Era Uma Vez em Hollywood
Capítulo Vinte e Dois: Aldo Ray
Capítulo Vinte e Dois
Aldo Ray
Almeria, Espanha
Junho de 1969
Sentado na ponta de um colchão imundo num quarto abafado de um hotel na Espanha, com suor escorrendo pelos ombros e costas peludos, o astro do cinema dos anos 1950 Aldo Ray não estava refletindo sobre algumas das decisões erradas que tomara ao longo de sua trajetória, e que foram responsáveis por ele estar naquele aposento opressivo. Nem estava se torturando ao pensar nos dias de contos de fada, de era uma vez…. em Hollywood, quando trabalhou com diretores como George Cukor, Michael Curtiz, Raoul Walsh, Jaques Tourneur e Anthony Mann. Ele não estava esquentando a cabeça com o suntuoso apartamento na El Royale que já não era mais seu havia muito tempo, ou com o Porsche que ele amava como um bebê, que, por mais rápido que fosse, era pequeno demais para a sua figura corpulenta e abarrilada. Não, sentado naquele sufocante quarto de hotel na Espanha, sem ar-condicionado, na primeira noite na locação para o seu próximo filme, Aldo pensava naquilo em que ele sempre pensava, todas as noites, mais ou menos naquela hora. Numa garrafa de bebida.
* * *
Sempre que Aldo Ray fazia um filme numa locação, a equipe, o elenco, os funcionários do hotel, e, pra falar a verdade, qualquer pessoa que pudesse ser mobilizada entrava em Alerta Aldo. Quando Aldo era colocado num hotel ou motel pela produção de um filme, era basicamente como se ele estivesse em prisão domiciliar. Não era permitido que ele deixasse o hotel, por medo de que ele esbarrasse em uma garrafa. Ele era proibido de frequentar o bar do hotel. Ele era proibido de carregar dinheiro. Ele ou todas as entradas do prédio eram monitoradas de perto. Todos os que participavam da produção recebiam ordens estritas, e, sob nenhuma circunstância, não importando o quanto ele implorasse, suplicasse ou tentasse persuadir, era permitido fornecer bebida a Aldo. Na autobiografia de David Carradine, Estrada Sem Fim, ele conta a história da vez em que fez o filme de baixo orçamento de Fernando Lamas, Turba em Fúria, com Aldo. O Sr. Carradine escreveu que sempre que um jovem ator que conhecia e respeitava o Sr. Ray por seus trabalhos anteriores fazia um filme com ele, este jovem ator basicamente recebia o trabalho de Babá de Aldo.
No verão de 1969, Aldo já havia caído bastante de sua posição anterior, durante os anos cinquenta, quando contracenava com Bogart, Tracy e Hepburn, Rita Hayworth, Anne Bancroft e Judy Holliday. O que não se sabia na época era o quanto ele ainda cairia. Em 1975, ele já não seria capaz de fazer qualquer papel que durasse mais de dois dias (o maior intervalo de tempo em que se podia contar que ele ficaria sóbrio).
À medida que a década de 1970 foi avançando até virar os anos 1980, o homem que fora descoberto por George Cukor — num teste que consistia em Aldo arremessando cartas de um baralho dentro de um chapéu — só conseguia trabalhar com diretores de quinta categoria como Al Adamson e Fred Olen Ray (que não era seu parente).
Aldo foi o primeiro antigo astro de Hollywood a aparecer num filme pornô dos anos 1970, fazendo dele (até então) o único ex-ator de Hollywood a ganhar um prêmio de melhor ator no Erotic Film Awards, pelo filme Sweet Salvage, de 1979, com Carrol (Garganta Profunda) Connors (nos anos 1980, Cameron Mitchell também apareceria num filme pornô).
Aldo Ray também foi o primeiro ex-astro de Hollywood a ser processado pelo Sindicato dos Atores por aparecer em filmes baratos não sindicalizados.
Desde os seus primórdios, Hollywod havia testemunhado uma parcela razoável de grandes nomes que depois passaram por maus momentos, o que era evidenciado no comparativo dos filmes que haviam feito no passado com os que estavam fazendo naquele momento (Ramon Novarro, Faith Domergue, Tab Hunter, e até o coitado do Ralph Meeker). Ainda assim, nenhum deles chegou nem perto da humilhação pública de Aldo Ray, digna de pena. Então, por mais desesperado que ele pudesse estar naquela noite na Espanha no verão de 1969, 20 anos depois, aquela noite poderia ser classificada como “os bons e velhos tempos”.
