenas filmes sensuais, normalmente da Europa ou da Escandinávia.
Na fachada do Eros, lia-se o seguinte:
SESSÃO DUPLA CARROLL BAKER
O DOCE CORPO DE DEBORAH
E
O LOUCO DESEJO
PROIBIDO PARA MENORES
Cliff sai do Cadillac e compra um ingresso para a sessão na bilheteria. Ele desce pelo corredor escuro e encontra um lugar no meio da quarta fileira. Na tela do Eros, Carroll Baker está fazendo uma dança sensual ao som de tambores, vestindo um colã verde-esmeralda. Cliff repousa seus pés envoltos em mocassins no encosto do assento à frente. Enquanto vai se acomodando na cadeira, olha para Carroll Baker chacoalhando seus enormes quadris verdes de um lado para o outro.
Meu Deus, pensa ele, a mulher é uma cavalona! Em seguida, sorri. Bem do jeito que eu gosto.