Era Uma Vez em Hollywood
Capítulo Dez: Infelicidade
Capítulo Dez
Infelicidade
No momento em que atirou em sua esposa com o arpão, Cliff soube que aquilo não tinha sido uma boa ideia.
O golpe a atingiu pouco abaixo do umbigo, rasgando-a ao meio, e suas duas metades caíram no convés do barco fazendo um barulho molhado. Cliff Booth odiava aquela mulher havia tanto tempo que pareciam ser anos, mas, no momento em que a viu partida ao meio, e suas metades separadas jogadas pelo convés do seu barco, os anos de má vontade e ressentimento evaporaram num segundo. Ele correu até ela, pegou-a no colo, juntou as duas partes de seu torso, e começou a fazer declarações de profundo remorso e arrependimento.
Ele a segurou desse jeito e a manteve viva por sete horas. Não se arriscou a sair de perto dela sequer por um minuto para ligar para a Guarda-Costeira, por medo de que ela morresse se ele deixasse de aplicar pressão. Então, durante sete horas, Cliff a abraçou com força, em seu colo, acalmando-a, mantendo-a viva. Se não tivesse sido ele mesmo a pessoa que havia atirado nela, aquele teria sido um esforço heroico.
No convés ensanguentado do barco que ele havia batizado em homenagem a ela (Barco da Billie), em meio às entranhas, sangue e intestinos que escapavam do corpo de Billie Booth, o marido e sua esposa à beira da morte tiveram uma conversa de sete horas que jamais haviam tido na vida. Para evitar que ela mergulhasse no caráter extremo de seu dilema, ele a manteve falando.
Sobre o que eles falaram? Sobre a sua história de amor.
Naquelas sete horas, eles recontaram toda a sua vida juntos.
Quando o barco da Guarda-Costeira finalmente se aproximou, em algum ponto da sexta hora, o marido e a esposa se comunicavam com vozezinhas de bebê como dois adolescentes de 14 anos apaixonados em uma colônia de férias. Um tentando superar o outro num jogo de memória dos mais ínfimos detalhes da primeira vez em que se viram, e do primeiro encontro. Quando a Guarda-Costeira veio para levá-la para terra firme, Cliff continuou mantendo juntas as metades de Billie. Enquanto isso, seguia garantindo a ela que tudo ficaria bem.
— Ei, eu não vou te enganar, você vai ficar com uma cicatriz do tamanho do King Kong. Mas vai ficar bem.
Cliff se esforçou tanto para convencer Billie daquilo que, após seis horas acreditando nas frases feitas que dizia, ele acabou convencendo a si mesmo. Então, o pragmático Cliff Booth ficou surpreendentemente surpreso quando, em meio aos esforços para transferir Billie do barco para o cais para aguardar a ambulância… ela morreu.
Enfim.
Na comunidade de dublês na Hollywood dos anos 1960, Cliff Booth era muitíssimo admirado por sua distinta carreira militar e seu status de um dos maiores heróis da Segunda Guerra Mundial. Mas também especulava-se muito, que Cliff Booth havia assassinado a esposa e fugido da cadeia. Ninguém sabia ao certo se ele havia atirado nela de propósito. Pode ter sido apenas um trágico acidente no manuseio do seu equipamento de mergulho, que foi o que Cliff sempre alegou. Mas qualquer um que tivesse presenciado Billie Booth embriagada repreendendo Cliff em público não comprava essa versão. E como muita gente na comunidade de dublês de Hollywood tinha presenciado cenas como essa, as pessoas achavam simplesmente que ele a havia matado.
Cliff chegou a admitir às autoridades que sua esposa havia bebido no dia do acidente. Como as autoridades não conheciam Billie, elas não sabiam o que aquilo queria dizer. Mas os dublês e suas esposas, sim.
Aquilo provavelmente queria dizer que Billie estava sendo agressiva. E provavelmente queria dizer que ela falou alguma coisa que não devia. E provavelmente queria dizer que Cliff perdera a paciência e, em um momento de fraqueza, tomara uma atitude drástica. Uma coisa que, depois de feita, ele não poderia mais desfazer.
* * *
Como Cliff escapou de ser preso? Simples. Sua história era plausível, e não podia ser refutada. Cliff ficou realmente mal pelo que tinha feito com Billie. Mas, por mais arrependimento e remorso que possa ter sentido, jamais lhe passou pela cabeça não tentar escapar de ser preso por homicídio.
Afinal de contas, Cliff sempre fora um sujeito pragmático, do tipo que não chora pelo leite derramado. Embora tenha levado a questão toda muito a sério, ele também a encarou de um ponto de vista prático. Ele não queria passar vinte anos na cadeia; Cliff poderia punir a si mesmo da maneira adequada pelo seu momento de imprudência. Afinal de contas, ele não era um criminoso. Não era como se ele tivesse planejado a morte dela. O que aconteceu foi praticamente o acidente que ele alegou ter acontecido. Quando seu dedo puxou o gatilho, tinha sido uma decisão consciente?
Não exatamente.
Em primeiro lugar, era um gatilho sensível. Em segundo, foi mais instinto do que decisão. Terceiro, o gatilho foi mesmo puxado, ou foi apenas um espasmo no dedo? Quarto, ninguém ia sentir falta da Billie Booth. Ela era uma tremenda de uma filha da puta. Ela merecia ser cortada ao meio? Talvez não. Mas a ausência de Billie Booth neste planeta não altera a vida em absolutamente nada, para dizer o mínimo. Para falar a verdade, sua única irmã, Natalie, ficou chateada, mas ela era ainda mais filha da puta do que Billie. E Natalie só ficou chateada de verdade por um tempinho. Cliff, então, carregou sua culpa, seu remorso, e prometeu ser uma pessoa melhor dali por diante. O que mais a sociedade queria? O incontável número de soldados americanos que ele havia salvado matando japas, com certeza, compensava a morte de uma Billie Booth.
* * *
Além disso, as agências de combate ao crime que investigaram o caso não estavam tão cientes assim das tendências violentas de Ciff Booth quanto a comunidade de dublês de Hollywood. A história de Cliff sobre um trágico acidente no manuseio do seu equipamento de mergulho era muito plausível.
Além disso, no fim das contas, provar exatamente o que aconteceu entre duas pessoas sozinhas, em um barco, no meio do oceano, não era lá muito fácil. As autoridades precisavam provar que as coisas não aconteceram do jeito que Cliff disse que aconteceram. Então, sustentada por uma história que não poderia ser refutada, a morte de Billie Booth foi classificada como um infortúnio.
* * *
E, daquele dia em diante, Cliff se tornou o homem com a pior reputação em qualquer set de Hollywood em que pisasse. Porque não importava em que set ele pisasse, ele sempre seria o único homem naquele set que todos sabiam que havia escapado de ser preso por homicídio.