Porém, para o Sr. Ray, aquilo não se parecia nem um pouco com os bons e velhos tempos. Parecia a mesma noite de merda que o grandalhão passava toda a vez que não tinha uma garrafa.
* * *
Na mesma noite, no mesmo hotel, no mesmo país, em outro quarto sem ar-condicionado, Cliff Booth serviu dois dedos de gim à temperatura ambiente num copo de plástico. O corte profundo em seu supercílio direito, que ele havia conseguido com uma coronhada de um rifle Winchester mais cedo naquele dia, tinha voltado a sangrar de novo, e o sangue escorreu pelo seu rosto, pingando em sua regata suada. Não apenas isso, mas sua sobrancelha inchada não dava sinais de que estava desinchando. Se ela não começasse a desinchar nem que fosse um pouquinho, ele seria inútil no set no dia seguinte. Cliff olhou-se no espelho do banheiro. Ele tocou a sobrancelha inchada para ver se ainda doía. Doía. O que ele precisava fazer era aplicar gelo, e precisava fazer isso bem rápido.
E já que ia fazer isso, alguns cubos de gelo naquele gim morno não seriam a pior coisa do mundo. Não que ele preferisse o gosto do gim gelado ao gosto do gim à temperatura ambiente. Para Cliff, gim tinha gosto de fluido de isqueiro, e gim com gelo tinha gosto de fluido de isqueiro gelado. Porém, a adição de alguns cubos de gelo dariam à bebida a aparência de um coquetel, em contraste com o aspecto deprimente daquele gim morno dentro de um copo plástico fornecido por um hotel barato a milhares de quilômetros de casa. Andando até a mesinha onde estava o pequeno balde de plástico para gelo fornecido pelo hotel, ele deu uma olhada para a televisão acorrentada a um dos canos da calefação. Na tela, um melodrama mexicano em preto e branco do começo dos anos 1950 estrelando Arturo de Córdova e María Félix atuando melodramaticamente em espanhol. Cliff não tinha a menor ideia de quem eles eram.
Cliff tinha viajado para a Europa com seu patrão, Rick Dalton, e, pela primeira vez em muito tempo, estava trabalhando como seu dublê novamente. Aquele era o quarto filme europeu que eles faziam em sequência. Os primeiros dois (Nebraska Jim e Mate-me Logo, Ringo, Disse o Gringo) foram faroestes filmados na Itália. O terceiro, um filme de agente secreto inspirado em James Bond chamado Operação Dyn-O-Mite, foi rodado em Atenas, na Grécia. E esse agora, Sangue Vermelho, Pele Vermelha, coestrelado por Telly Savalas e Carroll Baker, estava sendo filmado na Espanha. Quando esse filme terminasse, Cliff e Rick voltariam para sua casa, em Los Angeles.
* * *
Os dois homens desfrutaram tremendamente de sua temporada europeia de cinco meses. Rick adorou toda a atenção que os paparazzi lhe davam, e Cliff adorou voltar a trabalhar como dublê. Eles dividiram um luxuoso apartamento em Roma com uma vista muito bonita de sua janela para o Coliseu. Rick estava sempre indo a restaurantes, bebendo drinques em casas noturnas, e, de maneira geral, levando uma vida de astro americano do cinema em Roma, com Cliff sempre ao seu lado, seu fiel escudeiro. Durante a estadia, Cliff comeu um número absurdo de bucetas italianas. Muitas mais do que Rick, porém Rick sempre foi mais criterioso. Para Cliff, uma buceta era uma buceta, e ele tinha uma queda especial pelas italianas. E, embora ele preferisse uma italiana nua em sua cama chupando seu pau do que dormir sozinho sem garota nenhuma, ele preferia que todas aquelas italianas nuas fossem garotas diferentes. Cliff nunca deu muita bola para a aparência de uma mulher. Desde que elas deixassem que ele cravasse seus dentes em sua bunda e gostassem de chupar seu pau, na opinião de Cliff, todas eram bonitas.
Entretanto, o voo de volta para casa seria um pouco diferente do voo de ida para a Itália.
Enquanto trabalhava no filme de agente secreto na Grécia, Rick havia conhecido uma atriz italiana alta e morena chamada Francesca Capucci. Então, como Cliff descreveu aos seus amigos de volta em casa: “Do absoluto nada, ele se casou com a vadia.” No instante em que Cliff percebeu para onde as coisas estavam indo, ele soube que, o que quer que fosse que Rick e ele tivessem, aquilo acabaria. Rick não precisaria mais dele, Francesca não iria querê-lo por perto, e Rick não seria mais sequer capaz de bancá-lo.
Mas Cliff não era egoísta. Se ele sentisse que Rick e Francesca estavam fazendo bem um para o outro, ele se afastaria tranquilamente, sem problemas. E não é como se ele achasse que Francesca era algum tipo de mulher fatal tentando se aproveitar do amigo desavisado. Ele achava que os dois eram uma dupla de idiotas que se comprometeram com uma mudança drástica em suas vidas sem pensar muito nas consequências. Cliff deu dois anos. Para ela seria um ótimo negócio, mas era questão de tempo para aquilo acabar custando caro para Rick em pensão alimentícia. De tal modo que ele provavelmente teria de vender sua casa em Hollywood Hills. E Cliff sabia o quanto aquela casa significava para Rick. Ele já era deprimido o bastante morando naquela casa. Rick Dalton morando num condomínio em Toluca Lake seria muito pior.
* * *
Cliff pegou o baldinho de plástico fornecido pelo hotel de cima da mesinha em que ele estava, e uma toalhinha de rosto no toalheiro do banheiro. Em seguida, abrindo a porta do quarto, ele foi andando sob os rangidos e estalos do piso do corredor até a máquina de gelo. O carpete imundo tinha a consistência de massinha de modelar. No Hotel Splendido — o motel mais próximo das formações rochosas à la Velho Oeste que seriam capazes de fazer com que Almeria, na Espanha, passasse pelo Arizona —, todos os quartos estavam com as portas abertas. Como o estabelecimento não tinha ar-condicionado, todos os hóspedes tinham, em todos os quartos, um ruidoso ventilador quadrado fornecido pelos espanhóis.
Quando Cliff passou pelo Quarto 104, deu uma rápida olhada para dentro, e viu o que se parecia com um velho corpulento e deprimido, usando uma camisa branca de linho que mais se parecia com uma barraca grudada ao suor de suas costas, sentado na beirada da cama, ao lado do ventilador, olhando para baixo, para o carpete imundo sob os seus pés.
Aldo Ray, pensou Cliff, quando passou pela porta. E a máquina de gelo, pensou ele quando achou tê-la avistado no final do corredor. Ele colocou um monte de cubos de gelo dentro do balde de plástico que mais se parecia com um cestinho de lixo. Depois, pegou quatro cubos de gelo e os colocou sobre a toalha de rosto branca que havia trazido com ele. Encostando a compressa gelada no supercílio inchado, começou a andar de volta para o seu quarto.
Ao passar pelo quarto de Aldo Ray pela segunda vez, ele deu uma rápida olhada para dentro para se certificar de que o grandalhão suarento era mesmo Aldo Ray. Mas, dessa vez, em vez de olhar para baixo, para o carpete, o astro de Os que Sabem Morrer estava olhando diretamente para ele. Quando deixou a porta para trás, ele ouviu a inconfundível voz de lixa do ator, rouca e suave, lhe chamando.
— Ei.
O dublê retornou até o marco da porta do ator.
— Você é americano? — perguntou em sua característica voz cavernosa.
— Sou — disse Cliff, pressionando a toalha com gelo contra o lado direito do seu rosto.
— Você está trabalhando nesse faroeste?
— Sim, estou, Sr. Ray — disse Cliff.
Isso fez o Sr. Ray sorrir, e ele abriu os cinco dedos de salsicha de uma de suas mãos para dizer:
— Pode me chamar de Aldo. Eu também estou nesse filme.
Cliff entrou no quarto do ator, atravessou a distância entre a porta e a cama, e apertou a mão do protagonista dos filmes da Warner Bros. dos anos 1950.
— Cliff Booth — disse Cliff Boot. — Eu sou o dublê do Rick Dalton.
— O Dalton está nesse filme? Eu sabia que o Telly e a Caroll Baker estavam, mas não sabia do Dalton. Quem ele interpreta? — perguntou Aldo.
— O irmão do Telly — disse o dublê.
Aldo deu uma gargalhada.
— Ah, sim, dá pra ver uma verdadeira semelhança de família ali. Puta que o pariu, é como se eu e o Mantan Moreland fizéssemos o papel de irmãos.
Isso fez os dois homens rirem.
Ambos haviam servido na Segunda Guerra Mundial (Aldo, como mergulhador da Marinha). Ray tinha praticamente a mesma idade de Booth. Mas, se os visse juntos aquela noite, você jamais diria isso. Cliff ainda tinha o corpo de um boxeador de peso médio, mas o tronco possante de Aldo Ray havia se convertido num tremendo barril. A silhueta atlética que ele exibira contracenando com Rita Hayworth em A Mulher de Satã havia esmorecido, e seus ombros largos tinham ficado redondos, o que lhe conferia uma postura de gorila. Cliff parecia ser uns bons dez anos mais jovem do que realmente era, enquanto Aldo parecia ser uns bons vinte anos mais velho. O grandalhão olhou para o rosto de Cliff, finalmente percebendo seu supercílio inchado.
— Meu Deus, garoto — blasfemou Aldo. — Que porra é essa no seu rosto?
— Eu levei uma coronhada de um rifle hoje mais cedo — disse Booth.
— O que aconteceu?
— Bem, nós estávamos filmando naqueles penhascos, e a cena era de um daqueles bandidos me acertando na cara com uma Winchester. Só que o cara italiano que interpretava o mexicano nunca tinha feito uma cena de ação como aquela; então, ele estava meio nervoso e passando muito longe de mim. Cinco takes diferentes, nenhum deu certo. E, em todos eles, eu tinha que me atirar de costas na porra da pedra. Então, no fim, eu fui até o assistente de direção, que é o único da equipe espanhola que consegue falar inglês mal e porcamente, e falei: “Diz pra esse cara acertar o meu rosto porque eu não consigo cair muitas vezes mais em cima dessa porra dessa pedra” — explicou Cliff.
— Deu no teu saco, né — disse Aldo, mais afirmando do que perguntando.
— É o meu trabalho. Eu sou o saco de pancadas do Rick.
— Você trabalha com ele há muito tempo? — perguntou Ray.
— Com o Rick?
— Isso, o Dalton.
— Quase dez anos.
— Ah, vocês devem ser amigos, então?
— Sim, nós somos — disse Cliff, sorrindo.
Aldo sorriu de volta.
— Que legal. É bom ter um camarada no set.
— Você já conhecia o Dalton quando ele fez aquele filme do George Cukor?
— Conhecia, mas nesse eu não trabalhei. Esse foi o único filme em que o Rick não precisou de dublê.
— Ah, sim era um filme baseado em algum livro famoso do momento. A Warner enfiou todos os contratados nele. Alguns não eram dos piores, tem até a Jane Fonda... Você conheceu o Hank Fonda? — perguntou Aldo.
— Não.
— Enfim — continuou Aldo, — Dalton era um dos membros do elenco principal. Foi o George Cukor quem me abriu as portas para o cinema, me colocando em Da Mesma Carne, com a Judy Hollyday. Depois, ele me escalou para fazer A Mulher Absoluta, com a Hepburn e o Tracy. Você sabe quem fez uma ponta nesses dois filmes?
Cliff fez que não com a cabeça.
— O Charlie Bronson, porra! — disse Ray. — E ele era ainda mais feio do que hoje em dia, se é que uma coisa dessas é possível.
Aldo vasculhou suas memórias por um instante, como se estivesse lembrando como era trabalhar ao lado de Bronson quando Aldo era a estrela e Bronson estava apenas fazendo uma ponta.
Após uma pequena pausa, ele voltou a usar sua voz rouca.
— Ouvi dizer que o Charlie anda muito bem atualmente. Que bom pra ele — disse Ray, e então, virando a cabeça na direção de Booth, perguntou: — Do que eu estava falando?
— Do Rick e do George Cukor.
— Sim, sim, sim, claro. Você conheceu o George Cukor? Um cara e tanto. Tudo o que eu tenho eu devo a ele.
— Ouvi dizer que ele era a maior bichona de Hollywood — disse Cliff.
— Bom, George era homossexual. Mas não acho que ele pusesse aquilo em prática. Ele era meio gordo.
Então, enquanto olhava para Cliff, Aldo ficou reflexivo e filosófico. De acordo com a autobiografia de David Carradine, o grandalhão era dado a esse tipo de coisa.
— Sabe, as pessoas sempre me perguntavam se alguma vez ele tentou alguma coisa comigo, já que foi ele quem ofereceu minhas primeiras oportunidades. E a triste resposta a essa pergunta é não. Mas eu gostaria que ele tivesse tentado. George tinha uma tristeza emocional que, se eu pudesse, eu teria curado. Mas... — disse Aldo, com um suspiro — temo que ele não tivesse mais cura quando eu o conheci. Pelo que eu sei, ele foi celibatário durante todo o período em que viveu em Hollywood. Acho que eu chupei mais pau na Marinha do que ele nos quarenta anos que ficou em Hollywood.
Aldo fez uma pausa e, por fim, disse:
— Uma puta perda de tempo, se você quer saber.
O grandalhão fez uma nova pausa e, novamente, perguntou:
— Do que eu estava falando?
— Do Rick e do George Cukor — relembrou Cliff mais uma vez.
— Ah, é. Então, o Rick Dalton estava trabalhando com o Cukor naquele filme de merda. E o Dalton foi gravar uma cena, né? E então, de repente, o Dalton parou a cena, corta, corta, corta, corta, corta, corta. A equipe inteirinha engoliu em seco, pode acreditar. Ninguém dizia corta num set do Cukor além dele próprio. Porra, nem a Kate Hepburn dizia corta num set dele. Mas o Rick Dalton disse. Então, o Cukor ficou olhando pra ele sentado em sua cadeira de diretor e disse: “Algum problema, Sr. Dalton?” E o Dalton disse, “Sabe o que é, George? Eu estava aqui pensando que esse seria um bom momento para fazer uma pausa dramática. O que você acha?” E o Cukor, mais venenoso do que uma cobra, falou: “Sr. Dalton… eu acredito piamente que, até aqui, sua carreira inteira tem sido uma enorme pausa dramática — diz Aldo, em sua voz rouca, tentando imitar o estilo erudito de Cukor.
Os dois homenzarrões suados caíram na gargalhada no quarto abafado do hotel espanhol. Rick era o melhor amigo de Cliff, mas Cliff sabia melhor do que ninguém que Rick era campeão em parecer um babaca na frente das pessoas, especialmente no passado.
Antes que Cliff parasse de rir, Aldo olhou para ele, ficando repentinamente sério e sincero:
— Ei, camarada, estou numa pior aqui. Você me arrumaria uma bebida?
— Ah, puxa — disse Cliff. — Desculpe, Aldo, mas você sabe que não pode beber. Eles mandaram um memorando pra todo mundo envolvido na produção dizendo pra ninguém jamais dar bebida a você. Não importa o que você diga, nós não podemos fazer isso.
Aldo deu um suspiro, sacudiu a cabeça arrasado, e disse:
— Eles não me deixam andar com dinheiro. Disseram pro hotel não me servir. Botaram um cara pra vigiar a porta. Estou em prisão domiciliar aqui.
Aldo olhou para Cliff, grudou seus olhos nos olhos dele, e implorou:
— Por favor… por favor, rapaz, tô numa pior aqui. Vamos lá, seja camarada. Por favor… por favor… não me faça implorar… porque eu vou.
* * *
Cliff voltou andando até o seu quarto, pegou uma garrafa de gim, fez o caminho de volta pelo corredor com o carpete imundo de massinha de modelar, e entregou-a ao homem do Quarto 104. Aldo Ray pegou a garrafa de gim de seu benfeitor e, segurando-a em suas mãozonas de luva de beisebol, ficou olhando fixamente para ela.
Ele conseguiu uma garrafa.
Ele vai ficar bem essa noite.
Ele vai beber a coisa toda.
E isso vai começar num segundo.
Aldo tirou os olhos da garrafa e se voltou para Cliff. Depois, voltou a olhar para a garrafa de gim. Depois, novamente para Cliff. Seus olhos se apertaram, e ele perguntou:
— Você está de peruca?
Foi então que Cliff se lembrou que ainda estava usando a peruca do personagem de Rick, de mais cedo.
— Ah, é, eu esqueci que ainda estava com isso.
Ele tirou a peruca de sua cabeça, revelando para Aldo seus cabelos loiros pela primeira vez. Cliff Booth acenou para o grandalhão e disse, antes de dar o fora:
— Tenha uma boa noite, Aldo.
Aldo Ray olhou de volta para a garrafa em sua mão e disse para o sujeito no rótulo do Beefeater:
— Eu terei.
* * *
Depois de matar a garrafa de gim de Cliff, Aldo não teve condições de trabalhar no dia seguinte, e foi colocado no primeiro voo de volta para casa. Os produtores espanhóis tentaram descobrir quem havia dado bebida a Ray de todas as maneiras possíveis, mas, para a sorte de Cliff, jamais conseguiram. Cliff ficou tão nervoso que nunca contou aquilo nem mesmo para Rick. Quer dizer, só dois anos depois.
— Você fez o quê? — perguntou Rick, e então se pôs a explicar: — Cliff, quando eles te dão o teu cartão lá na porra do sindicato, eles te explicam as três regras: um, eles se comprometem a melhorar a sua carreira. Dois, não faça nenhum filme não sindicalizado. E três, se você fizer um filme com o Aldo Ray, não dê bebida a ele, sob nenhuma circunstância.
Se Cliff pudesse fazer tudo de novo… ele faria exatamente a mesma coisa.